Notas iniciais
Oi, amigos leitores! Como vão? Tudo em paz? Espero de coração que a resposta seja positiva. Bom, eu vos trago mais um capítulo. Tomara que gostem. Boa leitura! OBS.: Obrigada, amiga querida, Estrela de Rubi, autora de Vítima do amor.

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Depois de anunciar a sua determinação de abortar o neném que agora sabe estar formando-se em seu ventre, Louise mostra à amiga o papel referente ao resultado do teste comprovador de gravidez que lhe foi entregue no laboratório em que fez este exame. Lavínia estuda os dados contidos no impresso e constata a gestação que se principia.

— Lou, por favor, amiga, reflita um po-pouco mais... Não queira tomar uma decisão importante como essa no calor da emoção... — começa a expor algum argumento, atribuindo o máximo de calma na voz.

A insensibilidade de Louise dá lugar para a completa agitação.

— O que há mais para refletir? Como eu posso levar adiante essa gravidez, se não há nada certo em minha vida agora? Eu não quero e não posso ser mãe... porque eu sou só uma estudante, que mora numa república, que se sustenta por meio de um emprego mal-remunerado e que namora um homem casado com uma lunática que não quer se separar dele de jeito nenhum... e com quem ele já tem um filho!!! — ejeta a sua visão por demais contraproducente.

— Sim... é verdade, Lou, eu compreendo que você tem muitos motivos para estar aflita, para não querer que isso aconteça agora... mas, olhando pelo lado positivo, eu sei que as coisas podem ser resolvidas de outro modo... O seu namorado te ama e é questão de tempo pra ele se livrar daquela maluca e...

— Você vem me falar de amor justo nesse momento? De que droga de amor você tá falando, Vivi? Por pensar desta forma pateticamente romântica é que eu tive a “brilhante” ideia de transar sem preservativo... de querer mostrar pro Dico o quanto eu gosto dele... Como eu pude ser tão tola, descuidada e irresponsável??? — interrompe o discurso da amiga e se exaspera mais. Em seguida, solta uma risada triste. — Oh, Deus! As informações sobre as inúmeras formas de se prevenir uma gravidez indesejada estão por aí circulando pelo mundo, pra quem quiser ver! E eu sabia do risco, sou uma garota que sempre se julgou muito esperta, mas eu preferi deixar acontecer, experimentar o prazer sem limites... E sabe por que eu fiz isso? Por amor! Mas acontece que amor é uma porcaria que entra no nosso coração só pra nos ferrar!

Por entender que Louise está muito irritada, sem conseguir enxergar nenhuma razão que a faça retroceder em sua ideia de fazer um aborto, Lavínia decide mudar a sua argumentação.

— Ai, nossa! Então está bem, Lou... Você parece decidida e tem a sua razão de estar assim... porém, o correto é que você ao menos fale antes com o Dico, pois eu estou imaginando que ele ainda não sabe, não é? — investiga, olhando diretamente para Louise.

A esperança de Lavínia é que o moreno possa dobrar a namorada, convendendo-a a rever sua atitude, por demais negativa, diante da chance de aproveitar o que a vida lhe trouxe, mesmo que em momento incabível e repleto de transtornos. Porém, o que mais a entristece é que se trata de um pequeno ser vivente que tem a mãe lhe negando amor, desde o começo da sua existência. Para ela, é duro reconhecer esta empatia, esta dor, pois sempre se sentiu assim, carente de amor materno.

— É, ele ainda não sabe mesmo. — Por um instante, Louise mostra-se menos eufórica e fica com um olhar meio vago, tristonho. Contudo, torna a impor uma expressão audaciosa. — Mas ele que tente me impedir pra ver o que acontece! Eu o embrulho num pacote e envio como presente de natal adiantado, direto na casa da esposa maníaca dele!

Desse modo, Louise comprova que Dico precisará de mais do que belas palavras amorosas, dotadas de promessas vãs, para tentar fazê-la repensar a sua determinação, o que talvez não tenha êxito algum.

Lavínia apenas suspira, resignada, e pensa que é melhor não continuar contradizendo-a ou poderá, ao invés de ajudar, atiçar a raiva que a outra está nutrindo dentro de si. Ademais, prefere mesmo apostar no poder de persuasão que o namorado dela sempre demonstrou ter, desde o início do relacionamento.

Quanto a si própria, a loira se dá conta de um fato intrigante. Assim como Louise, ela havia tomado uma decisão e estava disposta a seguir com ela, mas algo que a amiga lhe disse, durante a conversa séria que tiveram, mexeu consigo e a fez reformular a sua determinação. Com efeito, desde que leu a reportagem sobre a falsa acusação de estupro lançada contra seu pai, que a ajudou a cair em si e entender que Henry havia levado adiante a vingança prometida, ela também notou que seria melhor evitar qualquer oportunidade de contato pessoal entre eles. Portanto, antes mesmo de ir à mansão para conversar com seus pais e de aceitar reabrir sua conta bancária para tornar a receber o constante auxílio financeiro, a loira estava firme na ideia de pedir demissão na Dans, − forma abreviada e íntima que todos os funcionários da boate “Dans le bar concert Claude” costumam chamá-la − porém, quando ouviu Louise insinuar que Henry tem poder sobre si para agoniá-la sempre que quiser, incomodou-se muito e depressa deixou-se tomar por um novo pensamento. Agora permanecerá trabalhando no local que ele tem frequentado com insistência apenas para vê-la, por mais tempo, para mostrar a ele e a si mesma que é capaz, sim, de enfrentá-lo, de provar que é mais forte que esse desejo doente, que essa atração pervertida que a domina e atormenta toda vez que ele se aproxima, que a olha ou toca com o propósito de coagi-la, de impor a sua presença audaciosa, cheia de malícia e hedonismo, sem dar a mínima ao fato de serem irmãos biológicos. E ela decerto não quer mais sentir-se miseravelmente afrontada pelo seu modo impetuoso de agir não deixando-a esquecer o que houve entre eles, no período em que a manteve presa, quando ainda era inocente e nem sonhava a dor maior que ele a faria sentir, além da que já experimentava por ter-se apresentado logo como inimigo do seu pai.

Em vista disso, após alguns minutos, Lavínia vai arrumar-se para ir à boate, como o habitual.

[...]

Horas antes...

O momento de almoço na casa da família Venâncio é sempre recheado de conversas agradáveis, sorrisos sinceros e de celebração do afeto que sentem uns pelos outros. Entretanto, hoje o clima está um pouco diferente, tanto o senhor Augusto como a dona Helen parecem mais quietos, pensativos, e Dayse prontamente identifica esta alteração de humor deles.

— Será que eu vou ter que adivinhar o que está acontecendo ou vocês irão me falar? — Ela quebra o silêncio, franzindo o cenho, olhando para os dois, que estão frente a si na mesa, depois de dar por encerrada a sua refeição e tomar seu suco natural de abacaxi.

Os idosos se entreolham, respiram fundo e optam por anunciar para a filha a importante decisão que tomaram recentemente, mas que já estava em suas mentes há alguns anos, apenas aguardando a ocasião propícia para se concretizar.

— Tem razão, melhor nós contarmos logo pra você o que está acontecendo... Filha, eu e sua mãe queremos voltar para o nosso povoado. — O senhor Augusto diz, recebendo o sorriso tímido e incentivador da sua esposa e, notando o olhar impressionado de Dayse.

— Voltar pra cidadezinha de onde vocês vieram? Por quê? Mas vocês passaram anos morando aqui, na capital, achei que estivessem bem adaptados, que gostassem daqui... Não entendo. — investiga, no entanto, sua voz não demonstra mau humor, apenas curiosidade. De fato, Dayse não está chateada nem tenciona fazê-los mudar de ideia, quer somente compreender os motivos para que seus pais tenham resolvido voltar para a pequena localidade de origem.

— Bom, minha filha, não é que não gostemos daqui, nós gostamos... Mas Arraial do Marisco é o lugar que de fato nos pertence, é lá que está a maior parte dos nossos parentes e amigos mais queridos... Nós estamos com saudade e essa saudade está sempre em nosso coração, desde que saímos de lá, e não vai passar. — Dona Helen afirma demonstrando alguma emoção.

— E eu já estou aposentado, não me sinto mais preso a esta cidade... Além do mais, eu e sua mãe estamos ficando muito velhos, nós desejamos aproveitar o resto das nossas vidas onde de fato nos sentimos felizes, em paz, num lar... Você entende agora, minha filha? — Ele pergunta, um tanto receoso.

— Sim, entendo perfeitamente. — Dayse anui, seu olhar fica reflexivo.

— Mas... Dayse, nós analisamos muito a situação e compreendemos que você tem uma vida inteira para ser vivida aqui, tem o seu trabalho na lanchonete e na ONG, tem seus amigos e... Enfim, nós sabemos que seria injusto pedir pra você largar tudo e ir conosco, por isso, nós vamos dar essa casa a você para que possa morar nela pelo tempo que quiser. Assim, a partir de agora, além do carro, esta casa também é sua. — Ele divulga, ainda com receio de que sua filha fique amargurada ou exasperada.

Contudo, Dayse está na verdade apenas bem atenta a cada palavra dita.

— Digam-me uma coisa... Quando vocês me ofereceram o carro, já estavam pensando nessa mudança? Foi por isso que me deram ele? — expecula.

— Sim. — confessa o senhor Augusto, sucinto.

— Oh, filha, desculpe-nos por não termos falado disso antes, é que não foi nada fácil tomar essa decisão. Sentiremos tanto a sua falta e sabemos que, depois que nós formos, só nos veremos às vezes, quando você for nos visitar ou quando nós viermos passar uns dias. Nós nunca estivemos distantes assim... vai ser muito difícil. — Dona Helen começa a querer chorar e se põe a avaliar se conseguirá separar-se de Dayse para obter a alegria de retornar à sua antiga morada e aplacar também a saudade que tem das suas irmãs, primos, sobrinhos, etc.

Dayse ergue-se da cadeira, dá uns poucos passos e se volta novamente para os pais, olhando-os com um riso preso nos lábios e uma expressão firme, segura.

— Não precisa pedir desculpa, mãe, e nem ficar triste, pois não ficaremos distantes coisíssima nenhuma... Eu irei com vocês. — apregoa naturalmente e isso deixa seus pais embasbacados de tão surpresos.

— Dayse... tem certeza, filha? Mas... — Mesmo contente demais com a possibilidade de continurem sempre pertinho da filha amada, o senhor Augusto fica confuso, porque tem consciência de que o ritmo de vida da pequena cidade praiana é bem diferente do da cidade grande.

— Tenho, sim... Vou pedir demissão na lanchonete e sei que a Sóis do amanhã não terá problemas para encontrar alguém que me substitua nas aulas de violão... — Dayse puxa ar para os pulmões, com ar de determinada. — Não se preocupem, sei que posso me estabelecer profissionalmente no Arraial do Marisco também... Quanto à minha vida pessoal, ela está uma verdadeira bagunça mesmo... Então, eu sinto que preciso recomeçar... Será melhor assim, ir para outro lugar, criar raízes e chances para uma vida nova.

— Sendo assim, fico muito feliz, muito mesmo! — Ele festeja.

— Oh, Deus! Continuaremos todos juntos... Que bom, minha filha! — Dona Helen passa a chorar, sentindo-se grata e sortuda.

— Eu também estou feliz, podem acreditar... Só preciso me acostumar um pouco mais com a ideia da mudança... — revela, sincera. — Quando iremos?

— Bem... não há muito o que resolver para nos mudarmos sem deixar nada pendente. Assim, em no máximo uma semana, estaremos com as malas feitas e seguindo rumo a nossa outra casa. — garante. Ele se refere ao fato de que, quando saíram de Arraial do Marisco, deixaram a casa que ganharam como presente de casamento dos seus respectivos pais, que se uniram para lhes ofertar esta prenda. A casa não foi vendida e, sim, posta a aluguel por todos estes anos em que estiveram longe. Hoje em dia, eles sentem que tomaram a atitude certa não se desfazendo do imóvel, como chegaram a pensar em diversas ocasiões, pois agora poderão aproveitar cada momento que lhes resta neste lar tão querido.

— Ok... Será o suficiente para mim também. — Dayse arremata.

Na mente dela, no entanto, a brusca circunstância a está ajudando a bolar um plano que será, na realidade, um tipo diferente de revanche contra sua ex-namorada, a gêmea abusada. “Quando estiver faltando somente um dia para irmos embora, eu vou dar a resposta que o Chris exigiu. Só lamento que, por causa disso, a Aline irá comprar gato por lebre... Pobrezinha! ”, completa internamente e contrai os lábios num sorriso mordaz, mas este traço de bizarrice não é captado pelos seus pais, que agora estão exultantes, plenos de alegria e emoção. Contudo, ao recordar-se de Manu, o coração de Dayse hesita, falha um pouco, sobretudo, porque sabe que a conversa que irão ter quando surgir a ocasião propícia, será difícil, dolorosa, triste mesmo, mas infelizmente necessária e inevitável também.

As horas se sucedem e não demora para Dayse estar outra vez na lanchonete, buscando ocultar seus sentimentos controversos, apesar do tremor de suas mãos, enquanto atende aos pedidos de lanches dos clientes e a cada segundo que olha para a ruiva, compreendendo que logo tornarão a ser como simples conhecidas, amigas afastadas e ex-amantes. No momento da saída, Manu aceita a carona que Dayse lhe oferece, mas fica bastante surpresa quando, ao chegarem à frente da república, ela estaciona o veículo e, antes que pense em sair do carro, anuncia que precisam ter uma conversa. Então Manu libera um sorriso nervoso, pois entende que há algo errado.

— Nossa! Essa frase “precisamos ter uma conversa” nunca vem acompanhada de coisa boa. Mas, pra ser sincera, eu também acho que precisamos conversar mesmo... Eu tenho que te confessar algo que aconteceu há dois dias... porque não vou me sentir bem escondendo isso. — Os olhos de Manu fogem e ela morde os próprios lábios, enquanto retira o cinto de segurança e tenta reunir a coragem necessária.

Dayse está igualmente tensa, porém, conseguindo disfarçar um pouco melhor.

— Pois então fale primeiro você... O que tem pra confessar? — Dayse imita a sua ação, retirando o cinto e se voltando plenamente para ela.

— Dayse... eu e a Vicky, nós tivemos uma recaída... Ah, droga! O que estou dizendo é que eu fraquejei, nós acabamos transando... e agora eu tô confusa, com remorso, me sentindo uma pessoa horrível, porque o deslize foi meu, eu fui infiel a você.

Como resposta imediata, Dayse fica com os olhos lacrimosos, mas, contradizendo sua tristeza, ela sorri, compreensiva, ao passo que toma as mãos frias e agitadas da ruiva entre as suas e as aperta com doçura, para interromper a sua fala e lhe mostrar que não está com raiva.

— Sabe o que mais eu amo em você, Manu? — pergunta, observando a expressão agora pasmada da ruiva perante esta postura terna, comovida e incoerente ao que foi revelado. — Você é maravilhosamente óbvia, como água cristalina... Desde o início, eu soube que o seu coração já estava ocupado, que as chances de eu te conquistar de verdade eram quase nulas, mas eu quis tentar, eu quis acreditar nessa ilusão... e eu não me arrependo de nada, faria tudo de novo... — Dayse ergue uma das mãos e a pousa sobre a lateral do rosto lívido de Manu, fazendo uma singela carícia, enquanto se permite chorar um pouco. — Porque, nesse curto espaço de tempo, você fez valer a pena cada momento e é por isso que eu vou guardar em mim tudo o que vivemos... para sempre.

— Por que tá falando assim... no passado? — investiga a ruiva, já pressentindo a resposta que ouvirá.

— Porque não posso mais continuar me iludindo... não dá mais...

De repente, Manu afasta o rosto da mão de Dayse e, parecendo aborrecida, abre a porta do carro, sai, fecha-a novamente e cruza os braços, recostando-se nela e olhando para qualquer canto do chão adiante de si.

Dayse imita-lhe o gesto, dá a volta no veículo e vai postar-se outra vez perto dela.

— Então é isso... Você desistiu de mim, não quer mais tentar. — Manu lança as acusações, sem querer levantar a vista para lhe olhar.

— Manu... não é bem assim como você está pensando, eu não desisti simplesmente, eu só me dei conta de que nós duas nunca seremos mais do que já somos nesse momento... porque a paixão não precisa esperar por nada, ela apenas acontece... ou não. — volta a buscar contato visual, colocando a mão em seu queixo e lhe fazendo erguer os olhos para si. — Eu me apaixonei por você, mas você pode sinceramente dizer o mesmo?

Os olhos inquisidores de Dayse fazem Manu ficar aturdida, hesitante.

— Errr... Eu... — As palavras morrem na garganta da ruiva e ela não consegue responder.

Dayse retira a mão do rosto de Manu e torna abrir um sorriso doce e triste ao mesmo tempo.

— É disso que eu tô falando, Manu... Você e eu já demos o que tínhamos que dar... Nós tivemos os nossos momentos de curtição, de sedução, e tudo foi muito delicioso enquanto durou... Agora não dá mais, eu preciso seguir o meu rumo e você o seu. — Dayse afirma, com calma e determinação.

— Ok... Eu entendi o que você disse, Dayse... e respeito a sua decisão... Mas se você está terminando comigo pelo que houve, preciso dizer que eu lamento, eu não quis te trair... não fiz isso de propósito. — falando assim, Manu deixa evidente que ainda tem dúvidas de que Dayse não está, na verdade, ressentida por descobrir que foi traída.

— Eu acredito em você, Manu, e eu não estou terminando a nossa relação por que você ficou com a sua ex, não precisamente por isso... Eu decidi isso hoje mais cedo, antes de vir pra lanchonete, em meio a uma conversa importante que tive com meus pais...

— Uma conversa importante com seus pais? Isso eu não entendi... Pode me dizer por que decidiu isso assim de repente e o que isso tem a ver com os seus pais? Até ontem parecia que tudo estava bem entre nós. — descruza os braços e olha para Dayse, mostrando-se ainda confusa e nervosa.

— Meus pais resolveram que irão voltar a morar na pequena cidade em que viviam antes, onde eles nasceram e cresceram, onde está a maioria dos nossos familiares... e eu vou com eles... — Dayse mais uma vez percebe a cara de espanto que Manu faz e puxa o ar aos pulmões. — É isso aí, Manu, eu vou embora... vou recomeçar minha vida em outro lugar, porque sinto que é o que devo fazer.

— Caramba! Dayse... por isso que você hoje tava muito séria e quase não abriu a boca... — A ruiva desencosta-se do carro e se põe à testa de Dayse, encarando-a e se lembrando de ter observado este traço diferente no comportamento dela. — Quando vocês vão? E o seu trabalho na lanchonete? Vai mesmo abandonar a sua vida aqui e ir pro interior?

— Sim, eu vou, Manu... É como eu disse, eu sinto que preciso ir. Nós iremos em alguns dias, será tempo suficiente para acertar as coisas por aqui e, quanto à lanchonete, eu conversei com o senhor Raul, foi antes de você chegar... e eu já pedi a minha demissão. — Outro sorriso triste surge em sua face lacrimosa. — Ele foi muito tolerante, disse que me pagará o que ainda me deve e me dispensou do aviso prévio... Sendo assim, hoje foi meu último dia de trabalho lá.

— Ah, que merda! Então isso é mesmo uma despedida? — Manu vira o rosto, agastada, com vontade de chorar também, mas tentando não ceder de vez ao clima melancólico. — Eu não vou mais te ver?

— Infelizmente é uma despedida, sim, você sabe que é o melhor a ser feito... — Dayse pausa ao ver que Manu não está mais conseguindo disfarçar a emoção, pois igualmente há lágrimas escapando de seus olhos. — Oh, Manu... Por favor, entenda que isso é muito difícil pra mim também, mas não precisamos ficar tão tristes, não é? Afinal, o mundo é pequeno demais, querida. É claro que poderemos nos reencontrar numa outra ocasião... e eu espero que, nesse dia, você me conte que está satisfeita com sua vida, com as escolhas que tem feito e que ao seu lado há alguém que você ama de verdade.

— Me desculpa, Dayse... por eu não ter conseguido te corresponder como você merecia. Eu juro que tentei... Você é a garota mais simpática, gentil e obstinada que eu já conheci. Também desejo que você seja feliz e que encontre a pessoa certa, que te mostre o amor pleno, sem reservas, sem dúvidas. — Manu declara, com voz chorosa e honesta.

Elas se entreolham e notam o quão emocionadas estão, com seus rostos banhados de lágrimas.

— Pode me fazer um último favor, Manu? — pede e vê a ruiva acenar positivamente. — Não quero lembrar de você assim, chorando... Será que pode sorrir pra mim mais uma vez?

— Ao fazer o pedido, a própria Dayse sorri para incentivar a ruiva.

— Mil vezes merda! Quem disse que eu tô chorando? — Ela seca os olhos e força os lábios a abrirem o melhor sorriso que consegue. Em seguida, sente-se ser puxada pela outra, que a abraça com força.

— Seja feliz, ruivinha linda. — cochicha ao seu ouvido, mantendo-a presa a si.

— Você também, Dayse. — Manu responde do mesmo modo.

Elas finalizam o abraço e a ruiva permanece em pé, tendo o portão de ferro cinza ainda fechado atrás de si, ao passo que assiste quando Dayse entra no veículo, dá a partida no motor e segue para longe de si, definitivamente. Ela enxuga outra vez o rosto, respira fundo e cria ânimo para entrar na república, torcendo que Vicky não perceba nada e nem queira explicações que neste momento não consegue dar, afinal de contas, é a segunda vez que se sente abandonada.

[...]

Notas finais
Desta vez, não vou dizer quase nada, ok. Apenas imagino que a decisão de Louise seja mesmo bem radical e é provável que o Dico vá ter uma imensa dor de cabeça nas próximas cenas. Quanto a Dayse, adoraria saber que opinião vocês têm sobre esta mudança de cidade, para o interior praiano de Arraial do Marisco (cidadezinha de origem dos pais dela) e sobre o fato de ela ter resolvido terminar seu romance com a ruiva, Manu. *** Vou indicar a fic nova de um amigo meu, o Will Sebert, pois ele é um autor ousado e criativo e sei que muitos de vocês podem apreciar a sua forma autêntica de narrar. Recomendo que leiam "1996", uma coletânea de Oneshots super interessantes, instigantes e que vão lhes proporcionar momentos no mínimo curiosos. Leiam!!! A seguir há o link da narrativa: https://fanfiction.com.br/historia/638444/1996/ *** Fiquem bem! Beijos!