[HIATUS] Mudanças impuras
51 No cair da chuva (parte 2)
Notas iniciais
Na faculdade, quando chegam ao fim as aulas vespertinas de Dico e de Louise, como sempre, os dois se encontram. No entanto, Louise recusa-se a ir para o quiosque-lanchonete que têm o hábito de frequentar. Ao invés de querer unir-se aos amigos em comum, como Jonas, Pâmela e Pietro — desacompanhado de Lavínia — que provavelmente estão sentados na parte em que há uma coberta para abrigá-los do chuvisco, esperando-os, ela o convida para irem a um motel. Dico logo aceita, apesar de perceber algo inusitado, não muito agradável, no comportamento meio tristonho e calado dela. Todavia, supõe que tem relação com os recentes problemas enfrentados pela sua melhor amiga, Lavínia. Por isto, ele imagina que é bom eles terem esse momento a sós de descontração e prazer. Por outro lado, igualmente desconfia quando Louise anuncia que não irá passar em sua república antes para tomar banho, trocar a roupa ou por qualquer motivo, o que ela sempre fez em todas as vezes que eles combinaram de ir a um motel.
Após ocuparem o quarto escolhido, o moreno achega-se à namorada querendo abraçá-la e beijá-la, mas Louise põe a mão sobre o peito dele e o empurra com alguma brusquidão.
— Não, Dico! Espera...
— O que foi, anjo? — inquire de forma carinhosa, porém, ao enxergar a sua expressão completamente fechada, ele fica mais desconfiado. — O que nós viemos fazer num motel se não foi pra namorar?
— Viemos conversar... Eu não consegui imaginar um local melhor pra falar o que eu preciso te dizer.
A maneira áspera de Louise faz Dico finalmente compreender que ela não está assim somente em razão de problemas alheios. Deste modo, ele também fica sério.
— Está certo... Já estamos aqui, pode falar. — cruza os braços e solicita, com voz denotando preocupação, os olhos sem se desviarem dela.
Louise não pronuncia qualquer palavra de imediato, somente retira a bolsa do ombro, coloca-a sobre a cama, abre-a e de dentro dela apanha um papel dobrado que, em seguida, mostra para ele, esticando o braço com o impresso em sua mão.
— O que é isso? — Ele descruza os braços e apanha o papel que ela lhe entrega. Está nitidamente nervoso porque sente o clima sobrecarregado que acaba de se instalar no quarto, entre eles.
— Leia. — ordena com voz inalterada.
Ele desdobra o papel, inicia a leitura. À medida que esta avança, seus olhos vão arregalando-se e a boca também, até que, enfim, torna a olhá-la.
— Louise... Você tá gravida! — divulga, chocado, mas a seguir traceja um sorriso, num deleite quase infantil. — Oh, céus! Nós vamos ter um filho!
— Não, não vamos. — replica grosseiramente.
— Como não? É isso o que está escrito aqui nesse exame... A não ser que... — De repente, estagna e lança sobre Louise olhos suspeitos. — Louise, o que você fez? Você... Você fez um aborto?
— Ainda não, mas é exatamente isso o que eu vou fazer. — noticia com indiferença. — É claro que eu achei justo te contar antes.
— Ah... Obrigado por pensar em mim! Quanta gentileza! E eu suponho que também ache que é justo me falar sobre a decisão que você tomou sozinha? — questiona de forma irônica, sentindo o sangue esquentar e subir por seu corpo, devido à raiva que começa a dominá-lo.
Louise passa as mãos pelos cabelos curtos, senta-se na cama e respira pesadamente algumas vezes, dando a entender que este assunto é enfadonho e que a cara de ofendido que ele está fazendo é algo exagerada, caricaturesca.
— Sim, eu acho... E só tô te contanto isso para que você analise a situação e entenda, assim como eu entendi, que é o mais certo a se fazer. Eu não estou em condições de levar essa gravidez adiante e você não tem o direito de me cobrar nada, porque é casado e já tem um filho com a sua esposa! — acusa, impiedosa.
— Por que tá falando assim, Louise? Você sabe dos meus planos, sabe que eu vou me separar oficialmente da Míriam... porque é com você que eu quero ficar! É com você que eu quero formar uma família! — Ele também respira fundo para conter um pouco a agitação. — Bem... Por outro lado, eu compreendo que você tem razão de estar confusa, contrariada, surpresa... Por Deus! Eu também estou! É lógico que eu não imaginei que as coisas aconteceriam assim tão rápido... mas nós podemos lidar com isso juntos, com calma... Vai ficar tudo bem!
Ele alude outra intervenção afetuosa, querendo apaziguar os ânimos, ao agachar-se para tentar abraçá-la novamente.
— Não, Dico, me solta, não tô afim... — De novo, recusa-o, evidenciando sua atitude negativa. — E sinceramente... eu não tô mais preocupada se você vai se separar da sua esposa ou não. Eu estive pensando e cheguei à conclusão que talvez seja melhor não continuarmos, a nossa relação está fadada ao fracasso... E, sendo mais sincera ainda, eu acho que a minha vida era bem melhor quando... quando...
— Quando você vivia de forma promíscua transando com qualquer homem que te desse um sorriso, sem se prender a nenhum? — completa o enunciado dela, pondo-se de pé outra vez e lançando a questão com voz cheia de sarcasmo e raiva.
— Isso mesmo! — Ela também se ergue e o arrosta, forçando uma expressão ferina. — Era sexo e nada mais, tudo parecia bom e descomplicado... não havia compromissos ou sentimentos pra atrapalhar, só prazer... Eu precisava somente de alguém pra me fazer gozar de vez em quando e dava o mesmo em troca... Todo mundo saía ganhando...
— Eu não quero ouvir isso, Louise! Eu não quero!!! — ejeta a sua indignação aos berros interpelando-a.
— Eu sinto muito, Dico, mas é verdade... Eu acho que você tá investindo na pessoa errada. Eu não sou quem você espera que eu seja! Então vamos só parar por aqui, antes que a gente se magoe mais... — desvia os olhos por um instante, mas torna a colocá-los sobre ele. — Quanto à gravidez, eu não tô preparada pra isso agora... e não sei se algum dia eu estarei.
De repente, Dico parece muito silencioso, porém, numa mudez sinistra. Ele dá um passo à frente e fica cara a cara com Louise, observando-a detidamente. Sua expressão é das piores, está muito decepcionado.
— E eu achando que você estava mudando, conseguindo superar esse vício, que não é mais que o reflexo dos seus traumas incurados. — abre um sorriso melancólico. — Mas eu errei feio, você voltou a erguer a sua “barreira particular”... Está bancando a garota ninfomaníaca de novo, tudo pra fugir do que te assusta... Isso é ridículo, porque é falso, eu sei que é. Na realidade, você está com medo, Louise, com medo do desconhecido... e o seu medo é tão grande que você prefere arruinar tudo antes de descobrir que pode, sim, dar certo.
— Não me venha com propaganda apelativa, Dico... até porque eu não entendi uma única palavra do que você disse. — faz-se de desentendida, cruza os braços e desvia seus olhos.
— Não? Pois eu vou ser mais claro pra ver se você entende. — Ele a avalia por uns segundos, antes de despejar a sua reflexão. — Quer terminar o nosso namoro? Tudo bem, termine! Mas quanto ao aborto, eu imponho só uma condição... Eu quero que você crie ao menos um pouco de coragem pra ir visitar a sua família, quero que olhe bem nos olhos do seu pai, da sua mãe e do seu irmão e diga a eles que você é uma pessoa traumatizada, com sérios distúrbios emocionais, que é assim por causa da relação mal resolvida que tem com eles. Quero que você assuma que é incapaz de reconhecer e aceitar a própria felicidade, mesmo que ela esteja a um palmo do seu nariz e é por isso que você vai se livrar do filho que está esperando! — expõe a avaliação que faz, a partir do que a própria namorada lhe revelou sobre a convivência quase inexistente e deplorável que ela sempre teve com a sua família, e Louise suporta a agressão verbal calada, com os braços em cruz escorados ao próprio corpo e uma expressão simuladamente apática, porém, com os olhos presos em algum ponto da parede à sua frente.
Mas, não suportando mais vê-la mostrando-se tão fria, Dico dá-lhe as costas e anda rumo à saída do quarto.
— Quando quiser ir embora, vou estar no carro. — gira o trinco, abre a porta e se retira.
Ao se achar sozinha, Louise libera o ar que estava preso e, embora ainda relute para se manter forte e segura de si, lágrimas fogem de seus olhos sem o seu consentimento, enquanto experimenta o corpo tremular. E ela sabe que não poderá sair dali até que consiga exibir o mesmo comportamento duro e insensível de segundos atrás.
Do lado de fora, Dico, sentado ao volante, desconta a sua fúria praguejando e socando esta parte do automóvel com toda a força até se dar conta de que está chorando copiosa e sofridamente, por se sentir inútil, incapaz de salvar o seu relacionamento com Louise, de salvar o que agora lhe parece o mais importante, a vida do filho que eles poderiam ter.
[...]
Lavínia passa as mãos por seus cabelos longos, loiros e soltos, depois repuxa a lapela do casaco feminino para o alto ajustando-o, pois tal vestimenta, que está por cima da sua farda, agora serve para agasalhar o seu corpo da friagem. Olha para cima vendo o céu da madrugada coberto por nuvens escuras, das quais vertem uma imensidão de gotículas d’água, engrossando o chuvisco que cai sem dar trégua desde o começo desta tarde, e que se faz mais evidente à luz do grande poste adiante de si. Encontra-se debaixo de uma marquise, na esquina da boate, suspirando, enfastiada, pois não vê o táxi do senhor que já reconhece também como amigo, Bebeto, para levá-la de volta para casa. Aliás, não há quase alma viva no local, tudo o que ela enxerga são os carros estacionados dos clientes que ainda se acham do lado interno da Dans, um casal — um rapaz e uma moça — recostados na parede, beijando-se, e dois homens conversando. Todos os quatro estão perto do imenso letreiro horizontal luminoso inerente à entrada da casa noturna. E, assim como ela, abrigam-se sob a marquise para não se molharem.
Enquanto experimenta um sopro gélido em seu rosto, Lavínia avista também outros automóveis, desta vez em movimento de ida e vinda, passeando na larga avenida, a poucos metros, jogando pequenos jatos de água para as laterais das rodas velozes, porém, de fato, não vê táxi algum. Enfia a mão na sua bolsa a tiracolo e apanha o celular e, mais uma vez, disca os números pertencentes ao telefone de Bebeto. Põe o aparelho ao ouvido, espera um instante e de novo constata que a chamada permanece caindo na caixa-postal, o que significa que ou o celular dele está descarregado ou desligado. “Cadê você, Bebeto? O que houve?”. Já pesquisa em seus contatos telefônicos, a fim de saber se tem o número de algum outro serviço de táxi. Está tão concentrada mexendo no celular que só se dá conta da aproximação de alguém quando sente uma mão larga rodeando seu braço, obrigando-a a virar-se repentinamente, e escuta a ruidosa voz da pessoa que supôs que não veria nesta noite, como ocorreu na anterior.
— O que diabos você tá fazendo aqui sozinha nessa esquina? Será que não percebe o quanto isso é perigoso? — Henry emite a repreensão, sem se importar em abordá-la de forma tão agressiva porque, ao vê-la exposta à situação de risco, ficou preocupado e imediatamente mandou a cautela às favas.
Lavínia, enfim, libera o ar que ficou retido nos pulmões por conta do susto e sente como se o coração fosse saltar boca a fora, por muito pouco não deixa o celular ir ao chão, tamanho é o abalo. Ainda buscando recompor o fôlego, puxa o braço para que Henry o solte, em seguida, lança olhos perscrutadores para a entrada da boate, espantando-se novamente ao perceber que as pessoas que ali estavam, minutos atrás, não mais estão. Ou seja, ela realmente acabou ficando abandonada àquela esquina, sem notar isto. Todavia, não articula uma única palavra, apenas arremessa o celular de volta à bolsa, fecha o cenho, entrecruza os braços e torna a fixar os olhos na estrada, porém, atenta para o caso de ele querer agarrá-la à força, e rezando que o taxista apareça. Ela entende que, com a presença de Henry frente a si, não teria como pedir outro táxi sem ter uma crise de gagueira nervosa ao telefone e, em absoluto, quer permitir que ele veja o quanto é capaz de perturbá-la. Por isso, impõe depressa uma postura aparentemente inabalável, de quem não dá a mínima para o que ele acaba de dizer e para ele em si.
— Eu tô falando com você... Não vai responder? É assim que vai ser agora? A intenção é me ignorar? — Ele crava os olhos nela e aguarda por uns segundos. — Ok. Faça como quiser, eu só acho que isso não vai dar certo.
Ela se mantém com cara de paisagem, olhando para os automóveis, já nem liga para o vento forte e gelado, que faz seus cabelos esvoaçarem e somente balança a cabeça algumas vezes, tentando impedir que os fios prateados cubram sua face por inteiro.
A despeito de ter-se alterado um pouco, Henry sente um grande alívio e se permite relaxar um instante admirando-lhe os traços bonitos, feliz por estar com ela agora, mesmo que continue com sua postura indócil, rejeitando-o claramente, porque quase acreditou que não daria mais tempo de encontrá-la na boate, uma vez que se atrasou muito além do previsto. Com efeito, ele foi pego por um compromisso inadiável que estava marcado para esta noite e não se lembrava, um coquetel, que é na verdade um evento anual festivo promovido por uma companhia que atua em área de marketing semelhante à sua, da qual é sócio e depende para alavancar ainda mais a sua empresa. Assim, ao sair da Sorelle’s, não pôde seguir para a Dans le bar concert Claude, como gostaria, passou no seu apartamento, banhou-se, vestiu-se com o esmero necessário — terno e calças de tecido acinzentado, gravata cinza também, com listras pretas diagonais, camisa e sapatos, ambos igualmente escuros — e foi à festa privativa. Inusitadamente, compareceu sem levar consigo uma bela mulher como acompanhante para ornar ainda mais o seu charme de namorador irremediável, deixando nos seus colegas e nos conhecidos alguma sensação de estranheza, sobretudo porque se mostrou pouco a vontade e interagiu menos que o habitual. E quando entendeu que já se manteve na festa a tempo suficiente para cumprir com sua agenda-extra protocolar, não se fez de rogado e partiu, despedindo-se somente dos companheiros mais chegados. Correu pelas ruas molhadas na sua mini van sem pensar em nada além de Lavínia, louco para matar a saudade de vê-la pessoalmente, sentir o odor único que exala da sua pele clara e sensível, deliciar-se com o timbre aveludado da sua voz, mesmo quando gagueja de nervoso, mergulhar nos seus olhos cor de violeta, que o consomem, atormentam, sem perceber, e o punem forçando-o a questionar-se por que não consegue parar de desejá-la sempre e mais. No entanto, ainda vendo-a muda como uma porta, busca o isqueiro e um cigarro do bolso do terno, acende-o, devolve o isqueiro e passa a fumar, sempre observando-a com muita atenção.
— Eu assisti à última entrevista que o seu pai deu, no canal cinquenta e dois... — solta o ar esfumaçado para o alto e quebra o silêncio, entrando no assunto sobre a reportagem feita na mansão do velho empresário e na qual a esposa dele e ela estavam presentes ao seu lado, apoiando-o. — Que ceninha mais patética! Confesso que até senti náuseas ao ver tanto drama, tanta falsidade.
Lavínia luta para esconder seu incômodo, por isso respira fundo e conserva a cara de indiferença. De todo modo, resolve fazer o que deveria ter feito desde o instante em que saiu da boate e não avistou o táxi do seu amigo, ou seja, voltar a abrigar-se dentro da casa noturna e buscar um novo serviço a fim de poder retornar para casa. Deliberado desta forma, ela descruza os braços e move o corpo para sair de perto dele. Porém, como estão abaixo da marquise estreita que os está refugiando da garoa e Henry encontra-se de frente para si, mas ocupando boa parte do espaço que não recebe os pingos d’água, vê-se sem alternativa, a não ser ir para o meio da chuva a fim de contornar a silhueta dele, voltar à proteção da marquise e ir para a entrada da boate.
Dá um passo, depois outro... Ainda chega a sentir uns pingos gélidos acertando o seu rosto, forçando-a a piscar algumas vezes, até que escuta de novo a voz grave e cheia de sarcasmo, que lhe envia uma questão absurda para lhe tirar o juízo dos trilhos corretos:
— Está mesmo do lado daquele covarde traidor? — Nem bem Henry conclui sua pergunta e sente a bofetada violenta atingindo-o na face esquerda, fazendo com que o cigarro voe para longe, indo cair numa mínima poça de água que se formou no piso.
— Desgraçado!!! Cínico!!! Não se atreva a insultar o-o meu pai! Você sabe muito bem que eu sei que é você o culpado por tudo isso... que foi você, junto com aquela va-vagabunda interesseira, que armou esse escândalo tosco!!! Eu vi vocês dois ju-juntos aqui na Dans e é claro que isso bastou pra eu entender o seu plano maldito!!! — Ela ejeta a sua fúria incontida, voltando para o lugar de onde se retirou, vendo a metade vermelha do rosto de Henry, admirando-se com o próprio arrojo e, ao mesmo tempo, recriminando-se por ter sucumbido à provocação. Isto porque sabe que terá que suportar a consequência deste ato irrefletido, pois, se ele não estava pensando em deixá-la em paz antes, que dirá agora que ela lhe deu motivos para continuar atormentando-a com a sua arenga e assédio sem fim.
Henry passa a mão no rosto atingido, enquanto seus olhos adquirem um brilho mais aguçado.
— É interessante te ouvir falar assim com tanta certeza que eu tenho culpa do que está acontecendo, porque eu não recebi nenhuma ligação dos advogados do seu pai, não fui convidado a comparecer numa delegacia, muito menos intimado a depor ou me manifestar de qualquer forma sobre o caso do suposto estupro cometido por ele... Ao que me consta, eu não tenho absolutamente nada a ver com esse caso. Por que será, hein, Lavínia? — faz uma pausa premeditada, vendo as pupilas delas crescerem junto com a sua inquietação. — Vamos, me responda. Por que, mesmo estando tão certa da minha culpa, você não me denunciou? Por quê?
Lavínia afasta os olhos dele por uns segundos, puxa o ar para os pulmões diversas vezes e, quando volta a encará-lo, parece estar um pouco mais segura da réplica que deve dar-lhe.
— Eu não sou igual a você, seu cretino! Eu não me alimento de ódio e di-discórdia... Tudo o que eu quero é paz! Além disso, de uma forma bem estranha, eu tenho até que te agradecer... porque, po-por causa desse caos que você trouxe para a vida do meu pai, nós estamos mais próximos do que nunca... A minha família está muito mais fe-feliz e unida do que antes. — explica, com voz meio entrecortada, porém, não menos firme. Depois, resolve arrematar com uma clara ameaça. — Mas eu te aviso que a mi-minha tolerância chegou ao fim! Eu juro por tudo o que há de mais sa-sagrado que, se você der mais um passo pra pre-prejudicar de novo o meu pai, eu conto o que eu sei... te entrego sem dó... pra ver se você vai continuar com esse sorriso cínico quando estiver preso... pagando pelo crime que cometeu!
Henry não se contém e termina soltando uma risada.
— Desculpa por rir assim, não quis ofender... — súbito, o riso desaparece e dá lugar a uma expressão pensativa. — Mas eu acho engraçado que você realmente acredite que, se abrir a boca e contar o que sabe, eu vá ser punido, ser preso... Isso me faz crer que você não está analisando essa situação muito bem. Deixe-me ajudá-la a enxergar melhor. — pausa novamente, apreciando a bela face com as sobrancelhas erguidas, sinal de que está atenta, mas avessa a qualquer alegação que ele vá usar. — Se você me acusar, nada do que você imagina irá acontecer, eu não serei castigado de forma alguma, ao contrário, serei recompensado...
— Recompensado? Que a-absurdo você tá falando? Isso não tem o menor sentido! — interpela-o e mostra que não dá qualquer crédito à sua argumentação.
— Quer uma prova do que eu falo? Vá em frente, Lavínia, bote a boca no mundo, faça o que tem vontade, me denuncie... Eu vou gostar de sair dos bastidores e fazer parte desse espetáculo. Apenas lamento que o resultado não vá ser o que você espera. — persiste.
Ela começa a sentir o coração descompassar, pois enfim teme que ele não esteja apenas blefando, há muita confiança em sua atitude.
— Po-Por que não? — questiona, receosa.
— Veja bem... Ao saber que estava sendo acusado de estupro, o senhor Gregory Albuquerque, o grande empresário e presidente da Giant Solution, preferiu pagar uma boa quantia em dinheiro para a mulher que o acusou, ao invés de reunir provas para confirmar a sua inocência, o que seria uma tarefa muito simples, levando-se em conta quem ele é... um profissional de qualidade, senhor casado, pai de família com caráter irrecriminável, até o momento em que foi brutalmente afrontado com esse boato maldoso, ou seja, ele estaria num embate com uma ex-participante de um reality show, senhora de uma visibilidade pública bastante duvidosa sobre a sua decência.
— O meu pai só quis se livrar o quanto antes dessa co-confusão... Ele e os advogados decidiram que seria melhor pagar para aquela va-vagabunda e não partir para uma bri-briga judicial, foi isso o que aconteceu. — defende a posição adotada pelo seu pai, mesmo que a pulga atrás da sua orelha comece a coçar.
— Isso é o que você quer acreditar, não é? — estreita o olhar e se incita ao vê-la mostrar-se confusa. — Se ele fez um endinheirado acordo com Isadora Abranches, imagine o que ele faria para não cair outra vez num escândalo maior... Eu te asseguro que ele não usaria nem a ajuda de advogados, aposto que viria pessoalmente ao meu encontro, não para me confrontar, ameaçar ou me jogar a sua indignação, porque ele tem consciência de que sairia perdendo, mas para me propor um contrato financeiro bem melhor... ou para implorar que eu não exponha ao público o sobrenome “Sorelle” junto com o seu, pois isso seria o rastro de um passado assombroso que ele prefere manter intocável... — interrompe-se somente para verificar a cara abismada de Lavínia, embora ainda faça de tudo para ocultar a sua apreensão. — Seria uma lástima que alguns repórteres-urubus começassem a fuçar a vida pregressa dele e a minha, tudo pra tentar entender o que levou um jovem empresário, famoso e bem-sucedido, a montar uma armadilha vil contra o seu colega, um velho empresário que, embora tenha fraquejado ante uma mulher bonita, no geral, parece ser um indivíduo bom e íntegro... E o show dramático só aumentaria quando descobrissem que não é a primeira vez que o senhor Gregory trai a esposa, pois, no passado, foi amante da mulher do seu sócio, sendo que tanto ela como ele, que hoje estão mortos, também foram funcionários da Giant Solution. A confusão seria muito grande.
— Oh, Meu Deus! Você não vai parar... Não vai! Vai continuar ar-arranjando formas de se vingar dele... É isso o-o que você quer dizer, não é? — está tão aflita que já não consegue disfarçar.
Henry experimenta uma vontade enorme de envolvê-la em seus braços e trocar a tortura psicológica por beijos, mesmo que estes tivessem de ser forçados, no entanto, sabe que seria inútil como rodar em círculos sem chegar a lugar algum. Ademais, tem em mente um objetivo essencial e irá trespassar o impossível para alcançá-lo.
— Não, nada disso... O que quero dizer é que se eu estou encerrando essa história de vingança aqui e agora. Se eu não pretendo fazer mais nada contra o seu pai, não é porque eu tenha medo de arcar com os meus atos, pois já deu pra ver que eu não tenho mesmo... Se faço isso é por outra razão. — declara, categórico, olhando-a firmemente.
Lavínia reflete por uns segundos, todavia, seus pensamentos não chegam a um acordo.
— Mentira! Eu já escutei esta mesma co-conversa antes, lembra? Você me falou que ia desistir dessa vi-vingança infeliz, mas não era verdade... Só tá tentando me enganar de novo... seu mentiroso! — julga, raivosa. Com efeito, sente-se muito exasperada, quer ir embora, sair de perto dele. Portanto, movimenta-se abandonando a proteção da marquise, molhando-se de novo com os respingos frios da chuva, mas Henry não lhe permite ir além, agarra seu pulso e a repuxa obrigando-a a voltar de onde saiu.
— Quanto a isso, eu não menti, eu fui sincero quando disse que tinha desistido... e eu só voltei na minha decisão por sua causa! — apregoa, deixando-a pasmada e estática. — É isso mesmo... você me fez retomar essa vingança pelo que me falou na primeira vez que nos encontramos aqui. — aponta para a entrada da boate e observa a sua expressão vaga. — Você pode até ter esquecido, mas eu, ao contrário, me lembro de cada palavra... Você me disse que o seu pai te alertou sobre eu ser nocivo pra sua vida e, por isso, deveria me manter longe. Isso me fez entender que ele não estava olhando pra si mesmo e encarando o que ele fez, como foi capaz de te roubar dos braços da mulher que te gerou para ser criada por essa que você hoje chama de mãe... Então eu realmente achei que não seria má ideia seguir com o plano somente para ajudá-lo a dar uma boa olhada no próprio umbigo sujo, antes de querer afastar você de mim!
— Ai! Me larga! Você tá me machucando! — queixa-se, ao sentir a pressão incômoda em seu pulso. Ele a solta e ela, enquanto massageia a região dolorida, reúne forças para não se entregar de vez à aflição. — Pois sabe que eu acho? Que você só se-seguiu com esse plano repulsivo, nojento... porque não sabe o que si-significa a palavra limite. Quanto ao meu pai, ele não é pe-perfeito, é um fraco, eu sei disso e, a-apesar de só co-conhecer o que você me contou, de não ter escutado o lado dele para o que houve no pa-passado, eu nu-nunca vou me vi-virar contra ele, não importa o que tenha feito... porque ele se-sempre cuidou de mim, me deu ca-carinho, um lar... e muito amor. Ele e a esposa dele, a minha mãe, são a mi-minha base, o meu po-ponto de equilíbrio. São a minha família! — Seus olhos violáceos brilham cheios de lágrimas represadas.
É a vez de Henry permanecer calado, apenas escutando o que ela diz com atenção redobrada.
— E eu de-desconfio que você também não sabe o que é o amor fa-familiar verdadeiro e, sendo assim, não valoriza isso nem tem co-como entender... — Lavínia prossegue. — E lamento por você, Henry, lamento que tenha so-sofrido dores profundas... quando era só uma criança, e que estas dores te-tenham danificado a sua índole, a sua ca-capacidade de perdoar. Mas eu não sou como você, não consigo sentir ta-tanto ódio, tanto re-ressentimento.
— Você tem toda razão... A Frida é o mais perto de um laço familiar que eu tenho, se não fosse por ela eu nem sei o que teria sido de mim, todos me viraram as costas, nenhum parente de sangue quis assumir a responsabilidade com um órfão mentalmente abalado, cujo pai era um viciado, um bêbado, e a mãe, uma desatinada que largou tudo por causa do amante. — Um sorriso cítrico aflora em seu rosto contraído, devido às lembranças sombrias. — Eu era só um menino perdido no meio de um filme de terror, que viu os miolos estourados do pai no chão junto com sangue, que nem teve tempo de se recuperar e logo soube que a mãe também tinha se suicidado... O ódio era o meu consolo, Lavínia, porque preenchia a minha alma e foi o meu conselheiro fiel por anos... até você aparecer e me mostrar outro sentimento mais forte que ele...
— Não! Chega, Henry! Por favor, pare... não co-continue... Eu não quero ouvir! — agonia-se muito e tenta fugir outra vez, porém, cada movimento seu é impedido por ele, que se põe adiante de si, cercando-a, mesmo sem tocá-la.
— Fica calma. Eu não vou fazer nada com você. — garante, enfático. — Mas você vai me ouvir, sim! Vai ouvir tudo o que eu tenho pra te dizer!
— Pra quê? Por que quer me obrigar... a ouvir o que se-sente por mim? Você já sabe o que eu penso, sabe que eu não a-aceito, que isso é errado demais. — A expressão alarmada se mistura com repulsa e, vendo-se encurralada, resolve partir para a ofensa como meio de autoproteção. — Você se-sente prazer em me atormentar, não é? Por isso não re-respeita a minha opinião e não liga que eu seja sua irmã... porque não passa de um sádico doente!
— Eu não sou sádico. Mas uma coisa eu tenho que admitir, o que eu sinto por você não é bom... — Ele se aproxima mais e ela recua até topar com as costas na parede. — Na verdade, é ruim, complicado, perturbador...
— Para com isso! Já chega... Sai do meu ca-caminho! Me deixa em paz!!! — tenta empurrá-lo, enquanto ejeta a ordem.
Sem se afastar e sem tocar num único fio de cabelo dela, Henry tão-só lhe olha seriamente.
— Paz? Como posso te dar paz... se eu não tenho paz??? — questiona, encolerizado, desvia os olhos, respira fundo e volta a se fixar nela. — Se eu tô doente? Sim, eu tô... eu tô muito doente e agora consigo encarar a realidade... Eu preciso de ajuda, Lavínia, preciso da sua ajuda.
— Da minha ajuda? O que isso si-sgnifica? Que loucura é essa? — investiga, nervosa, sempre se mostrando avessa ao que ele diz.
— Ah, que inferno! Só fica quieta e me escuta! Eu já disse que não vou fazer nada com você... nem vou te tocar mais, eu prometo. Mas, por favor, me deixa falar! — Ele se inflama.
Ela se cala, cruza os braços e lhe envia um olhar significando qualquer coisa como: “Então fale, acabe logo com isso!”, rendida, pois está cansada, com fome e morrendo de vontade de ir para casa.
Henry respira pesadamente e busca fôlego para prosseguir.
— Olha, eu sei que mereço a sua rejeição, a sua raiva, sei que, depois de tudo o que eu te fiz, você prefere ter o diabo perto ao invés de mim... Mas, mesmo que seja difícil acreditar, eu estive refletindo sobre nós, sobre o que eu sinto por você, sobre o quanto isso está me prejudicando, me adoecendo... — pausa, afasta os olhos e torna a fixá-los nela. — A questão é que finalmente eu me dei conta de algo muito importante. Compreendi que, se eu te perder, não vou estar perdendo somente a garota por quem eu sinto coisas que não deveria... eu vou perder também outro pedaço da minha família, que me foi negado desde o início.
Outro momento de silêncio tenso.
Lavínia, recostada à parede, braços cruzados, cabeça abaixada, vai apreciando uma poça d’água no piso onde novos pingos se unem ao montinho líquido proporcionando uma bela imagem, enquanto ouve a declaração inacreditável de Henry.
— Lavínia, me faça aquela proposta de novo. — solicita, com voz absurdamente gentil.
— O quê? — Por fim, ela ergue a vista para ele e volta a se manifestar. — Tá falando se-sério? Depois de tudo o que você fo-foi capaz de fazer, de me perseguir, me sequestrar, me usar... de bagunçar a minha vida, a vi-vida dos meus pais... de rir da minha angústia, de de-debochar quando eu te propus um re-recomeço como irmãos normais... a-agora você quer consertar as coisas? Agora você me vê como pa-parte da sua família?
Então ele se agita um pouco, passa as mãos nos cabelos, move-se e fica de costas para ela, busca novo cigarro nos bolsos, acende-o e, enquanto fuma, passa a olhar para cima, aparentemente contemplando a chuva.
— Posso não te enxergar como irmã, mas isso não muda o fato de que você é... Então, sim, você é parte da minha família. — solta a fumaça no ar e lhe olha obliquamente.
— Fale de uma vez... O que quer de mim? — esbraveja, nervosa, descruzando os braços, agitando-os e se desencostando da parede.
— Eu já disse, quero a sua ajuda. — joga o cigarro, ainda acesso e quase inteiro, no solo úmido, pisa em cima dele, esmagando-o, vira-se de frente para ela e lhe olha diretamente, com expressão de igual cansaço físico e mental. — Lavínia, você é uma pessoa bondosa, é boa amiga, boa filha, é gentil e agradável com todos. Não há espaço no seu coração para ira, vingança, rancor ou mágoa... Eu acredito que você pode me ajudar a me redimir, a reverter o mal que eu fiz... que, aos poucos, as coisas podem se acertar. Eu decidi que quero matar o que eu sinto por você... e transformar esse sentimento em algo realmente bom. Eu quero poder te enxergar como o que você é de verdade pra mim, como minha irmã.
— Henry... Por favor, não bri-brinque com coisa séria... Não me fa-faça de idiota...
— Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. Eu já perdi muito, Lavínia, não me restou quase nada... — Enfia a mão no bolso traseiro e de lá retira uma fotografia pequena, velha e amassada. — Tudo o que eu peço é que não faça o que ela fez comigo, não desista tão fácil de mim... não me abandone.
Ele entrega a foto para ela.
— Abigail... — O nome escapa dos lábios de Lavínia. Depressa a emoção a domina, suas mãos tremem, os olhos reluzem e vertem algumas lágrimas incontidas, pois tem certeza de que se trata da imagem da sua mãe biológica. Ainda tenta prender o choro, mas não consegue e, ao contrário, acaba chorando mais e até soluçando, sobretudo, porque sabe que não tem como negar que está agora se sentindo moralmente obrigada a ceder ao apelo dele.
[...]
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