[HIATUS] Mudanças impuras
7 Mudando de estratégia
Notas iniciais
Na mansão dos Albuquerque, estão na sala de estar os detetives J.R. Macedo, um homem aparentando ter mais que trinta anos de idade, moreno, cabelos escuros e olhos atentos, e Roberto Beltrão, um negro encorpado de expressão tranquila, mas ao mesmo tempo compenetrada, tendo por volta de quarenta. Ambos são os responsáveis à frente da 2ª Delegacia de Homicídios e Desaparecidos da localidade. Estão sentados no enorme sofá oval de cor creme e tecido semelhante a uma camurça, que é apenas um entre os tantos móveis requintados do ambiente.
O senhor Gregory conhece o detetive Beltrão, o mais velho, de outra época, quando ele nem estava no setor em que está agora. Neste tempo, ele soube dele por meio de um conhecido seu. Este colega e funcionário da empresa teve a sua casa invadida por assaltantes. Todos na empresa souberam do ocorrido e Elias, o tal funcionário, cobriu o detetive em questão de elogios por ter conseguido identificar e aprisionar os bandidos.
O senhor Gregory está a uma distância mínima, sentado no segundo sofá, de mesmo modelo, perante eles, e sua mulher, Darlene, encontra-se ao seu lado.
— Vamos ver se entendemos direito o que o senhor nos contou. A sua filha não mora com o senhor, mas em uma república com mais três estudantes, certo? — A voz de Beltrão é firme e inquisidora.
— Certo. — responde o senhor Gregory prontamente. — Embora não seja uma república exatamente, e sim uma casa simples, localizada nas proximidades do campus, cedida gentilmente pelo reitor da faculdade, que exige uma quantia simbólica de aluguel. Por isso é que só moram as quatro garotas, incluindo a minha filha.
— Entendi. E a amiga da sua filha, Louise, ligou hoje no início da noite, dizendo que a Lavínia saiu para um encontro com um homem de nome Diego, neste sábado à noite e depois disso ela sumiu, não deu mais notícia, não ligou, nem deixou pistas de onde poderia estar, confere?
— Exatamente. — O senhor Gregory sente um gosto amargo na boca devido à ânsia provocada pelo estresse.
— E o senhor não sabe nada sobre esse suposto namorado? — A pergunta é lançada pelo detetive Macedo.
— Infelizmente não, ela até mencionou algo a respeito desse tal Diego, mas não entrou em detalhes, apenas disse que ele era tímido e que se eles dessem certo juntos, aí sim ela nos apresentaria. — está com o corpo voltado para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos e os dedos cruzados sustentando o queixo contraído. — Pelo pouco que sei, eles estavam apenas começando algo.
— Sabe se as colegas dela conseguiram ao menos ver o rosto dele? — volta a interrogar o detetive Beltrão.
— Não... ninguém viu o rosto desse infeliz que provavelmente levou a minha filha pra não sei onde! — demonstra impotência através de suas palavras.
— Calma, querido... Você chamou os policiais aqui para nos ajudar, lembra? Eu sei que é o que eles farão. — interpela Darlene, que até agora havia ficado quieta.
Com a mão sobre o ombro do marido para apoiá-lo, Darlene lança olhares de cumplicidade para os detetives, desejando que eles possam realmente fazer algo que os ajude. Esta é uma das raras vezes em que expressa uma genuína preocupação com o bem-estar da filha, pois de algum modo nunca foi capaz de oferecer a ela uma demonstração de afeto satisfatória e, no fundo, sempre soube o porquê. Contudo, pensar nisso machuca-a, assim, prefere deixar estes pensamentos encravados, resguardados em algum lugar distante. “O que tive que engolir, só eu sei. Eu tenho me esforçado todos esses anos pra ser uma boa mãe, mas nunca foi fácil, nunca mesmo.” Avalia consigo, ao mesmo tempo que sente uma pontada de remorso. Ela sabe que para Gregory o sumiço da filha será mais agonizante, certamente se consumirá de saudade e tristeza, não medirá esforços nem dinheiro na busca de um indício qualquer do seu paradeiro. “Isso vai ser um calvário sem fim!” Respira fundo tentando afastar os pensamentos alarmantes.
— Pelo que nos informou ainda, o senhor mesmo já se encarregou de fazer ligações importantes de averiguação para aeroportos, rodoviárias, hospitais e para os contatos dela que o senhor tem disponíveis. — Macedo constata.
— Sim. — Ele anui.
— Bem, senhor Gregory, nós o aconselhamos a esperar mais algumas horas. — O detetive informa e nota o semblante assustado dele. — Sabemos que pedir isso num momento desses é complicado, até porque o senhor nos informou tratar-se de uma jovem que nunca esteve longe, sem dar notícias; é responsável, dócil e sem traços de rebeldia. Por outro lado, não podemos descartar a possibilidade de se tratar de um sequestro planejado, levando em conta a sua posição como empresário, bem como a sua condição financeira favorável. Assim, o sequestro é efetivamente uma realidade possível.
— Mas por que não houve ligações até agora? Por que é que ninguém entra em contato pra pedir um valor em troca da liberdade dela? Por quê? — A consternação do senhor Gregory só aumenta.
— Infelizmente já vimos casos em que os sequestradores agiram do mesmo modo, demorando a dar notícias, torturando a família com a dúvida, então, quando resolvem entrar em contato, obtêm uma vantagem a mais, pois com a família transtornada fica mais fácil pagar qualquer quantia estabelecida, sem titubear nem envolver a polícia. O medo é um aliado poderoso desses criminosos, senhor Gregory.
— Mas quanto tempo teremos de esperar?
— Pelo menos mais umas cinco ou seis horas... Se nesse período não houver mesmo nenhuma ligação, aí sim podemos começar a pensar em outras possibilidades.
O senhor Gregory escuta as palavras do detetive e experimenta seu coração se comprimindo dolorosamente. “Outras possibilidades? Quais? Meu Deus!” Pensar que estas outras possibilidades significa que ela pode estar sob o domínio de um assassino, um maníaco violento, que irá torturá-la até à morte, é algo terrível, que paira em sua mente.
⊱⊱✥⊰⊰
O sol ilumina o quarto com seus primeiros raios quentes, que adentram pelas frestas da cortina clara, anunciando que é segunda-feira.
Lavínia remexe-se na cama e abre os olhos, desistindo de tentar conciliar o sono. Sente-se exausta por ter passado boa parte da noite entregue a choros, lamentos e divagações. Esteve de fato invadida por diversas emoções, como raiva e dúvidas angustiantes.
“Será que é mesmo verdade aquela história? Será que o meu pai foi capaz de trair a minha mãe com a mãe do Henry? E será que foi o responsável pelo suicídio do pai dele?” Estas perguntas voltam o tempo todo à sua mente conturbada. “Talvez ele estivesse encenando” Tenta chegar a um consenso. Afinal, Henry havia-a enganado antes, sendo uma pessoa diferente da que é agora. Mas não consegue se tranquilizar, pois algo não se encaixava bem.
Mais terrível para Lavínia é lembrar que, antes disso, ele lhe deu um beijo intenso e libidinoso, e ela não foi capaz de impedi-lo. “Sou uma retardada, uma idiota!” Lastima, enraivecida.
“E que absurdo foi aquele de dizer que eu sou importante pra ele? Que estranho! Sujeitinho mais maluco, eu hein!” Conclui que esse é outro ardil, algo para aumentar a sua confusão mental. Porém, não consegue evitar a sensação de arrepio ao se lembrar das palavras sussurradas: [...] você é muito importante pra mim, Lavínia, mais do que possa imaginar.
Ela desconfia, enfim, que as coisas só irão piorar dali para frente. Seu pai, a uma altura dessas, por exemplo, já deve estar movendo céus e terras para ter notícias suas, desesperado, e as suas amigas da república também devem estar muitíssimo preocupadas, com mil e um pensamentos ruins.
Logo, mais uma vez não impede que outras lágrimas caiam de seus olhos.
⊱⊱✥⊰⊰
Quatro dias depois...
— Quer dizer que ela está mal assim mesmo? — A voz da Frida é de piedade. Ela fala ao celular enquanto coloca a pequena jarra de água na bandeja, terminando de prepará-la com o café da manhã.
— É, prima... a Lúcia está muito pior, os médicos disseram que é provável que ela tenha apenas alguns meses de vida. — A pessoa do outro lado do telefone chora.
— Oh, Elisa, fique calma... mantenha a fé. Olha, eu vou fazer de tudo para ir aí logo. Tenha certeza de que, assim que possível, eu vou.
— Só não demora muito, Frida, senão pode ser que nem a veja mais.
— Tudo bem, minha prima querida, eu prometo. Agora vou desligar, Elisa... Quando der certo para ir, eu ligo avisando. Então, um abraço pra você e outro pra Lisete, e até logo.
— Tchau, Frida, até breve.
Assim que Frida encerra a ligação, percebe Henry às suas costas. Ele está elegantemente vestido com um blazer azul-escuro, aberto, de dois botões, com uma camisa branca por baixo, que faz seu tórax parecer ainda mais másculo, e jeans escuro. Encontra-se em pé no centro da cozinha, de braços cruzados, com expressão compenetrada.
— Bom dia. — descruza os braços e se aproxima, espreitando-a com olhos curiosos. — Com quem você estava conversando?
— Bom dia. Com minha prima, Elisa, eu liguei pra ter notícias e soube que minha outra prima, a irmã dela, Lisete, está muito convalescida. Eu sabia que ela estava doente, mas não tinha ideia de que estava tão mal. — A senhora busca disfarçar o abalo que a ligação lhe causou movimentando o que há na bandeja do café da manhã como se estivesse conferindo se não falta incluir algum alimento.
— E você quer ir vê-la? — Ele franze um pouco o cenho e avalia o incômodo de tal possibilidade.
— Não precisa ser agora, posso adiar mais um pouquinho. — sorri de modo fraco.
— Hum. Tá certo então, eu vou indo. — Como de costume, ele deposita um beijo em sua testa e se vira para sair.
— Aonde o moço pensa que vai? — De imediato, Frida esquece a bandeja e se volta totalmente a ele.
— Eu trabalho, não sabe? — O sarcasmo surge misturado com tédio.
— Sei, mas sei que toma café também... ou pensa em sair com o estômago vazio?
— É que tô sem fome. — admite.
— Nada disso, não quero nem saber, senta aí e come. Tem pães, ovos fritos, leite, café, suco, bolo... tem tudo, coma ao menos um pouco. — Ela o faz sentar numa cadeira em frente à mesa. — Vai, Henry, come algo ou você vai acabar doente. Eu sei que ontem você saiu sem tomar café, mas hoje eu não deixo.
— Ok! Tá bem! Vou tentar comer qualquer coisa. — respira, resignado, e toma um gole do café com leite que ela lhe serve. — Cadê o jornal de hoje?
— Tá aqui. Henry, a notícia está em todos os jornais. — Sua voz é de apreensão. — Não se fala em outra coisa... só no desaparecimento da filha do presidente da Giant Solution, o empresário Gregory Albuquerque. Ele não vai sossegar até achar uma pista de onde ela está. Aí eles dizem que ele tá até oferecendo recompensa pra quem reconhecer o rosto dela e souber qualquer coisa que ajude na busca.
— Temos que estar preparados para tudo porque isso é só o começo. — O loiro alerta abrindo o jornal na página específica da reportagem. Não há expressão alguma em seu rosto enquanto lê.
— Bem... eu... eu vou agora lá deixar o café dela, que já deve ter acordado. — Frida tenta não pensar muito sobre aquilo. Pega a arma da gaveta do armário, a bandeja e sai. Mas ainda tem tempo de olhar para Henry e sentir seu coração se apertar dentro do peito. “Meu Deus... ele vai levar isso até às últimas consequências”.
Frida abre a porta com a chave e entra. Percebe que Lavínia não está na cama e nem no banheiro, pois a porta deste está aberta e não há movimentação lá dentro. Descobre a seguir que ela se encontra na “sala de leitura”, com um livro entre as mãos e parece estar concentrada.
— Bom dia. — saúda-a com gentileza.
— Bom dia. — responde amistosamente a garota, que há dias decidiu mudar de estratégia e bancar a prisioneira conformada, pelo menos por enquanto.
Lavínia envia um sorriso tímido para Frida e não exibe traço algum de impaciência ou contrariedade, enquanto revisa mentalmente os dias que tem passado ali e se dá conta de que Frida passou a não evitá-la tanto, ao contrário, até tem puxado algum assunto rotineiro e lhe responde sucintamente, quando lhe questiona sobre os pais de Henry. Ele, por seu lado, não veio mais desde o dia em que fez aquele relato trágico.
— Hum! Parece que resolveu escolher um livro... Henry nunca gostou muito de ler quando garoto, mas quando se interessou, até melhorou nos estudos. — pode-se ver o orgulho de mãe nas palavras de Frida.
— Pena que cresceu pra se tornar um criminoso. — Lavínia termina soltando a ironia.
Frida fica visivelmente sem graça e, como já havia colocado a bandeja no lugar habitual, já vai retirando-se da sala, com intenção de sair do quarto também.
Lavínia imediatamente deixa o livro de lado, ergue-se da poltrona e segue Frida ao quarto. Planeja colher informações, saber a veracidade delas e aproveitar para ganhar a confiança da senhora.
— Não. Não vai não! Olha, me desculpa. Por favor, vamos só conversar mais um pouco. Me fala mais so-sobre a sua amizade com a mãe do Henry... e sobre a tragédia que foi a morte do pai dele... — faz o convite, pondo na senhora olhos de menina carente. — Você me disse antes que a Abigail e você eram amigas desde a infância... que moravam na mesma cidade do interior.
— Isso mesmo... Nós viemos juntas para estudar na capital, dividíamos uma quitinete que nossos pais, hoje falecidos, pagavam mandando o dinheiro. — Frida adora lembrar os momentos divertidos que passou ao lado de Abigail, sua amada amiga, por isso não resiste e decide ficar um pouco mais.
“O que há de mais em fazer companhia a ela enquanto toma o café da manhã?” A senhora pondera e se senta na cadeira acolchoada que fica em frente à cama da jovem.
Lavínia, vendo que sua tática está dando certo, pega na bandeja e se senta no puff, ficando bem à frente de Frida.
— Deve ter sido uma época agitada, né? — A loira a atiça mais. Ela alcança a torrada, passa-lhe geleia, mastiga um pedaço e só então percebe, da posição em que está, que a porta se encontra entreaberta. Sente um frenesi grande se apossar dela.
O ânimo de Lavínia aumenta ao observar Frida bastante distraída, olhando para algum ponto do quarto, mas sem enxergar nada de verdade, recordando os fatos do seu passado, e fica contente por poder, enfim, ter uma chance de fugir dali.
— Éramos melhores amigas, sabe... contávamos tudo uma para a outra. — Frida continua, sem perceber o olhar matreiro da loira.
Súbito, Lavínia joga o café quente no rosto de Frida, cegando-a por propícios instantes, arremessa a bandeja longe e sai correndo porta afora.
Com o coração aos saltos, sem raciocinar direito, só pensando em escapar da forma que der, ela se guia por instinto, passa pelo corredor e chega às escadas, vai descendo o mais rápido que consegue.
Mas, quando já está perto dos últimos degraus, um lamentável desastre a toma, o pé se enfia de mal jeito numa parte íngreme, ela tropeça, desequilibra-se e cai.
Lavínia rola pelos derradeiros degraus e vai parar de barriga para baixo, tendo que se apoiar com as mãos e os cotovelos num movimento ligeiro para não dar com a cara no piso frio.
Ao erguer a cabeça, para seu maior desespero, ela constata que está a precários metros de um rico par de sapatos masculinos e agora é o sangue de suas veias que parece empreender fuga para longe de si. Não consegue raciocinar mais, apenas espera pelo que for.
Ela ofega com a boca aberta criticando-se mentalmente por ser tão desastrada, vendo, entre os fios loiros e desalinhados que lhe cobrem parcialmente a face rubra, Henry, e tem vontade de rasgar o chão com as próprias unhas para enterrar a cabeça ali e não ter de encarar a expressão intimidadora que ele exibe.
De fato, Henry funga hiperventilando os pulmões, denunciando o seu grau elevado de raiva, uma vez que ele não demora para compreender o que houve, sobretudo ao ver Frida seguindo a garota, com a arma em punho, o rosto em brasa, molhado de café.
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