Notas iniciais
Outro capítulo. Obá!!! Hahaha... Boa leitura! OBS.: Capítulo repostado e devidamente betado por Estrela de Rubi, autora de "Vítima Do Amor". Obrigada, amiga!

Henry levanta Lavínia do chão como se esta fosse uma boneca de pano, sem maiores esforços. Segura-a pelos braços, mantendo-a a uma distância conveniente enquanto a olha dos pés à cabeça. Assim, avalia-lhe os danos provocados pela queda desastrosa, movimentando o corpo frágil a fim de ver os cotovelos ralados e um dos joelhos, o esquerdo, lacerado, com algum sangue a escorrer, mas, felizmente, pouco, indicando possivelmente não se tratar de nada grave. Ele respira aliviado por saber ela que ficaria apenas com alguns hematomas e nada mais.

Lavínia nem ousa olhá-lo diretamente, pois se sente péssima, constrangida de verdade por ter falhado em sua primeira grande oportunidade de fuga, fica até grata pelas madeixas loiras estarem caídas encobrindo parte do seu rosto, não deixando que Henry comprove que está prestes a chorar de raiva.

Henry solta-lhe um dos braços só para arrastá-la escada acima, sem significativa consideração pela dor que ela já começa a sentir nos membros machucados.

Ao passar por Frida, que está agora parada a meio caminho da escada, exibindo uma expressão mesclada de irritação e culpa, ele lhe olha como se a quisesse fuzilar.

A senhora põe-se mais aflita.

— Henry, eu...

— Agora não! — corta-a. — Vai pro meu quarto e me traz a caixa de primeiros socorros que tá no guarda roupa, em algum lugar na parte de baixo, e leva pro quarto da Lavínia. Eu vou tá te esperando lá. — A voz é áspera, fria mesmo, e ele nem espera por uma resposta para continuar seu caminho, com Lavínia presa pelo braço.

A loira se mantém calada e assustada, agora mais ainda por conta da ferocidade com que o vê dar ordem à senhora.

Henry força Lavínia a entrar no quarto, entrando ele também, e praticamente a joga na cama.

— Você, senta aí! — alerta em tom autoritário, com o dedo indicador em riste.

Ela se ajeita, senta-se na cama e fica indignada com a violência imposta. O braço que ele tanto apertou doí, assim como o seu orgulho ferido.

— Seu grosso! Monstro! — esbraveja.

— Lavínia, se você soubesse o tamanho da raiva que eu tô sentindo agora, ficaria calada. — A expressão facial rígida e o tom vocal que, embora moderado, soa como o uivo de um trovão, formam uma efetiva ameaça.

Ela treme de nervoso, em especial, ao vê-lo analisando cada canto do quarto com os olhos, conferindo o resultado da ação dela.

E a raiva dele, de fato, aumenta muito, porque a sujeirada é grande. A bandeja está caída e virada próximo à suíte, pãezinhos estão por toda a parte, torradas perto da cama, a jarra se havia rachado e por pouco não se estilhaça deixando vidros perfurantes e perigosos, o que aconteceu com o copo de vidro, que está aos pedaços misturados com o resto de suco de laranja, no chão perto da poltrona e do puff, assim como está a xícara e os resquícios do café que foi arremessado no rosto de Frida, sem contar com algumas fatias de frutas variadas, todas esparramadas e os pequenos potes plásticos entornados. Está uma bagunça geral.

— Olha a merda que você fez... Mais que droga! — solta por meio de novo bufo raivoso.

Lavínia chega a abrir a boca para manifestar algo, porém, emudece-se ao flagrar a entrada de Frida no quarto.

A senhora anda diretamente ao rumo de Henry.

— Tá aqui a caixa que pediu. — diz nervosamente, sem enviar sequer o olhar para Lavínia.

— Agora, por favor, vai pra cozinha e me espera lá. — Ele busca amenizar o tom grosso da voz, principalmente porque não quer desmoralizar mais a senhora perante Lavínia. Tudo o que não precisa depois do ocorrido é deixar transparecer que Frida é uma mulher sem pulso firme, complacente, fácil de ser manobrada.

Assim que Frida sai do quarto, Henry arrasta o puff até bem perto e mediante à cama, onde Lavínia está sentada, depois ele se senta nele.

Lavínia fica horrivelmente incomodada com a proximidade.

Ele desconsidera o desagrado dela, abre a caixa de primeiros socorros, que põe ao lado do puff no piso, tira de lá um tufo de algodão limpo e seco, depois um frasco pequeno contendo um líquido, desenrosca a tampa, abre e derrama sobre o algodão a solução antisséptica. Tratando-a como uma criança birrenta, puxa-lhe a perna que tem o joelho ferido, sendo este o membro mais atingido na queda, passa a mão em volta da coxa, segurando-a firme, pois ela ainda tenta se afastar do contato.

— Ai! Seu... Me solta! O que pensa que tá fazendo? — Lavínia reclama, nitidamente encolerizada.

Sem se deter, Henry toca apertando os arredores da ferida com o algodão umedecido, percebendo que só há uma laceração superficial, encoberta por uma quantidade mínima de sangue e uns arroxeados que se tornam mais evidentes por causa da pele clara.

— Tô tentando desinfeccionar isso aqui. Mas eu deveria mesmo é deixar essa ferida inflamar ao ponto de ter que amputar a perna, porque assim você ficaria bem mansinha. — Não esconde que está realmente irritado.

— Se... se acha que eu vou desistir, você está co-completamente enganado, pode me amarrar, me acorrentar na ca-cama ou me drogar porque... na primeira chance eu faço tudo de novo! — O coração dela está acelerado e as mãos dele lhe tocando desse modo tão atrevido só piora as coisas. “Pelo menos, estou de short e não de saia”, ela constata que seria bem pior se estivesse de saia, pois a mão dele embaixo da sua coxa obriga-a a abrir um pouco as pernas, expondo-a vergonhosamente.

— Não me tenta, Lavínia, porque eu sou capaz de fazer tudo isso aí junto. Saiba que até agora eu peguei leve com você, por isso não força a barra... ou vai me conhecer de verdade. — O tom da voz ecoa quase suave, em contraste com o fulgor feroz em seu olhar.

Lavínia sente-se, de novo, intimidada e mais indignada.

— Ah, se eu pu-pudesse voltar no tempo! Eu queria nunca ter conhecido você! Maldita hora em que cruzou o meu caminho! — esbraveia. Porém, também respira com certa dificuldade, não pela emoção das palavras magoadas, e sim por causa do toque da mão dele em sua coxa, que teima em apertá-la mais na medida em que se contrai, tentando ir para trás.

As faces da loira estão em brasa e as unhas, cravadas no tecido da cama. Ela busca por ar, enquanto o peito sobe e desce sem parar, e evita pensar na situação vexatória em que encontra.

Henry percebe isso e faz questão de se demorar na limpeza da ferida. Sente enorme prazer ao ver os pelos da perna dela ficarem cada vez mais eriçados devido à pressão que lhe faz na coxa. Resolve ousar mais, faz seus dedos apalparem de forma circular a pele sedosa e abocanharem novos centímetros aproximando-se excitantemente da virilha, sempre adorando as reações contraditórias que ela mostra.

Enquanto promove essa assepsia-carícia, Henry olha fixamente para Lavínia, em especial para a sua boca avermelhada, mais ainda o lábio inferior, o qual ela, volta e meia, castiga com os dentes para depois, como se quisesse compensar o maltrato, oferecer um úmido resvalar de língua.

A vontade de beijá-la é forte e Henry não está com a menor paciência para se conter, por isso, rapidamente, ele joga para longe o tufo de algodão sujo de sangue, repõe a embalagem na caixa, assim como faz com o frasco, fecha-a e a coloca de lado no piso. Ergue o tronco e estende as mãos prendendo o rosto de Lavínia. Sem mais preâmbulos, beija-a na boca.

O gesto acorre meio que como uma punição.

Ele não avança muito com a língua, mas move a boca sobre a dela de maneira algo rude mesmo.

Lavínia esperneia e bate no tórax dele com os punhos fechados, rejeitando-o com maior vigor desta vez.

Apesar disso, Henry encara-a através de um olhar intenso e sério, como quem não sente a agressão e a repulsa que ela lhe oferece.

— Teríamos nos conhecido de qualquer jeito, Lavínia, você não teve escolha, porque eu não te dei esse privilégio. — arremata, mete-lhe outro beijo brusco na boca e a solta, deixando-a vermelha de raiva.

— Seu... cretino depravado! Nunca mais encoste em mim! Ouviu? Nunca mais encoste um dedo em mim!!! — reforça o brado, arremessando nele a primeira coisa que está perto dela, no caso, uma reles almofada, e odeia saber-se tão pouco eficiente para lutar contra os avanços dele.

Uma fileira de dentes bonitos formando um leve sorriso irônico surge no rosto de Henry, ao mesmo tempo em que ele pega na caixa de primeiros socorros e a traz à mão.

— Cuidado, Lavínia, não fique tão agressiva... ou eu posso começar a achar que você está me desafiando a fazer justamente o contrário do que pede.

— O q-quê? Não distorça as mi-minhas palavras! — Nova onda de nervosismo a toma.

Henry torna a sorrir, contudo, igualmente volta a suspirar aborrecido ao olhar ao redor do quarto.

— Mas que bagunça! Sabe, Lavínia, eu bem que deveria fazer você limpar toda essa porcaria que fez aqui. Mas ok, eu não vou, é a Frida que vem limpar. E não ouse tentar nada, porque dessa vez ela não vai hesitar caso precise atirar na sua perna ferida. — alerta.

Lavínia cala-se e experimenta um sentimento de medo ao pensar que a outra deve estar mesmo uma fera, decepcionada demais por ter-se fingido de amiga confidente.

Henry sai, tranca a porta com a chave e caminha pelo corredor. Entra em seu próprio quarto, localizado a poucos metros do qual Lavínia se encontra. Vai ao guarda roupa e repõe a caixa de primeiros socorros ao local de onde havia sido retirada. A seguir, ele deixa o cômodo e torna a atravessar o corredor.

Enquanto desce as escadas, Henry sente uma pontada na cabeça, já prevendo uma dor inevitável pela conversa que terá com Frida.

Ao chegar à cozinha, ele nota que ela está sentada, com uma expressão de desconsolo e algumas lágrimas a rolarem por seu rosto, agora lavado e sem vestígios de café.

Frida levanta-se imediatamente ao vê-lo se aproximar.

— Henry, eu juro que nunca imaginei que ela seria capaz de um ato agressivo daqueles... que ia ser capaz de me atacar com uma xícara de café quente na cara pra tentar fugir, aproveitando que eu tinha esquecido de fechar a porta. Nesses dias... eu até pensei que nós estávamos nos dando bem, ela parecia tão conformada...

— Você não pode ser tão idiota! Achou mesmo que ela tava conformada? — interrompe-a, mas estanca só para vê-la digerir a sua pergunta. Suspira aborrecido. — Nós a estamos mantendo em cárcere privado e eu declarei com todas as letras que quero o fim do pai dela. Acorda, Frida! Nós estamos enfiados até o pescoço em uma tremenda confusão, em algo muito sério!

— Me desculpa, filho. Me perdoa! Eu sou mesmo uma velha imbecil... Eu... eu só a vi tão frágil e indefesa. Nunca imaginei que seria capaz de agir com violência.

— Eu já te disse que ela é mais forte do que aparenta e é capaz, sim, de tudo... de tudo pra sair da prisão de luxo em que eu a coloquei. Não a subestime, Frida.

— É... agora eu sei. Eu não vou mais baixar a guarda, Henry. Eu prometo. — enxuga a nova lágrima que cai e tenta recompor-se.

Henry ouve as palavras atenuadoras de Frida, no entanto, a raiva que o domina é grande demais, pois a mente dele trabalha contra.

— Imagina se eu não estivesse aqui na hora! Imagina se ela tivesse conseguido chegar até à porta da frente da casa. É... porque ela só tá encostada. Ela não teria como passar dos portões gradeados, eu sei, mas poderia ser vista por alguém, sei lá, algum vizinho nas proximidades, então seria reconhecida no mesmo instante, porque a foto dela tá estampada nas primeiras páginas de quase todos os jornais. Isso sem a internet e os telejornais... Tá passando na televisão de manhã, de tarde e de noite. Droga! Vê se entende!

— Eu sinto muito. — Frida pensa que há anos não o via tão enfurecido e isso a fez sentir-se deprimida.

— Imagina ainda que além de te jogar o café na cara, ela tivesse tomado a arma da tua mão. A Lavínia não teria pena de você, Frida. Acredite, pra ela nós não passamos de psicopatas, de loucos!

— Eu sei. — “Puxa, agora ele não vai parar mais!” Frida conhece Henry o suficiente para saber que quando algo o irrita, ele pode tornar-se um verdadeiro tirano.

— Não, não sabe! Se soubesse nada disso teria acontecido, você seria mais atenta, mais firme! — passa a caminhar de um canto a outro da cozinha e remexe nos cabelos com impaciência. — Você sabe que eu até pensei em pagar outra pessoa pra ficar de olho nela enquanto eu não pudesse fazer isso, mas eu não confio em ninguém, em ninguém! Eu confiava apenas em você, Frida, mas agora... eu nem sei mais.

— Filho...

— Você perdeu o foco, foi isso que aconteceu. É melhor você ir logo visitar a sua prima doente e dar um tempo nisso aqui. — olha-a avaliando a sua reação admirada.

— Mas e a comida? E as coisas...? — questiona, ainda sem crer nas palavras dele.

— Isso não interessa agora. Está decidido, você vai visitar a sua prima... É no interior onde você nasceu, não é?

— É sim... mas, Henry...

— É melhor assim, você fica por lá uns dias, mata a saudade dos seus parentes, se distrai um pouco e depois volta pra essa loucura aqui. E aí vamos ver se você me ajuda de verdade.

— Mas...

— Até a sua volta eu me viro com a comida e a limpeza, não tem problema.

— Você tá falando sério mesmo, Henry?

— Tô! E, se quer saber, depois de hoje, eu preciso de um tempo pra voltar a confiar em você. — O tom severo confirma o que ele diz.

— Mas não tem ônibus viajando pra lá hoje não... só amanhã. — Ela libera, meio que a contragosto.

— Não precisa ligar pra rodoviária pra confirmar?

— Não, porque eu já sei bem os dias e os horários em que tem viagem praquelas bandas do interior. Há anos é igual. — afirma, sempre algo amuada.

— E em qual hora sai o primeiro ônibus amanhã?

— Bom... é cedo. Sai da rodoviária a partir de sete da manhã.

— Ok, pois está decidido. Amanhã bem cedo eu vou te deixar na rodoviária para que pegue o primeiro ônibus. Você segue a sua viagem e fica no interior em visita aos seus parentes por uns dias.

Frida sente-se pasmada e triste por ele querer vê-la longe. Contudo, suspira conformadamente.

— Se é o que quer...

— É, é o que eu quero porque acho o melhor a ser feito agora. Por hoje, eu quero que, primeiro, vá no quarto da Lavínia e limpe a bagunça que ela fez. Tome o cuidado de trancar a porta por dentro enquanto estiver no quarto. Não dê tanta atenção pra Lavínia, Frida, e, se for preciso, ameace ela com a arma, entendeu? Não vacile de novo. Faça o almoço, cumpra as tarefas normais e depois, quando tiver mais tempo, arrume as suas malas, deixe tudo pronto pra sua viagem. — orienta, passa maquinalmente as mãos no blazer e ereta mais a coluna, enquanto infla o tórax ao respirar fundo, fazendo lembrar um líder militar. — Bom, então agora eu preciso ir. Vou ter que me virar como for pra adiantar o serviço na empresa, pois só assim as coisas por lá irão andar direito mesmo sem mim, assim eu espero. Porque a verdade é que eu acostumei mal o meu pessoal, eu preciso estar sempre dando o aval definitivo pra tudo. Mas não tem jeito, como você vai estar fora, eu terei realmente que faltar pra te substituir aqui. — conclui, como se de fato não houvesse outra opção.

— Bom, meu filho... já que você mesmo resolveu tudo isso sozinho. O que é que eu posso fazer?

— Ser sensata e acatar a minha decisão.

— Tudo bem, eu vou fazer exatamente o que diz, até porque eu tenho mesmo que ir ver a minha prima que tá doente, mas eu volto em dois ou três dias, no máximo. E... quanto a ela Henry, e a Lavínia?

— Eu me viro, já disse.

— Henry... você não pode fazer nada com ela. Você sabe que não pode, né? — Frida não é ingênua e já percebe um clima estranho no ar.

Antes desse plano insano de vingança começar a tomar forma, ela havia alertado Henry sobre ele não poder tocar em Lavínia mais intimamente. Ela achava isso errado demais, pois ele estaria enganando Lavínia desde o começo, então já bastavam as mentiras e ele, para se aproximar da moça, fingir ser um paquera interessado nela, o que sempre incomodou bastante Frida.

— O que eu faço ou deixo de fazer com a Lavínia é problema meu, Frida. — Há uma advertência implícita em sua voz hostil.

— Você não pode! — Frida agora sente medo de ir e deixar Lavínia à mercê dele.

— Ah, já tô perdendo o meu tempo demais aqui! Chega de conversa! — Com a paciência rarefeita, ele bufa e faz um movimento para sair.

Frida dá um passo afoito em sua direção e põe a mão em seu braço.

— Por favor, Henry, não ultrapasse os limites, as consequências podem ser graves, ela pode vir a te odiar... e eu sei que não é isso o que você quer, filho. — diz em tom de rogo.

Sem se virar para tornar a olhar para a senhora, Henry estanca, parece refletir por uns segundos. Contudo, no instante seguinte, com moderada cordialidade, ele se desvencilha da mão dela e simplesmente continua em movimento. Sai da cozinha e prossegue, sem se deter jamais.

⊱✥✥⊰

O sol reluz no prédio de alto luxo através de suas janelas envidraçadas e perfeitamente limpas. É uma construção com doze andares e fachada contemporânea alusiva à empresa Giant Solution, uma firma de consultoria empresarial especializada em soluções para mercados competitivos, que conta com um conjunto multidisciplinar de especialistas próprios. O presidente dela, o senhor Gregory Albuquerque, está em sua sala, um escritório condizente com todo o conforto adequado a um profissional de nível superior, ar condicionado potente, móveis funcionais, privilegiando a ergonomia e o design moderno. Em sua mesa, mesclada de madeira e ferro cromado, podem ser vistos alguns documentos, pastas, um telefone e dois porta-retratos. Em um, há a fotografia dele e de sua mulher, Darlene, e no outro, para onde os olhos do senhor Gregory estão voltados, há a fotografia de sua amada filha Lavínia, que lhe sorri através da bela imagem e o faz querer morrer pelo sofrimento causado devido à sua ausência, pelo seu sumiço misterioso.

Ele fala ao celular e parece não gostar nada do que ouve do outro lado da linha.

— Quer dizer que depois desses dias de busca e investigação, nada foi obtido que desse uma mínima pista qualquer? — A voz do senhor Gregory beira o desespero.

— Infelizmente ainda não temos nada mesmo, mas o senhor deve saber que estamos fazendo tudo o que é possível. Estamos vasculhando cada centímetro dessa cidade, interrogando pessoas na faculdade dela que poderiam tê-la visto com o tal sujeito, mas até agora ninguém manifestou nenhuma informação que nos ajudasse de fato. — O senhor Beltrão é incisivo e sincero, pois não é de iludir ninguém com palavras de consolação inútil. — Só temos um nome que provavelmente nem seja o verdadeiro. Tínhamos ainda alguma suspeita de se tratar de represália de um possível inimigo, mas o senhor afirma que não tem nenhum. Assim, as coisas complicam...

O senhor Gregory fica em silencio por uns instantes, o que leva o detetive Beltrão a imaginar, por um momento, que ele havia desligado o telefone.

— Senhor Gregory? Ainda está aí?

— Sim, detetive... estou. — parece que é forçoso até falar de tanta angústia que sente. — Eu peço que não desistam, por favor, continuem tentando. Eu ainda tenho esperanças... eu sei que ela vai aparecer. Eu sei!

— Não vamos desistir, eu garanto, mas... já há uma semana de desaparecimento... O senhor deve estar preparado, pois podemos acabar descobrindo o pior.

— Pior! O que pode ser pior do que não ter nada que me diga onde está a minha filha???

— Bem, ela... ela pode estar morta, senhor Gregory. Eu sinto muito ter de dizer isso, mas creio que o senhor deve se preparar psicologicamente para um abalo como esse.

— Não! Jamais! Ela está viva... eu sei. Eu sinto! — Nunca admitiria tal possibilidade, pois se admitisse iria enlouquecer de dor. — Minha filhinha está viva sim!

Ao término desse diálogo, o senhor Gregory fica pensativo. Sua mente é traiçoeira e o move para visões aterrorizantes de sua filha sendo jogada à força dentro de um carro estranho, que a levaria a um local desabitado e depois um monstro a violentaria, estrangularia e se livraria do corpo ferido e inerte. Ele sacode a cabeça e tenta espantar tais visões horríveis.

“Tenho que pensar em coisas boas!”, decide. Mas em seu íntimo há mais dúvidas do que poderia admitir.

No entanto, em tempo algum ele desistiria de procurar por Lavínia e ter fé de encontrá-la viva e intacta. Ele precisa dessa fé, caso contrário, a culpa o consumiria, a culpa por não tê-la impedido de ir morar na república, longe da sua vigilância e proteção. Ele realmente quis fazer isso, porém, a ama demais para prender o seu espírito criativo, sonhador e confiante de que a vida na faculdade, cursando artes, pode ser maravilhosa por lhe dar a oportunidade de conviver com pessoas novas, comuns e de mesma idade.

Ele sorri tristemente ao perceber que nunca a impediria de nada. “Tenho uma dívida eterna, mesmo que ela nem sonhe... por isso que me dou sempre por vencido sem muito esforço, basta um manhoso sorriso seu.”

⊱✥✥⊰

Manu está na sala, assistindo a mais uma aula de Conforto Ambiental I, disciplina referente ao seu curso de arquitetura, mas ela não presta atenção em nada do que a professora diz em pé lá na frente do quadro de acrílico, pois seus olhos não se desgrudam dos cachos escuros diante de si, pertencentes à Vicky, que faz o mesmo curso junto consigo, desde o começo do ano passado. Aliás, a aproximação das duas foi inevitável desde o início, uma vez que, além de dividirem o mesmo local de moradia, ainda iriam estudar na mesma sala de aula. Coincidências à parte, Manu sentiu, assim que bateu os olhos em Vicky, que teria de conquistá-la custasse o que custasse, a atração que experimentou pela morena de cabelos cacheados foi fulminante, não lhe dando nem tempo de saber se a outra jogava ou não no mesmo time dela. E a felicidade foi completa quando, sem muito esforço, Vicky se entregou aos seus carinhos, beijos e abraços, que eram sempre às escondidas de todos em princípio e depois declaradamente, ao menos para as suas colegas de república.

Só que há quase uma semana, tempo de sumiço da colega Lavínia, Vicky a tem ignorado bastante, deixando a ruiva irritada e carente.

Manu volta-se mentalmente ao modo apático com que a outra a tratou hoje cedo, quando tentou ter um momento de prazer matutino. O quarto estava parcialmente escuro, pois as janelas estavam fechadas e o sol pouco invadia pelas frestas disponíveis. Vicky estava na cama, já acordada e com os olhos direcionados para o teto. O relógio despertador marcava cinco e quarenta. Manu remexeu-se na outra cama de solteira, também acordada, notou a expressão pensativa de Vicky e se levantou indo juntar-se a ela.

— Hoje não, Manu. — A morena disse já prevendo as intenções da ruiva, que se aninhava em seu corpo com os braços e as pernas, enfiando a cabeça na curva do seu pescoço, cheirando e roçando a boca naquele espaço de pele. Todavia, a morena estava preocupada, esquiva, e lamentavelmente não conseguia demonstrar interesse ao contato físico com sua namorada.

Manu parou de se esfregar nela, com raiva pela rejeição, e se sentou.

— Hoje, ontem e anteontem também... Qual é? Tá me evitando por quê? Mais que droga! — praguejou baixinho.

— Você me surpreende, Manu. Sinceramente, eu nem sei como você tem cabeça pra essas coisas, num momento como esse. — respondeu de modo algo repreensivo mesmo.

— Olha, Vicky, eu também lamento muito, muito mesmo pelo que aconteceu com a Lavínia e torço de coração para que ela apareça sã e salva, mas eu não posso parar a minha vida por causa disso, pois agindo assim eu não ajudo em nada. E você deveria pensar como eu pra não acabar sendo consumida pelas tragédias alheias. — Manu olhou-a e esperou por uma resposta, mas Vicky nada disse.

A ruiva se ergueu sentindo mais raiva ainda, caminhou até à suíte do quarto, entrando e batendo com toda a força a porta na hora de fechá-la.

Após essa briguinha boba, elas quase não se falaram mais.

Manu acorda do devaneio e se reconecta ao momento atual ao escutar a voz de Vicky:

— Página 42! — Vicky alerta-a sobre a página de leitura sugerida pela professora.

— Hum? Ah! Tá certo. — bufa de tédio e cólera, abrindo o livro na página indicada, sem o menor interesse em ler.

⊱✥✥⊰

Notas finais
Talvez eu demore um pouquinho mais na postagem do novo capítulo, mas eu garanto que farei de tudo para não ser um tempo muito logo. Beijinhos pessoas queridas!