[HIATUS] Mudanças impuras
38 Conversa séria com efeito indesejado
Notas iniciais
Fábio e Vicky, mais uma vez, conversam com intenção de ele lhe repassar novas dicas para ela reconquistar Manu. Até que Vicky dá-se conta de que já é mais de meio-dia e que as meninas, na república, devem estar aborrecidas, inclusive Manu, que certamente, chateada, foi-se embora da faculdade, de novo, sem esperar pela sua companhia para voltar para casa. Vicky não perde mais tempo, despede-se do primo, sempre agradecendo muito por sua ajuda, e se põe no rumo da república. Quando adentra por ela, põe o seu material escolar sobre o sofá, local provisório, e vai direto à cozinha para fazer os preparativos necessários ao almoço e, para seu alívio, percebe que não está tão tarde assim, daria para preparar a refeição de todas, sem muita agonia. Nota que as garotas estão acomodadas nos quartos, ou seja, ainda nem vieram em busca de comida. Louise e Lavínia, encontram-se no quarto, que antes dividiam costumeiramente, trocando segredos, como sempre, e Manu, no cômodo que sempre dorme. Deste modo, Vicky sente-se alegre e disposta. Inicia uma cantoria, em tom baixo, referente à canção Innocence, de Deborah Blando.
— Ooh-ooh-ooh... Who's gonna fight for innocence. When we're Always denying the proof? Ooh-ooh-ooh... Who's gonna fight for justice, when we wash our hands of truth? — Sua voz sai meiga, cheia de regozijo. Canta e se movimenta pela cozinha como uma dançarina ritmada pela própria voz, sem se dar conta que é observada por Manu, que chegou de mansinho, está agora de olhos fixos e admirados por causa da súbita alegria da morena.
— Ué... Você voltou pra cá? Pensei que iria almoçar com o seu primo, no refeitório da faculdade... ou onde ele quisesse te levar. — A ruiva diz as palavras dotadas de sarcasmo e cólera, assustando um pouco Vicky. Manu já está banhada e com uma roupa diferente da que foi à faculdade. Traja blusa cinza com slogan da banda de rock The Rolling Stones, em letras vermelhas, short jeans-branco e chinelas. Tem os braços cruzados e permanece encostada na soleira da porta, olhando para Vicky, com ar de aporrinhação.
— Pois como você mesma pode ver, Manu, estou aqui e terminando de preparar o nosso almoço... como sempre faço. — Surpreendentemente, Vicky responde, tranquila, voltando ao preparativo da refeição, enquanto exibe um leve semblante risonho.
Manu desencosta-se da porta e se aproxima um pouco mais dela, sempre a olhando.
— O que deu em você? Está diferente. — solta, comprimindo os olhos, desconfiada.
— Diferente? Como assim diferente? — Vicky faz questão de mostrar-se desentendida e sorri, pelos cantos dos lábios.
— Está com um sorriso idiota na cara. — arremata Manu, com voz de despeito.
— Manu... Quer dizer que você prefere me ver triste? Não gosta de me ver sorrindo? — Vicky questiona, fingindo expressão de susto. Ela põe a enorme colher que está em sua mão sobre um canto da pia, gesto que indica o fim do preparo do almoço e encara a ruiva, adorando vê-la meio indecisa quanto à réplica a lhe dar.
— Não é nada disso! Acontece que sei muito bem que este seu sorrisinho aí tem a ver com o Fábio.... — desabafa e percebe logo a mancada que deu. Tenta remendar ao dizer: — Mas eu não me importo! Por mim você pode ser hétero agora, se quiser. Pode namorar aquele atrevido e até casar com ele. Você é livre... e o que faz com sua vida agora não me diz respeito.
— Tem razão apenas numa dessas coisas que você falou. A minha alegria tem, sim, tudo a ver com o meu primo. O resto das suas acusações são falsas... Eu e o Fábio estamos somente começando uma boa amizade. Você é quem está vendo malícia onde não existe. Quanto a isso, eu não posso fazer nada. — é firme e consegue deixar a ruiva um tanto pasma e mais confusa que antes.
A verdade é que Vicky não irá dizer que Fábio é gay, por enquanto está seguindo a dica de suscitar dúvidas na mente de Manu, com relação ao tipo de amizade que está surgindo entre ela e o seu primo. O objetivo, neste ponto, é confundir mesmo e provocar os sentimentos de ciúmes da ruiva.
— Olha... Se você estiver com fome, pode se servir. O almoço está pronto. Eu vou tomar um delicioso banho, pois estou muito suada... e logo venho almoçar também. — Assim determinado, Vicky passa por Manu, tornando à sua cantoria em tom baixo, deixando-a boquiaberta. Manu permanece em pé, no meio da cozinha, achando tudo muito estranho. “O que está acontecendo entre ela e o primo? Será que ela descobriu que também gosta de homem?”, agonia-se mais. Ela não sabe se aprecia esta nova Vicky, pois o ciúme fala mais alto que a graça de vê-la feliz e sem nenhum sintoma de depressão.
Vicky vai ao quarto onde tem passado as noites. Abre a porta. Encontra Lavínia e Louise sentadas na cama desta última, dialogando, em tom baixinho, palavras que ela não consegue compreender e pelas quais não tem interesse, no momento.
— Oi, amigas! — cumprimenta-as com voz festiva, causando outro impacto, só que agora positivo, nas garotas.
— Gente! Que milagre houve com você, Vicky... Nem dá pra te reconhecer com essa expressão de pura alegria. Que coisa boa te ver assim! Você está linda e até parece que há mais cor no seu rosto. — Lavínia é a primeira a mostrar como está contente em notar a mudança benéfica da morena.
— Vicky! Você e a Manu fizeram as pazes? É por isso que está feliz desse jeito? — Louise especula as justificativas da metamorfose que observa em Vicky.
— Ainda não... Mas acredito que faremos, em breve. Eu resolvi que vou reconquistar a Manu. Por isso, peço a vocês duas, que não estranhem o meu comportamento porque a Vicky que vocês veem agora é outra e aquela depressiva de antes morreu, eu a matei, para sempre. — abre um belo e largo sorriso, fazendo com que Lavínia e Louise levantem-se da cama e a abracem, com gosto.
— Que bom, amiga! Isso é ótimo! — Lavínia fala, sorrindo e apertando a morena, neste abraço triplo.
— Agora botei fé em você, Vicky. Parabéns e boa sorte com essa ruiva dos infernos... Espero que tenha sucesso e no que precisar de ajuda, é só pedir. — Louise prova, sem demora, o quanto quer que as ex-namoradas voltem a se entender.
— É isso aí, amiga. Conte também comigo. — A loira igualmente se mostra solícita.
— Ah! Como vocês são lindas. Fico feliz em saber que tenho cúmplices tão eficientes. Com vocês me apoiando, a Manu está no papo. — Vicky conclui, risonha.
Todas riem muito e concordam que Manu precisará ser bastante determinada, se não quiser prender-se outra vez aos encantos de Vicky.
Louise e Lavínia vão em busca de almoço e Vicky vai tomar o seu banho relaxante, no intuito de também ir comer, em seguida. Minutos depois, Louise e Lavínia, vão para a faculdade, deixando as ex-amantes à mercê da presença uma da outra. Porém, Manu tranca-se no quarto e a morena fica na sala, assistindo à programação da TV, debruçada no sofá e à espera de um bom momento para agir. Este momento chega quando a ruiva passa pela sala, indo na direção da cozinha. Enquanto Vicky segue os seus passos, já vai imaginando como deve abordá-la, a fim de empreender uma aproximação adequada e vantajosa. Na cozinha, ela vê Manu de costas, rente à geladeira aberta, com uma das mãos postas lá dentro e a outra apoiada na porta.
A ruiva está distraída e nem percebe a sua chegada.
— Está com fome de novo? Não almoçou direito? Olha, Manu, se você quiser, eu te preparo um lanche rapidinho... Assim, você fica com o estômago forrado para ir trabalhar mais disposta. — A voz de Vicky surge, de repente, aos ouvidos de Manu, que se assusta um pouco, enquanto para de mexer por dentro da geladeira para lhe olhar. Vicky está com o mesmo sorriso amplo.
— Não precisa se preocupar com isso, Vicky. Eu vim, sim, procurar algo pra lanchar.... já que não consegui comer bem no almoço. Pode deixar que eu mesma faço. Mas valeu por se oferecer. — A ruiva tenta ser educada e não demonstrar a inquietação que ainda persiste em lhe atormentar.
Vicky, então se lembra das palavras de Fábio dizendo-lhe que deveria ser o tipo insistente, mas com o cuidado de não exagerar e acabar humilhando-se ou se rebaixando demais.
— Ok. Se não quer que eu te ajude, tudo bem. Eu estarei na sala. Caso mude de ideia, pode me chamar. — diz com calma.
— Uhum. — Manu esboça uma resposta positiva, ao passo que lança um olhar de viés para Vicky.
Então, a morena respira fundo e volta para a sala. Minutos depois, Manu vem ao seu encontro e se senta no outro sofá. Em sua mão está o seu grande copo verde, contendo uma vitamina de bananas com cereais.
— Manu, mais tarde eu vou combinar o que sobrou do almoço e fazer uma sopa. A Lavínia e a Louise gostam... e eu sei que você adora. Assim, quando chegar da lanchonete, terá uma sopa gostosa e quentinha te esperando. — Vicky solta, bem humorada.
— Hum... Tá certo. E o que você está assistindo aí? — Manu acena positivamente e desvia os olhos para a tela da televisão. A sua desconfiança ainda está presente, mas tamanha simpatia de Vicky já começa a lhe induzir a ser mais gentil.
— É um filme de suspense, misturado com romance e comédia. Parece bom... Começou agora. Assista comigo, pelo menos até chegar a hora de você ir pra lanchonete. — faz a propaganda do tal filme, com voz de convite, meiga.
— Está bem... Mas, só um pouco, porque o tempo passa rápido e já eu terei que me arrumar e ir mesmo.
Dessa forma, elas ficam num clima razoavelmente amistoso e calmo, assistindo ao filme e, de vez em quando, soltando algum comentário sobre uma cena interessante. No entanto, nem Manu nem Vicky tomam qualquer atitude a mais. Nenhuma das duas avança o sinal. A ruiva, porque tem receio de encarar os gestos de Vicky como uma verdadeira possibilidade de reconciliação e a morena, pois quer agir com cautela e precisão, em cada etapa desta reconquista. O tempo perpassa e Manu, então, vai aprontar-se para ir ao seu trabalho, deixando a morena no mesmo lugar, no sofá, com um sorriso maior ainda no rosto, pois já imagina o susto que a ruiva irá levar, quando voltar da lanchonete e souber o que a aguarda, além da sopa quente.
[...]
Na residência da Família Venâncio, Dayse também está quase de saída para ir ao seu trabalho na Lanchonete do Raul. Está apropriadamente fardada e com a sua bolsa colocada sobre os ombros. Sai do quarto e caminha para a sala, onde encontra os seus pais. Dona Helen está sentada numa velha poltrona, com um rolo de lã por cima das pernas, enquanto tricota uma jaqueta. O senhor Augusto encontra-se no sofá, assistindo a um jogo de futebol e parece concentrado, torcendo para um dos times.
— Já está indo, filha? — Dona Helen pergunta, em tom afetuoso, interrompendo o seu tricô.
— Já sim, mãezinha... Por quê? — Dayse questiona, igualmente dócil.
— Porque eu e seu pai temos algo a lhe dizer. — A senhora completa, lançando os olhos sobre o seu marido e esperando que ele continue a conversa.
— Pois digam... Estou ouvindo. — Ela se aproxima mais deles.
— Bem, filha, eu e sua mãe decidimos deixar o carro com você, definitivamente... pois sabemos que é ruim depender de ônibus para ir e vir do trabalho. E eu sei que você não quer mais que eu vá buscá-la, na saída... quer ser independente e aproveitar este momento para namorar, coisa normal em sua idade. — O pai fala, expressando-se de modo sensato e gentil.
— Mas, paizinho... O carro é de vocês. E eu sei que ele é útil de várias formas. Como posso deixá-los sem esse meio de transporte? — Dayse fica feliz, mas, diante do que pensa, acha melhor recusar o presente.
— Não se preocupe com isso, Dayse... Eu já estou velho e não me sinto tão capaz quanto antes para dirigir. Eu e a sua mãe queremos que você dirija para nós, quando puder e, quando não for possível, nós contrataremos os serviços de um táxi... Isso será melhor do que eu bater o carro, qualquer dia desses, por não enxergar mais direito. — O senhor Augusto ri.
— Mas... Pai... — Ela não tem como refutar o que ele diz, por isso apenas o olha com doçura, ao passo que sorri, carinhosa.
— Sem essa de “mas pai”. Está decidido. O carro agora é seu. — conclui e dona Helen concorda, acenando com a cabeça.
— Bom... Se é assim. Eu aceito. Obrigada, pai... Obrigada, mãe. — abraça um e depois o outro, grata e emocionada, enquanto recebe a chave em suas mãos.
O momento de afeto da família Venâncio é interrompido pela campainha, que toca, anunciando que há uma visita à porta. Dayse vai ver quem é.
— Aline? — espanta-se, ao notar a bela gêmea diante de si.
— Oi, Dayse... A gente pode conversar? — Ela questiona, já prevendo a resposta que receberia, pois sabe que a outra trabalha e tem horário a cumprir.
— Aline, você sabe que está na hora de eu ir pra lanchonete... Então, se o que tem a dizer for rápido, eu até posso escutar.... Mas... — Dayse tenta ser o menos indelicada possível.
— E se a gente adiar esta conversa para quando você voltar do seu trabalho? — Aline semicerra os olhos e os fixa nela, com ar travesso.
— Você sabe que eu só volto pra casa depois das nove da noite, Aline... É um pouco tarde para conversarmos, não acha? — Dayse espera que Aline desista de querer conversar com ela.
— Não, eu não acho. Dayse, eu moro aqui do lado da sua casa. Posso muito bem vir pra cá e ficar te esperando... até você chegar. Pra mim não tem problema... Olha, eu quero muito conversar com você. — declara Aline, com voz suave e, ao mesmo tempo, decidida.
Dayse fica olhando para a gêmea, bolando uma nova desculpa para desobrigar-se desse diálogo, que lhe parece ter um fundo nada confortável.
— Aline... É que... — Não se lembra de nenhum bom argumento.
— Ótimo! Então estamos combinadas... Quando voltar, eu estarei à sua espera, não importa o tempo que leve para você chegar. — Aline desconsidera a indecisão da outra em lhe dar uma resposta positiva e arremata, com voz alegre, de boa jogadora. A gêmea de Chris pensou, antes, em usar o seu irmão para intermediar essa conversa, mas ponderou melhor e notou que não seria necessário envolvê-lo, neste primeiro momento. Resolveu, portanto, que só o usará quando não tiver outro recurso apelativo.
Dessa forma, Dayse não consegue rejeitar o intrigante diálogo que terá, mais tarde, com esta garota que foi sua grande paixão no passado e que ainda lhe causa frissons no estômago, de forma involuntária.
— Ok, Aline. Se quer tanto assim ter uma conversa comigo, você terá... Só espero que não seja sobre o que eu estou pensando que é... porque se for, você somente irá gastar o seu tempo e o meu. — Dayse insinua que não tenciona ceder a um pedido de reconciliação, caso este seja o objetivo da gêmea.
— Eu nunca gastaria o seu precioso tempo, se achasse que não iria valer a pena. — rebate Aline, sutil e traquina.
Dayse anuncia que precisa ir. Elas se despedem, tendo acertado a conversa posterior. Assim, Dayse também se despede dos pais e vai ao carro, que agora é seu. Entra e parte rumo à lanchonete, para cumprir mais um dia de trabalho, deixando Aline, esperançosa, apesar do enfado que captou em suas palavras.
[...]
Na Faculdade, é finzinho de tarde e o sol quase se esconde por trás do horizonte. Os seus raios já não são tão quentes, ao contrário, permitem que o ar fresco e agradável venha para substitui-lo. O azul de seus belos olhos parece adquirir um tom meio acinzentado, à medida que os semicerra e os lança em olhares cobiçosos para toda a parte, com extrema atenção ao movimento daquele ambiente estudantil. Henry está com o sua mini van cinza-escura estacionada nas proximidades dali, em um local onde ele sabe que é melhor posicionado para um possível avistamento de Lavínia. Após intermináveis minutos de espera, exibe-se, em seu campo de visão, ela, Pietro, Louise e Dico, todos vão para o quiosque-lanchonete que têm o hábito de frequentar, a fim de obterem um lanche rápido, ficarem de bate-papo, curtindo a companhia uns dos outros. Os jovens parecem bem humorados, conversando e rindo. Sentam-se à frente de uma mesa, do quiosque, continuam sua conversação acalorada, sem ter noção de que são espionados. Henry tira tragos de um cigarro, ao passo que analisa cada movimento feito por Lavínia e por quem a rodeia. Ele não demora em ficar encolerizado, especialmente ao ver o braço de Pietro alojado sobre os ombros dela. Sente o ciúme achegar-se, mas se controla ao máximo. “Aproveite enquanto pode, seu idiota!”, amargo, vê o rapaz sorrir para a loira, que lhe retorna com outra expressão de contentamento. “O que pensa que está fazendo, Lavínia? Até quando vai iludir esse coitado?”, experimenta raiva por ela. Começa a nutrir uma espécie de implicância pela própria Lavínia, sobretudo pelo fato de ela não permitir que ele se aproxime dela, para que possa ter a chance de argumentar a seu favor, para entender que ele compreende a situação de uma forma diferente. Com efeito, para Henry, eles poderiam, sim, vencer qualquer obstáculo ideológico, de convenção social ou de base religiosa, para ficarem juntos e serem felizes. Entretanto, é como se ela o condenasse à separação, sem que tenha ao menos o benefício de algum crédito, como se fosse o único vilão da história. “É assim que você me enxerga, não é? Como o monstro que vai te fazer sofrer dores terríveis... Pois, que assim seja, meu amor. Eu vou te mostrar que posso ser pior do que você pensa”, larga-se à fúria que se apossa dele e o faz querer agir como um homem realmente perverso. Enquanto vai fazendo emergir sua personalidade de sujeito mísero, seu estado emocional piora quando flagra Pietro depositar nos lábios de Lavínia um beijo suave e demorado. Não suportando contemplar esta cena, desvia os olhos e os comprime com força, praguejando internamente. Liga o motor do carro e parte apressadamente, cantando pneus, ciente de não ser esta a ocasião para aproximar-se dela.
Os casais de jovens, por sua vez, mostram-se felizes e despreocupados. Lavínia tem a boa oportunidade de fazer a apresentação de Pietro à sua melhor amiga, Louise, e ao namorado dela, Dico. A amizade dá-se de forma instantânea e, sem demora, a conversa flui naturalmente. Depressa, Louise aprova o namorado de Lavínia. Acha Pietro um rapaz alegre, tranquilo e gentil. Contudo, o que ela mais gosta no moço é de observá-lo muito cortês e carinhoso com sua amiga. “Pietro pode ser o bálsamo que a Vivi está precisando. Tomara que ela possa vir a amá-lo de verdade... para esquecer aquele sujeitinho, que o que tem de lindo tem de perigoso. Aquele, sim, pode ser a ruína da vida dela!” Louise reflete, enquanto vê Lavínia corresponder ao novo beijo afetuoso que o rapaz de olhos verdes lhe dá. Em sua opinião, porém, Lavínia não conseguirá livrar-se simplesmente dos anseios que a oprimem, no que se refere ao rico e belo empresário, Henry Sorelle, pois sabe que lhe marcou a ferro na pele e que, com certeza, espera uma nova chance para tê-la sob seus domínios, sem se importar com o fato de eles serem irmãos, uma vez que, se assim não fosse, nunca a teria induzido a envolver-se com ele da forma como fez, levando-a a se entregar sexualmente, mesmo ciente do parentesco existente entre eles.
Lavínia sente-se agora bastante reconfortada, tendo o apoio de Louise e de Dico para seguir em frente, em sua relação amorosa com Pietro.
Depois de algum diálogo ameno, os lanches são trazidos à mesa deles. Contudo, antes mesmo de provar o seu suco de frutas e o seu sanduíche, Dico escuta o som do celular anunciando uma nova mensagem na caixa de entrada. Ao ler o que está escrito, ele perde completamente a fome e fica com uma expressão muito séria.
— O que foi, Dico... Você se arrependeu do lanche que pediu? Não gostou? — Louise nota a expressão de desagrado do moreno.
— Não. Eu perdi a fome por isso. — dizendo tais palavras, ele a chama para mais perto, a fim de que possa ler o que está escrito na mensagem que veio através do celular de Míriam.
“Venha aqui em casa, hoje à noite, meu querido. Precisamos conversar. Sei que podemos nos entender outra vez. Te espero. Um gostoso beijo... na boca”.
— Oh! Meu Deus! Essa menina é maluca mesmo! Depois da palhaçada que ela fez, ainda te envia uma mensagem toda cheia de insinuações... Que absurdo! — Louise solta, com uma pontinha de ciúmes querendo corroer-lhe a alma.
— Aposto como ela e os pais tiveram a tal conversa séria... e ela deve ter percebido que não vale a pena querer me impedir de ver o Rubinho, que isso será pior, pois ficará sem ter como me atrair. Dessa forma, ela prefere me ter por perto mesmo. Essa louca! — Dico fala francamente o que pensa, em tom baixo, só para Louise.
— E o que será que ela acha que vocês ainda precisam conversar? — Louise investiga a situação.
— Espero que seja sobre o divórcio... porque, além do meu filho, não sobra muito assunto entre mim e ela. — Ele sorri, macarrônico.
— Então... Você vai se encontrar com ela? — pergunta Louise, sentindo a garganta ficar um pouco seca.
— Acha que eu não devo ir, Louise? Mas, de qualquer forma, eu tenho que conversar com ela... Não adianta fugir do inevitável. Eu tenho que encará-la e fazê-la ver que a separação amigável é a melhor saída para nós... que temos um filho para alimentar, educar e servir de exemplo. — A estas considerações de Dico, Louise anui prontamente.
— Ela está morando na casa dos pais dela... ou não? — Louise quer conferir se o moreno e a esposa ficarão a sós ou acompanhados.
— Bom, na verdade, ela continua morando na mesma casa de quando estávamos juntos, ou seja, na casa que fica ao lado da dos pais dela... Então, tecnicamente... eles ainda são os vizinhos dela. — explica, serenamente.
— Hum... Tô entendendo. — Louise ergue as sobrancelhas, acena positivamente e aperta os lábios, numa expressão pensativa.
— O engraçado é que seria mesmo mais adequado que ela e o Rubinho morassem com os Fonseca... pois são eles que bancam todas as despesas financeiras e os caprichos da filha... Mas a Míriam não se importa de ser um gasto desnecessário aos pais. E eles acabam aceitando essa exploração tola. Eu sinceramente acho que são todos uns bocós! — Dico solta um riso cômico, o que faz Louise rir também.
— Você acha que ela vai aceitar entrar num acordo quanto à separação? Pra mim, ela só está pensando em se jogar nos seus braços, assim que você chegar lá. Ela é capaz até de te amarrar na cama e te obrigar a ficar com ela, de qualquer jeito... Eu não confio nessa mulher, Dico. Não sei se é bom negócio você ir lá, na casa dela. — Louise argumenta, tentando não transparecer o ciúme enorme que está sentindo.
— Então, vamos nós dois... Você vem comigo. — O moreno arremata, calmo e seguro.
— Eu? Ir com você, na casa dessa mulher? Tem certeza que quer isso, Dico? Ela vai pirar quando me vir... porque, com certeza, ela acredita que você irá só. — Os olhos de Louise adquirem, rápido, um brilho vivo, de excitação repentina.
Dico alcança uma das mãos de Louise e prende os dedos dela aos seus, olhando-a carinhosamente.
— Você é minha namorada, Louise, e faz parte da minha vida, assim como o meu filho... A Míriam terá que aceitar isso, em algum momento... Então que seja agora! Talvez isso até a faça ver que o nosso casamento não existe mais de verdade, que não adianta insistir com isso... e passemos a ser unicamente os pais do Rubinho... — Dico é impedido de continuar falando, pois Louise o beija subitamente, fazendo-o rir entre os lábios dela. Ela está radiante e plena de felicidade, pois gosta de saber que Dico a quer por perto sempre, em qualquer situação, mesmo sendo um contexto que provavelmente trará só desgosto e dor de cabeça, inclusive para o próprio moreno.
Dessa forma, eles acertam o horário no qual Dico irá passar na república das garotas para buscá-la, no intuito de que ela o acompanhe em visita à casa de Míriam, onde poderão também aliviar a saudade do pequeno Rubinho.
À noite, na hora acertada, Dico surge na república e Louise já está pronta para levá-lo de volta ao veículo, a fim de partirem rumo ao destino que os aguarda, inevitavelmente. A corrida com o Fiat vermelho não leva nem vinte minutos e logo eles entram pelo sofisticado bairro onde Míriam reside com Rubinho, tendo os pais dela como financiadores monetários e seus vizinhos. No mesmo instante em que a esposa de Dico abre a porta, para atender ao chamado da campainha, ela fecha o cenho e se mostra furiosa.
— Dico! Como ousa trazer a sua amante na nossa casa? Como pode fazer isso comigo? — bufando de raiva, Míriam lança a questão para Dico, olhando de viés para Louise, com vontade de gritar que a puta vá-se embora imediatamente. Ela sente as têmporas pulsar pela imensa frustração, porque havia preparado tudo para que este encontro fosse perfeito. Planejou cada detalhe na esperança de que o moreno fosse atraído para uma armadinha sexual, na qual eles se reconciliariam, de uma vez por todas. Traja vestido azul escuro muito curto, sandália bege, com salto alto, brincos com brilhantes enormes e, nos cabelos aloirados, presilhas prateadas. Mas, a despeito da produção caprichada, a beleza das vestes, neste momento, contraria sua expressão de plena cólera.
— Tenha calma, Míriam, e escute o que vou dizer... Louise não é minha amante e sim minha namorada. E depois, eu não fiz nada com você, apenas a trouxe comigo, porque não vi problema algum nisso. Mas, se você quiser, nós vamos embora... assim que eu der pelo menos um abraço no meu filho. — Dico é firme e deixa a sua esposa em estado de pasmo e dúvida quanto ao que fazer. Entretanto o próprio Rubinho surge em cena para desempatar o zero a zero, pois, ao avistar o pai parado na frente da porta, passa direto pela mãe e se joga nos braços do moreno, com um largo sorriso no rosto infantil.
— Pai... Você veio me ver! Você veio! Oba! — A voz festiva do menino deixa todos um tanto acabrunhados e sem atitude, por uns segundos.
— Sim, filhão, eu e a minha amiga viemos visitar você... Você ainda se lembra da tia Louise, não lembra? — O pai fala, com voz afetuosa.
O pequeno olha para a tia Lúze e depois para a mãe dele, com ar de quem pede permissão para ser gentil com a amiga do pai. Míriam nada diz, não exprime sentimento algum. Aliás, os sentimentos acres que há dentro dela, em razão de ser uma garota medrosa, estão resguardados para serem soltos em ocasiões onde o controle de si já não comanda suas ações. Portanto, um tipo de inércia domina Míriam, que, milagrosamente, contém os gestos de incômodo. Já Louise, sente-se agoniada, olhando para o pequeno e sentindo vontade afagá-lo, mas com receio de provocar um conflito sério com a outra, mas tão-só por conta da presença do inocente. Mas, como Míriam permanece muda e com olhar enigmático, Dico faz questão de fazer o menino dar um abraço na namorada, em frente à esposa. Louise acolhe a criança entre os braços e lhe dá um beijo na face corada, contente por ver que ele não está tão envenenado contra ela, como imaginou que estaria. Neste meio tempo, Dico olha para Míriam, com súplica, pedindo silenciosamente que ela não se exaspere.
— Míriam, já que eu estou aqui, nós podemos agir como pessoas civilizadas, pois você sabe que temos assuntos para resolver entre nós... Não acha que é melhor você nos deixar entrar para que possamos conversar? — sugere, diplomático.
— Mas você mesmo acabou de dizer que o assunto que temos a tratar é entre nós dois... Ela não tem nada a ver isso... e não deveria participar da nossa conversa. — Míriam anuncia, enviando olhares de despeito e zanga para Louise, que ainda tem a criança perto de si.
— Eu não pretendo atrapalhar conversa alguma... Sei que se trata de um assunto a ser resolvido entre vocês. — Louise também quer mostrar-se pacificadora, neste momento.
— Bom... Enquanto conversamos, a Louise pode ficar no quarto do Rubinho, com ele... — Dico fala, olhando para Míriam e depois ele se agacha à altura dos olhos do filho e lhe sorri, meigo. — Filhão, leve a tia Louise para o seu quarto e lhe mostre todos os seus brinquedos. Eu e sua mãe ficaremos na sala conversando, ok?
Não distinguindo uma opção melhor, Míriam é obrigada a aceitar o que o moreno propõe. Deste modo, Louise é levada pela mãozinha firme de Rubinho até o seu quarto, deixando sua mãe e seu pai sentados no sofá da sala, a poucos metros de uma mesa completamente ornada com arranjos românticos e uma comida exclusiva que se encontra a esfriar, rejeitada.
— Olha este, tia Lúze... Tem luz que acende e pisca... É bom demais! — Rubinho exibe mais um dos múltiplos carrinhos de brinquedo que ele possui em seu quarto. O menino está imensamente alegre por poder mostrar seus brinquedos para a amiga do pai, porquanto, de um modo geral, é um miúdo um tanto solitário. Os únicos amigos que Rubinho tem são seus coleguinhas de escola e os primos, que vê raras vezes. E sua mãe, Míriam, não gosta de brincar com ele, quase nunca. Assim, para ele, ter alguém que lhe encha de afeto e atenção é algo maravilhoso. E Louise pressente esta carência que emana dele e se vê repleta de empatia por esta criança. Ela sente como que transportada ao seu próprio passado, quando era uma menina revoltada e necessitada de afeto, achando que os pais não a amavam e, sim, apenas ao seu irmão, Hugo, razão por que sempre se sentiu uma menina solitária. Contudo, Louise não quer ficar recordando fatos lúgubres do passado, por isso ela balança a cabeça e volta à realidade que a cerca nesta ocasião.
— Rubinho, que carro mais lindo! Quem te deu ele? — dá mostras de admiração e abre um largo sorriso, ao passo que recebe em suas mãos o automóvel de brinquedo.
— Foi meu pai quem me deu! Ele me deu também o Homem-Aranha e o Homem-de-Ferro... Meu pai é demais! — anuncia Rubinho, com voz exultante. Enquanto apresenta mais brinquedos, ele usa, como faz a maioria das crianças, a sua mais atual palavra repetitiva: demais.
Louise e Rubinho permanecem, então, sentados no piso do cômodo em que o garoto dorme. Eles ficam a brincar e a conversar sobre assuntos que interessam ao menino, dando ênfase aos brinquedos, à escola e os amigos de lá. De repente, quando Rubinho move-se para fazer os movimentos dos bonecos-lutadores, o short que ele veste sobe um pouco e expõe um arroxeado em sua perna.
— Rubinho, que machucado é esse na sua perna? Deixa eu ver, meu pequeno... — Louise olha o arroxeado, desconfiada.
A reação do menino é de apreensão, ele puxa o short e cobre o machucado, não deixando que ela continue vendo.
— Eu caí, tia... e machuquei... Tia, olha! O Homem-Aranha vai bater no Homem-de-Ferro... Pow! — Rubinho explica rapidamente sobre o arroxeado e logo desvia do assunto para uma pequena luta hostil entre os brinquedos-heróis.
Louise não se dá por vencida. Ela quer esclarecer a dúvida que agora está a martelar em sua mente.
— Rubinho, não vou mais brincar... até você me mostrar todos os seus machucados. — declara, firme e dócil, simultaneamente. Louise cruza os braços e faz expressão de birra, quase infantil, a fim de que ele perceba que ela é confiável, como mais uma coleguinha em quem deve acreditar. O garoto olha para a tia com vontade de convencê-la a continuar brincando com ele, mas, ao mesmo tempo, receoso de mencionar algo que o complique com sua mãe.
— Tia... — esboça o nome dela e para de movimentar os bonecos-heróis, irrequieto e duvidoso.
Louise não espera mais por nada. Ela se aproxima dele e começa a levantar o short, vendo que os arroxeados estendem-se até perto da virilha do garoto, uns mais roxos que os outros. Em seguida, ela começa a levantar a pequena blusa e Rubinho dá início a um choro, desconfortável.
— Para, tia... A mamãe vai brigar comigo... Solta minha blusa! Não! — Rubinho reclama, chorando e tentando afastar-se das mãos de Louise, que ergue a blusa dele e a tira, por cima dos braços, mesmo contra a sua vontade.
Quando ela vê o menino desnudo da cintura para cima, põe a mão sobre a boca para não gritar de pânico, pois o que encontra é uma visão feia. Há arroxeados espalhados pela barriga e tórax, que se mostram mais nítidos em contraste com a pele infantil, macia e pálida. Louise não pensa duas vezes. Pega o menino no colo, apesar de ele se debater e chorar demais, e caminha com ele nos braços à sala, indo ao encontro dos pais da criança. O rosto de Louise agora é uma caraça de puro ódio.
No momento em que Dico avista Louise vindo em sua direção, ele nada entende, ainda mais porque observa que Rubinho chora muito. Míriam, por seu lado, ao notá-la com o menino nos braços e chorando, levanta-se e a encara, ficando logo brava.
— Por que o Rubinho está chorando? O que você fez com o meu filho? — questiona Míriam, com voz estridente e antipática.
A resposta para as perguntas de Míriam é dada prontamente pela ação de Louise, que põe o menino no colo de Dico e dá uma bofetada certeira no meio do rosto da outra, fazendo-a tombar para trás e cair sentada no sofá novamente.
— Sua ordinária! Desalmada! Louca infeliz! — Louise expulsa as palavras agressivas, arrostando Míriam, sem desviar os olhos, irada.
— Louise, o que está fazendo? Por que está agindo assim? — Enquanto ele vê Míriam assustada, com a mão na face vermelha e de olhos lacrimosos, pensa que sua namorada está tendo um surto por ciúmes. Dico não consegue enxergar outra explicação.
— Por quê? Você me pergunta o porquê? Dico, olhe para o seu filho! Veja como ele está! Você, por acaso, é cego? — Louise, exasperada, aponta para os arroxeados, no corpo infantil. Então, Dico finalmente olha para a criança e, à medida que nota os roxos, vai ficando desesperado e confuso. Ele move o corpo infantil de um a outro lado, observando tudo e se sentindo deprimido.
— Míriam... O que são esses roxos no corpo do Rubinho? — Ele olha diretamente nos olhos de sua esposa, exigente.
— E-Ele... caiu... no playground e ficou assim.... Foi isso! — A voz vacilante de Míriam não convence ninguém.
Não se contendo por tamanha raiva, Louise dá mais bofetadas na garota, com vontade de matá-la. E ela só para de bater nela porque escuta o choro convulsivo da criança, pois nem mesmo Dico conseguiu interpelar sua atitude furiosa e terminou levando um empurrão, ficando mesmo sem saber o que fazer.
— Mentirosa! Você fez isso nele! Foi você! Pensa que eu não conheço o seu tipo de gente? Sua mesquinha... Covarde! Mas, pro seu azar eu já trabalhei num hospital e sei muito bem a diferença entre um machucado por queda e o que é provocado por agressão física. Por isso, não perca seu tempo jogando mentiras em cima de mim... Comigo você se ferrou, garota! — Louise é violenta e confiante em suas palavras. Louise, porém, jamais revelará a Dico que transou com uma boa parte do quadro masculino de funcionários deste mesmo hospital onde trabalhou, incluindo médicos e enfermeiros. Ela introduz a mão em sua bolsa, presa pela alça em seus ombros, e de lá retira o seu celular.
— Louise, o que é que você vai fazer? — Dico pergunta, sentindo o chão se abrir sob seus pés, ao passo que vê Míriam assombrada, descabelada, com as faces vermelhas, e seu filho em prantos.
— Segura o menino, Dico, porque eu vou tirar umas fotos dos roxos dele.... Isso é a prova da agressão física que ele sofreu. — dizendo isto Louise começa a capturar as imagens do corpo da criança, através do celular.
— Ah! Sua vadia ordinária! Você quer destruir a minha vida! Já não basta levar o meu homem, agora quer o meu filho! Eu vou te matar! — Míriam perde a noção de tudo. Ela praticamente voa na direção da mão de Louise, querendo tomar-lhe o celular, com a intenção de quebrá-lo. No entanto, Louise é mais rápida, e mais forte, e além de não deixar Míriam tocar no aparelho, ainda lhe dá outro tabefe, empurrando-a para trás. Míriam acaba caindo mesmo, ela só não topa com a cabeça no piso frio porque se sustenta a tempo de isso acontecer. Ela senta no chão e desanda a chorar, em total consternação e remorso.
— Por favor... Eu sei que parece horrível, vendo o meu filho assim... Mas eu juro! Eu juro que nunca pensei que uma simples surra fosse fazer ele ficar todo roxo desse jeito. Eu só estava com raiva dele, porque ele brigou com um coleguinha na escola. Ele bateu muito no outro menino... A mãe desse menino me infernizou tanto que eu perdi o controle e bati demais nele. — Míriam fala, sem parar de chorar um instante. Por fim, ela revela que agrediu fisicamente o seu filho, por não suportar saber que ele brigou na escola.
— Você enlouqueceu de vez? Olha o que fez com o nosso filho, Míriam... Olha!!! — Dico segura delicada e firmemente o menino, enquanto este choraminga, fazendo com que a esposa veja o resultado de sua violência física, no frágil seu corpo.
Aos soluços, Míriam olha para o pequeno e fica com expressão mais aflita ainda.
— Ah! Meu Deus, o que eu fiz com o meu filho? O que eu fiz? — parece que só agora é que ela realmente cai em si afinal, e compreende a gravidade do seu ato impensado.
— Por mim, chega! Melhor deixarmos a nossa conversa para depois... Até porque agora envolve mais questões, que são tão importantes quanto o nosso divórcio, não é? — Dico fala em tom muito sério, olhando para Míriam.
— Sim. Eu entendo... Mas o Rubinho... Ele... — Míriam diz palavras sem muito nexo. Ela mostra que está muito afligida, ao passo que se levanta do chão, olhando fixamente para o menino e sentindo a culpa atormentá-la, de modo agonizante. De fato, Míriam, neste exato momento, entende que a atitude de violência contra o seu filho foi algo abominável, que não a deixará em paz, por um bom tempo. Ela sabe, no seu íntimo, que a razão de ter agido como agiu foi para descontar no inocente a frustração de não ser feliz como gostaria.
— Ele vem comigo... É lógico! Por hoje, ele dorme lá na república e depois eu vejo o que eu vou fazer. — Dico declara, ríspido.
— Não! Eu imploro, Dico! Não leve o meu filho para longe de mim! Oh! Meu Deus... Não! Não faça isso! — O lamento de Míriam é sonoro e penoso.
Rubinho, vendo a mãe chorar assim, também cai em prantos, novamente.
A cena triste é interpelada pelo toque da campainha, acompanhado de fortes batidas, à porta da frente. O próprio Dico vai atender, encontrando os pais de Míriam, que estão com mostras de espanto, pois ouviram, ao menos uma parte, do burburinho, vindo da cada da filha deles. Louise, nesse minuto, apenas observa tudo, chocada. Ela compreende e lastima que este drama tenha nascido a partir de um amor não retribuído.
— Nós podemos saber o que está acontecendo aqui? — O senhor Haroldo libera a pergunta, olhando para o interior da residência, atônito. Ele nem se dá ao trabalho de cumprimentar as visitas à casa de Míriam e já adentra pelo recinto, sendo seguido por sua mulher, dona Marina.
Míriam desconsidera a presença dos pais, uma vez que o que a interessa, nesta ocasião, é que Dico não leve seu filho para longe dela.
— Dico, pelo amor de Deus... deixe o meu filho aqui. Não o leve. Eu juro que nunca mais toco num fio de cabelo dele... Eu prometo! — une a duas mãos, em menção de promessa feita em prece.
Todos os olhares estão sobre Míriam, que parece encontrar-se em plena expiação. O moreno fica sem saber o que fazer, até que olha para Louise e esta lhe envia uma mensagem muda, para que ele atenda o pedido da outra, pois sabe que Míriam só tende a se desesperar cada vez mais, se ele insistir em levar o menino agora. Sabe que é preciso ter cautela, numa conjuntura caótica como esta. Assim, Dico concorda em permitir que o menino fique, com a condição de que a conversa entre ele e Míriam seja retomada posteriormente e acrescida de mais esta questão a ser solucionada. Ele e Louise despedem-se do garoto, sentindo seus corações se apertarem dentro do peito. Percebem que Rubinho está confuso, mas menos choroso, pois não estava gostando de ver sua mãe tão aflita, como viu, e se acalmou quando entendeu que os ânimos foram, aos poucos, perdendo força para dar lugar ao gradativo letargo pós-trauma.
Dico e Louise deixam a residência de Míriam sem dirigir muitas palavras a ela ou aos pais dela. E, no caminho de volta, a própria Louise fica um tanto muda, sem querer falar com Dico. Demonstra estar um pouco chateada com ele. Louise não consegue evitar a sensação de raiva que a domina, pois, para ela, é estranho que um pai não perceba quando o seu filho está sendo vítima de maus tratos físicos ou psicológicos. Logo, o clima entre eles fica instantaneamente meio sobrecarregado.
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