[HIATUS] Mudanças impuras

1 Aproveitando a oportunidade


Notas iniciais
Espero que esta primeira leitura os estimulem a querer saber mais sobre o que vai acontecer adiante neste enredo inusitado e cheio de reviravoltas. OBS.: Capítulo repostado. Agora devidamente betado por Estrela de Rubi, autora de "Vítima do Amor"

Olha pela janela e percebe que o céu já começa a escurecer. Pega a bolsa, abre, tira o celular. São sete horas e trinta minutos. “É hora de ir”, pensa. Afinal, estipulou que duas horas de leitura na biblioteca, após o fim das aulas normais do curso de artes, seriam suficientes para saciar a sua sede por narrativas, contos e poemas, preferencialmente os românticos.

Lavínia tenta a todo custo ser uma pessoa organizada e gosta de ditar horários para tudo em sua vida. Isto lhe dá uma sensação de tranquilidade, estabilidade e segurança, embora quase sempre não consiga, pois sua cabecinha sonhadora voa longe, traindo-a por vezes.

“Nossa, Vivi, deixa de querer ser tão certinha o tempo todo!” , lembra-se das palavras de repreensão que sua melhor amiga Louise, ou Lou, como gosta de chamar, sempre lhe diz quando quer criticar o que considera como manias negativas para uma vida socialmente saudável.

O telefone, ainda em suas mãos, começa a vibrar, tirando-a da divagação.

— Pai, espera só um pouquinho. — sussurra para não perturbar o silêncio exigido no local. Levanta-se e se direciona à porta de saída da biblioteca. Atravessa-a. — Agora pronto. Sim, podemos falar à vontade. Pai, que bom que ligou! — solta com voz alegre.

Para Lavínia, falar com o pai quase todos os dias, mesmo que só por telefone, é mesmo muito bom, pois simplesmente o adora.

— Não me venha com isso, pois sabe muito bem que estou é chateado com você. — Do outro lado, o senhor Gregory faz muxoxo, querendo reforçar a sua voz de indignação. — Você não veio mesmo, não é? Eu senti a sua falta e a sua mãe também. — completa, dando ênfase à segunda parte da frase.

— Sei... — Ela torce a boca achando irônico ouvir que sua mãe havia sentido a sua falta.

No sábado anterior, Darlene havia organizado uma festa para comemorar o próprio aniversário. Disse que seria um evento simples, contendo apenas uns poucos amigos, mas Lavínia, por conhecer a mãe bem até demais, não teve dificuldade em prever que não seria uma simples festa e sim acontecimento no qual estariam presentes os mais ricos da sociedade, incluindo jornalistas e colunistas prontos a capturar os melhores closes e informes da nata da sociedade, por isso não acreditou em nada dito por ela. Sua família é rica, mas de alguma forma não consegue se enquadrar neste universo, quase sempre fútil e desprovido de amizades duradouras ou verdadeiras. Todavia, ela crê que o seu não-enquadramento se deve, na realidade, a fatores que vão além, os quais nem ela mesma consegue compreender ao certo.

Um mês atrás, quando seu pai lhe contou sobre a festa a fim de que se sentisse previamente convocada a comparecer, inventou mil desculpas, que estava cheia de assuntos da faculdade para colocar em dia e que não andava se sentindo muito bem ultimamente, precisava de sossego. É lógico que o pai não desistiu de empreender várias formas de tentar convencê-la, até fez Darlene ligar para ela, recomendando que implorasse caso precisasse, no fim, nada adiantou.

— Perdão, paizinho. Eu disse que talvez não desse pra ir e não deu. — tenta impor verdade às palavras. — Mas nesse próximo sábado eu vou aí e ficarei com você, quero dizer, com vocês, o dia inteirinho. Eu juro!

— Fazer o quê? — fala o pai em tom mais ameno.

— Sabe que eu te amo, não é? Muito, muito. — completa.

Quando se despedem, Lavínia fica ali um tempo ainda. Sorri consigo mesma lembrando como seu pai é continuamente bom, paciente e generoso com ela, pois, embora passe mais tempo na firma de consultoria empresarial do que em casa, sempre dá um jeito de dedicar a ela um pouco de atenção, um momento que é só deles. Ao contrário de sua mãe, que é o justo oposto.

Lavínia detém o pensamento na mulher que, na verdade, lhe trata com evidente indiferença desde que se lembra. “Por quê?”. Esta é a pergunta que se faz há anos sem obter qualquer resposta satisfatória. Lembra-se de quando era apenas uma criança e das vezes em que sofreu bastante com suas agressões físicas e verbais. Não importava o quão bobo fosse o motivo, a impressão que tinha era que, para a sua mãe, tudo era uma oportunidade de atormentá-la, espezinha-la. Quando se tornou adolescente, cessaram as agressões físicas — beliscões, puxões, empurrões — e se intensificaram as verbais, que ganharam um ingrediente que classificou como sádico. Ela simplesmente adorava fazê-la sentir-se a menina mais magricela e sem graça do mundo.

“Sinceramente, Lavínia, você não sabe nem escolher uma roupa que preste. Vê se aprende. Que menina mais idiota!” Essas eram quase sempre as palavras que ouvia da mãe quando decidia aceitar o convite para participar da festinha de alguma colega.

[...]

Em algum ponto da biblioteca, a umas mesas e cadeiras de distância de onde Lavínia estava sentava há pouco, um homem observara todos os seus movimentos atentamente.

Ele cerra a livro que fingia ler, dá uma boa olhada ao seu redor, exibe um sorriso discreto de satisfação ao perceber que existem poucas pessoas no recinto e estas estão completamente voltadas para seus próprios mundos, absortas na leitura que fazem. “A oportunidade é perfeita!” Pensa ao ver a bolsa de Lavínia esquecida sobre a mesa. Levanta-se e se aproxima. Com a maior naturalidade, enfia a mão dentro da peça feminina, procura e acha a carteira. Não perde tempo, manuseia o artefato e mais uma vez sorri, pois tem agora em mãos o RG dela, que trata logo de coloca-lo no bolso da calça. Após, devolve a carteira para o local de onde tirou.

Volta, senta e espera.

Um minuto depois, Lavínia entra pela porta e junta seus pertences a fim de ir-se embora. Fecha o livro que havia deixado aberto, atentando-se em colocar o marca-texto na exata página em que parara a leitura. Direciona-se mais uma vez para a saída sem se dar conta de que é seguida.

— Ei, ei! Lavínia Albuquerque... Acho que deixou cair isso. — O homem anuncia, espontâneo.

Ela ouve a voz atrás de si, para e se vira no intuito de ver quem solicita sua atenção. Percebe um braço estendido à frente e em sua mão um objeto que, só olhando mais atentamente, identifica como sendo o seu RG.

— Mas... mas como? — indaga colocando a mão instintivamente na bolsa e pensando como aquilo havia acontecido. Contudo, o seu histórico de desatenção com as coisas a faz crer que tinha mesmo, em algum momento, deixado o seu RG cair no chão da biblioteca sem perceber.

— Puxa, que constrangedor. Obrigada por deixar a sua leitura de lado só para me seguir e devolver isso. — agradece, pega e joga o RG dentro da bolsa de qualquer jeito.

— Bem, agora eu sei o seu nome completo, data de nascimento, o número de matrícula... — enumera descontraidamente, mas se interrompe ao ver a cara de estranheza que ela faz. — Resta então nos apresentarmos formalmente. Sou Diego Vasques. — arremata em um tom tão sério que Lavínia não pode evitar fazer-lhe uma avaliação dos pés à cabeça. Tem um belo porte físico. "Deve malhar!", considera. Aparenta medir algo em torno de um metro e oitenta. Calça sapatênis marrom com detalhes brancos nas extremidades, que parece de alta qualidade, uma calça jeans azul prelavada e uma camisa também azul, só que de um tom bem claro, de manga longa com xadrez discreto. Sobe a visão e se depara com um queixo robusto, um sorriso bonito. A pele é clara. O nariz é reto e mediano, com as abas um tanto salientes, como se estivesse farejando algo o tempo todo. Os olhos são escuros e não podem ser vistos mais precisamente porque se escondem atrás dos óculos de grau. Os cabelos são lisos e escuros, um pouco compridos, pois caem sobre o rosto quase o cobrindo.

— Prazer... em conhecê-lo... senhor Vasques. — saúda-o estendendo a mão e lamenta internamente que a voz tenha saído vacilante.

— O prazer é meu, Lavínia. E pode me chamar de Diego — aperta suavemente a mão da loira enquanto a analisa sem desviar o olhar.

Ela sente um arrepio e se envergonha por pensar o que Lou diria se a visse “comer com os olhos” um estranho que acabara de conhecer.

— Bem, é melhor eu ir indo... Já está ficando tarde, então... — diz puxando a mão mais bruscamente do que gostaria.

— Olha, eu posso te dar uma carona até em casa... dependendo de onde você morar. — Dá passos ao seu lado, já que ela se põe a caminhar.

— Obrigada, mas não precisa. — continua caminhando, demonstra vergonha e algum receio.

— Por quê? Afinal, não é bom uma moça bonita andar por aí a essas horas sozinha. — parece descontraído, solícito apenas.

— É que eu moro em uma república de estudantes a poucas quadras daqui. Então, como eu disse, não precisa...

— Mora aqui perto? Ah! Que bom. Tão perto da biblioteca. Que conveniente para uma amante da leitura. — continua escoltando-a, sempre com ar de serenidade e simpatia. E quando a vê sorrir pelo comentário, experimenta mais confiança para avançar em sua conversa de galã deslumbrado. “Bingo!”, comemora mentalmente.

Daí em diante, Lavínia não protesta mais e permite que Diego a acompanhe. Ele começa a relatar sobre os livros que gosta de ler, ela se surpreende notando que também gosta de alguns que são mencionados e pergunta, por fim, se ele é estudante daquela faculdade, dizendo não se lembrar de tê-lo visto antes. Diego afirma cursar matemática e confessa que já a viu algumas vezes na biblioteca, mas nunca teve coragem de puxar conversa.

Seguem todo o restante do trajeto conversando e Lavínia questiona-se quando em sua vida tinha se dado tão bem e tão rápido com alguém. Parece-lhe estranha esta situação, mas ao mesmo tempo interessante.

Logo avistam uma casa simples, com muro pintado de bege e um portão de ferro cinza.

— Chegamos! — Ela invade com a mão na bolsa à procura das suas chaves e fica um tanto quanto envergonhada ao supor que não as encontraria no meio da bagunça que é lá dentro. “Tomara que eu não passe apenas a impressão de ser uma pessoa desastrada que deixa cair seus pertences a todo o momento e que não consegue encontrar as próprias chaves dentro da sua bolsa” , reflete. — Achei! — anuncia, vitoriosa.

— Que bom! — festeja Diego, no mesmo tom de animação dela.

— Bem, então... Obrigada... pela con-conversa agradável, assim como a companhia...

— Eu também gostei da conversa... e mais ainda da companhia. Então já que ambos gostamos por que não marcamos de sair qualquer dia desses para nos conhecermos melhor? — Os olhos dele se entrefecham sobre ela.

— Cla-claro. — gagueja Lavínia.

— Que tal sábado?

— Desculpa, mas sábado já tenho um compromisso... com meu pai.

— Domingo? — negocia.

— Po-pode ser. — “Maldita gagueira nervosa!” queixa-se internamente.

E ele abre, enfim, um sorriso de plena satisfação.

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Notas finais
Até a próxima postagem, em muito breve.