[HIATUS] Mudanças impuras
17 Amor de mãe: sentimento valioso
Notas iniciais
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Assim que termina a ducha demorada, Henry sai do banheiro e volta ao quarto com uma toalha de cor creme enrolada na cintura. Está parcialmente molhado, mas com os áureos cabelos já penteados. Escolhe, no guarda-roupa, ao acaso, uma cueca azul, uma bermuda jeans clara e uma camisa polo verde-musgo. Seus movimentos são praticados sem atenção, age no automático, porquanto sua mente se encontra estagnada e não quer funcionar. Porém, quando avista a cópia da chave pertencente a Frida, do quarto de Lavínia, jogada em cima da mesinha de estudo, ele parece voltar a si, visto que dá um suspiro pesado e olha para as próprias mãos levemente estendidas à sua frente, constatando que elas tremem de forma involuntária. Uma lágrima solitária teima em cair sem sua autorização e a seca rejeitando-a.
Reflete que deve ir ver Lavínia, saber como ficou depois que a trancou novamente em seu cárcere improvisado. Sai do cômodo, passa pelo corredor e fica um momento parado diante da porta amadeirada. A chave se encontra firme entre os dedos e seu rosto está voltado ao alto, como que pedindo ajuda ao próprio universo para conseguir lidar com essa situação desprezível e torturante também para ele, por estar consciente de tudo, das consequências de seus atos, e porque tem uma péssima noção a respeito do que Lavínia fará, assim que descobrir o impensado.
Aspirando o ar e o expelindo através da boca aberta, num sopro forte, Henry busca uma maneira de tranquilizar os seus anseios. Por meio da técnica respiratória, que repete mais de dez vezes, sente o corpo relaxando um pouco, diminuindo a tensão muscular. Apruma os ombros, enfia a chave na porta, gira a maçaneta e faz a porta deslizar, abrindo-se e expondo um cenário que é triste e bonito ao mesmo tempo. Lavínia ainda está despida, de bruços, deitada sobre a cama, tem a cabeça enterrada na almofada, as mãos, de lado a lado, ajudam a pressionar o travesseiro nela, parecendo querer abafar o choro descontrolado. Os cabelos loiros e longos caem pelas costas já suadas devido ao esforço. Seu corpo alvo dá solavancos por conta dos soluços sequenciais, fazendo as nádegas tremerem juntamente com as pernas esticadas e um tanto abertas.
Henry dá um passo adiante, afastando com o pé o edredom caído no chão, que atravancava a passagem, e encosta a porta atrás de si.
— Lavínia. — A voz dele sai moderadamente alta, pois entende que ela está tão submersa em sua lamúria que nem o percebe ali.
Mas ao ouvir seu nome e a voz do ser humano responsável pelo seu desgosto, Lavínia ergue a cabeça da almofada, olha em sua direção. Há uma mistura de mágoa e fúria em seus lacrimosos olhos violáceos, que estão avermelhados por causa da pressão sanguínea neles. Em um rápido decurso de tempo, ela decide fazer uso da agressividade. Levanta-se da cama, num quase salto, e pega de cima do criado-mudo a bailarina de louça, arremessando-a com toda força, mirando para acertar no rosto de Henry, o que por pouco não ocorre, se ele não tivesse se desviado a tempo. Um ruído seco se houve, quando a bailarina golpeia a porta encostada e se estilhaça, fazendo seus cacos voarem e irem de encontro ao chão.
— Lavínia! — Ele se espanta um pouco, pois um dos fragmentos lançou-se sobre seu antebraço erguido, riscando-o ligeiramente. — Olha, eu compreendo a sua irritação... Mas vamos conversar. — tenta impor um tom afável e calmo.
Ainda sob o comando de atos impulsivos, sem se importar com sua nudez evidente, Lavínia caminha velozmente em sua direção. Ao estar perto o suficiente, começa a dar socos e empurrões com os punhos fechados sobre o peito de Henry, que fica parado e, mesmo em presença da situação conflitante, tem de controlar o riso ao vê-la tão frágil e ao mesmo tempo tão furiosa.
Enquanto emite brados coléricos, Lavínia agride-o como pode, o que a leva a sacolejar as pernas, o dorso e a cabeça, fazendo os cabelos espalharem-se em ondas revoltas, que caem cobrindo parcialmente os olhos e a face, que está muito corada pela agitação.
— Como ousa... me tratar daquela forma e me trancar a-aqui... de novo? E eu, que... que pensei que... pudesse rever essa sua ma-maldita vingança de-depois do que... houve entre nós! — A fúria pode ser identificada em sua voz gritante.
— Me perdoa, Lavínia. Nunca foi minha intenção te ferir, te ver chorando... Mas eu não posso. Eu não posso! Não dá pra parar agora que eu tô tão perto de atingir o meu objetivo, tão perto de ver aquele canalha pagar um pouco pelo que fez. Mas com você é diferente. Acredite. — Absurdamente, Henry busca justificar-se por estar prestes a gerar um motim à vida do pai dela e ainda quer que ela o compreenda.
Lavínia estanca, fica boquiaberta e um pensamento incisivo a atinge como uma faca afiada.
— Você é pior do que eu pensei! — De modo extraordinário, a gagueira nervosa parece ter sido curada a partir da decepção que experimenta. — Você não é mais que um mentiroso bem treinado, que tem me usado esse tempo todo... inclusive pra se aproveitar de mim... pro seu prazer egoísta. Você só me usou! Agora tenho certeza disso... Você é um sujeito desprezível! Miserável!!!
— Não. Não é bem assim como você está dizendo. Você está enganada. Eu não quis simplesmente me aproveitar de você... não mesmo. Preciso que você se acalme e me escute. — Ele ergue a mão direita para tocar-lhe no rosto, mas Lavínia empurra-a de forma brusca, rejeitando a carícia e se afastando para trás, com olhos de total incredulidade ao que Henry diz.
— Eu vejo claramente agora. Você... você não vai parar por nada... nem por ninguém! Está consumido em ódio pelo meu pobre pai! Pelo meu pai!!! Eu te odeio por isso, Henry! Odeio! Odeio!!!
O brado de Lavínia pode ser ouvido por Frida, que vem entrando no quarto para trazer-lhe a bandeja com o seu café da manhã. Henry mostra-se como uma estátua, pois nem se move, e a senhora precisa adentrar no recinto através do espaço mínimo que há entre ele e a porta semiaberta. E a surpresa dela é tão grande por ver Lavínia descontrolada e ainda por cima completamente nua, trêmula e gesticulando de forma agressiva, de acordo com suas palavras azedas, que, por pouco, não deixa a bandeja ir ao chão.
— Meu Deus! O que está acontecendo aqui? Que é isso, menina? Controle-se... e vá se vestir! — espanta-se a cada olhar que envia à jovem.
— Frida! — Lavínia solta uma gargalhada alucinada, contrastando com a tristeza em seus olhos. Depois impõe um ar mordaz. — Só faltava você aqui pra ver o “teatrinho” do seu fi-filho querido... enquanto você esteve fora. Esse... esse ps-psicopata dissimulado até me fez acreditar que sentia algo por mim de verdade... sempre agindo de forma ca-carinhosa e gentil... dando a entender que eu era importante pra ele... que eu poderia convencê-lo a mudar de ideia e esquecer de vez essa droga de vingança. E o que ele faz agora? Me prende de novo! Falso! Cínico! Que ódio! Como eu fui ingênua... idiota!
— Menina, tenha calma e não se exalte tanto que isso não faz bem! — A senhora começa a ver a grande aflição que se apodera de Lavínia e isto lhe causa piedade.
Entretanto, ao ouvir as zelosas palavras de Frida, Lavínia libera outra gargalhada, mais irônica e repleta de consternação.
— E quem se preocupa com o meu bem-estar aqui? Você? É... até pode ser... porque eu sei que você sente pe-pena de mim. Mas de que adianta? Se não me ajuda a sair desse lugar, é inútil... inútil! Você é apenas um capacho desse maldito desgraçado! — ejeta, olhando para Henry com ódio.
Frida incomoda-se, mas não se aborrece, pois compreende que ela está fora de si e pensa que se houvesse uma faca em sua mão, atacaria Henry sem pensar duas vezes, pelo modo irado como o contempla. De fato, Lavínia está cega de raiva e não consegue se abrandar. Seus pensamentos estão todos em efervescência, fazendo-a falar e agir feito uma louca raivosa.
— Henry, sai daqui. Será que você não está vendo que, enquanto você estiver por perto, ela não vai se acalmar? — Frida diz isso após depositar a bandeja sobre a mesa de madeira e começar a empurrar Henry pelo braço. Ele permanece mudo e não move um músculo olhando fixamente para Lavínia. Seus olhos azuis estão nevoentos, com uma expressão misteriosa. Frida resolver insistir. — Por favor, filho! Ela precisa de um tempo longe de você. Vamos, saia! Deixe eu conversar com ela um instante.
Ao ouvir isso, Henry lança-lhe um olhar de dúvida sobre que tipo de conversa ela poderia ter, estando a sós com Lavínia.
Frida nota a sua dúvida.
— Não se preocupe com nada. Pode ir... Confie em mim. — anuncia em tom baixinho, ao passo que esboça um olhar firme, apesar da vontade de se juntar à loira e também exigir que ele abandone essa ideia maluca de se vingar.
— Isso mesmo! Sai daqui, Henry! Vai lá colocar em prática a sua vingançazinha medíocre... seja ela qual for! E espera pra ver aonde isso vai te levar. Porque, se você a-acha que é só o meu pai que vai sair pre-prejudicado nisso tudo... então você é um total imbecil! O seu pagamento vai ser ter as mãos tão sujas quanto as dele! — cospe mais palavras amargas.
Não fosse pelos lábios algo trêmulos, Henry pareceria um robô, pois não demonstra considerável afetação. Ele olha novamente para Lavínia e suspira.
— Eu volto depois. E você vai ter que me ouvir, nem que não queira. — Sem pronunciar mais uma única palavra, retira-se do quarto.
Lavínia e Frida ficam a sós.
A saída de Henry tem o poder de calar as palavras ácidas e eufóricas de Lavínia. Ela respira com dificuldade, como se tivesse corrido uma maratona. Está em pé, suada e chorando sem parar, com as mãos sobre o rosto, em exibição de sofrimento.
— Oh, menina, pare de chorar. Isso só vai te deixar mais abatida do que já está. Olha pra você. Está molhada de suor! — vence a distância que as separa, toca-lhe nos cabelos que estão colados à testa e depois em seu braço desnudo. — Acalme-se, vamos. Você precisa de um banho frio pra revigorar os ânimos.
Lavínia destapa os olhos para fixá-los na senhora.
— Ele não vai parar, Frida. Não vai! Ele me enganou! Ai...! — As lágrimas dela saem grossas, sofridas.
— Não pense mais nele. Esqueça o Henry e cuide de si... pois é isso o que você precisa fazer agora, cuidar–se. Venha, menina, eu te ajudo. — Frida une as duas mãos de Lavínia com as suas e a olha de maneira acolhedora, a fim de lhe transmitir apoio emocional.
Lavínia, vendo sua boa vontade, e por sentir fraqueza, permite-se ser conduzida ao banheiro como uma criança, deixa que Frida coloque-a em baixo do chuveiro e abra a torneira, fazendo cair a água que se junta às suas lágrimas, que vão cessando aos poucos.
— Molhe bem a cabeça. Isso vai te ajudar a relaxar. — segue dando ordens a curta distância como uma mãe faria com sua filha pequena.
Lavínia acata tudo, obediente. Frida busca, nas gavetas abaixo da pia, uma toalha seca e limpa. Assim que a jovem termina o banho, enxuga-a, ainda agindo de forma maternal. Puxa-a para o quarto pelo braço e a faz ficar parada e em pé, à espera de novos comandos.
— Termine de secar seus cabelos, enquanto eu pego umas roupas pra você vestir. — escolhe, aleatoriamente, uma calcinha branca, uma saia de tecido estampada em tons róseos e uma camisa baby look cinza-clara. — Tome isto. Vista-se, pelo amor de Deus.
Lavínia veste-se e é logo ordenada a se sentar na cama para que Frida penteie seus cabelos. Ao término disto, a senhora põe o pente sobre o criado-mudo e olha para a loira empalidecida.
— Agora, como uma boa menina, você vai experimentar um pouco do gostoso café da manhã que eu lhe trouxe. — É meiga como uma amorosa babá.
Lavínia nada diz, parece estar sob um tipo de torpor. A senhora então pega a bandeja e a coloca ao lado de Lavínia sobre a cama. Mas, vendo que a garota não se manifesta a comer, resolve ser mais enérgica.
— Anda, menina. Se alimente um pouco. Vamos, tente!
Lavínia pega no copo de vidro com o suco, que não sabe do que é, e deglute aos goles o líquido de tom avermelhado. Porém, quando tenta mastigar uma torrada, ela engasga, tosse e começa a tremer sem parar.
— Não consigo, Frida. Não entra! — Seu rosto se contrai em um ar de amargura.
— Não vai chorar de novo! Se não consegue comer, tudo bem, mas tome pelo menos o resto do suco. Ele é feito com morangos fresquinhos e está repleto de vitaminas. — orienta, sempre afetuosa.
Lavínia obedece, ingerindo todo o suco, mesmo com certa dificuldade. Ao fim, devolve o copo à bandeja e se levanta, assustando um pouco Frida.
— Aonde você vai? — Não quer deixar transparecer, mas está com receio de que Lavínia cometa alguma atitude insana.
— Não escovei meus dentes ainda. — responde com voz fraca.
— Ah! — Frida anui. Enquanto tira a bandeja da cama, nota-a entrar na suíte.
Após uns instantes, Lavínia volta ao quarto e se deita na cama. Não demora e põe as duas mãos sobre a cabeça, fazendo expressão de dor.
— Hum... Ai. — queixa-se.
— O que tem agora? Se sente mal? — Depressa, Frida posta-se ao seu lado.
— Minha cabeça tá doendo! — explica, num meio sussurro.
— Também pudera, depois de tanta agitação. Deixa ver se você não está com febre. — afasta as madeixas aloiradas de Lavínia e lhe sente a temperatura da testa. — Ai, que bom. Não está.
— Frida... — chama-a, mas não sabe exatamente como iniciar o que tem a dizer.
— Quietinha. Fique bem deitada aí... que eu volto num instante com um remédio pra te ajudar a relaxar, porque eu acho que você está com os nervos abalados.
Frida sai do quarto e apenas encosta a porta atrás de si, sem chaveá-la, sabendo que Lavínia não tentaria fugir, não no estado enfraquecido em que se encontra. Ela desce pelas escadas, mas ao fim delas, passa a agir como um gato. Busca em seu campo de visão a figura de Henry. Ele não está na sala. Caminha do modo mais silencioso possível, indo encontrá-lo sentado à frente da mesa da cozinha. Acha incrível o fato de ele parecer tranquilo, enquanto toma café e lê o jornal do dia. “Como ele consegue?” Ela meneia a cabeça negando, pois desconhece que Henry está, de fato, moderadamente confortado porque, ao ver Lavínia tão embravecida, percebeu também que é um indicativo de que já está emocionalmente ligada a ele, talvez apaixonada, e as suas chances de contornar as dificuldades com ela ganham algum ponto de apoio.
Ainda sem chamar a atenção dele, Frida recua. Vai para seu próprio quarto, abre a gaveta, na qual guarda seus remédios, e procura pelo Valium Diazepam que costuma tomar, mas apenas quando tem muita dificuldade para dormir – por ser um tipo de sedativo forte. Ela tira da cartela um comprimido e o segura na mão. Volta em passo acelerado para o quarto de Lavínia. Lá chegando, vê a moça ainda deitada na cama, com os olhos fechados e lágrimas escorrendo deles. Pega o copo d’água, que sempre está junto a qualquer alimento que venha na bandeja e o leva à garota.
— Menina! Ainda está chorando? — As palavras agora são de reprimenda. — Deve estar precisando mesmo desse remédio para conseguir se acalmar de vez. Pega, toma aqui com essa água.
— Um re-remédio? — Lavínia olha para Frida meio desconfiada.
— É só um tranquilizante muscular, vai te fazer relaxar, dormir um pouco. Assim, você fica boa da dor de cabeça e ainda controla esse seu estresse. Pode confiar, não creio que vá te fazer mal. — senta-se na beirada da cama e fica bem próxima a ela.
— Tá bem. — Lavínia recebe, enfia o comprimido na boca e o engole com a ajuda da água. Em seguida, observa Frida pôr o copo ao lado, no criado-mudo. Inesperadamente, olha-a de modo suplicante, tomando de surpresa as idosas mãos entre as suas.
— Pelo amor de Deus, Frida, me diz... o que Henry está planejando contra o meu pai? Me fala, eu te imploro!
— Sim, eu também sei que ele tem um plano em mente... só não sei o que é ainda, isso ele não me disse. Estou falando a verdade. Eu juro por tudo o que há de mais sagrado. Eu não sei.
— Ai... meu Deus! Eu preciso saber. Temo pela vida do meu pai, Frida!
— Henry não é um assassino. Eu sei que ele vai fazer algo, mas não acredito que chegue a tal ponto. Quanto a isso não precisa ficar tão preocupada.
— Tem... certeza? Você me garante isso?
— Sim, sim! Eu conheço ele desde que nasceu. Agora fique calminha e deixe o remédio fazer efeito. — fala, enquanto acaricia os cabelos de Lavínia, fazendo-lhe uma espécie de cafuné.
Lavínia parece mais abrandada, em especial devido à postura meiga de Frida. Ela a olha e experimenta a sensação de vê-la diferente dos dias anteriores, consegue sentir uma empatia agradável, aconchegante.
— Obrigada por me ajudar a sossegar... e me perdoa, Frida. Me perdoa. — Lavínia chora mais uma vez, olhando-a, envergonhada.
— Meu Deus, mas pelo que tenho que te perdoar? — questiona docemente.
— Porque te ofendi. Você não é um capacho... é só... só uma mãe... que não tem forças pra se opor aos caprichos do seu filho, porque eu sei que você ama o Henry... como se ele fosse seu filho mesmo. Nunca vai traí-lo. Nem que sinta toda pena do mundo por mim. Confesso que tenho um pouco de inveja dele por isso.
— Isso não é coisa de se diga. E por que sentiria inveja dele?
— Por ter amor de mãe... e eu não. Eu nunca tive, minha mãe nunca soube me amar de verdade e eu... nem sei... por que... — Os olhos de Lavínia começam a pesar, tanto por causa do efeito da medicação como pelo afago de Frida em seu couro cabeludo, gesto bastante relaxante. As palavras vão perdendo força aos poucos, dando lugar à sonolência. — O meu pai... ele me ama demais... só que é muito... ocupado com o trabalho dele também. Às vezes... me sinto tão... só...
De repente, Lavínia fica quieta e ressona de maneira um tanto pesada. Ela é vencida pelo sono, finalmente. Frida sente o coração se apertar dentro do peito de piedade ao olhar para o corpo frágil, imóvel, e esboça um sorriso triste ao constatar que Lavínia é mais forte do que aparenta mesmo. O que ela não tem de porte físico sobra-lhe de rigidez de caráter. “Deus não dá uma cruz tão pesada a quem não pode carregar!”, conclui. Ela se levanta da cama e puxa as cortinas da janela, a fim de propiciar um ambiente mais adequado ao sono da garota, que agora repousa tranquilamente, embora ainda possam ser vistas algumas lágrimas em sua bonita face.
Frida atravessa o quarto na ponta dos pés, encosta e fecha a porta à chave. Desce de novo as escadas e, dessa vez, encontra Henry com as chaves do carro em mãos. Ele está de costas, já indo na direção da porta da frente.
— Você vai sair? — pergunta, flagrando-o.
— Vou... Ei, como ela tá? Mais calma?
— Sim. Está dormindo. — Ela responde naturalmente.
— Ela está o quê? Como assim dormindo? Mas ela não estava uma ferinha raivosa agora há pouco? O que fez com ela? — traceja um sorriso de alívio por saber que Lavínia permitiu que Frida a acalmasse.
— Eu só lhe dei um comprimido para dormir. — justifica e fica séria, pois começa a estranhar o aspecto jocoso dele.
— Você a dopou? — Não consegue evitar que outro sorriso surja, incomodando mais a senhora.
— Henry! Claro que não. Esse comprimido que eu dei a ela serve apenas para relaxar a tensão dos nervos... e ajuda a combater a insônia... e...
— Ok, tudo bem, já entendi. Frida, você é maravilhosa! — Como ela está perto dele, Henry puxa-a e começa depositar beijos agradecidos por sua testa e bochechas. — Você é a melhor mãezona desse mundo, a única que sabe amansar feras com tranquilizantes, sem precisar de força física. Que sorte a minha!
— Que é isso, menino? Que chato. Para com isso! — mostra-se agoniada, esbaforida, ao se ver sendo agarrada por Henry, que parece agir de forma muito animada para quem acabou de ser exposto a uma situação perturbadora. — Tá me fazendo perder tempo. Eu tenho que providenciar o almoço. Se bem que não sei quem vai conseguir comer hoje... depois de tanto estresse.
Frida termina por se lembrar das palavras amargas de Lavínia, sobre a mãe dela não lhe dedicar amor verdadeiro e de como, tristonha, confessou sentir inveja de Henry, justamente devido a esta carência de amor materno.
— Tá bom, minha mãezona, vá fazer o que deve, que eu também vou. — Henry larga Frida e volta a se direcionar à porta da rua.
— Não me disse ainda aonde vai. — O instinto da senhora a alerta sobre algo.
— Vou... comprar cigarros. — fala sabendo que, embora seja uma desculpa, não deixa de ter um fundo de verdade. Mas ele espera, já prevendo o chilique que surgiria a seguir.
— Não acredito que você mentiu quando me disse que nunca mais voltaria a fumar de novo. Henry, você disse que ficaria longe desse vício... Você jurou!
— Eu não tô aguentando, Frida. Você mesma acabou de dizer. É muito estresse, me dá um desconto. Puxa vida! Eu paro depois, quando eu quiser!
Mas Frida está com uma pulga enorme atrás da orelha, algo dentro dela lhe diz que Henry não pretende sair de casa às quase onze horas da manhã deste domingo, com o sol a pino, só para comprar um maço de cigarros. “Ele vai aprontar alguma. Eu sei disso.” Volta a lhe encarar duvidosamente.
— O que você vai fazer com Gregory Albuquerque?
Henry não exibe nenhuma surpresa perante à interrogação.
— O que eu vou fazer não, o que eu já fiz ao empresário Gregory Albuquerque. Isso mesmo, já está feito, há um bom tempo. Ele mesmo fez tudo, eu só dei um empurrãozinho. Agora resta apenas uma ligação minha para a pessoa certa... e pronto. Será o bastante para afetar a vida financeira e o casamento daquele canalha. Não é maravilhoso? Eu penso que é, e muito. — Henry pisca de forma matreira para ela e sai assoviando uma antiga canção que imediatamente lhe veio à mente.
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