[HIATUS] Mudanças impuras
18 O melhor da festa é esperar por ela?
Notas iniciais
Frida acompanha Henry olhando-o sempre com expressão de dúvida. Ela vai à soleira da porta e pensa em algo que possa dizer no intuito de especular exatamente quais as suas intenções contra o empresário Gregory Albuquerque. Então o vê retirar de um dos bolsos, que ficam à frente da bermuda jeans, localizado acima da coxa, o seu Smartphone de cor preta. Mas Henry detém-se, ao perceber que está sendo avaliado por ela e se impacienta.
— Frida! Vai querer me seguir? Volta e fecha essa porta, e vê se não descuida da Lavínia na minha ausência, por favor! — No entanto, Frida não o obedece e continua a olhá-lo, curiosa, incomodando-o mais. — Desencana que eu não demoro muito! Céus! Você parece mais um cão farejando tudo o que encontra.
— Essa... Essa sua vingança aí não inclui morte, certo? — O coração dela se comprime um pouco e suas palavras ditas em tom de preocupação fazem Henry retroceder e se aproximar dela novamente.
— Talvez... Por que pergunta? — vendo a cara de total espanto de Frida, Henry começa a se irritar de verdade. — Sabe, Frida, às vezes, a morte é um consolo... uma bênção para os que são condenados a passar por humilhações públicas e conflitos pessoais, e eu sinceramente acho que o senhor Gregory Albuquerque logo vai desejar morrer de verdade... ou, pelo menos, desejar sumir da face do planeta por no mínimo uns cinco anos, até a poeira baixar... Porque você pode acreditar que a poeira vai subir e formar uma violenta tempestade de areia. Você já ouviu falar sobre isso, Frida?
— Sobre o quê, menino? Do que você tá falando? — coça a cabeça sem entender nada, mas ciente de ele a está enrolando com conversa fiada.
— De uma tempestade de areia, caramba! É uma ventania dos diabos! — Ele dá um riso sarcástico e adora ver a expressão duvidosa que Frida apresenta. Então faz cara de inteligente. — É um espetáculo da natureza, Frida... com rajadas de vento de cem quilômetros por hora que faz a areia viajar até quinhentos quilômetros de velocidade. Uma coisa feia de se ver! E eu li também que, se você não é um experiente nômade do deserto, pode sofrer muito com tanta areia... entrando por todos os orifícios do seu corpo. Você pode apenas ficar cego ou pode aspirar muita poeira, o que gera a silicose, um tipo de câncer de pulmão e isso, sim, com o tempo, pode te fazer engasgar e morrer asfixiado. Agora eu pergunto... Será que o senhor Gregory conhece a técnica ancestral dos povos tuaregues? Eu acho que não.
Henry volta a caminhar na direção em que seu carro fica estacionado, na lateral da casa, sob uma cobertura grande e singular, protegendo o sua mini van quatro portas e vidros fumês nas janelas traseiras, de cor cinza-claro, em ótimo estado, que ele adquiriu no mesmo ano em que começou a dar os primeiros passos incertos em seu plano de vingança, quando passou a perseguir Lavínia, já no intuito de, talvez, sequestrar a jovenzinha com dezessete anos de idade, a filha do presidente da Giant Solution, seu arqui-inimigo, o verdadeiro alvo e monstro causador de alterações drásticas em sua existência. Foram anos de desesperança sem fim, em que se viu alimentando um forte sentimento de raiva, imaginando mil e uma possibilidades de dar o troco neste que tem como o responsável pela desintegração da sua família. No entanto, cada vez que estudava os movimentos de Lavínia, sua ira só crescia junto com as graciosas formas da moça, que foi-se tornando cada vez mais atraente aos seus olhos de águia. Lamentavelmente, nunca conseguiu vê-la com sentimentos de irmão, mas apenas de real posse, algo bem complicado, pois a garota passou a ser encarada por Henry como um “bem” que deveria ser tirado do tal empresário, ao menos por um determinado período, uma forma eficaz de atormentar a existência pacata de um suposto pai amoroso. Com o tempo, porém, Henry teve que travar uma luta interna para não se apaixonar por ela, não exatamente por ser sua irmã, mas porque relutava em se ver preso a um sentimento que poderia desvirtuá–lo de seu objetivo principal, sendo este o de demolir a tranquilidade familiar de Gregory Albuquerque e a falsa imagem de homem imaculado, de modo a expor-lhe a verdadeira face, levá-lo a ser visto publicamente como o que ele é para si: um traidor covarde e asqueroso.
Neste instante, apesar de tudo, está contente, o que se nota por estar assoviando a letra da canção que ainda permanece em sua mente. E, ainda refletindo sobre as questões que o roem, Henry abre a porta do carro, senta-se ao volante e olha para ver se Frida havia entrado na casa. Ao constatar que sim, ele se volta ao celular em sua mão e passa os dedos sobre a tela, mas percebe que somente ligar seria visto como um insulto e certamente aborreceria o coração carente de Isadora. Enfia a chave na ignição, aciona o motor e dá marcha ré para sair da garagem aberta. Ajusta o carro e segue com ele lentamente até chegar aos portões de ferro, onde é obrigado a sair e abrir o enorme cadeado que os prende. Processo contrário é feito. Assim que coloca o automóvel para fora, desliza pelas vielas do local a fim de encontrar a avenida que o conduziria à parte movimentada da cidade.
O percurso é algo rotineiro, visto que é o mesmo que segue para ir ao trabalho. No meio do caminho, passa em um comércio de pequeno porte para comprar um maço de cigarros. Dirige mais uns quilômetros e, por fim, estaciona à frente de um prédio não muito grande. Não obstante, trata-se de um charmoso condomínio fechado. Ele olha para dentro, vê e faz sinal para o porteiro, que logo também o avista.
— Pois não senhor, o que deseja? — fala o homem, solícito.
— Bom dia, Simas... Não se lembra mais de mim? — Henry fica meio desapontado, ao passo que abre um sorriso de lábios fechados.
O homem gordo, meio careca e branquelo apura mais a vista e, logo a seguir, mostra-se realmente surpreso.
— Senhor Sorelle! Me desculpe! Não fosse por seus olhos... acho que não o reconheceria. O senhor está um pouco mais magro. — confessa Simas.
— É... acho que sim. E também faz um tempo que não nos vemos. Bem... então? Ela está aí, Simas? — Henry está agora pensando que deveria ter ligado antes, para confirmar a sua presença.
— Está sim, senhor. Só que não sei se irá recebê-lo. É que... Como eu vou dizer isso? Ontem... — Simas vai abrindo o portão do prédio para Henry, mas parece meio constrangido em ter que justificar e despachá–lo.
— Teve festa no apartamento dela ontem, não foi? É isso? — atravessa o portão e sorri. Ele conhece Isadora Abranches como a palma da sua mão.
— Sim, senhor. Ela disse que eu despachasse qualquer um que viesse procurá-la hoje... E é por isso que eu não sei se ela vai querer vê-lo. — coça a parte calva da cabeça e lhe sorri amarelo.
— Simas, eu entendo que você esteja apenas cumprindo ordens. Mas faça um favor pra mim... Apenas tente! Diga que sou eu quem quer vê-la. — propõe com voz educada e firme.
— Mas é que... — O porteiro hesita um pouco ainda.
— Tudo bem. Confie em mim. Ela não vai te dar bronca... vai, na verdade, ficar agradecida. — O sorriso de Henry dá confiança ao homem que o obedece. Ele interfona para o apartamento 208 e espera quase um minuto para ser atendido.
— Alô! O que foi? Simas, eu não te falei que não quero receber ninguém aqui hoje? Mais que coisa! — repreende a voz feminina do outro lado da linha. Ela exibe um tom sonolento e irritado.
— Desculpa, madame... É que está aqui uma pessoa que achei que a senhora iria querer ver... apesar do que disse. — Simas faz questão de chamá-la dessa forma pomposa e parece envergonhado. Henry, por seu lado, está segurando o riso, pois sabe que ela ficará exultante quando souber a quem o porteiro faz referência.
— E quem é essa pessoa que você julga ser tão especial para que eu permita vir aqui, só para tirar o meu sossego? — soa completamente irônica.
— É o senhor Sorelle.
Dois segundos de silêncio se fazem.
— Henry? Meu Deus! Simas... que astúcia a sua! Que bom que não o mandou embora! Faço-o subir, por favor... Agora!!! — O homem é obrigado a afastar o interfone do ouvido, de tão alto que ela fala. Henry ouve tudo, pois está bem próximo de Simas.
— Bom, acho que já deu pra escutar, né? O senhor tinha toda a razão. Pode subir, senhor Sorelle! E me desculpe pelo transtorno.
— Não foi transtorno algum. E obrigado, Simas! — dá dois tapinhas solidários no ombro do porteiro e, com um largo sorriso no rosto, caminha na direção das escadas, desprezando o elevador.
— Não tem de quê. — Simas ainda responde, vendo o loiro desaparecer degrau acima.
Mal Henry bate à porta, esta se abre. Uma bela morena com aparência ainda jovem, apesar da real idade, joga-se em seu pescoço para lhe dar um abraço muito estreito e sem inibições. Ela veste um robe de tecido quase translúcido na cor rosa-choque com babados de plumas finíssimas ao redor das mangas e da gola em formato de “V” profundo, deixando vislumbrar os fartos seios preenchidos com silicone. Abaixo deste robe há apenas uma calcinha rendada de mesma cor, do contrário, Isadora estaria completamente nua.
— Não atrapalho o seu repouso de beleza? — Henry pergunta, apertando-a fortemente pela cintura.
— Que nada. Não importa. Ah, Gatão! Vem... Entra logo! Há quanto tempo que não tenho notícias suas. Me deixou na saudade, seu malcriado! — fala em tom de queixa quase infantil. Ela o faz entrar na pequena sala e tranca a porta.
— Isa! Que exagero... nos vimos no mês passado. Mas tenho certeza que você sempre arranja novos adoradores para ficar ao seu redor. — diz isso ao perceber a bagunça existente em todo o apartamento, contendo vestígios óbvios de uma boa farra na noite passada.
— Mas você é o mais dissimulado de todos, não é? Seu demônio charmoso! — A mulher declara abertamente e ri alto, sacolejando um pouco o corpo esguio e fazendo os cabelos escuros e alisados movimentarem-se no ar. Contente e agitada, puxa-o pelo braço para se sentarem no sofá de estofado vermelho-carmim.
— Não sou dissimulado. Eu te adoro de verdade! — Henry protesta, sentando e lhe lançando um olhar de franca simpatia.
— Ah, sei... Deve ser por isso que, mesmo me dando um belo chute na bunda há quase oito anos, não larga do meu pé e vem me visitar de tempos em tempos.
— Perdi a amante e ganhei uma boa amiga. Fiz um ótimo negócio, não? — retira do bolso o maço de cigarros e o exibe na frente de Isadora, deslacrando-o a seguir. — Quer um?
— Você não tinha parado de fumar? — Os olhos verdes claríssimos da mulher se semicerram, num olhar curioso. Mas a pergunta é acompanhada de seus movimentos, ela puxa de dentro da cartela aberta um cigarro, encontrando, logo ali em cima da mesinha de centro um isqueiro jogado e esquecido, pelo jovem amante que a satisfez na noite anterior. Acende o cigarro dele e depois o dela própria.
— Parei, sim... mas voltei e depois paro de novo, ora! Todos estão me enchendo o saco hoje... Mais que merda! — Seu tom impaciente chama a atenção dela.
— Peraí, esquentadinho! Me dá um beijo aqui. Quero ver um negócio. — Ela dá a ordem, com a maior naturalidade do mundo.
— Já tá pensando em sacanagem tão cedo. Você não presta, Isa! — Henry a puxa e vai logo unindo seus lábios. Mas ele não consegue tirar Lavínia do pensamento e acaba minguando a intensidade do beijo. Ele mesmo se surpreende com sua péssima atuação.
— Para tudo! O que há com você, hein? Está diferente... o seu beijo não é o mesmo, tá de rosto fino, barba por fazer e com o cabelo mais crescido... Você tá saindo com alguém? Ou melhor... está envolvido com uma nova mulher? Não me enrola, diz logo quem é essa que tá te chupando! — Isadora recosta-se no sofá, enquanto dá outro trago no cigarro, seguro em sua mão direita, para analisá-lo com mais perícia. Afinal, são anos de convivência esporádica com este homem que roubou seu coração e o jogou fora com a maior delicadeza jamais feita por nenhum cafajeste com quem ela já está acostumada a lidar, ao longo dos seus quarenta e três anos de vida. Henry foi diferente de todos, neste aspecto, pois soube terminar com ela sem parecer um cretino insensível, embora as demais garotas com as quais ele veio a se envolver, antes e depois dela, tenham alegado exatamente isso.
— Não sei do que você tá falando. E eu não estou saindo com mulher nenhuma. Também não foi pra isso que vim aqui, ora! — O olhar inquisidor dela o faz ficar desconcertado e ele se vê obrigado a se levantar do sofá, fumando e soltando baforadas pelo ar, com um copo numa mão, contendo restos de bebida, usando-o como cinzeiro.
— Filho da mãe! Traidor! Você tá apaixonado! Nega isso olhando aqui pra mim... Eu acertei, não foi? — Ela também se levanta a fim de olhá-lo bem nos olhos, mas Henry desvia-se mais uma vez.
— Isadora! Para com isso! Você tá vendo coisas onde não existem. Tudo bem... Eu assumo que tô saindo com alguém, mas isso é comum. Eu sempre tenho paqueras pra me distrair, quando quero. Como vê, não há nada de mais nisso. — tenta fugir de outras constatações dela.
— Ótimo! Então não tem problema eu saber quem é, o que faz, onde e como a conheceu, certo? Afinal, eu sempre soube das outras... porque você sempre me contou tudo a respeito delas. Por que agora seria diferente? — sorri, irônica e vitoriosa, ao vê-lo sem saída.
— Isa, minha querida deusa, eu vim aqui em uma visita rápida... prometi a Frida que voltaria logo. Depois conversamos sobre estes assuntos pessoais, ok? Agora não tenho tempo pra isso! Vamos direto ao ponto que nos interessa. — A adulação de Henry só piora as coisas, assim como também o faz a desculpa esfarrapada de falta de tempo.
— Sua conversa fiada não funciona comigo, meu bem. É evidente! Henry Sorelle, coração de pedra... apaixonado. Isso é o fim do mundo! Ok... ok! Não precisa me dizer nada sobre ela, mas... eu sei que, se você não quer me contar quem é essa aí que te fisgou, é porque é coisa séria pra valer. Tomara que ela te faça pagar por todas as outras que você abandonou! — De repente, solta uma gargalhada sonora, falsa e extravagante.
O apelido “coração de pedra” tinha sido dado por ela mesma, desde que a havia despachado como namorada. Porém, eles se tornaram amigos coloridos. Ou seja, tudo foi aparentemente esclarecido e resolvido, mas, em seu íntimo, ela sente agora um aperto na alma, por ver suas chances com Henry esvaindo-se de vez e, ao mesmo tempo, uma vontade de proteger seu amigo das dores do amor, que conhece muito bem.
— Henry, amor é dor! Escute o que digo... Fuja dele enquanto há tempo! — lança-lhe um olhar de quem acaba de oferecer o seu mais precioso conselho. Então, acaricia-o no rosto com a mão esquerda e fala gentilmente. — Puxa vida, bebê! Até ontem você tinha o coração fechado e agora te vejo assim, preso, amarrado a alguém... tanto que nem consegue me dizer quem é...
— Isa! — corta-a, incomodado pelas palavras de zelo e lamúria, ao passo que tenta afastar-se de seus olhos atentos.
— Não. Agora é sério, garoto! Me ouve... porque sou mais experiente que você! — fica séria e pensativa, enquanto prende o queixo de Henry para que ele não desvie de si seus olhos azuis impacientes. — O que eu vou fazer não é só pelo dinheiro, pela fama, pela publicidade e pela badalação toda que vai expor o nome Isadora Abranches na boca deste país inteiro... Em boa parte, o que tenho a fazer, faço por você! Porque foi você quem me pediu... e é uma das poucas pessoas por quem me disponho a arriscar minha pele. Saiba disso, Henry!
— E eu lhe serei eternamente grato. Mas você também sabe disso. — As palavras dele saem em tom formal e honesto. Porém, depois seu olhar fica travesso e ele sorri jocosamente. — Ora, vamos, Isa, confesse! Admita que está ansiosa pra começar a festa. Afinal, você combina muito bem com dinheiro, fama e publicidade... Ficará ainda mais sexy do que já é. E esse mero escandalozinho só aumentará a sua luz brilhante e divina.
— Sim, sim... Eu sei que a festinha do bafafá vai me colocar em destaque extraordinário e fazer a minha luz se acender ainda mais. Mas não fuja do assunto ainda. Já falaremos sobre ele. Agora quero falar sobre você. É sério mesmo, Henry, não quero vê-lo mirrado e abatido por uma mulher que não valha a pena. Eu não vou abrir mão de você pra uma qualquer, pra alguém que não te mereça! — há preocupação e despeito nela.
Henry irrita-se ao ouvi-la referir-se a Lavínia, mesmo sem conhecê-la, como se fosse uma pessoa sem importância, que não faça jus à sua devotada atenção. Assim, enerva-se bastante e se vê instigado a contrapor a acusação.
— Ela não é uma qualquer, Isa! É muito importante pra mim. Eu nem sei como ou quando me dei conta desse sentimento... Só sei que agora, se quer saber a verdade de como me sinto, eu seria capaz de matar ou morrer por ela... porque acho que a amo mais que a mim mesmo. Pronto! O que quer saber além disso? — está afoito, trêmulo e tomado de alguma comoção, por ter sido explosivo e falado mais do que pretendia, o que também assusta Isadora.
Ela respira fundo, engole em seco toda essa declaração emocionada e sente em seu peito nova pontada de ciúme, mas igualmente de orgulho, ao saber que seu querido amigo tem um coração sim, e este foi aprisionado sem piedade alguma.
— Tá bem. Chega! Só vou te dizer uma coisa: Você tá fodido! — arremata, como se fosse a sentença de morte de um condenado.
— Eu sei! — Ele replica, imitando seu tom dramático e debochado.
Eles se olham com cumplicidade e depois riem com gosto.
— Tem sorte por eu amar esses seus olhos de sedutor filho da mãe! Anda... vem comigo pra cozinha, que eu vou passar um café quentinho pra nós dois... Assim, encerramos esse papo de romance de novela mexicana e começamos outro assunto mais interessante.... ou seja, a minha fama e fortuna aumentando cada vez mais, à custa da desgraça de um empresário fraco e carente! — Nova gargalhada sai da boca de Isadora, enquanto traz o belo moço consigo para o outro recinto do apartamento.
Na cozinha, a cena é no mínimo inusitada. A mulher seminua, com o cigarro equilibrando-se na boca, coberta apenas por um robe diáfano e uma calcinha rendada, ambos cor rosa-choque, é obrigada a se virar num espaço pequeno e meio bagunçado, pois ali também há vestígios da festinha particular da noite passada. Ela fica feliz ao encontrar o que precisa em meio à louça suja, para fazer o café, e mais exultante ao ver que há leite e torradas integrais, que servirão de acompanhamento. Vai fazendo seu serviço em silêncio, assim como Henry, que termina de fumar seu cigarro, observando-a, sem malícia alguma, apenas aguardando que termine o que está fazendo.
— Você veio aqui pra pedir que eu comece a agir novamente, não foi? — Isadora anuncia tranquilamente, após uns minutos, enquanto faz os preparativos finais, arrumando a mesa pequenina com os ingredientes do café da manhã para os dois.
Antes de se sentar à mesa para se juntar a ele, Isadora estende uma xícara com café e leite em sua direção e ele não recusa a fim de não ofendê-la. E, embora não sinta nenhuma fome no momento, acaba comendo um pouco das torradas que lhe são oferecidas.
— Foi sim, Isa. Mas me diz uma coisa... Tem certeza de que fez tudo como combinamos até agora? — Henry teme que ela esqueça algum detalhe importante.
— Acho que sim. — diz, meio reflexiva, parecendo rever em sua mente todos os seus atos até àquele momento, ao passo que dá goles curtos no café.
— Há quanto tempo aconteceu? — Ele dá início à “sessão de revisão dos pormenores”.
— Quase um mês completo! — Ela responde, firme.
— Foi à noite?
— Foi.
— Fez ele beber bastante?
— Isso não foi tão fácil... mas sim, eu consegui convencê-lo a beber um bocado. — A voz da morena é de triunfo.
— Transou com ele sem preservativo e fez parecer bem violento? — Não deixa passar nada.
— Sim! Essa foi a parte mais difícil! Transar sem camisinha é arriscado e sem contar que eu me provoquei uns arroxeados horríveis que ficaram bem visíveis, por uma semana! Pra isso, tive que me bater no banheiro de todas as formas... rezando pra ele não acordar com o barulho!
— Fez alguns arranhões nele, como te orientei? — Ele põe a xícara sobre a mesa e a olha, franzindo o cenho, sério e atento.
— Até no rosto do infeliz! Não sei como ele se virou com a esposa, quando chegou em casa. — Ela quase se engasga com a torrada na boca, de tanto rir, mas a seriedade cortante de Henry a obriga a refrear sua postura folgazã.
— Deixou ele sozinho no hotel e foi-se embora sem dar explicação? — Ainda está apreensivo.
— Coitado, Henry! Eu o abandonei, enquanto ele dormia de tão bêbado! — volta a rir, com menos empolgação.
— E, como uma pilantrinha bem obediente, saiu de lá direto para a maior e mais especializada delegacia da cidade e fez o boletim conforme combinamos, não foi? — Agora ele parece mais contente com as respostas dela.
— Sim... sim. Fiz até aquele tal de exame do corpo de delito... Um saco! Só faltaram me virar do avesso, Henry! Você precisava ter visto a sua amiga aqui parecendo um bichinho de laboratório. — apregoa manhosamente.
— Eu posso imaginar. Pobrezinha da minha deusa! — Ele faz cara de falsa piedade, irônico. Volta a ficar circunspecto. — Mas quando disseram que intimariam o velho a depor, você implorou pra não fazerem nada... por enquanto. Certo? Até ameaçou retirar a queixa alegando ter medo da reação dele, não foi assim?
— Ai, Henry! Para! Sim! Eu fiz tudo como você pediu. Foi muito complicado, mas eu não esqueci nada... nadinha! Eu tive que ser uma ótima atriz. Eu chorei, disse que precisava de um tempo pra me recuperar... e que depois eu o processaria por estupro. Viu como fiz minha lição de casa muito bem? — fala como se fosse uma discípula esforçada e carente de elogios. Mas ao que tudo indica, foi convincente mesmo. E, pensando assim, Henry, enfim, mostra-se mais descontraído.
— Que bom! Boa menina. Já depositei a grana que te prometi. O resto eu te envio assim que a segunda etapa começar. Tá pronta pra ela?
— Eu já nasci pronta, meu bem! — Isadora infla os peitos e fica muito ereta.
Eles se olham como se estivessem compartilhando o segredo numérico de um cofre suíço.
— Quanto tempo você acha que consegue fazer isso vir a público?
— Em, no máximo, uma semana... Só vou ter que ir atrás de uns contatos certos.
— Eu vou assistir de camarote a todo esse espetáculo! — O riso dele é visivelmente ácido.
— Mas... Quando vou te ver de novo? — Isadora já o fita, com olhos de dúvida.
— Não vai. É muito arriscado... Não podem me ligar a você em hipótese alguma. Sabe aquele celular que te dei e disse pra você não dar o número para mais ninguém?
— Sei sim... O que tem ele? Só nos falaremos... através dele?
— Garota esperta. Isso mesmo. Preste atenção... Você não pode me ligar a não ser que seja exclusivamente por ele... E é melhor até que evite mesmo ficar me ligando. — olha-a e sente que deve ter certeza de que Isadora vai ser capaz de desempenhar a sua parte do pacto até o fim. — Ainda está em tempo de desistir, Isa. Se quiser pular fora, este é o momento... basta dizer. Depois não vai poder mais ter esse privilégio. Quando a coisa esquentar, não vai poder parar.
— Ei! Chega, Henry. Eu sei disso. Não sou mulher de desistir de nada e nem de me arrepender... Isadora Abranches só anda pra frente e nunca pra trás. Afinal... temos um trato e eu vou cumpri-lo, custe o que custar! — demonstra total obstinação no tom de voz claro e seguro.
— Isa, você é única... maravilhosa! — Henry tem absoluta certeza de que fez a escolha acertada ao convocar Isadora para ajudá-lo em sua trama de vingança.
— Você vai ficar orgulhoso de mim e vai ver meu lindo rosto nas primeiras páginas de todos os jornais e na TV... Depois disso, minhas portas vão-se abrir rapidinho. Todos adoram uma boa confusão. Isso é fato!
Henry busca as mãos de dedos alongados e unhas caprichosamente pintadas de Isadora por cima da mesa e as prende com força entre as suas.
— Não tenho a menor dúvida disso. Boa Sorte, Isa. E que a diversão comece!
[...]
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