[HIATUS] Mudanças impuras
26 Amigas amigas, conflitos fazem parte
Notas iniciais
"As pessoas realmente ligadas não precisam de ligação física. Quando se reencontram, mesmo depois de muitos anos afastadas, sua amizade é tão forte quanto sempre" Deng Ming-Dao
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Lavínia detém-se olhando para o cenário que é para si nostálgico e querido. De fato, o muro pintado de bege e o portão de ferro cinza trazem para a jovem algumas boas recordações. Ela ri satisfeita por estar de volta e se sente ansiosa para rever suas colegas, principalmente sua melhor amiga, Louise. Ajeita os longos cabelos loiros, esfrega as mãos uma na outra e puxa o ar para os pulmões. Aperta a campainha. Escuta o som repercutir ao longe, dentro da casa, mas nada de vir alguém para lhe atender. Toca novamente, espera outra vez e repete o gesto até que pensamentos adversos surgem-lhe. “Será que cheguei tarde e todas já saíram? Deve ser quase dez da manhã. Lógico que não há mais ninguém aí. Oh, Deus, e agora? Como vou entrar, sem a minha chave?”. No entanto, a loira pensa melhor e lembra que, na última noite em que havia deixado a república, ela estava com suas chaves na bolsa vermelha. Ela remexe dentro dela e fica feliz ao encontrá-la. Depressa, movimenta-se para introduzir a chave na fechadura do portão quando este, súbito, abre-se e ela dá de cara com Louise. Esta, que carregava uma expressão carrancuda por ser incomodada em seu repouso tardio, muda imediatamente a postura para a de total surpresa e euforia.
— Vivi! Oh, Deus! Que saudade, minha amiga! — Louise, que é alguns centímetros mais alta que Lavínia, quase a derruba por se jogar nela para um abraço de urso, ao passo que funga, já querendo chorar de emoção.
— Lou... Que bom te ver de novo! Também tava morrendo de saudade! – Lavínia agarra-se na amiga, sentindo imensa alegria por revê-la e seus olhos igualmente se enchem de lágrimas comovidas.
Depois que encerram o abraço, Lavínia encara Louise com olhar de dúvida ao constatar que a outra ainda veste uma das camisolas que costuma usar para dormir.
— Não deveria estar na clínica? — pergunta, passando as mãos para secar algumas lágrimas, que teimaram em cair.
— Isso é uma longa história. Mas entra aqui e deixa eu te ver! Caramba, eu ainda não tô nem acreditando que você realmente está aqui... depois de tanto tempo nos matando de preocupação. — Louise sorri, também secando o rosto, puxando-a pelo antebraço, fazendo-a atravessar o portão, fechando-o em seguida.
— Pois acredite. Eu estou de volta... e lamento muito por ter causado tantas preocupações em todos. — Lavínia declara e segue caminhando com Louise, rumo ao interior da casa.
— Vem. Vamos pra cozinha... Eu ainda não tomei o meu café da manhã.
— Pois somos duas... Eu também não. Estou morrendo de fome! — joga a bolsa vermelha sobre o sofá e solta as palavras num riso satisfeito, por enfim estar de volta à república.
— É bom porque, enquanto tomamos o nosso café... começaremos a pôr a conversa em dia. Você vai ter que me contar tudo, tim tim por tim tim, do que aconteceu com você, viu? Sua boneca fujona! — Louise torna abraçá-la, contente por ter sua amiga consigo, viva e aparentemente bem.
Depois, vão para a cozinha, onde preparam a mesa, pondo nela uns pães, queijos, torradas, entre outros típicos acompanhamentos para o café quentinho. Lavínia vai, então, revelando o que houve com ela, desde o dia em que saiu da república para encontrar-se com o então pretendente a namorado, Diego Vasques, para ser levada, desacordada, a um local que lhe era desconhecido, por este homem que também era um farsante, um mentiroso sedutor, que a fez sumir por um bom tempo. Lavínia confia em Louise ao ponto de lhe expor todos os detalhes, deixando a outra incrivelmente espantada.
— Puxa, Vivi... Que é isso que você tá me contando? Por quanta coisa você teve que passar. E que história mais sinistra, eu hein! Será que seu pai fez mesmo o que esse homem, Henry, te falou? Quer dizer... Será que é tudo verdade? — Louise inquire afastando de si a xícara vazia, demonstrando ter comido o suficiente, e dirigindo a Lavínia um olhar fixo.
— Eu não sei exatamente. Eu não deixei o meu pai se explicar, Lou... Eu não quis ouvir o que ele tinha a dizer. — A loira admite tristemente, dando também por encerrado o seu café da manhã.
— Mas por quê? Se você ouviu a versão que o Henry te deu, então deveria escutar também a versão do seu pai, para poder tirar suas próprias conclusões, a partir de tudo o que fosse dito. — Louise ergue as sobrancelhas fazendo expressão de quem acaba de dizer algo lógico.
— Eu sei! Mas é que eu fiquei tão decepcionada... quando ele me disse que foi ca-capaz de me levar ainda bebê... dos braços da minha mãe bi-biológica.... Eu não consegui escutar mais nada. Eu fiquei tão decepcionada com ele! — expõe, com voz repleta de comoção.
— Oh, puxa. Você deve estar com a cabeça em parafuso. Meu Deus... Eu posso apenas imaginar como está se sentindo. Ainda tem isso de você ter se entregado a esse homem... e sem saber a história toda. Ele te usou, Vivi. Fez isso negando todos os efeitos ruins que poderiam vir, logo que você descobrisse o que são um do outro. Não interessa se depois ele mesmo te contou a verdade e te libertou. O que ele fez foi barra pesada! E você, muito ingênua, não resistiu a ele. — Louise diz, chateada, por saber o que sua amiga foi obrigada a vivenciar.
— Sim... Eu sei! Mas eu não sei o que deu em mim... pra ce-ceder tão fácil. Agora sinto ve-vergonha de mim mesma. Eu daria tudo pra voltar no te-tempo, pra nunca ter caído na co-conversa fingida... daquele infeliz, doente! — Lavínia sente as faces esquentarem e desvia os olhos para baixo.
Louise observa a amiga, com simpatia, curiosidade e uma pontinha de dó, porém, prefere ser direta, franca.
— Você está apaixonada por ele, não é? — lança a pergunta, em alto e bom som, mais parecendo uma óbvia afirmativa.
— Não! E-Eu não... Lou, como eu iria se-sentir algo... depois se sa-saber... quem ele é? — A voz se altera, o nervosismo a domina, perturba-lhe o raciocínio.
— Pode confessar, amiga. Comigo você pode se abrir completamente... Confie em mim. — Louise impõe firmeza em suas palavras e em seu olhar.
— Ah! Lou... A verdade é que e-eu nem sei o que eu tô sentindo. Só sei que dói... Dói demais! Eu quero parar de pe-pensar nele... mas eu não consigo! — põe as duas mãos sobre o rosto, tapando-o e iniciando um choro sofrido, vendo-se tomada por viva emoção, ao se lembrar do envolvimento entre ela e Henry.
— Ei! Não. Por favor, Vivi, não chora. Eu não tô te julgando. Olha... tenha calma e reflita sobre isso. Vamos pensar juntas. — Louise respira fundo, estende os braços e a faz destapar a face. Olha-a diretamente, força-a a lhe dar atenção. — Até pouco tempo atrás, você era virgem e... me desculpe dizer, mas era uma garota muito inexperiente quanto a relacionamentos. — vê Lavínia menear a cabeça, concordando, enquanto o rosto molhando adquire uma expressão amargurada. Continua: — Aí... surge um cara charmoso, todo se jogando pra você, super a fim de te namorar. E o que você descobre? Que ele te perseguia, te observava de longe, estudava os seus passos. Com qual objetivo? Te seduzir... fazer você se entregar a ele e te envolver cada vez mais numa teia de intrigas, induzir você a se aliar a ele contra o seu pai... sem que você nem percebesse isso.
Lavínia fica boquiaberta e estanca o choro. Ainda não tinha pensado na situação desta forma.
— Sim... Tem sentido. — Ela esboça, anuente.
— Ele simplesmente te jogou uma bomba nas mãos e ficou esperando ela explodir, ou melhor, até você começar a se desentender e até se virar contra o seu pai. Vivi... ele mentiu quando disse que não se vingaria mais. Acontece que ele é muito esperto. E já te envenenou com influência negativa, fez você ceder ao desejo insano que ele tem por você. E eu acho que, na verdade, isso sempre fez parte do plano dele. Pode acreditar no que eu digo, minha amiga... Eu conheço todo tipo de gente. Pra mim, ele é um homem problemático, que quer você a qualquer custo e, de quebra, acabar com a boa relação que você tem com o seu pai.... porque, pelo que eu pude perceber, ele o culpa por toda sua tragédia familiar. Ele deve odiar o seu pai de verdade.
— Oh, Deus! Lou... Você tá me deixando com medo! — Lavínia desliza a mão pela face para enxugar as lágrimas que diminuem e dão lugar à palidez, por conta do semblante assustado.
— Fique tranquila. Também não tô dizendo que ele seja um completo mau caráter ou um tipo de assassino serial. Se ele não matou o seu pai até agora, é bem provável que nunca faça isso... E não duvido que ele seja uma pessoa aceitável e amistosa, em outras circunstâncias. Apenas suponho que, por causa do trauma que ele teve, agora queira que o seu pai pague de alguma forma. Ele quer ser indenizado pelo que tiraram dele e você faz parte dessa recompensa. Por isso, ele não vai te deixar em paz tão fácil. Está óbvia a obsessão que ele tem por você... Tanto é assim que chegou ao ponto de te capturar.
— O que eu faço, Lou? É tudo tão confuso e... horrível! — A aflição atinge Lavínia num ritmo crescente e ela busca nos conselhos da amiga alguma saída, algum alento.
— Bom, é preciso saber o que você realmente quer... porque se você acha que um envolvimento amoroso com ele seria um pecado, uma aberração, então você vai ter que tratar de esquecê-lo de vez. Vai ter que obrigá-lo a manter distância absoluta de você, nem que pra isso tenha que denunciá-lo à polícia por assédio. Não poderá tentar criar afeto algum de irmão, porque isso seria inútil. Ele nunca vai te ver como irmã. E nem adianta se iludir. Caso contrário... Se você permitir que ele se aproxime de você, há um risco bem grande de você ceder a ele de novo e, nesse caso, o sentimento de culpa voltaria a te atormentar, e com mais força do que antes. — Louise prognostica.
— Você tem to-toda razão. Melhor se-seria se eu... não o visse nunca mais! — Lavínia despeja, afastando os olhos para o canto da mesa e sentindo o coração ficar menor dentro do peito, enquanto aperta os dedos das mãos até ficarem muito brancos.
— Preste atenção ao que eu vou te dizer, Vivi... O que eu falei, parece muito simples na teoria...mas na prática é diferente. Entenda que eu sou apenas uma amiga que quer o seu melhor. — Louise olha-a com seriedade. — Quero que entenda que eu nunca julgaria nem criticaria você, caso optasse por aceitar o que sente por esse homem e resolvesse lutar por esse sentimento, apesar de tudo...
— Co-como assim aceitar? Você tá su-sugerindo que... que eu... Ah! Que absurdo, Lou... Nunca! Não! — Lavínia fica muito exasperada.
— Tá bom, Vivi... Acalme-se. Não precisa ficar tão nervosa. Eu só quero a sua felicidade e quero que saiba que sempre terá o meu apoio... em qualquer situação, seja qual for. Eu só estava explorando todas as possibilidades... Só isso. Mas, se não quer, eu não falo mais sobre o que te incomoda. — tenta transmitir-lhe serenidade. Louise compreende depressa que os sentimentos de Lavínia são intensos, mesmo que ela nunca venha a admitir, e isto a afligirá por um tempo difícil de prever. Justo por isso, resolve dar-lhe mais conselhos: — Faça o seguinte, então... Ocupe a cabeça o máximo possível, para não sofrer demais e nem ficar pensando o tempo todo no que houve ou no que ainda acontecerá. — toma as mãos frias e trêmulas entre as suas, para demonstrar solidariedade. E resolve mudar de assunto. — Mas isso de você recusar a ajuda financeira que seu pai tem lhe dado é uma bobagem. Como vai pagar por seus estudos e por seus gastos pessoais? Deixe disso. É pura teimosia sua.
— Quanto a isso, não há o que discutir... Eu pensei bem e decidi que não vou mais de-depender do meu pai. Vou arcar com minhas próprias despesas, todas! — Lavínia impõe uma postura ereta e uma expressão contumaz.
— E como pensa em se virar, mocinha? — Louise pergunta como se, de fato, estivesse perante uma menina fazendo birra e termina por soar um tanto sarcástica.
— Ora, como todo mundo faz... Vou procurar trabalho! — Lavínia responde, obstinada.
— E os seus estudos? Vai desistir do seu curso?
— Claro que não... Vou co- conciliar as duas coisas.
— Eu posso ao menos perguntar por que vai fazer isso, tendo um pai que pode te dar tudo? — Louise fica intrigada ao perceber que a loira está realmente determinada.
— Ah, Lou... É que, depois de tudo o que eu passei... e... de tudo o que eu descobri, agora eu... sinto vo-vontade de me libertar de qualquer de-dependência. Eu quero provar a mim mesma que... eu posso ser auto suficiente.
— Tá bom. Eu vou fingir que acredito que é só isso e que você não está tendo esses pensamentos por estar muito chateada e que, embora tenha perdoado a sua mãe adotiva, não esteja descontando sua raiva somente no seu pai.
— Não é nada disso! Mais que droga, Lou! É só pelo motivo que eu falei. — Lavínia, irritada, argumenta, mas em seu olhar há um brilho vacilante.
— Ok, ok! Calma aí... Não fica zangada comigo também não. — Louise ergue as mãos em rendição e mostra um trejeito engraçado como quem está falsamente assustada, fazendo Lavínia revirar os olhos e rir finalmente. — Quer saber? Já que você está praticamente deserdando o seu pai... Dá ele pra mim! Por favor, amiga. É sério! Eu quero ter um pai rico!
Lavínia iria responder com alguma chacota também, mencionando que Louise não tem autoridade para lhe criticar porque ela quase nunca visita os pais ou ao menos liga para eles. No entanto, subitamente, Manu adentra pela cozinha e, como todos, assusta-se bastante por ver a loira.
— Lavínia! É você mesmo, branquela? Nossa! Que surpresa boa! — afoita, contente, dá-lhe um forte abraço, assim que Lavínia fica em pé. Depois, olha-a, curiosa. — Mas você tinha sido sequestrada, não?
Lavínia dá um longo suspiro e lhe sorri, constrangida, enfastiada.
— Manu, a Vivi está obviamente sem ânimo para continuar com esse papo de sequestro... A gente já passou a manhã inteira só falando sobre isso. Então, depois e com calma, ela explica tudo pra você e pra Vicky. — Louise fala em socorro à amiga e percebe que Manu está só. — Ué! Cadê a Vicky? Não veio contigo como sempre faz?
— Não. Ela disse que era para eu vir na frente, porque ela ainda ia passar na biblioteca. Mas eu sei que foi só uma desculpa pra não vir comigo. — Manu parece distrair-se com o pingente vermelho de seu colar, apertando-o com força e exibindo uma expressão de mágoa.
— Manu, você não deveria fazer essa cara, como se fosse o fim do mundo. Você sabe que a sua relação com a Vicky é complicada. Vocês vivem brigando o tempo todo. Olha, não esquenta não, já vocês fazem as pazes, para brigarem de novo. — Louise, que permanece sentada, garante.
Lavínia fica quieta, só observando Manu com simpatia e não evitando de experimentar um agradável sentimento saudosista, especialmente, por estar agora revivendo uma situação corriqueira entre as moradoras da república.
— Acho que desta vez não. Ela não quer mais nada comigo. Disse que cansou de mim. — A ruiva confidencia às amigas. Olha para Louise. — Não percebeu que ela levou quase todas as coisas dela lá pro seu quarto? Há dois dias que ela tá dormindo na cama da Lavínia, mal fala comigo ou me olha. Ela tá mesmo cansada de mim.
Subitamente, o pivô da recente conversa aparece na cozinha. Vicky aproxima-se mostrando em seu rosto uma expressão chateada, de quem não gosta de ser alvo de debates, pois, quando chegou à casa, escutou as vozes de Louise e de Manu falando sobre si, irritou-se e foi tomar satisfação. Entretanto, ao ver Lavínia, a emoção é tamanha que esquece tudo o mais.
— Lavínia! Oh, Jesus! Amiga! — Ela passa direto por Manu sem nem olhá-la e cai nos braços já abertos da loira, com lágrimas vertendo por sua face comovida.
— Vicky! Que linda que você é. Mas não há motivo para chorar e sim para comemorar. Estou de volta. E é mesmo muito bom estar agora aqui com vocês! — Lavínia abre um sincero sorriso, pois sente o coração repleto de alegria, por se ver reunida outra vez com as suas amigas queridas.
Vicky, como todos, fica curiosa, querendo saber como Lavínia reapareceu de repente, o que houve com ela e se está realmente bem, porém, também é obrigada a guardar sua curiosidade, que será saciada em outra ocasião. Compreensiva, não insiste, sobretudo, porque também se encontra estressada, devido ao seu mal-entendido com a ruiva. Assim, fica feliz demais que Lavínia esteja de volta, apenas sorri e lhe abraça muitas vezes, para que se sinta bem-vinda.
Embora esteja igualmente feliz por Lavínia ter regressado, Manu não consegue esconder sua raiva. E, na frente de todas, ela encara Vicky com ar de interrogação.
— Pensei ter ouvido que você ia pra biblioteca. — afronta-a.
— Bem... É que... eu resolvi deixar pra outra hora. — Vicky baixa os compridos cílios, evitando olhar diretamente para Manu, ao passo que ajeita os cachos volumosos para trás.
— Uhum... sei. — Manu olha-a com ar pilhérico, fazendo Vicky ficar tão incomodada a ponto de querer retirar-se do mesmo recinto, alegando que iria tomar um banho e que rápido voltaria para aprontar o almoço de todas.
Manu apenas balança a cabeça em negação e se senta à mesa, ao lado das outras garotas, experimentando o sangue ferver, de raiva e desolação.
Um minuto completo se passa. A quietude é perturbadora. Lavínia e Louise olham-se com cumplicidade, pois ambas captaram a tensão entre as ex–namoradas, e tratam logo de falar amenidades, para tentar desanuviar o clima. A loira diz que irá hoje mesmo à faculdade para resolver a questão da retomada de seu curso de artes visuais. Ela sabe que terá que passar por alguma burocracia chata, por causa do tempo de seu sumiço e do burburinho especulativo em torno disso, mas está animada e disposta a voltar aos estudos. Louise, por sua vez, mal começa a falar alguma coisa sobre a faculdade também, quando é interrompida por Vicky, que vem voltando para a cozinha, devidamente asseada e trocada, trazendo um celular nas mãos.
— Toma, Louise, seu celular está tocando. — estende a mão e passa o aparelho para ela, que logo reconhece o número na tela luminosa.
— Oi, namorado! — Louise anuncia em voz alta, sorri maliciosa e ao, olhar ao redor, percebe que todas a contemplam com espanto confesso, exatamente como ela previa.
No entanto, não demora muito para Vicky fingir desinteresse, pois não gosta de ser enxerida, prefere cuidar da própria vida, a fim de não dar liberdade para que se metam na sua, que já é confusa o bastante para lhe atormentar o juízo. Ocupa-se aquecendo a comida, mas não consegue, porém, esconder o nervosismo pela presença de Manu, que ainda lhe envia um olhar persistente e irado para, em seguida, sair da cozinha soltando fogo pelas ventas.
Lavínia não disfarça a sua deleitosa curiosidade e fica com os olhos cor presos em Louise, que apenas aguarda a resposta da pessoa do outro lado da linha.
— Eu fui trabalhar me sentindo um sonâmbulo! Eu não consegui dormir nada... Tô quebrado. — Dico está com a voz rouca e preguiçosa. Ele realmente não pôde saciar o sono, pois já passavam das três horas da madrugada quando deixou Louise na república e foi para a sua. Teria, porém, que estar de pé às sete da manhã para ir ao seu estágio, na agência publicitária.
— Oh, pobrezinho! — Louise solta, brincalhona, lançando uma piscadela de olho para a curiosa Lavínia diante dela. — Pois eu dormi bastante esta manhã.... Não fui pra clínica. Simplesmente não dava pra ir trabalhar hoje. Eu liguei pra lá inventando um mal-estar qualquer no estômago. — ri.
— Bom pra você que conseguiu descansar. Eu farei isso à tarde. — Dico anuncia em tom resignado.
— Ei, Dico! O seu curso também é à tarde, não é? — Louise questiona, já sentindo uma animação antecipada por, devido a isto, terem a oportunidade de se verem, também na faculdade.
— Sim. Mas eu vou faltar hoje... já que pela manhã seria impossível, por causa do estágio. — Dico não revela à Louise que estão cogitando contratá-lo na empresa, por isso é muito importante que ele mantenha a frequência rígida.
O diálogo gira em torno dos efeitos provocados pela noite de amor no motel, que deixou ambos indispostos para exercer suas funções costumeiras de modo eficiente. Louise, então, sugere que eles marquem seus encontros posteriores somente aos fins de semana, mas Dico, por algum motivo, parece não estar muito tranquilo ou inclinado a aceitar a proposta dela. Todavia, ele concorda, sem argumentar. Eles se despedem com palavras de carinho e promessas de se reencontrarem o mais rápido, o que só faz aumentar a curiosidade de Lavínia.
— Louise... Você tá namorando? — Não perde tempo para sanar a dúvida, assim que vê Louise baixar o celular.
Louise faz um pequeno suspense antes de responder com um largo sorriso e uma trejeito facial engraçado.
— Tô! Mas eu só vou falar sobre isso mais tarde, tá bom? Agora é melhor nos aprontarmos... Eu não quero me atrasar.
Tanto Lavínia como Louise resolvem não almoçar, visto que haviam tomado o café da manhã tardiamente. Lanchariam mais tarde na faculdade, se sentissem fome. As amigas já vão saindo da cozinha e Manu voltando, para ver se a comida já está pronta, quando Vicky anuncia, em bom som de voz, que as acompanharia, pois iria à faculdade novamente para procurar a direção e resolver algo sobre o horário do seu curso.
— O quê? Vicky, você tá querendo mudar o horário das suas aulas? — Manu explode de vez, encarando-a, desafiadora. Ela parece desfigurada pela cólera. Os músculos estão rígidos, os olhos fixos, quase sem piscar e os punhos cerrados.
— É.. sim, ando pensando que talvez eu devesse mudar para a tarde ou até para a noite. — Vicky revela em tom nervoso, desviando os olhos para o lado, enquanto desliga a chama do fogão, dando por concluído o preparo do almoço e passando as mãos suadas por cima da camisa regata azul-claro.
Lavínia e Louise, que estão em pé frente à saída do recinto, voltam a sentir o ambiente tenso, observando as garotas em plena discussão.
— Por quê? Se é por minha causa, não precisa. Já que você quer tanto me evitar, eu faço questão de atender o seu desejo. Não a acompanharei mais... nem na ida e nem volta da faculdade...
— Manu, pare! — Louise tenta impedir que a ruiva continue a se exaltar e prometer o que talvez não conseguisse cumprir, agravando ainda mais a situação entre ela e a outra. Porém, Manu não vê nada à sua frente, está cega pelo ódio.
— ... e na sala de aula, vou te tratar como se fosse uma colega qualquer. Se quiser, até aqui finjo que você não existe. Tá vendo? Não precisa bagunçar o seu horário de estudo só para me manter longe! — grita as palavras rente à face de Vicky, com fúria, e sai outra vez da cozinha, praguejando aos quatro ventos. A fome a havia abandonado naquele exato instante.
Vicky fica por um tempo com os olhos fixos no piso. As lágrimas querem descer, mas ela as prende, fazendo o rosto e os olhos adquirirem uma coloração avermelhada, ao passo que os lábios se comprimem.
— Vicky... — Lavínia toca em seu ombro. — Nós não vamos perguntar o que houve, porque está óbvio que você prefere guardar segredo. Mas... Já que o namoro teve que acabar... será que não dá pra vocês manterem a amizade ou ao menos a cordialidade? A Manu tem razão de estar brava. Nem a um inimigo se dá tanto desprezo. — busca falar de modo calmo e gentil. E agora pensa que a sensação saudosista que sentiu no início está sendo substituída por genuína preocupação.
— Vocês não entendem! Nunca entenderiam... Não sabem como isso é difícil também pra mim. — divulga, com voz quase sumida, e finalmente, deixa o choro vir para liberar um pouco da dor que sente. No entanto, antes que Louise e Lavínia abram novamente a boca para falar, ela se retira da cozinha. Atravessa a sala e vai para o quarto onde tem dormido nas últimas duas noites e se joga na cama de Lavínia, onde continua a chorar, com a cabeça enterrada no travesseiro.
Tanto Louise como a loira não mais insistem em obter uma reação favorável por parte de Vicky, pois percebem que o caso é mais grave do que desconfiavam a princípio e nada podem fazer para ajudar, a não ser, estar por perto, com uma palavra solidária ou um gesto de apoio mudo. Igualmente optam por não incomodar a reclusão de Manu, que se tranca no quarto e de lá só sairá para ir à lanchonete. Elas, porém, entendem que Vicky desistiu de acompanhá-las, no momento em que preferiu ficar deitada na cama, sem emitir reação, vendo-as aprontarem-se.
O resto da tarde, para Vicky, continua sendo uma tortura psicológica, uma vez que, mesmo que Manu vá para o seu trabalho, deixando-a menos tensa por não mais se achar tão perto, ela sabe que a forma horrível com que a tratou será um empurrão, que certamente a jogará nos braços de Dayse. “Mas este não é o plano?”. Ela tenta bloquear tal visão de seu cérebro. Está ciente, desde que leu aquela carta reveladora, de que é o melhor que pode fazer em prol da felicidade de Manu, pois se é covarde demais para assumir e enfrentar os múltiplos obstáculos que surgiriam, diante do seu amor, seria incorreto ou mesmo desonesto manter a ruiva presa a si, quando ela poderia encontrar plena entrega por parte de outra garota. Estes pensamentos perturbadores de Vicky são interrompidos somente pelos pais dela, que ligam para saber como ela está e ficam felizes quando ela anuncia que ficará o próximo fim de semana completo ao lado deles.
Manu prossegue seu dia sem se permitir alongar-se em mais sofrimento. Está mesmo disposta a procurar um meio de restabelecer-se. Assim, ao fim do expediente na lanchonete, concorda em seguir com Dayse de novo para o ponto de ônibus. Elas andam lado a lado, sentindo o clima ameno da noite estrelada e a carícia do vento em seus rostos, que ora são iluminados pela luz dos postes ora se escondem na penumbra, dependendo do ângulo em que se movimentam, ao passar por árvores, bancos, construções modernas e antigas, seguindo na rua movimentada por carros e ônibus.
Dayse está exultante e, ao mesmo tempo, apreensiva, porque foi a própria ruiva que sugeriu uma conversa particular, fazendo-a dispensar o pai, que viria buscá-la, como de costume. Ela até desconfia que Manu tenha finalmente lido a sua carta de amor e que agora queira dar-lhe resposta direta. Sente-se, contudo, tendenciosa a crer que, nesta noite, o destino irá sorrir-lhe por fim. Veste calça jeans escura, super colada e com detalhes de correntinhas prateadas nos bolsos laterais, tênis também escuros, bolsa tiracolo estilo rocker e blusa encarnada, de corte semelhante ao que a ruiva usa como fardamento. Seus cabelos tingidos de verde estão livres, brilhantes como seus olhos acastanhados.
Manu traja-se de modo despojado, com tênis, saia jeans, a blusa-farda, que destaca o colar com o pingente vermelho, rente ao pescoço, harmonizando-se com os cabelos rubros, soltos e meio desalinhados.
— Dayse, primeiro eu queria te pedir desculpas por parecer que eu tô o tempo todo te evitando... e pelo modo rude como eu te tratei lá no show. — fala, enquanto caminha no mesmo ritmo lento de Dayse, olhando-a de soslaio e recebendo o sorriso que ela lhe envia.
— Não... Não precisa pedir desculpas, afinal, eu entendi que você só estava protegendo a sua...
— Não é mais. — corta o diálogo dela, um pouco agitada.
— O quê? — Dayse fica confusa.
— Não há mais nada entre mim e ela. Nós terminamos. — Manu confessa, sentindo o coração espremer-se dentro de si.
— Ah! Olha, eu sinto muito. Mas isso parece tão repentino... Será que vocês não estão apenas precisando conversar melhor, para poderem se entender? Quero dizer... Será que esta separação é definitiva ou só estão dando tempo por causa de briguinha à toa? — Dayse questiona e aperta os olhos na direção da ruiva. Está, logicamente, angariando dados para ver até onde as suas chances são reais.
— Não. Não foi uma briguinha à toa. Dessa vez foi bem sério. — remexe nos cabelos afogueados, coçando a nuca, incomodada.
— Hum... E quem terminou? Você ou ela? — segue com o interrogatório, experimentando cada vez mais uma sutil emoção.
— Ela. — Manu responde rápido e desvia os olhos, com medo de denunciar sua frustração.
— Ah, tá. Entendi. E era isso o que você tinha pra conversar comigo? Você quer uma amiga para desabafar? — A voz de Dayse sai calma, embora esteja ansiosa. Ela segura Manu pelo braço, puxa-a fazendo-a parar de caminhar, não com a intenção deliberada de tocá-la, mas porque estavam tão distraídas que quase passaram do ponto em que ficariam esperando o seu ônibus. Manu olha-a e depois, ao redor, percebendo o porquê de ter sido puxada pelo braço. Ambas sorriem por se sentirem umas atrapalhadas.
— Não, Dayse. Eu quero tentar algo com você. — aproveita, pega a mão que estava segura em seu braço e entrelaça carinhosamente entre seus dedos acanhados. — Nós tivemos um começo estranho... com você se mostrando a fim de mim e eu me afastando, com medo de cair em tentação. Mas agora nada disso mais importa. Eu tô aqui disposta a aceitar o que você tem pra me dar.
— E o que é que você tem pra me dar, Manu? — Dayse aperta um pouco mais os dedos enlaçados aos seus. Encara-a, sem desviar.
— Eu... acho que não sei esta resposta. Quer descobrir junto comigo? — lança o desafio, devolvendo-lhe o olhar fixo, aproximando o rosto sugestivamente, erguendo só um pouco a cabeça, já que Dayse é mais alta uns centímetros.
— É tudo o que eu mais quero. — Dayse declara numa voz rouca. Sorri e não perde tempo em, com as mãos agora livres, prender rosto de Manu e lhe dar um beijo que é só um friccionar de lábios, no começo, pois quer experimentar o sabor da ruiva com calma. Ela quase não consegue acreditar em tanta sorte. Enfim pode saciar o prazer de tê-la assim. Quer fazer direito, para que Manu aprecie o beijo tanto quanto ela, por isso intensifica com lentidão, busca acariciar a face macia e o pescoço. Manu abre mais a boca para receber uma língua carente, exploradora.
A ruiva tenta deixar-se levar pela excitação do momento, porém, sem querer, a visão dos lábios de Vicky surge e a perturba. Ela passa os braços ao redor da cintura fina de Dayse e não consegue impedir o cérebro de fazer comparações com as formas volumosas da morena. Mas quando Dayse enfia os dedos com gosto pelos cabelos dela, iniciando uma trilha meio ferina, a partir das têmporas, Manu perde o foco. Esta carícia é maravilhosa e inédita para ela. Tudo em que se concentra, neste instante, é nos dedos habilidosos de Dayse.
Um torpor parece tomar conta das duas, quando decidem separar as bocas, que ofegam em busca de ar. Os olhos se fixam, com promessas do que viria depois.
— Tem certeza que é isso o que você quer, Manu? — inquire, passando um dedo gentil pelo lábio úmido e corado da ruiva, suspirando de encanto.
— No momento... não tenho certeza de nada em minha vida. — opta por ser sincera e deixar que ela decida sobre continuar ou desistir de tentar conquistá-la.
— Era isso o que eu queria ouvir. — Dayse sorri e volta a lhe dar um beijo, só que agora sem troca de línguas.
Manu franze o cenho, por não compreender o que ela quer dizer.
Dayse é perspicaz e fica contente por perceber que Manu não está fazendo joguinhos com os seus sentimentos. Está sendo honesta, deixando claro que ainda se sente envolvida pela sua ex e que ela terá que ser mais paciente ainda, caso queira mesmo atrai-la completamente para si.
— Eu te vejo amanhã, minha linda. — Dayse afasta-se e estende o braço para o ônibus que vem. — Combinaremos algo por telefone, ok? Eu te ligo!
Dayse anuncia, envia-lhe um beijo no ar e entra pela porta da condução, largando Manu zonza, nervosa, excitada e confusa, pois não se lembra de ter dado seu número de telefone para ela. Todavia, sua maior angústia é saber que logo mais terá que enfrentar os olhos indiferentes de Vicky e sentir uma renovada mágoa, por saber que ela é a responsável por estar lançando-se nos braços atraentes de Dayse. Conclui que, se Vicky está realmente desanimada; a paixão esmoreceu. Então, o que lhe resta é tolerar o fato e deixar claro que também cansou de lutar em vão por esse amor.
De todo modo, devido ao prazer que sentiu pelo beijo de Dayse, Manu vai aos poucos nutrindo confiança. Pensa até em propor um acordo de paz e amizade com Vicky.
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