[HIATUS] Mudanças impuras
54 Aceitando o que foi para viver o que há (Parte 1)
Notas iniciais

(Proposta de imagens representativas de Michele e Hugo)
***
Quando o sol começa a invadir o céu por meio de seus raios luminosos e calor bem-vindos, a névoa fria vai difundindo-se pouco a pouco, fazendo ressurgir uma nova manhã de domingo.
Louise, que passou praticamente a noite toda insone, sem conseguir equilibrar as emoções, por causa dos pensamentos adversos e da conversa muito dura que teve com Dico, abre os olhos, lança-os para o lado, pega o celular de cima da cômoda, confere a hora e vê que são seis e dez. Já que percebe ser inútil continuar tentando dormir, ergue-se da cama, esfrega os olhos, passa as mãos nos cabelos curtos e escuros bagunçando-os, boceja, encaminha-se à suíte e faz sua higiene matinal costumeira. Torna ao quarto, escolhe para vestir uma camisa bege de mangas longas com botões frontais e dobras nos pulsos, short jeans e sapatilhas escuras. Empreende toda esta movimentação atentando-se em não incomodar o sono de Lavínia, que ainda dorme pesadamente.
Na cozinha, solitária, Louise luta contra o enjoo para comer algo, mesmo sem sentir o sabor de nada, adotando gestos estritamente maquinais e escondendo a sua inquietação em algum canto dentro de si no intuito de se manter firme. Após, torna outra vez ao quarto, apanha seu capacete, sua bolsa e, determinada, retira-se novamente. Desfecha a porta da frente da casa, encontra sua Biz, empurra-a portão afora, sobe nela, põe o capacete e sai, rumo ao destino que, na realidade, estava evitando. Pilota por trinta minutos, até chegar a um conjunto habitacional. Maneja a motocicleta adentrando numa esquina determinada. Sente uma emoção estranha tomando conta de seu corpo, assim que para na calçada à frente do muro baixinho e portão gradeado, igualmente de baixa estatura, mas largo, de onde se pode ver inicialmente uma árvore florida rodeada por um grama verde e outros espécimes de plantas pequenas à lateral de uma passarela cimentada que conduz a uma residência de construção antiga, na qual prevalecem as cores claras. A princípio, não observa movimento algum, fica mesmo a pensar que não há ninguém ali, pois, de fato, as portas e as janelas estão todas fechadas, sem sinal de alma viva. Fixa, então, os olhos na moradia e não consegue impedir que muitas lembranças a invadam, sobretudo porque há meses não aparece nem para uma ligeira visita. Contudo, no mesmo instante em que desce da moto para tocar a campainha da residência dos seus pais, nota um automóvel vindo em sua direção, não demora a reconhecê-lo e os dois homens que estão no seu interior.
— Louise! Você tá aqui... — Hugo, seu irmão, aproxima-se falando com voz que mescla surpresa e algo mais, que ela identifica, no abraço formal que lhe dá, como nervosismo.
Imediatamente, ela sente algo estranho no ar, ainda mais quando vê seu pai com aspecto de total alquebramento e tristeza, bem diferente do usual, que é a expressão severa e altiva.
— Então você já sabe o que aconteceu? Falou com o Hugo por telefone? — O senhor de cabelos escuros entremeados a muitos fios grisalhos e várias marcas formando-se no rosto cujos traços foram herdados por Louise de modo a se parecerem, pergunta, também lhe oferecendo um abraço fugaz e voltando a pôr sobre si olhos perscrutadores.
— Não, pai, ela ainda não sabe, eu não tive tempo pra ligar. — depressa, Hugo toma a fala. “E se eu tivesse ligado, teria me ignorado, como já fez muitas vezes.”, completa mentalmente e em seus olhos castanho-claros perpassa um vestígio de ressentimento.
— Eu não sei o quê? O que houve? E cadê a mamãe? — O olhar curioso de Louise dança do pai para o irmão, enquanto a agonia começa a lhe dominar, pois pressente a má notícia.
— Nós a levamos às pressas, nessa madrugada, para o hospital porque ela sofreu uma reação alérgica séria depois de tomar um comprimido para dor de cabeça. — Hugo respira fundo. — Ela confundiu as medicações e, ao invés de tomar o benuron, tomou o metamizol... que tem dipirona na composição.
— Ai, meu Deus! Como ela pôde se descuidar, mesmo sabendo da alergia que tem à dipirona? Mas que garantia vocês têm de que houve mesmo essa troca de medicações? E como ela está agora? Há risco de morte? — bombardeia-os com perguntas, querendo compreender os pormenores desta repentina tragédia.
— Calma, Louise! Não, sua mãe não vai morrer. Ainda bem que ela mesma percebeu a confusão que fez. Assim que ingeriu o comprimido, deu-se conta do erro, prestou atenção ao que tava escrito na embalagem e me avisou... Então eu chamei o Hugo e nós agimos bem rápido. — O senhor Laércio dirige um olhar gentil para o filho, mentalmente agradecendo por ele ainda morar consigo, pois, do contrário, não sabe se Dinah ainda estaria viva. Com efeito, o senhor Laércio se apavorou demais, não soube exatamente o que fazer ao ver que, em questão de minutos, sua mulher iniciava os sintomas fortes, agonizando, quase sem fôlego e com o sangue subindo, tornando a sua face um pouco arroxeada, ao passo que a pele ganhava urticárias e inchava em algumas partes, como lábios, bochechas e garganta. Se não fosse por Hugo, que está no terceiro ano de enfermagem e, portanto, sabe que cada segundo é precioso para salvar a vida dos pacientes que apresentam este tipo de reação alérgica grave, é provável que não fosse tão ágil, tampouco teria conseguido dirigir com a mesma velocidade até o hospital, devido à enorme tensão.
— É, Louise, tudo aconteceu muito rápido, mas, por sorte, conseguimos que ela fosse tratada como se deve, recebeu uma injeção de epinefrina, também lhe ministraram anti-histamínicos, oxigênio e não precisou ser entubada. — O irmão explica usando termos médicos, o que indica o avanço na sua formação para enfermeiro.
— Nossa! Ao menos isso, né? Mas em que hospital ela está? — Louise inquire já supondo a resposta. Para ela é fácil antever que sua mãe havia sido levada para o mesmo hospital no qual Hugo está cumprindo estágio.
— No Hospital Rosa Alvarez... — confirma-lhe o pensamento. — Só que ela vai ficar na UTI até amanhã em observação, sem poder receber visita.
— Ah... tá. — esboça simplesmente.
De repente, pai, filho e filha ficam sem saber o que dizer, apenas se encaram de vez em quando, com igual olhar inquieto.
— Vou abrir as portas. — O senhor Laércio resolve quebrar o silêncio. Cabisbaixo, dirige-se ao portãozinho de grade, descerra o cadeado que lhe une as duas abas, olha para Louise, abre a boca para dizer algo, mas desiste e segue atravessando-o rumo à porta da frente da residência.
— Louise, você pode ficar com o papai... até eu voltar? — Hugo fala baixinho. — Eu estou de plantão hoje, mas não quero deixá-lo sozinho... É que ele tá mal de verdade pelo que houve com a mamãe, tanto que nem tá conseguindo bancar o durão de sempre... — abre um riso triste e a olha de lado. — E eu sei que a sua presença vai ajudá-lo, ele ficou contente por te ver aqui.
Louise nada diz, fica muita quieta, somente escutando.
Ele continua:
— Além disso, estarei perto da mamãe e poderei ligar pra vocês, caso haja alguma complicação. Enquanto isso, você faz companhia a ele e eu não vou precisar chamar outro parente, como tava pensando em fazer. — confessa, desvia os olhos e torna a se calar, sem saber se a sua solicitação será ou não atendida. Aguarda.
Porém, quando o pai surge novamente com olhos vagos, tristonhos, Louise suspira e acena positivamente.
— Ok, Hugo. Eu fico. — arremata, sucinta.
Ele sorri, contente.
— Olha que coisa boa, pai, a Louise vai passar o dia com o senhor, isso não é realmente ótimo? — volta-se ao senhor, querendo animá-lo.
— É, sim. — O pai anui, deixando ver uma sutil linha de sorriso em seus lábios.
Louise fica inquieta e se direciona à Biz.
— Sendo assim, vou colocar a moto dentro. — divulga e o senhor Laércio dispõe-se a ajudar abrindo uma das abas do portão achatado.
— E eu vou voltar pro hospital... Bom domingo pra vocês e eu ligo mais tarde. — Hugo despede-se e se encaminha novamente ao carro. Entretanto, nem bem chega a este e escuta um barulho estranho seguido do chamado aflito do senhor Laércio:
— Hugo, socorre aqui, filho!
Quando o rapaz olha para trás, assusta-se com a cena que vê. O pai está levantando a motocicleta de Louise do chão e de cima dela, que também se encontra caída na calçada de cimento, parecendo debilitada.
— Louise!!! — volta correndo. Já bem próximo, ajuda-a a erguer-se e a percebe bastante pálida. — Você tá bem?
— Ela caiu de repente. — O senhor Laércio interrompe, apreensivo, ainda sustentando a moto.
— Só fiquei meio tonta por uns segundos, desequilibrei e cai, mas já passou, eu tô bem. — declara, com voz não tão confiante.
Hugo conduz Louise para dentro da casa, coloca-a sentada numa poltrona rente à porta aberta para que receba a ventilação externa, ao passo que o pai também introduz a Biz e a deixa na área coberta, num canto qualquer. A seguir, une-se aos dois, porém, depressa tem a ideia de ir buscar água para a filha beber.
— Será que a sua pressão baixou, Louise? Melhor vermos isso, vou buscar o meu aparelho. — O irmão sugere. Justamente por causa do seu curso de enfermagem, ele mantém um esfigmomanômetro reservado em casa. O outro instrumento próprio para medir a pressão arterial, que é mais moderno e novo, fica no hospital.
— Não precisa, eu já tô me sentindo melhor. — afirma e aceita o copo d’água que o pai lhe oferece.
— Tem certeza? Mas não custa nada conferirmos, é rápido. — Hugo, receoso, tenta convencê-la.
— Não precisa, Hugo. — repete em tom arisco devolvendo o copo esvaziado ao pai, que deposita em si um olhar muito firme.
— Deixe o seu irmão medir a sua pressão, Louise, por favor, não seja tão turrona! Você quase desmaiou agora há pouco, sua pressão pode ter caído mesmo, só queremos confirmar. — O senhor Laércio, com uma prega enorme no meio da testa, intercede com voz entre rígida e preocupada.
— Grrr... Tá! Ok! — Enfim, autoriza por meio de um praguejar abafado.
Desse modo, Hugo busca o aparelho e, em instantes, já está erguendo a manga da camisa de Louise a fim de contornar seu braço esquerdo com a braçadeira escura de Nylon, enquanto ela torce a boca, mostrando contrariedade ao sentir a compressão cada vez mais forte simultaneamente ao insuflar da bolsa pneumática aderida à sua pele. Os batimentos cardíacos são medidos e o resultado logo é obtido.
— Uhm... Que estranho. — fala Hugo, liberando o braço dela do aparelho.
— O que é estranho? — Louise questiona impondo maior rudeza à voz para esconder a ansiedade.
— Sua pressão não está baixa, como imaginei que estaria, está na verdade um pouquinho elevada. — olha-a com ar especulativo.
— Ahhh... Então tá explicado, ora. — faz cara de quem se sente convencida do que lhe ocorreu. — Eu me emocionei por causa da mamãe, me assustei muito... e os nervos abalados fizeram a minha pressão subir e eu passar mal, simples assim.
— É... pode ser. — diz, lacônico.
— Quer dizer que ela quase desmaiou por causa da emoção, Hugo? — pergunta o pai, com a ruga de preocupação ainda bem visível ao meio de suas sobrancelhas.
— Como eu disse, pode ser. De fato, ela pode ter-se emocionado demais e isso lhe alterou os batimentos do coração e provocou o momentâneo atordoamento, mas não acredito que seja algo para se preocupar muito, até porque a elevação apresentada não é considerada crítica. — atenua, olhando de viés para Louise. Após, sorri para o senhor. — Vamos medir a sua também, pai, só para cumprir a rotina?
Com a testa menos enrugada, o senhor Laércio acena positivamente com a cabeça, ao passo que se abanca numa cadeira. Assim, depois de igualmente medir a pressão do pai e confirmar que a dele, sim, está no nível de boa normalidade, Hugo, conforma-se.
— Agora eu preciso ir mesmo. Qualquer coisa, me liguem. Eu também ligarei mais tarde para saber se está tudo bem por aqui e para tranquilizá-los sobre a mamãe. — propõe, intercalando a sua atenção entre os dois. — Pai, na volta, eu acho que a Michele vem comigo pra dormir aqui, está bem?
— Uhum... certo. — concorda naturalmente, o que faz Louise ficar um pouco surpresa e imediatamente se recordar de um episódio do passado que, embora tenha ocorrido num contexto diferente, lhe causou enorme dessabor. Num certo dia, quando ainda vivia nesta casa e tinha dezessete anos, ousou sugerir que um paquera seu viesse pernoitar consigo e, além de ouvir um estrondoso não, igualmente teve que suportar um sermão muito rígido.
Hugo retira-se.
Louise fica a sós com o pai.
Depois de certo tempo, agoniada de novo com o seu olhar, levanta-se da poltrona, atravessa a outra sala e se dirige para a cozinha. Lá chegando, vai à pia, lava as mãos com água e sabão e começa a remexer por dentro da geladeira, retirando-lhe umas verduras, um empacotado de carne congelada e os demais temperos que julga serem necessários.
— O que está fazendo, Louise? — O pai surge atrás de si.
— Alguém precisa preparar o nosso almoço, não é, pai? — pergunta retoricamente, sem cessar a sua atividade. Volta-se para as prateleiras afixadas à parede e vai descendo algumas panelas.
— Não, filha... deixe isso comigo. Vá descansar. — recomenda.
— Não preciso descansar agora, eu já falei que tô bem e... deixar com o senhor? Ah... Pai, me poupe! Tudo bem que minha comida não é lá essas coisas, aliás, de fato eu não tenho e nunca tive nenhuma vocação culinária, mas aprendi a me virar, tenho certeza que posso fazer melhor que o senhor que, até onde eu sei, não sabe nem fritar um ovo que preste. — replica, um tanto grosseira, mantendo o ritmo da tarefa a que se propôs, sempre de costas para ele. Inicia o recortar das verduras sobre a tábua de madeira que coloca à lateral do largo balcão da pia.
— Está certo, fique à vontade e faça como achar que deve, filha. — O tom de voz ameno causa estranheza em Louise, que olha de soslaio para trás e o nota indo para a saída da cozinha, com a mesma postura de desânimo e apatia.
— Pai! — chama bruscamente.
— Hum? — para de andar e a olha. Ela respira fundo, gira o corpo e pigarreia. — Quer me fazer companhia? — aponta com a cabeça para uma cadeira diante da mesa quadrada que fica no meio do recinto.
O senhor Laércio se mostra um pouco surpreso, mas aceita o convite. Retorna, arrasta a cadeira e se senta.
Louise volta à posição anterior e ao corte das verduras.
— Então o namoro do Hugo com a doutorazinha continua mesmo firme e forte? — questiona, puxando assunto.
Uma centelha de ânimo aparece nos olhos do pai.
— Sim, a Michele e ele já estão juntos há mais de dois anos. Ela é uma pessoa muito boa e só tem trazido sorte para a vida dele.
— Eu tô sabendo mais ou menos como esse romance aconteceu. Sei que ela o ajudou a não ser um futuro obeso mórbido. — sorri discreta e traquinamente. — E foi professora dele também, não é? — instigando-o a seguir falando.
Para Louise, esse assunto é na realidade por demais maçante, já que a sua mãe, nas raras conversas trocadas por telefone ou ainda nas mais raras visitas que lhe faz, sempre o aborda, enchendo-a de informações sobre a evolução profissional e pessoal do seu irmão. Contudo, ela quer somente preencher o tempo e distrair a mente do pai e a sua também.
— Foi, mas só no primeiro ano. — Ele explica.
Parecendo igualmente querer fugir do que o preocupa no momento, o pai continua narrando a bela história sobre o namoro do seu filho, Hugo, com a doutora Michele, uma médica endocrinologista que, ao substituir a professora titular, no ano inaugural de uma turma de enfermagem, encantou-se pelo rapaz estudioso de olhar dócil, mas muito acima do peso, para alguém tão jovem. Porém, o senhor Laércio diz que Hugo garante que, mesmo havendo essa forte atração entre ele e a professora, o relacionamento só teve início depois que o ano letivo se encerrou. Sendo que, a princípio, Michele tornou-se apenas uma orientadora, uma incentivadora para que ele seguisse firme no propósito de se tornar um enfermeiro. Contudo, a paixão falou mais alto e nem o sobrepeso de Hugo ou o fato de ele ser onze anos mais jovem foi empecilho para que o namoro, enfim, ocorresse. A partir daí, ela decidiu auxiliá-lo na perda de peso, fazendo-o, no espaço de dois anos de relação, dar adeus a trinta quilos, por meio de um tratamento endócrino e da adesão a alimentos e hábitos mais saudáveis.
— Bem... É verdade que eu e a Dinah ficamos um pouquinho contrariados por saber que o Hugo estava namorando a sua ex-professora, uma mulher mais velha... — Ele confessa, vendo Louise dar por encerrado o preparo da carne e iniciar o do arroz. — mas, quando ele a trouxe para nos apresentar, tudo mudou, nós vimos como ela é jovial e não se nota diferença alguma entre eles, parece até que têm a mesma idade.
— Hum... Já tem um tempo desde que a vi, mas pelo que eu me lembro, realmente não a achei velha para ele... Se duvidar, daqui há pouco, ele é que vai parecer mais velho que ela. — sorri, um tanto maldosa.
Assim, Louise vai terminando de fazer o almoço e o senhor Laércio segue conversando sobre Hugo e sua namorada.
Instantes depois, a comida pronta é servida e Louise junta-se ao pai à mesa.
— E quanto a você, Louise? Como vai o trabalho e a faculdade? — De repente, interroga-a mudando de assunto, ao passo que leva outra garfada de arroz com nacos de carne cozida à boca.
Louise segue comendo precariamente, mais amassando no prato e remexendo com o garfo e a faca os alimentos do que ingerindo-os, pois na verdade está receosa de sentir ânsia de vômito.
— Eu continuo atendendo na clínica de odontologia e, na faculdade, o meu curso de educação física está indo... razoavelmente. Às vezes, penso em abandoná-lo, mas vou levando, né? Porque a verdade é que eu não me decidi ao certo que profissão quero seguir. — libera, espontânea, mas ao ver os olhos fixos do pai sobre si, incomoda-se outra vez e torna a se concentrar em seu prato.
— Já pensou em mudar para a área de saúde e seguir os passos do Hugo? — sugere, igualmente espontâneo.
Louise sente a porção de comida travar ao meio da sua garganta e, com esforço, empurra-a para descer.
— É... eu aposto como o senhor e a mamãe adorariam isso... Mas lamento informar que eu e o seu querido caçula somos bem diferentes. Eu já trabalhei em hospital, vi gente doente, sangrando e morrendo... Argh! Credo! Isso não é pra mim mesmo. — afirma em tom seco, meio agitada, porém, respira fundo e se contém.
— Entendo... Então siga a área que desejar, Louise, faça como quiser. — aconselha, parecendo contido e ao mesmo tempo algo aborrecido. A seguir, também inspira com força e a encara novamente. — E... E como vão as coisas lá na república e, enfim, na sua vida pessoal?
— Está tudo ótimo na república, eu e as meninas somos mais que colegas, somos amigas pra valer... Bom e, se com “vida pessoal” o senhor está perguntando se eu estou namorando, saiba que não, não estou, ok? — atesta, categórica.
A partir daí, o clima entre eles volta a ficar um pouco pesado. Louise não puxa mais conversa e o senhor Laércio menos ainda. Quando acabam de almoçar, ela, muito séria, recolhe os pratos, põe-nos à pia e imediatamente começa a lavá-los, numa concentração absurda para esta simples tarefa.
O senhor Laércio ergue-se e após, olhá-la longamente com vontade de lhe dizer que deixe a lavagem dos pratos consigo, já que ela havia feito o almoço, apenas se retira da cozinha, desta vez, sem ser chamado de volta.
A tarde passa para ambos como um arrasto dificultoso de uma lesma envelhecida.
Louise deixa-se estar deitada no sofá, assistindo TV, com o controle remoto em mãos e sem se ater a canal algum. Inquieta demais, tenta, mas não consegue tirar um ínfimo cochilo, embora esteja cansada e ensonada, seu cérebro em ebulição não lhe dá folga. Já o senhor Laércio ocupa-se consertando uma calha quebrada, à lateral da casa, no alto de uma escada amadeirada, aproveitando ainda para trocar umas telhas velhas.
Hugo liga e fala três vezes com o pai, só para confirmar que está tudo bem com a mãe e para saber se sua irmã realmente não sentiu algum novo mal-estar.
A noite desponta trazendo um céu adornado de poucas nuvens, uma modesta lua crescente e umas lufadas de ar fresco, que mesmo sendo agradáveis não são o bastante para suavizar o desassossego interior de Louise.
O relógio que fica no alto da estante marca dezenove horas, entretanto, somente após transcorridos mais trinta minutos é que pai e filha escutam o barulho do carro atravessando e sendo estacionado ao interior dos portões da casa.
— Aff! Até que enfim! — Ela solta um bufo de alívio.
Os dois se erguem do sofá para receber os recém-chegados.
Adentram pela sala Hugo e Michele, uma morena de cabelos medianos, olhar sereno e discreto.
— Boa noite. — Ela cumprimenta o senhor Laércio e oferece a Louise um sorriso simpático. — Oi, Louise, há quanto tempo... Que bom vê-la!
— Ah... Oi, Michele. — responde, abreviada, aceitando mecanicamente o abraço que a outra lhe dá.
Hugo desconsidera a apatia da irmã e sorri.
— Desculpem a nossa demora... É que antes de virmos, fui ver a mamãe.
— Você entrou na UTI? Conseguiu falar com ela? — O pai questiona, ansioso.
— Sim! Ela já está ótima, certamente amanhã irá para a enfermaria, poderá receber visitas e em breve estará em casa. Nós conversamos um pouco, eu lhe disse que a Louise havia passado o dia aqui com o senhor... — olha para Louise e o sorriso alarga-se. — Ela quase não acreditou... ficou muito feliz.
Louise nada diz, apenas acena positivamente.
Ao contrário, o senhor Laércio, como Hugo, por fim, mostra um autêntico sorriso.
— Oh! Era isso o que eu precisava ouvir... Obrigado, meu filho! — comemora e, de modo natural, acolhe Hugo num abraço afetuoso.
Louise desvia o olhar.
— Bom... Acho que agora chegou a minha hora de ir. — divulga em alto som de voz.
— Louise, por que você não dorme aqui esta noite? — Hugo inquire, afastando-se do pai e a arrostando, curioso. — Seria mais prático pra você visitar a mamãe... Amanhã é feriado, lembra? Você não vai precisar ir pro trabalho nem pra faculdade e, além disso, daqui são apenas umas quadras do hospital, mas de lá da república onde você vive são mais de quarenta minutos, é bem distante.
De fato, coincidentemente, no dia seguinte haverá feriado para a capital, pois a data refere-se ao seu aniversário e apenas os serviços fundamentais à cidade estarão ativos, como hospitais e delegacias. Louise não se lembrava disto, contudo, mostra-se logo enfezada.
— Errr... Não, mas o combinado era eu fazer companhia ao papai até você voltar... Eu não vim preparada pra dormir aqui, não trouxe roupa pra trocar... passei o dia com esta, tô suja e suada. — contrapõe.
— Que não seja por isso, pois você pode pegar uma roupa da sua mãe pra vestir. — O senhor Laércio intromete-se, igualmente a olhando sob um cenho erguido.
— Ah, pai! As roupas da mamãe não servem em mim, ficariam como sacos enormes de estopa. — resmunga, mantendo as objeções.
— Louise, se você aceitar, posso te emprestar alguma minha... porque eu imagino que nós vestimos o mesmo número, não é? — Agora quem intervém é Michele. Como ela passou a pernoitar nesta casa nos fins de semana, resolveu que seria conveniente trazer alguns de seus pertences e mantê-los ali para seu uso necessário.
— Seria muito gentil de sua parte, cunhada, mas não quero te dar esse incômodo à toa. — fala entredentes, azeda. Depois, força um sorriso. — Ah! Gente, é sério, eu adoraria ficar, mas não posso mesmo. Melhor deixar pra outro dia.
Assim, o senhor Laércio dirige-lhe um olhar amargoso, ao passo que balança negativamente a cabeça.
— Está certo, filha... Se pra você é um sacrifício tão grande ficar mais umas horas ao lado da sua família, então faça como sempre faz, mantenha-se longe de nós, vá embora... Vá! — súbito, mostra todo o seu desapontamento.
A atmosfera rapidamente fica tensa.
— Sacrifício? Quem foi que falou em sacrifício, hein, pai? Eu apenas disse que não vim preparada pra dormir aqui e que é melhor deixar isso pra outro dia! — afronta-o, petulante e agitada.
Em resposta, o pai afasta de si o olhar, mantém-se calado, oferecendo-lhe uma clara atitude de igual insolência.
Hugo analisa as feições do pai e da irmã e não evita de se admirar com a semelhança física e comportamental que há entre eles. Decide também ficar quieto, bem como o faz Michele. Portanto, o silêncio reina e a tensão aumenta, enquanto os olhares são lançados sobre Louise, menos o do pai, que agora está sentado no sofá fingindo observar algo que passa na TV ligada.
Louise vira-se para buscar sua bolsa a fim de ir-se de vez, porém, não consegue, fica uns instantes parada, praguejando internamente, com as palavras de Dico ecoando em seu cérebro: “... crie ao menos um pouco de coragem pra ir visitar a sua família [...] olhe bem nos olhos do seu pai, da sua mãe e do seu irmão e diga a eles que você é uma pessoa traumatizada [...] que é assim por causa da relação mal resolvida que tem com eles...”
— Ok... Eu mudei de ideia. Vou ficar. — desvira-se, fala impondo voz de serenidade e os encarando de cabeça erguida.
O senhor Laércio olha-a de viés e a sua expressão carrancuda amaina-se, embora permaneça calado.
Hugo e Michele, entreolham-se com cumplicidade e sorriem abertamente.
— Oh! Que bom! — A bela doutora exprime, exalando simpatia e conseguindo quebrar de vez o clima de tensão.
Um pouco mais de uma hora depois, Louise está banhada, vestida numa calcinha limpa e nova, presente da cunhada, que também lhe emprestou um short jeans e uma blusa branca. Encontra-se sentada a um canto do sofá, mexendo no celular e acessando a internet para distrair-se, após ter ligado para a república avisando que iria pernoitar fora. Está com o senhor Laércio ao seu lado, cochilando e sem nada atentar-se ao que surge no telejornal ou ao redor de si, na sua sala de estar. Hugo e Michele, por sua vez, ocupam o outro sofá. Ele, semideitado no braço acolchoado deste, tem a sua namorada recostada em seu peito, recebendo afagos gostosos em sua cabeça, ao passo que ambos tentam acompanhar as notícias que vão sendo divulgadas na TV.
Por certo que, minutos antes, Michele ainda tentou engatar algum diálogo a mais com Louise, porém, percebeu que a outra não se mostrou nada disposta, nem para conversar nem para ser agradável. E logo confirmou que ela prefere, de fato, manter uma razoável distância de tudo e de todos ali, de propósito.
— É... parece que o sono me pegou de jeito. — De repente, o senhor Laércio exprime, abrindo a boca para soltar um enorme bocejo, ao passo que se ergue do sofá. — Vou-me deitar, boa noite, Hugo e Michele...
— Boa noite, pai. — Hugo responde e Michele, porque está inerte a dormitar sobre si, não.
— Boa noite para você também, Louise, e espero que goste de dormir outra vez no seu quarto. — diz, ameno.
— Assim também espero... Boa noite, pai. — Louise soergue os olhos do celular e fala com voz inalterada.
Segundos depois, ele desaparece pelo corredor que fica à lateral da sala.
— Michele... Michele! — Hugo chama baixinho ao ouvido da sua namorada, acariciando-lhe o rosto com dedos amorosos. — Vá pro quarto, você está caindo de sono também.
— Hummm... E você não vem? — vira o rosto, olha-o e questiona, manhosa.
— Vou daqui há pouco. — deposita um beijo em sua face ensonada e lhe sorri.
Então, ela se levanta preguiçosamente.
— Ok... Só não me faça te esperar demais. — pisca-lhe um olho e lhe devolve o sorriso. Após, volta-se para Louise. — Boa noite, Louise... Durma bem.
— Boa noite, Michele, você também. — responde, lacônica.
Hugo e Louise ficam a sós. Ele suspira forte, põe-se em pé e se afasta seguindo à cozinha. Louise nota, mas não se importa e permanece ora olhando para a TV ora mexendo no celular, inquieta. Minutos posteriores, o irmão volta trazendo em cada mão uma xícara fumegante.
— Fiz chá de camomila... Quer experimentar? Talvez você goste. — estende-lhe uma delas.
Louise, quase por reflexo e a contragosto, vendo a chávena rente a si, abandona o celular no espaço livre do sofá e a recebe.
— E desde quando você toma chá? — pergunta, ranzinza, olhando-o de lado, enquanto o líquido quente emite vapores no ar.
— Culpe a Michele, por causa dela fui obrigado a saber dos múltiplos benefícios da ingestão contínua de determinados tipos de chás. — volta a se sentar no outro sofá e ri espontaneamente. A seguir, mostra-se um pouco mais sério. — Louise, fiquei pensando no mal-estar que você teve pela manhã e, embora eu acredite que não seja nada sério... quero te falar que, se você quiser, posso indicar uns amigos médicos que podem te fazer um bom checkup, pra ver como anda a sua saúde.
— Hum... — desconsiderando o enunciado dele, Louise toma um gole e faz careta. — Ai...Isso tá com gosto de remédio. Argh! Acho que vou dispensar.
— Ah, desculpe, é que pus adoçante ao invés de açúcar. — Ele coloca a própria xícara em cima da estreita mesa, que se encontra entre os dois sofás, e volta se levantar. — Vou buscar outra xícara pra você, com açúcar mesmo...
— Não precisa, deixa isso pra lá... Eu não tô afim de tomar porcaria de chá nenhum. Aff! Vou ver se consigo dormir, isso sim. — exprime, já nitidamente irritada. Igualmente deposita a xícara na mesinha e se ergue. — E você pode, por favor, parar de tentar ser tão atencioso e agradável comigo o tempo todo? Isso tá me dando nos nervos... Que saco!
Louise apanha seu celular e começa a andar ao rumo de onde ficam os quartos.
— O que foi que eu te fiz? Me responde, Louise, por que você me odeia tanto? — Subitamente, Hugo também se põe outra vez de pé e ejeta, olhando-a diretamente.
— Como é que é? Eu? Odiar você? Ah, mas só me faltava essa! — volta e o arrosta, mordaz, de braços cruzados. — Hugo, eu não sei de onde você tirou essa ideia imbecil, mas eu lamento ter que te contradizer e informar que eu não te odeio.
— É... acho que nem ódio você sente por mim porque, se sentisse ao menos isso, já seria alguma coisa! Na realidade, eu, o papai e a mamãe simplesmente não existimos, não somos nada pra você!!! — acusa, amargurado, com os olhos cheios de lágrimas contidas.
Louise sorri, simulando apatia, mesmo que o tremor incômodo já tome seu corpo.
— Uau! Sabia que você tá na área errada? Deveria ser ator, aposto como ganharia o Oscar na categoria drama paspalhão! — ironiza e faz menção de voltar a caminhar.
À esta altura dos acontecimentos, Louise e Hugo não percebem, mas estão sendo observados pelo senhor Laércio, que está recostado à parede do corredor, somente assistindo à desavença que ocorre entre seus filhos, sem sinalizar ânimo para intrometer-se.
— Você não sabe a falta nos faz... a falta que me fez, quando foi embora. — corrige-se, toma-lhe a passagem, impedindo-a de continuar andando. — Eu sei que a gente não se dava tão bem, éramos como cão e gato... mas eu só tinha dezesseis anos, nunca quis te expulsar daqui, não de verdade...
— Você tá mesmo achando que eu fui embora só porque você não se cansava de dizer pra eu ir? Hugo, eu tive muitos e muitos motivos pra sair dessa casa... e, acredite, a maior parte deles não têm nada a ver com você ou com as brigas bobas que nós tínhamos. — defende-se.
— Mas então... por que você sumiu? Por que demora tanto pra vir nos visitar? Você não sabe que a mãe, o pai e eu... — Ele não se contém e termina chorando. — Nós nos sentimos rejeitados por você e achamos que isso vem acontecendo desde que você meteu na cabeça que eles gostavam mais de mim do que de você... Por isso, quando você saiu daqui... praticamente nos virou as costas, nos deixou em segundo plano na sua vida.
— Ai, meu Deus! Quanta bobagem! — expressa, agoniada e não conseguindo olhá-lo fixamente.
— Eles te amam, Louise! Amam muito... e eu também... eu te amo, mas não é fácil dizer isso, ainda mais quando você me olha sempre com tanto desprezo... Só queria que você soubesse disso... Boa noite. — Finalmente, sai da frente dela, liberando-lhe a passagem e fungando para deter o choro.
— Hugo, e por que você não para de falar merda e vai dormir também? Eu, hein! — bufa, mantendo o olhar para qualquer ponto ao alto, sem o ver, e segue firme num passo ligeiro.
Ela passa pelo pai, olha-o atravessado, nada mais pronuncia. Chega ao seu antigo quarto, encosta a porta e, enfim, sente o corpo todo tremular e o coração bater forte comprimindo-se no peito como se estivesse sendo amassado por um rolo compressor. Olha à volta de si e constata que o quarto não está tão diferente de quando ainda morava na casa, apesar de não haver roupa alguma no velho guarda-roupa ou os calçados, ou seus outros acessórios espalhados pelo recinto. Há somente a cama, o criado-mudo, um pequeno abajur e a janela − que agora está fechada – através da qual olhava o céu e sonhava com os dias futuros longe dali. Apaga a luz, anda à cama e se deita. Sente um líquido morno banhar seu rosto e se dá conta de que está chorando. Este choro, aos poucos, torna-se soluços audíveis para si, que se recrimina, mas não consegue contê-los, pois, por mais que tente, não tem como evitar que os pensamentos a bombardeiem com lembranças dolorosas e sentimentos que já não a afetavam rigorosamente há muito tempo.
Os minutos passam, ela chora e chora até que o sono a vence e a tira desta lamúria. Termina tendo um sonho surreal e perturbador, no qual Dico surge à frente de si, no começo, dando-lhe abraços e beijos muito intensos, deixando-a excitada, porém, logo se transformando num feto gigante que emite sons guturais, mas que são compreensíveis para si. Ele lhe implora que não o mate. Contudo, o feto gigante ganha formas e rostos. São a sua família. Essa variação, de algum modo, é para si como agulhas rasgando-lhe a pele.
Louise sente uma dor profunda e acorda gemendo. A dor continua bem real. Com dificuldade, ergue o braço, acende o abajur e, ao olhar para baixo, leva um grande susto. Há sangue no short e na parte interna de suas coxas. Sente novas pontadas agudas em seu ventre.
— Ai, ai, ai...! Socorro! — pede, com voz enfraquecida, sentindo o suor frio deslizar por sua pele, que se eriça, enquanto morde os lábios, agora ressequidos, e comprime os olhos numa expressão de pura agonia. Somente quando as pontadas diminuem, ela reúne, por fim, toda a energia que lhe resta e grita o mais alto que pode: — Hugo!!! Pai!!! Socorro!!!
Instantes depois, Hugo, Michele e o senhor Laércio adentram pelo quarto. O Pai fica aterrorizado e estático por ver Louise deitada na cama com sangue escorrendo ao meio de suas pernas. Hugo parece ter ficado em igual estado de imobilidade, tamanho foi o susto. Michele, porém, é mais prática, ela corre e se senta ao lado da cunhada, busca-lhe a mão e a aperta docemente, olhando-a com vontade de ajudar.
— Louise, fale comigo... O que você tem?
— Michele, me ajuda... tô perdendo o meu bebê... — implora baixinho, através do choro de dor e de aflição.
Michele não perde mais um segundo, pois confirmou a suposição que teve, assim que entrou no cômodo e a viu. Olha firmemente para os dois homens e sabe que terá de tomar as rédeas da situação.
— É o seguinte... Hugo, troque de roupa o mais rápido, coloque o carro para fora e volte aqui para buscá-la. Senhor Laércio, se o senhor quiser ir junto, terá que ser bem rápido também. Enquanto isso, eu fico com ela... Nós precisamos levá-la para o hospital, entenderam? Agora!!! — ordena.
Como soldados que receberam os comandos do seu superior, os dois homens correm, cada qual para cumprir a sua função.
Louise permanece gemendo de dor e chorando muito.
— Eu não tenho culpa, eu juro, Michele... não fiz nada... Ele não vai acreditar... não vai... — solta desabafos um pouco incoerentes, está quase delirando de dor.
— Ei, ei...! Mantenha a calma, Louise, respire fundo... Não se canse falando... Fique assim, de lado e quietinha... Tudo ficará bem, confie. — massageia-lhe a mão sempre a olhando docilmente.
Mas Louise mostra-se irrequieta, estica o braço, tenta pegar o seu celular de cima do criado-mudo, não consegue, a dor não deixa.
— Michele, ligue pra ele... Ai! Hum... Faça ele saber... eu não tenho culpa. — De novo, parece delirante.
— De quem está falando? Do pai do seu filho? — Sem ver opção, Michele interroga e ela meneia a cabeça positivamente. — Qual é o nome dele?
— Dico... Fernando, mas o chamam de Dico...
— Ok... Vou ligar pra ele, assim que puder, mas agora a prioridade é você. — pega o aparelho de cima do criado-mudo, enfia-o na bolsa dela, que está jogada ao lado superior da cama e, contente, vê Hugo e o senhor Laércio de volta. A seguir, torna a olhar para a cunhada. — Louise, escute bem o que vou dizer... O Hugo irá pegá-la nos braços, mas você não pode fazer esforço algum, deixe que ele sustente todo o seu peso, você deve relaxar o corpo completamente, ok?
Louise só acena para garantir que entendeu, pois não tem mais forças para esboçar palavra alguma. O irmão passa um braço englobando as pernas juntas da irmã e o outro ao longo da sua coluna. Com delicadeza e força, ergue-a e anda com ela em seus braços, tendo o pai à sua cola, para auxiliar na colocação dela dentro do carro.
Em poucos instantes, Michele também já está de roupa trocada e sentada perto de Louise – segurando firme a sua mão e lhe dizendo palavras reconfortantes −, no banco traseiro do veículo, que é guiado por Hugo. O senhor Laércio encontra-se acomodado ao lado do condutor e tem na face a explícita imagem da preocupação.
[...]
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