[HIATUS] Mudanças impuras

20 A noite do imprevisto


Notas iniciais
Decupem-me pela demora em postar este capítulo. Espero que os compense agradando-os com o que escrevi nele. Então, boa leitura e nos encontramos na nota de baixo. Hahaha... Kisses! OBS.: Obrigada pela betagem maravilhosa, minha amiga querida, Estrela de Rubi, autora de "Vítima do Amor".

Henry passa pelo corredor e desce as escadas, seguindo os passos de Frida. Encontra-a sentada no sofá, em frente à TV ligada e chorando contidamente, ou melhor, tentando não desabar em lágrimas.

— Se vai ficar desse jeito cada vez que nos vir juntos, aí é que essa merda vai desandar de vez! O que vamos fazer a respeito? — expressa, acomodando-se no sofá, ao seu lado, cruzando os braços e olhando-a firmemente, com expressão de amolação mesclada a dúvida.

— Desculpe se não me acostumo com esse tipo de-de... coisa! Mas a verdade é que tenho medo, Henry. Eu tenho medo de ter errado com você como mãe substituta... de não ter servido para te ensinar valores e limites necessários... Eu... Eu acho que não fiz o suficiente... — Frida não consegue concluir a sua fala, pois se engasga com a emoção. — Porque eu assumi uma responsabilidade que caberia a alguém da sua... sua família. Por isso, eu acho que não cumpri a minha tarefa direito.

— Você fez o seu papel muito bem, fez tudo o que uma boa mãe faria. Que bobagem está pensando? — Ele suspira largado, descruza os braços e passa o direito sobre os ombros dela, em sinal de afeto. — Você não lembra do enterro da Abigail? Esqueceu que estavam lá uns tios e umas tias, todos primos dela... e ninguém quis saber onde ou com quem eu iria ficar, mesmo eu estando órfão, a partir daquele momento, e com apenas nove anos de idade. Ah! Frida... Às vezes, laço sanguíneo não significa coisa nenhuma!

— E eu que tive medo que te levassem pra longe de mim... exatamente por não ser uma parente sua. Eu já era tão apegada a você. — A senhora confessa, ternamente, sorrindo tristonha, pois recorda-se do quanto ficou contente quando compreendeu que a criação de Henry ficaria sob seu encargo.

— Resumindo... você sempre foi uma medrosa! — Ele constata e sorri, espirituoso, apertando-lhe os ombros com o braço robusto.

— Olha como fala, menino! — Frida resmunga, enxugando as lágrimas, mas não demonstrando raiva alguma. — Eu amo você, Henry... como se fosse meu filho de verdade, e eu só não quero ver você cometendo erros por cima de erros... até se afogar neles. E veja que eu não tô falando só dessa vingança. Eu falo dela... dessa pobre criança. Eu não quero me sentir culpada por ver você fazendo coisas com Lavínia que não deveria e se perdendo em meio a uma paixão que já nasceu pecaminosa!

— Vamos começar tudo de novo, hein? Essa conversa é tola... inútil. Frida... O que acontece entre mim e Lavínia só diz respeito a nós, não tem nada a ver com você ou com a criação que você me deu ou com questões religiosas... ou ainda com o que a sociedade admite como correto. Nada disso importa de verdade, quando se é alguém infeliz, que segue as regras por não ter coragem de assumir o que realmente quer.

— Mas tem a ver com o que houve no passado porque se vocês tivessem crescido juntos, como irmãos de verdade, você não a veria dessa forma, não iria querer ficar com ela como mulher... e não estaria pecando sem remorso no coração. — Ela conclui e lastima internamente, porém, não há mais lágrimas em seus olhos.

— O passado não volta, Frida. Não dá pra mudá-lo. Então, a única ação que eu posso fazer é encarar o que eu tenho agora. E veja que minhas chances são muito... poucas. Eu tô arriscando no tudo ou nada com ela, certo de que Lavínia pode passar a me odiar pra valer quando souber a verdade sobre nós. Isso se já não bastasse a raiva que ela sente por estar presa e por eu ser uma ameaça declarada ao pai dela... E você pode acreditar que eu não vou parar. Eu não vou desistir de fazer esse canalha pagar, nem que seja um pouco, pelo que provocou ao meu pai, pelo que fez comigo, com ela e...principalmente pelo que fez com a Abigail.

Ao ouvir o nome de Abigail, Frida respira fundo e tenta não chorar novamente, pois, lembrar desse nome é muito difícil para ela. Portanto, busca concentrar-se em algo menos trágico.

— Você me levaria a um lugar hoje à noite, filho? Quero dizer, no carro? — pergunta, optando por mudar de assunto, já que entende que ficar discutindo com ele sobre as resoluções que tem em mente, tentando alterá-las, é algo sem rumo mesmo.

— Aonde quer ir? — Henry arqueia as sobrancelhas, estranhando o pedido.

— Rezar, ou melhor, eu quero ir numa Igreja que vi... um tempo atrás, aqui nas redondezas do bairro, e sempre tive vontade de frequentar. Mas não dá pra ir caminhando porque é um pouco longe. Você me leva? Eu soube que tem missa aos domingos à noite... por volta das sete horas, então deve acabar lá pelas oito ou perto de nove horas, talvez.

— Uhum... Tá. Se você quer mesmo se entorpecer indo à Igreja pra ouvir conversa fiada como alívio de consciência... o problema é seu! E eu te levo, sim. Mais tarde me lembra disso. Eu vou pro meu quarto agora, dormir um pouco. Eu tô exausto, depois de tantas emoções para uma manhã e começo de tarde... Preciso repôr as energias! — Henry diz enquanto se levanta e se direciona às escadas sem se voltar para olhar a expressão estupefata de Frida.

O resto da tarde, assim como o início de noite, transcorre menos agitado.

Frida assiste à programação dominical da TV e cochila, de hora em hora, no sofá, sentindo-se uma velha carcomida e cansada. Lavínia tenta ler, depois resolve usar, finalmente, as peças de pintura, nunca tocadas antes, para ocupar a mente criando algo bonito e buscando não sofrer demais por conta das angústias e dúvidas, que a assolavam enormemente. Por seu lado, Henry demora um pouco para pegar no sono, mas quando consegue, dorme um bom tempo.

[...]

Na república, as meninas entram em colapso, numa verdadeira efervescência emocional. Choram, riem, comentam sobre a ligação de Lavínia por duas horas seguidas e, ao fim, apenas se conformam com a alegria e a esperança, atualmente mais certa, de poder voltar a ver a amiga ali com elas.

À medida que a noite vai aproximando-se, Louise decide ligar para um ex–affair, um cara que lhe serve de amante-estepe para quando quer transar sem compromisso ou envolvimento afetivo. Esta sua atitude, no entanto, é mais uma tentativa meio desesperada de parar de pensar em Dico, que, por sinal, resolve dar um tempo de paz, não a procurando e nem ligando o dia inteiro. “Por que será que o bonitão bom de lábia sumiu?” Ela não sabe e nem quer saber. Está disposta a ter uma ótima noite de sexo para se desintoxicar dele, antes que se vicie irreversivelmente.

Manu convida Vicky para irem a um show de rock que acontecerá em um espaço de eventos não muito conhecido na cidade, um local chamado Gruta Rockálica. Uma banda-cover do Iron Maiden irá apresentar-se e ela quer muito ir com a sua namorada, nem que precisem bancar as amiguinhas o tempo todo, durante o espetáculo. Entretanto, Vicky confessa estar sem ânimo e até sugere que a ruiva vá sem ela e que aproveite bastante as músicas e o show, pois compreende sua idolatria por esta banda. Não obstante, Manu insiste tanto mas tanto que a morena vê-se encurralada, sem poder recusar o convite. Assim, acertam-se definitivamente sobre a saída, determinando que irão de táxi e, do mesmo modo, voltarão para a república.

Às dez horas da noite, as duas garotas estão prontas para sair. Vicky traja algo que a ruiva a fez vestir. Um corpete tomara-que-caia jeans branco, bem ao estilo corselet, com zíper na frente, uma bolsa tiracolo azul anil, com alça finíssima sobre um dos ombros, uma saia em tons verticais de prata e preto, justa e sexy, mas não muito curta, e uma sandália delicada, preta e de salto mediano. Os cabelos estão soltos, encaracolados e brilhantes, jogados para trás, emoldurando o belo rosto da morena, maquiado sutilmente, com pó compacto leve, blush e batom-gloss, em tons róseos. Ela exala sensualidade, mesmo não se dando conta de tal fato. Já a ruiva está totalmente a caráter, com vestimentas adequadas a uma roqueira que se valoriza. Traja blusa preta, com o slogan da banda Iron Maiden, uma calça jeans super estilosa, com alguns spikes nas laterais e tênis All Star, também preto, com cadarços de cor vermelho-claro, que combina com o pingente rubro do colar, com tiras de couro escuro, que usa rente ao pescoço. Tem os cabelos presos em um rabo de cavalo alto, deixando as franjas afogueadas em destaque no rosto alvo, exibindo apenas como maquiagem um traçado de lápis preto nos olhos, que a deixa lindíssima. Contudo, sua maior arma de beleza no momento é o largo sorriso de felicidade por estar indo com sua namorada ouvir músicas, ao vivo, de uma de suas bandas favoritas. Uma raridade que nem sabe quando se poderia repetir.

Chamam o táxi por telefone e, assim que ele chega, fecham as portas da república, que nessa noite, ficará abandonada às traças, pois Louise já havia saído também, para o seu encontro-meia-boca. Quando chegam à frente do Gruta rockálica, já percebem uma movimentação festiva, pessoas diversas numa fila um tanto comprida indo na direção do caixa para comprarem os ingressos, e escutam algum som instrumental, vindo de dentro do espaço de eventos.

Manu e Vicky entram na fila e esperam a sua vez.

— Olha quanta gente! Não sei se foi boa ideia eu ter vindo. — Vicky anuncia, virando-se para encarar a ruiva. Seus olhos escuros parecem ganhar dimensões, ficando como duas bolas negras e brilhantes, porque expressam o que há em si de inquietação.

— Por quê? São pessoas que nunca vimos na vida. Relaxa, pô! — Manu fala enquanto põe as mãos nos cabelos da outra, ajeitando os cachos que teimam em vir para frente de seus ombros. — E você tá tão linda que dói só de olhar!

— Agradeço o elogio, mas... se você conseguir ficar com essas mãos abusadas longe de mim... eu posso até tentar relaxar e, quem sabe, curtir a noite. — fala, afasta as mãos de Manu que já a acariciavam nos ombros nus, e lhe dá de novo as costas, para ficar em posição de fila, buscando não se encher de pensamentos preocupantes.

— Tudo bem! Eu prometo que não te toco... até chegarmos em casa. Mas eu aposto como você vai gostar e não vai se arrepender de ter vindo. — anuncia a ruiva, confiante.

Chega a vez delas. Entram e ficam um pouco distantes do palco, apenas olhando ao redor e se acostumando ao ambiente, que daqui a poucos minutos, está razoavelmente lotado de pessoas, a maioria vestida de preto e exibindo seus múltiplos adornos de rock. As luzes do palco estão ainda sendo testadas, assim como os instrumentos e a banda principal será uma das últimas a subir no anfiteatro. Antes, haverá mais duas apresentações de outras bandas, que nem Manu e, muito menos, Vicky conhece. Mas não demora muito e logo novas luzes se acedem. O estrado ganha vida quando uns garotos eufóricos entram e iniciam um Trash metal, do tipo bem garagem, não negando a forte influência do hard core, com seu som pesado e agitado. Vicky estranha um pouco, porém, nada diz. Manu aprecia e até arrisca uma dança de cabeça, fazendo seu tufo de cabelo preso voar pelo ar num bailado frenético.

— Vamos beber alguma coisa! — A ruiva propõe, parando de se agitar.

— O quê? — Vicky sente-se meio surda, devido ao som alto.

— Cerveja! Eu volto já... fica aí, paradinha! — ordena, já se direcionando à parte de venda de bebidas.

Manu pega uma ficha para comprar duas latinhas de cerveja e, de longe, observa a sua namorada achando um charme vê-la meio deslocada.

Depois de uma hora e uns tantos minutos, outra banda, não muito diferente da anterior, adentra o palco, mas elas continuam no mesmo canto da parede, curtindo o espetáculo a uma distância segura, para tranquilizar Vicky.

— Eu não quero mais isso não. Olha... Até que o som não é ruim. — Ela divulga para Manu, livrando-se finalmente da sua segunda e última latinha de cerveja.

— Sério que tá gostando? — A ruiva se aproxima dela e passa os braços ao redor dos seus ombros despidos, com um sorriso travesso nos lábios, cheirando-lhe os pescoço e as faces, louca para lhe dar um beijo ali mesmo, sem ligar para mais nada.

— Manu! Não! Você prometeu. Não quero que nos vejam assim... em público. — Vicky retira os braços da outra e fica com expressão chateada.

— Ai, cacete! Desculpa. Eu esqueci... parei! — liberta-a, levantando as mãos para o alto, em sinal de rendição. A seguir, volta sua atenção ao palco novamente. — Ah! É agora, Vicky! É a vez da banda cover. Olha lá... São eles! Yeah! — faz o sinal característico com a mão, apontando para cima o dedo mindinho e o indicador, e coloca a língua para fora, em movimentos de reverência ao rock.

A banda inicia sua interpretação, Manu fica feliz demais e até Vicky acaba curtindo de verdade aquele som barulhento, mas harmônico também, a voz potente do vocalista, bem como os toques da guitarra, baixo e bateria. Mas o que a impressiona mesmo são os cabelos dos rapazes, quase todos longos, lisos e bonitos, contrastando com o visual másculo e enérgico. Meia hora depois, a música selecionada para o público é a clássica “Fear of the Dark”. A ruiva dá um grito, que chega a assustar Vicky.

— Que demais! Eu amo essa música! — Manu fala eufórica, com vontade de se aproximar mais do palco, ciente de que Vicky não aceitaria, pois tem consciência de ela querer evitar a notoriedade.

As luzes passam a oscilar um pouco, enquanto a canção não chega à parte agitada.

“I am a man who walks alone

And when I'm walking in a dark road

At night or strolling through the park

When the light begins to change

I sometimes feel a little strange

A little anxious when it's dark

Fear of the dark, fear of the dark…

I have a constant fear that something's always near

Fear of the dark, fear of the dark

I have a phobia that someone's always there...”

Do nada, o palco se ilumina ao máximo e espalha a sua luminosidade a cada espaço do pequeno local. O som que antes estava cadenciado, pela voz um tanto melodiosa, agora explode em sonoros estalos instrumentais, preparando para seguir com a canção em completa vibração, conforme o vocalista altera seu tom para algo mais agressivo, promovendo delírio entre os amantes do rock.

“Have you run your fingers down the wall

And have you felt your neck skin crawl

When you're searching for the light?

Sometimes when you're scared to take a look

At the corner of the room

You've sensed that something's watching you

Fear of the dark, fear of the dark… “

O canto da parede, onde as garotas se encontram, também recebe iluminação e elas terminam ficando bem visíveis às demais pessoas. Vicky apenas mantém-se conformada, esperando que as luzes tornem a diminuir, e Manu continua em pleno transe, curtindo a música e embalando a cabeça sem parar. Só que, quando Vicky dá-se conta de que está gostando de verdade do show, eis que algo ocorre para atravancar seu instante de apreciação.

— Manuela? Manu! — Repentinamente, alguém grita pelo nome da ruiva e lhe toca o braço para obter sua atenção. — É você mesmo! Aqui! Que coincidência maravilhosa!

— Dayse? — Manu fica meio aturdida, pois é pega de surpresa e nem pode evitar quando a garota com cabelos tingidos de cabelos verde se aproxima e lhe beija as faces com gosto, fazendo Vicky ficar, no mínimo, curiosa para saber quem é esta pessoa abusada que expõe tanto entusiasmo num encontro casual.

— Sou eu. A única! — diz Dayse exibindo os dentes e os olhos em confissão de alegria, olhando espontaneamente para Manu, encarando tal fato como obra do destino. — Nossa! Você tá linda demais! E eu nem tô acreditando que nos encontramos aqui.

— Errr... Bem, é que sou fã do Iron Maiden e soube deste evento aqui... e me interessei em vir. — Manu fala olhando de soslaio para Vicky, que escuta tudo caladinha.

Na verdade, a morena está muito quieta porque receia que a garota de cabelos cor de abacate seja da mesma faculdade que elas, ou algo do tipo, e que descubra sobre seu namoro com Manu, podendo delatá-las para mais pessoas, o que não seria em nada conveniente para a sua meta de manter seu relacionamento no âmbito da discrição.

— Eu também! Adoro Iron Maiden! Eu vim com meus amigos... aqueles ali. — Dayse aponta na direção de um grupinho composto por um rapaz afeminado, que fica encarando os rapazes no palco com olhos devoradores, e de duas moças que estão a se beijar, de modo plenamente desinibido. Todos vestem-se de preto e têm os olhos em traços escuros fortíssimos. Do mesmo modo está Dayse, que só agora lança um olhar inquiridor sobre Vicky e depois para Manu. — E você? Veio com quem?

— Com minha... colega aqui. Vicky esta é Dayse, Dayse esta é Vicky. Éramos pra ser em três, mas o.... namorado da Vicky deu bolo na gente. Ele nos encontraria aqui, mas não veio por... por causa de um problema pessoal que surgiu de repente. — A contragosto, Manu faz as apresentações e, enquanto vê as duas estranhas cumprimentando-se, profere uma mentira, que formulou no exato instante, para evitar suspeitas quanto a ela e a Vicky.

— Ah! Bom... Lamento por você! — Agora, sim, Dayse resolve dirigir-se à morena, sentindo-se mais aliviada, pois a primeira impressão foi de que ela pudesse ser uma paquera da ruiva.

Vicky apenas sorri frouxamente, detestando esta situação, uma vez que, embora aprove a conduta escolhida por Manu, de mentir para ocultar a verdade do que há entre elas, isso não é algo que lhe. E ela permanece com os olhos fixos sobre a garota de cabelos esverdeados, experimentando sentimentos incômodos.

— Você é da mesma faculdade que a gente? Quer dizer... é de lá que você conhece a Manu? — resolve indagar, a fim de especular o tipo de envolvimento que ela tem com a ruiva. Seu tom de voz sai um tanto alterado, mas qualquer um diria que é por causa do som alto vindo do palco.

— O quê? Não! — Dayse ri e olha abertamente para Manu. – Eu e ela trabalhamos juntas na lanchonete. É bem legal lá! Um lugar repleto de gente... interessante.

— Hum... sei. — Vicky fica a imaginar por que sua namorada, que sempre costuma comentar bastante sobre o seu trabalho, a respeito das pessoas de lá, nunca tenha mencionado o nome desta garota tão exótica.

— Olha, por que vocês não se juntam a nós? Meus colegas estão só um pouco mais perto do palco e é bem melhor ver o show de lá... Não acham? — Dayse fita Manu e espera pela resposta.

— É que minha colega aqui não gosta de ficar em meio a multidões e prefere ficar mesmo no canto. — “Que saia-justa!” Manu fica refletindo que essa coincidência trará futuros problemas entre ela e Vicky e, desde já, lamenta.

— Não. Se for por mim...Tudo bem! Vamos mais pra perto do palco... não me importo. — Mas, na verdade, o que Vicky quer é examinar mais, saber quais as intenções de Dayse em relação à ruiva.

— Tem certeza? — Manu surpreende-se, franze a testa e olha para Vicky como quem diz: “O que você tá fazendo?”, gesto que a morena entende, mas ignora.

— Que ótimo! Então vamos! — Dayse agarra-se ao braço de Manu e sai puxando-a, deixa Vicky caminhando atrás delas, com ar de incredulidade e já se vendo tomada de muita raiva.

O clima de tensão fica no ar, porém, somente entre Vicky e Manu, pois tanto Dayse como seus colegas estão animados demais para perceber qualquer coisa. A garota de cabelos verdes não se faz de tímida e não perde nenhuma oportunidade para flertar com a ruiva descaradamente. Minutos depois, quase todos estão bebendo cervejas, menos Chris, o cara afeminado, porque foi escalado para ser o motorista da noite, e Vicky, porque tudo o que quer é que chegue a hora de ir para casa. Ela não acredita que esteja ali, presenciando outra garota ser tão ousada com a sua namorada e ainda por cima tendo que fingir indiferença.

Manu tenta descontrair o clima e não transparecer que também está incomodada. Por isso, disfarça como pode, ela bebe, conversa e ri bastante, o que faz Dayse erroneamente imaginar que esteja sendo correspondida em seu flerte, fazendo-a ser cada vez mais afoita em suas ações e palavras. Ela se candidata para buscar as cervejas dela e, após instantes, já oferece da sua latinha para compartilharem e incita Manu a dançarem juntas, no embalo da música, levando Vicky a quase ter um ataque cardíaco de fúria.

A banda escolhe mais uma canção costumeira para tocar e o público entra em desvario, ao ouvir o início de “Wasting Love”.

“Maybe one day I'll be an honest man

Up to now I'm doing the best I can

Long roads, long days, of sunrise, to sunset

Sunrise to sunset

Dream on brothers, while you can

Dream on sisters, I hope you find the one

All of our lives, covered up quickly

By the tides of time...”

Dayse está tão empolgada e embriagada que nem liga de parecer avançada demais. E a música num tom mais romântico ajuda a agravar a situação. Em determinado momento, ela se põe de frente para Manu e a olha sensualmente.

— Eu quero você! Me dá uma chance e eu te faço feliz! — explode em palavras apaixonadas, sem noção do que provoca em Manu e, mais ainda, em Vicky, que fica boquiaberta e sem reação, por uns minutos.

A ruiva desvia os olhos de Dayse para Vicky, sentindo a alma fugir do corpo, e não tem chance de reagir quando Dayse toma de surpresa seus lábios e a beija com gosto. Vicky experimenta como se o chão se abrisse abaixo de seus pés e dá um grito fraco, mas audível para as pessoas próximas, depois sai correndo dali, sem ter noção exata de onde ir.

— Dayse! Por que fez isso? Eu não te dei essa liberdade! Caralho! — Manu empurra-a bruscamente, quase a fazendo cair, sentindo-se péssima por expôr Vicky a tanta agonia, esbraveja e sai em busca dela, que está indo na direção do banheiro das mulheres.

— O que deu nelas? — pergunta uma das amigas de Dayse, a quem quer que escute, referindo-se, obviamente, a Vicky e Manu.

— Algo que não é da nossa conta. — responde sua namorada, Aline, que é mais observadora que todos ali e conseguiu captar a verdade importuna, porém, opta por não se meter, por enquanto.

— É, parece que não é mesmo! — Dessa vez quem solta, consternada, é Dayse, que agora sim, percebe o papo furado de colegas que foi jogado em cima de si pela ruiva. “É lógico que elas são mais do que colegas e estão fingindo, por algum motivo.”, conclui mentalmente e se sente desiludida.

No banheiro feminino, Vicky chora, trancada em um dos compartimentos, com o celular na mão. Está em pé e sente ânsia de vômito, mas não sabe se é por conta do abalo emocional ou se é pelo forte odor de urina, advindo de toda parte ali. Não demora muito e escuta a voz de Manu, chamando seu nome, em tom alto.

— Vicky! Cadê você? Aparece! Eu sei que tá aqui! — A ruiva está nervosa e com medo da reação de Vicky. Porém, isso não é empecilho para falar na frente de umas garotas desconhecidas, que estão no mesmo recinto.

Vicky pensa em se fazer de surda por mais um tempo, só que, por impulso, age diferente. Ela abre a porta, vai à pia e molha o rosto para depois olhar friamente para Manu.

— Se você quiser ficar, por mim não tem problema. Eu tô indo embora agora... vou chamar o taxi. — Suas palavras saem sem entonação alguma, o que assusta mais ainda a ruiva.

— Vicky! Claro que não ficaria aqui sem você! — Manu segura-a pelo braço, a fim de impedi-la de sair, e a faz olhar em seus olhos, erguendo seu queixo com uma das mãos. — Não pense bobagens! Não é nada do que você tá pensando! Eu vou lá inventar uma desculpa qualquer... me despedir do pessoal e você fica na saída e me espera lá! Por favor. Não vai sem mim!

Sem aguardar resposta, Manu sai apressadamente ao encontro do grupinho de amigos que a notam, quando ela se achega e ficam olhando-lhe, sem graça. A ruiva logo entende que o comportamento de Vicky, assim como o dela, acabou desmascarando-as, mas ela prefere se fazer de ingênua para evitar perguntas ou comentários.

— Olha gente, eu e a Vicky estamos indo. Ela não tá se sentindo muito bem... Eu vim com ela, então não posso deixá-la ir só. — olha para Dayse, que parece triste, e se aproxima mais dela. — Me desculpa por ter sido grossa com você. Eu lamento. Então, Dayse... nós nos vemos na lanchonete... depois. Tchau! — Já vai virando-se para sair.

— Podia ao menos ter sido sincera comigo e ter confessado, quando te perguntei. Podia ter dito que já tem namorada. — Dayse declara com amargura, fazendo Manu voltar a olhá-la.

Manu acha que deve negar, fingir-se de tola ou apenas ignorar, mas não consegue fazer nada disso, ante o olhos tristonhos de Dayse.

— Isso é mais complicado do que você possa imaginar. Eu não falei sobre ela... porque ninguém pode saber sobre nós! — Tais palavras são uma forma de pedir perdão e compreensão ao seu relacionamento adverso com Vicky.

— E você é feliz com ela... em segredo? — A voz de Dayse sai irônica.

— Às vezes sim, às vezes não... Mas a vida é assim, não é? Não são sempre flores, existem também os espinhos. — É tudo o que Manu consegue anunciar como revide.

— Manu... Eu posso ser melhor pra você do que ela. Comigo não precisaria fingir, mentir nem se esconder dos outros. Eu teria orgulho de estar em público com você... de apresentá-la a todos, sem exceção! — Dayse resolve apelar um pouco e acaba atingindo Manu em seu ponto frágil.

— Obrigada... Mas, como já sabe, eu tenho namorada. — diz em tom seco além do que imagina e vai embora, deixando Dayse mais decaída ainda. Ela não está acostumada a receber foras, e sim a dá-los, por isso fica chateada e, ao mesmo tempo, tentada a não desistir facilmente de conquistar Manu.

No táxi, Manu não tira os olhos de Vicky que, por sua vez, demonstra achar os movimentos dos carros e a paisagem lá fora bem mais interessantes. Contudo, ela tem os olhos em chamas de vontade de chorar, mas prende as lágrimas o quanto pode, para não se entregar à angústia total. Manu também está ansiosa, entretanto, não se considera culpada por nada. Quando o carro estaciona, em frente à república, quer arcar com a corrida, no entanto, Vicky insiste em dividir e acaba expondo a sua irritação diante do taxista.

Ao entrarem na casa, notam a luz apenas da televisão ligada. É Louise, que já havia voltado do seu encontro, e está deitada no sofá, em frente à TV, com uma lata de sorvete sobre a barriga e com uma tremenda cara de tédio.

— Oi pra vocês! Como foi o show? Espero que tenham conseguido aproveitar mais do que eu. — fica óbvio que o seu encontro foi um fiasco.

Manu e Vicky olham-se atravessado e com ar de cansaço, sem saber o que responder a Louise. A morena passa direto para o quarto.

— Foi uma merda, Louise... Deu merda total! — Manu diz e some acompanhando os passos de Vicky.

Louise é possuída pelo pensamento funesto de que uma bruxa esteve a solta nesta noite, brincando com os espíritos frágeis, que escolheu para atormentar sem misericórdia. Ela mesma teve uma péssima noite, pois transou sem sentir quase nada. Não tem a menor noção do que a impediu de aproveitar o momento. O cara estepe é lindo, generoso, só a leva a motéis caros, fala pouco, não cobra nada dela e ainda banca tudo e a trata feito uma dama. “Por quê? O que tá acontecendo comigo? Será que tô ficando frígida?” Estas são as perguntas reflexivas que se faz, enquanto escuta, de lá do quarto das meninas, um início de briga, que parece que vai render confusão. Ela desliga a televisão e vai para o próprio cômodo, no intuito de não se intrometer no que não lhe diz respeito.

No quarto, Vicky e Manu encaram-se, evidentemente perturbadas.

— Eu não fiz nada, Vicky. Nada! Foi ela que ficou se insinuando o tempo todo e depois disse aquelas coisas idiotas e me beijou... Não consegui afastá-la a tempo. Eu não pedi pra aquilo acontecer. — Manu tenta justificar-se com a maior calma que consegue.

— Quem é ela? Por que nunca me falou sobre ela? — Vicky sente-se desconfiada e exige que a ruiva fale sobre Dayse.

— Por quê? Ora! Porque ela não tem importância nenhuma pra mim... Dayse é só uma colega de trabalho... nada mais que isso! — Manu começa a se irritar por causa das dúvidas de Vicky. — É você que tá enchendo a sua cabeça de bobagens!

— Tem certeza disso? Porque não é isso que eu tô achando. Você sempre fala do seu trabalho pra mim. Sempre me conta sobre as pessoas de lá, inclusive cita nomes de vez em quando. Eu nunca escutei você mencionar absolutamente nada sobre trabalhar com uma menina com cabelos verdes, chamada Dayse. A cabeça de abacate dela passou despercebida pra você? Aposto que não! Que motivo você tem pra não ter me falado sobre ela, hein? Por quê? — encara-a, sem desviar os olhos.

Manu fica buscando na mente a resposta, a verdadeira resposta, mas não a encontra e se vê muda por uns instantes. Vicky percebe a inesperada hesitação da outra e fica absorta, pasmada. Ela supôs que Manu teria réplicas imediatas e convincentes que lhe diria, sem titubear, e a faria ver o quanto ela não tem motivos para se enciumar ou se encher de dúvidas sobre o relacionamento delas. Elas brigariam, mas depois selariam o seu amor com beijos e carícias, como sempre. Contudo, não bastasse ter de passar por tanta humilhação nessa noite, ainda teria que suportar sua namorada sem palavras para consolá-la. Vicky, assim, começa a reunir suas roupas de dormir, pega a toalha, os utensílios de higiene pessoal e vai em direção à saída do quarto.

— Pra onde você vai? — Manu questiona, surpresa, tocando-lhe o braço e pedindo atenção.

— Vou dormir com a Louise... na cama da Lavínia. — Vicky anuncia, com olhos marejados e expressão de mágoa. Ela evita olhar para Manu, ao passo que segue em movimento.

— Vicky... — a ruiva ainda chama, mas já está só e nem acredita em sua postura vacilante em presença das acusações de Vicky.Ela não entende por que não foi capaz de lhe dar as respostas certas, rápidas e eficientes, como sempre foi de costume e, assim sendo, nutre em si algum medo de pensar melhor a respeito.

[...]

Notas finais
É isso aí. A ruiva não soube se sair muito bem dessa vez. Por que será, hein? Será que sente algo por Dayse? Será que o relacionamento das garotas vai "falir". Hahaha... Isso nós saberemos depois. Olha, peço desculpas, pois as cenas mais "calientes" ficaram para o próximo capítulo. De quem será? Hahaha... Aguardemos! Gente, se eu demorar a postar é por que estou realmente passando por uns probleminhas pessoais e isso pode atrapalhar um pouco. Bem, beijos e até mais! OBS.: Abaixo vai os links das músicas da banda Iron Maiden abordadas aqui neste capítulo: Fear of the dark http://www.youtube.com/watch?v=nZ9iq2HGJec Wasting Love http://www.youtube.com/watch?v=mHo3inIvE1M São canções lindíssimas e nos fazem arrepiar com o velho e bom rock. Yeah!!!