[HIATUS] Caindo do céu
12 Eu não queria abandonar minha família, eu só fugi - Mérida
Notas iniciais
A vida é tão curta e tão confusa. E também é muito louca. Em um minuto você está jogado no sofá e se preparando para a soneca da tarde, já no outro você está a bordo da nave que impediu seu cochilo e destruiu sua casa. E, de repente, aquela bela tarde que você tirou para dormir não existe mais. É aquele velho ditado que eu aprendi na Terra: vamos fazer o quê, né?
Eu entendo menos a vida a cada segundo que passa.
— Ok, o que está acontecendo? – perguntei, afinal, eu estou sendo tirada do planeta
— Calada! – Anna gritou (e eu não entendi nada) — Hoje é a polícia que faz as perguntas.
Normalmente sou quem sou grossa e ela é “a amante de tudo e todos”, será que nós duas trocamos de mente? Isso é meio surreal, mas explicaria tudo.
— Anna, também não precisa ser assim, né? – Soluço interviu – Você está sendo firme demais. Na verdade, você não está sendo firme, você está sendo ridícula.
— Ah, me desculpe senhor “tente ser mais firme”. – ela provocou (pelo menos eu acho que essa era a intenção, vá entender o que se passa na cabeça da Anna, não ando entendendo nem a mim mesma) — Eu só estava seguindo a sua sugestão.
— Tudo bem, mas não precisa exagerar.
Eu estou completamente perdida na conversa deles, esses dois conseguem ser mais malucos do que eu e o Jack, eu achava que isso era impossível.
— Não é por nada não – comecei – Mas vocês me tiraram da Terra pra quê mesmo?
Eu tinha de interromper ou eles nunca me dariam atenção.
— Nós fizemos uma teoria sobre você e queríamos que você confirmasse. – Anna explicou
Desconfiada, arqueei a sobrancelha esquerda.
— Uma teoria? – repeti, estranhando essa história toda
Quem em sã consciência sai da base policial, vai até o planeta mais mal falado do universo e tira uma infratora de lá só para “confirmar uma teoria”? Não pode ser isso, eu devo ter ouvido errado ou ter comido algo com efeitos alucinógenos, o Senhor North já me alertou uma vez sobre os riscos de beber café demais. Será que eu bebi muito café hoje pela manhã?
Eles fizeram que sim com a cabeça; realmente queriam que eu confirmasse uma teoria! Ah, qual é? Eles são policias, e não cientistas! Desde quando policial fica bolando teorias? Eu não matei ninguém! Meu caso é muito simples para saírem bolando teorias sobre ele!
– E que merda de teoria é essa?
— Bem, isso é o que eu vou dizer agora, então você não precisa atirar uma flecha. – Soluço tentou tranquilizar, ou zoar com a minha cara, ainda entendi qual é a dele – Você é um membro influente da família real de Dunbroch: sim ou não?
Foi nesse momento que eu descobri o que era desespero, eu não sabia o que fazer. Será que eu de... Mas uma vez confessado, não há mais volta, eu não sei se isso seria o melhor.
— Vamos lá, Mérida. – ele me incentivava a dizer – Você só tem de dizer “sim” ou “não”.
Fiquei completamente paralisada, meus lábios se abriram, mas não conseguia emitir um som. O que eu devo dizer?
— Sim.
Não tinha mais volta! Uma vez confessado, não há mais volta. Eu não tinha mais volta: eu vou ter que arcar com as consequências, seja lá quais forem. Droga! Eu odeio ser responsável!
— Eu sou a filha mais velha do rei Fergus e da rainha Elinor. — prossegui — Eu sou a herdeira do trono de Dunbroch. – conclui minha resposta — Pronto! Eu já falei tudo que tinha pra falar! Estão satisfeitos? – os dois me olhavam sem dizer nada, então EU vou ter que forçá-los a falar, agora é a minha vez — Eu também mereço saber o que está acontecendo aqui! Eu sei que vocês não me tirariam da Terra só para eu confirmar uma teoria! – e eles continuaram quietos — Podem me contar tudo AGORA!
— Tudo bem, nós vamos co... – Soluço começou, mas logo foi interrompido
— Não, você não contou tudo ainda. – Anna falou com uma expressão séria
Sua voz soou tão... Tão gélida. Eu nunca havia a visto falando dessa maneira, eu nem mesmo imaginei que isso pudesse acontecer.
— Mérida, por favor, não minta pra mim. – ela continuou – Quando eu te encontrei naquela nave um ano atrás, você estava abandonando sua família?
Eu não estava entendendo o motivo de ela estar agindo assim comigo, ela sempre foi tão alegra e otimista, sempre me tratava muito bem, apesar de eu não fazer o mesmo. Ela nem parece minha colega de quarto de banheiro, a pior colega de quarto e banheiro que já se viu.
— Mérida, não me faça perguntar de novo. – seu rosto estava vermelho de raiva, o que eu fiz? – Você abandonou sua família?
— Eu não abandonei minha família, eu só fugi dela.
Esse não foi meu melhor argumento.
— Mérida, você é uma idiota!
Ela me bateu! Eu não acredito que ela me bateu! Por um momento eu pensei em revidar, afinal, ninguém bate na minha cara e sai vivo para contar a história, mas com a Anna estava sendo diferente. Ela começou a chorar após ter feito aquilo comigo, ela estava arrependida?
— Anna, você precisa se acalmar. – Soluço falou, aproximando-se dela
— Sai daqui! – ela o expulsou, começando a chorar ainda mais – Eu vou para uma cápsula da nave, nem pensem em me procurar. – ela olhou fixamente para mim uma última vez antes de se retirar — Eu não gosto de falar com gente que abandona a família, na verdade, esse é o tipo de gente que eu mais odeio.
Eu não tenho nem ideia do que está acontecendo aqui.
— Me desculpe pelo chilique da Anna. – Soluço pediu – É que a irmã mais velha dela a abandonou quando era pequena e ela é meio traumatizada por isso até hoje.
Será que meus pais e meus irmãos se sentem como a Anna? Eu não os abandonei... Não totalmente, eu acho.
— Tudo bem, eu entendo o lado dela. – disse
— Bom, agora eu posso te contar o que está acontecendo.
Ele me contou tudo, sem esconder nenhum detalhe, nem mesmo os mais desnecessários. Tudo começou nas quinhentas ou seiscentas pilhas de papel e terminou na conversa do comandante de sua base que envolvia o meu nome, o do meu planeta e algo sobre um golpe de estado. Soluço admitiu que não conseguira descobrir muita coisa, somente o suficiente para sabermos que não viria coisa boa pela frente.
— Vocês fizeram bem em me tirar da Terra. – fui obrigada a concordar
— Eu já mudei a rota para Dunbroch. – avisou – Chegaremos lá em alguns dias.
— Certo.
Eu já tinha entendido a história (finalmente), mas ainda tinha uma coisa que me deixava preocupada.
— Há chances de esse tal de Sangue Bravo ir atrás do Jack ou do Senhor North?
— Eles são só terráqueos. – disso eu também sei, né, cabeçudo? – Não possuem relação com Dunbroch, então não são interessante para o Sangue Bravo. Eles estão seguros.
— Eu espero.
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