HASHIREEEEEEEEEEEEE!!!

1 Capítulo 1 - Corrida enfadonha.


Notas iniciais
Perdida, desamparada e miseravelmente maltratada pela vida, a fangonesa luta para sobreviver a conflitos contra adversidades inimagináveis... Sua falta de fôlego deve ser recobrada logo, logo, pois o que está por vir é terrificante demais para... Cof, cof, aquele corpo de pelúcia resistir ao reino das trevas!

24 de maio de 2140, 15:21 da tarde, floresta de Vinovia, Casavecchia...

Uma tarde onde o véu do orvalho vestia os campos vastos de coníferas do arco-íris e o tapete de gramíneas ganhava um aspecto de gelo seco, apesar de a paisagem não estar sendo subjugada por um frio invernal. A estação do ano era outra, mesmo que a porteira estivesse quase aberta para tal. O orvalho era ordinário quando a tarde começava a tocar à floresta, e ainda que em plena primavera, aderia-se um aspecto sereno e mádido.

Uma peculiaridade muito embevecida, daquele pedaço de paraíso.

Os pássaros, de diversas espécies, cantavam com muito gracejo entre as folhas e galhos das tais coníferas iridescentes, muito primorosas, e diversos animaizinhos como esquilos carmesins, lebres douradas, preguiças de um dedo e muitos outros que habitavam a floresta perambulavam por ali, o que a tornaria uma atração e tanto para os turistas mundanos – se fosse possível, claro, que houvesse permissão de se realizar uma expedição por toda ela. Havia um predeterminado limite em que pessoas podiam excursionar, já que era uma paisagem salvaguardada. Fauna, flora e placidez eram enriquecidas demais para que algum filhodaputa viesse e tomasse o fulgor do local, de assalto; um lugarzinho a parte do babélico cotidiano de toda Casavecchia, mesmo sendo um país opulento, e que todos queiram manter certo status quo a qualquer custo.

Status quo que, ah status quo...

De um povo sequioso demais para o nosso gosto...

Mas isso não se faz caso no momento. À dentro, bem longínquo da realidade do querer das pessoas, havia uma silhueta exacerbada, vestida a caráter de gente que estava pronta, sim, para um dia de múltiplas compras em um Shopping Center. Uma moça jovem esbaforida, arreliada e em posição de agachamento. Os dedos franzinos apertavam os joelhos, que marcava o tecido da calça de couro, avinhado bem justo, moldando bem suas pernas torneadas, porém, não muito voluptuosas. Era uma moça oriental que aparentava ter lá uns 19 anos de idade, pálida – e coloque palidez nisso -, perturbadoramente pálida, transbordando ansiedade e um misto pavoroso de sentimentos bélicos, sofridos e até mesmo cheirando a ardilosidade.

Uma lufa forte então passou e fez um baile com os cabelos negros da magrela. O efeito do vento gélido e seu volitar fez com que ela, misteriosamente, sorrisse com semblante lastimoso. Daí ela ergueu o corpo após muito ter inspirado e expirado, recobrando o fôlego. Quando esta recobrou a postura, os seios fartos balançaram naturalmente ao tecido de chiffon da blusa, de manga morcego curta e gola canoa branca. Também trajava um colete crepe aberto; algumas bijuterias simplórias, um par de Allstar cor de chumbo e cano médio. Acabaram por aí os adornos da menina. Sua baixa estatura era a de um chaveirinho incondicionalmente grácil, de menininha do colegial. Essa Alice no País das Maravilhas tinha 1,52 de altura e o corpo bem esguio. Uma figurinha fácil daquelas que se encontravam por aí, e já de cara pensava-se que era presa fácil demais para os tubarões brancos tarados do mar de pedra, batedores de carteira e ilustres da persuasão da vida.

Ela olhou para o bolso momentaneamente e puxou um saquinho de pano com cordinha de amarrar e suspirou pesarosamente ao fita-lo...

— É graças a você que minhas tão desejadas férias se transformaram nesse show de Black Metal... – ela pigarreou e depois bocejou. – E eu odeio Black Metal... – Esmoreceu-se novamente.

À clareira onde a garota estava encontrava-se num silêncio derradeiro e isso a deixava – a garota –, muito angustiada e vigilante. Olhou para a relva há uns metros dali, que coreografava de uma forma engraçada por causa do vento, parecendo que a própria natureza estava tentando ajuda-la, a coordenando numa orquestra para tentar elevar seu ânimo – até um esquilinho carmesim tentou chamar sua atenção. Agora me diga... quem disse que o divino universo tinha influência sobre ela? A preocupação pesava tanto, era tão intocável, que o pobre tapete dançarino estava sendo ignorado (o pobrezinho do esquilo fofinho também), e o rosto da garota se fazia insubstancial para com tudo à sua volta.

Ela jogou a bolsinha no chão já de saco cheio de viver.

Olhou com desgosto para a bolsa. Às árvores e arbustos floridos assomavam parcialmente à clareira fazendo-se uma campânula. Acostou-se numa destas árvores, deixando suas costas escorregarem e se sentou, sustentando um sentimento recôndito que mais se fazia pesado que o próprio corpo da jovem.

— Acho que estou tendo um colapso nervoso. – Ela pensou ao se dar conta. E depois bateu a crise existencial, como se quisesse que o buraco negro solar lavasse essa chuva de azar para bem longe.

O cabelo chanel escondeu os olhos vermelhos da coitadinha, quando pendeu o rosto para baixo...

— MAS QUE DROGAAAAAA!... — comprimiu às têmporas, utilizando suas mãos com força — desde que cheguei aqui em Casavecchia, há quatro semanas, tudo, mas tudo mesmo tomou outro rumo! – Teve o semblante mais ainda nublado quando começou o resmungo. — Isso tudo por causa dessa coisa soturna que aquela maldita me empurrou, e eu, a bobona aqui... tinha que ser eu, a anta... não, tenho pena das pobres antas, porque elas são mais espertas do que eu! Então não posso me classificar uma anta, m-mas... Ugh! Como eu tenho raiva de mim mesma por ter me deixado entrar em contato com essa coisa ridícula!... E agora é que não consigo me livrar desse troço de jeito nenhum! O que fiz para merecer isso?! Eu não me recordo de um dia ter feito algo ruim para ser fadada a estar em um castigo como este... isso só pode mesmo ser castigo! CAS-TI-GO! E eu também não tenho histórico algum de azar em toda minha trajetória de vida até aqui... ENTÃO POR QUE, SENHOR?! Por quê?!

Por quê? Lá vem a história por detrás do presentinho troiano.

...Apenas fiquem atentos.

"24 de abril de 2140, 19:54 da noite, Tuscanitia, Casavecchia...

— Finalmente cheguei! Finalmente poderei provar o macarrão ao molho pesto, tortellini de bolonha, carpaccio, tiramisù e gellato! Aaaahhh como minha boca já tá salivan-...! – E de repente ela fora abruptamente interrompida, enquanto bombardeava o mundo de sua mente com os devaneios sem trégua, quando ouviu um 'psiu' ao passar por um beco. Ao que ela olhou para o beco, formou nos lábios um bico e orbitou os olhos. Fazendo isso, os cenhos saltaram como se seus olhos os tivessem arremessados para o ar espontaneamente, igual quando se alguém, ao levar um grande susto, varejasse sacolas para o ar, de suas duas mãos. A dona do psiu, falando no clichê, era aquele tipo de figura misteriosa que, geralmente, sempre trajava uma túnica e capuz. Ela tinha estas vestes em tom arroxeado e adornos em dourado; joias douradas com pedras de diversos tons pelo corpo; e o capuz cobria parcialmente seu rosto alvo, escondendo a metade do nariz para cima, mostrando, lógico, o resto do nariz adunco e os lábios adelgaçados com batom em tom alizarina bem forte. Quando a misteriosa moça encapuzada ficou evidente para a turista, esta tocou à parede ao lado com sua mão esquerda, esguia, donas de unhas tão aduncas quanto seu nariz, e com a direita, gesticulou utilizando o indicador para que ela chegasse mais perto. 'Mas que porra é essa'? Pensou a garota. Enquanto isso, a dimensão de antes a qual à menina fazia parte continuava seu fluxo; pessoas gritando pelos camelódromos nas ruas; o uníssono dos passos destas e do som de motores dos carros ligados, buzinas e alto-falantes dos mesmos, formavam a filarmônica da selva de pedra de Tuscanitia. Mas a menina foi definitivamente tragada e abduzida pela moça do beco ali ao lado e pronto. Todavia, ela pegou e foi. Tudo bem em ir. Estava feliz. Inocentemente feliz.

E nós sabemos que inocência no jogo da vida dá uma merda daquelas...

— Em que posso lhe ajudar? – Respondeu com tom e semblante ascético.

— Quero lhe dar algo que irá mudar sua vida... – Respondeu melifluamente a encapuzada, sorrindo.

— Dar-me... algo...? – A menina divagou um pouquinho plangente.

— Isso mesmo. Tive um vaticínio na noite passada, visionando que encontraria alguém para que pudesse dar, de muito bom grado e em nome de meu altruísmo, este algo. Desde então estou aqui esperando, empós muito andarilhar pelas estâncias desta bela cidade... – Fez uma pausa curta e desviou o olhar para o céu, embora a garota ainda não conseguisse avistar seus olhos – ...estive à sua procura, e sei que é você a dona deste artefato. Sei que é a dona porque vi em seu reiki. – Quê?! – Então tome minha jovem... – Ela segurou as duas mãos da menina e entregou-lhe um saquinho de pano marrom, com cordinha de amarrar em cor e textura de palha. Este saquinho estava fechado, mas dava para sentir que o quê havia dentro era algum tipo de mineral lapidado.

Houve-se uma desconfiança básica pela atitude da encapuzada.

— Não consigo ainda entender o porquê de estar me dando isso. Não posso aceitar... – Franziu o cenho e tentou empurrar de volta o saquinho.

— Não diga nada. Só aceite!

— Mas é claro que dig-! – Já começou a ficar puta pelo fato de tanto àquela mulher gostar de interrompê-la!... Mais uma vez a vaca fantasma cortou o raciocínio da garota, como quando antes estava caminhando e ouviu o psiu, só que desta vez foi pelo fato da encapuzada tê-la deixada para trás. Imperscrutavelmente, a maldita regressou aos confins do beco como se estivesse flutuando. Como se estivesse não...! Ela estava, sim, flutuando como um espectro sem pernas! Nessa a coitadinha da garota ficou azul, pensando em que circo arrombado de bizarrice foi aquele que havia acabado de acontecer. A garota ficou pasma e a boca virou uma sacola aberta, espaventada. Na mente dela só se ecoava a palavra 'WARNING', tipo se você gritasse qualquer coisa inútil como um 'ioleleírru', ou 'Gerônimo' lá no Gran Canyon. E ela se evadiu ao regressar até o limite do beco – lá haviam portas fechadas pelas laterais, já que o tal beco se formava entre dois grandes prédios; tinha latas de lixo lotadas, transbordando como se fossem bocas gulosas atulhadas de comida – e um muro ao fim deste, do qual aquela mulher simplesmente subiu por ele flutuando e sumiu do campo de visão da garota.

Só que antes da encapuzada sumir...

"Casa-se com o dia, a noite. Cobre-se o dia, o véu noturno. O dia acorrenta a noite, e a benquerença, à noite contempla. A noite atrai benquerença e presenteia o solo do dia, até que o véu noturno acorrenta o dia. Aliança e troca de tesouros; aragem a todos que querem o dia. A noite arrebata o dia. Todos arrebatam o dia. O dia torna-se noite e noite torna-se dia. Os alados querem liar-se com o fulgor do dia; o freático quer subsistir ao fulgor do dia. Todos têm o direito à luz; a noite tem o direito à luz. Liar-se noite ao dia; e os espíritos dançarão o baile unívoco de um novo corpo. Um novo mundo. O sangue rubro de um só espírito universal. Acorrente-se ao ocaso solar e lunar; você está entre as duas sazões; sinistro agrilhoado ao sol, destro agrilhoado à lua. Mediador de um novo turno matrimonial, receptáculo do cosmo final. Noite eterna torna-se soberana em seu corpo.”
Deixou de graça aquele lindo enigma de presente para ela, antes de sumir.

— MINHA NOSSA SENHORA! Mas que caralho que foi isso?! — Falou em meio a um gritinho agudo e aboiolado.

Olhou para o saquinho na mão, e sem muito pestanejar ela teve a ideia de jogar aquilo fora, mas antes que pudesse executasse a ideia, ela sentiu um formigamento na mão e imediatamente uma aura negra aspergiu do saquinho. Ela rangeu os dentes pelo incômodo e jogou fora, lá, na direção das bocas de lixo lotadas e saiu correndo dali sem olhar para trás.

Casavecchia: terra dos passeios que beiravam a loucura...

— Eu vou é encher meu bucho de comida agora, isso sim! Vá de retro, mulher desalumiada... – E caminhou novamente, como antes ia fazendo. Esbarrou em uma pessoa e pediu desculpa. Desculpa aceita pela mesma, que a olhou de soslaio e continuou indo na direção oposta, e ela seguiu em frente, mas não foi tão longe assim; parou, irrompida ao sentir certo aperto e ferretoada no peito, bem na região cardíaca. Ela respirou com profundidade porque não foi um mal forte, contudo, aquilo aumentou gradativamente e ela arranjou um canto para se agachar. Ajeitou o vestido azul celeste com os braços, ao abraçar suas pernas, e olhou para o alto, respirando fundo novamente e de repente sentiu-se bem de novo.

...

E desde que essa loucura virou fato na vida da mocinha, por onde fosse que andasse, parasse, voasse; a miséria que tinha de ser; aquele presentinho... aquele saquinho estranho simplesmente a acompanhava. Isso mesmo! A garota já o defenestrou diversas vezes em latas de lixo, de pontes rio abaixo – até jogou o trocinho da ponte de San Marco, quando fora visitar a cidade de Venetifa, na região da bota, dias depois; também já jogou de escadarias e até tentou atear fogo, marretar, derreter, estilhaçar aquilo de tudo quanto era forma.

Mas era indestrutível..."

— DESDE ENTÃO EU, MYUNG LIN, SOU PERSEGUIDA POR DEMÔNIOS VAGABUNDOS! AIYÃ!
Myung Lin... à fangonesa em apuros!