Notas iniciais
Pâro Substantivo. A sensação de que, não importa o que você faça, algo está sempre errado, como se tivesse uma forma de prosseguir que todos veem - menos você. Sugestão de música: Twin Pumpkin - Monolith.

Poderia muito bem estar escrito na testa de Dana: Por que eu faria isso? Eu nem te conheço.

— Se você pedir, a minha mãe deixa... por favor — Elisheva arregala os olhos e junta as mãos em uma súplica— Você nem precisa falar comigo.

Do bolso de sua jaqueta, Elisheva tira e estende um aparelho enrolado em um fone de ouvido.

— Eu vou – Ele respira fundo. Eu estaria calculando a possibilidade de ser agarrado por Hiezabel ou a filha não-tão-ameaçadora dela, Dana parece caminhar na mesma direção – ver o que posso fazer.

Elisheva cruza os dedos e endireita a postura, ela é a imagem de propriedade e bom comportamento. Dana vai à cozinha e eu entendo o porquê da mudança nela; Alguns murmúrios depois e cabeça de Hiezabel aparece no corredor, avaliando a garota com os olhos. Quando ela some, Dana volta. Seu rosto sugere que elas o fizeram chupar um limão.

— Elas disseram que a gente pode, mas só no quarteirão.

Videtur. Elisheva olha diretamente em minha direção, mas seus olhos não me encontram totalmente. Como Astarte me assegurou, a não ser que eu deseje o contrário, Dana é o único humano que pode me ver de fato.

— Eu deveria esperar nós estarmos lá fora, mas enfim. Normalmente, qualquer entidade como essa, costuma desaparecer se você simplesmente ignorá-las. Se isso não acontecer, eu conheço alguém que pode te ajudar a se livrar dele. A primeira vez é de graça

Dana corre um dedo sobre a boca, parece considerar a ideia. Seu olhar me varre dos pés a cabeça e, aquele meu coração que não existe erra uma batida, ele genuinamente me desconcerta. Ele está me vendo, ele está me vendo. Não encontro uma resposta em meus pensamentos dispersos. A única réplica que consigo produzir é cruzar os braços e revirar os olhos. Ótimo, Cam, muito maduro.

Claramente eu não estou convidado para o passeio. Eu poderia ir se quisesse, a pergunta é, eu quero ir? Ficar invisível e alimentar minhas tendências de voyeurismo ou ficar em casa ouvindo Eleonora e Hiezabel fofocando, as duas opções não me agradam, mas em uma delas eu posso ficar sentado e em silêncio.

Os acompanho até a porta. Elisheva me olha de esguelha, provavelmente prestes a perguntar algo como “Ele não vai, vai?”, antes que ela possa abrir a boca encosto o quadril no batente da porta e cruzo os braços.

— Eu espero você acordado ou o que? – Pergunto sob uma fachada de desinteresse e sem esperar nenhuma resposta. E, realmente, o único sinal de que Dana me ouviu é o vermelho que alcança suas orelhas.

Os assisto aparecer e sumir sob as luzes dos postes.

Hiezabel e Eleonora são menos interessantes do que lhes dei crédito por, apenas comentários sobre o trabalho, ditos entre risadas e taças de vinho, lado a lado na mesa da cozinha. Deitado imaterialmente do lado oposto a elas na mesa, fecho os olhos considerando a possibilidade de tirar uma soneca até Dana voltar.

— Já falou com o Momô hoje? – Hiezabel inquire apoiando a cabeça na mão que não segura a taça.

— Argh, que raios de apelido é esse – Eleonora estala a língua em desaprovação, mas responde mesmo assim – Não, ele não me responde desde ontem e não foi trabalhar hoje. Sei lá, pode não ser nada.

— Hum, se você está dizendo... E o Dana? – Com a menção do nome abro os olhos.

— O Dana? O que tem ele?

— Ele falou com o Dana?

— Mesmo que tivesse falado, ele não me diria – Eleonora dá de ombros e toma um gole.

— Nem um pouco? – Hiezabel pergunta e eu não posso deixar de imaginar se Elisheva contaria seja lá o que elas discutem.

— Nada. Eu acho que, argh, eu não quero dizer isso – Eleonora vira todo o líquido da taça.

— O que? Fala! – A ruiva puxa o braço da loira quando ela está prestes a repor sua taça. As duas encaram o vinho derramado.

— Eu acho que ele nunca vai melhorar. Ele sempre parece que vai ter um treco quando qualquer pessoa faz menção de tocar nele – Eleonora ergue um dedo para cada pensamento – Ele cozinha todo dia, mesmo quando já tem comida pronta; Ele não tem nem um amigo, a única pessoa além de mim com a qual ele fala é o... – Ela funga – Momô; Ele nunca me diz nada, nada, eu posso sentar aqui e contar toda a minha vida e ele vai só acenar. Talvez eu devesse diminuir minhas horas, trocar de turno, ficar mais tempo em casa.

— Ah não – Hiezabel vira Eleonora na cadeira – Você não pode deixar de viver por causa do seu irmão, se você não consegue carregar conviver com ele, porque não deixa ele voltar pra Galena?

Eleonora contempla o chão sem dizer uma palavra. Espero ela levantar o rosto e dizer que ela consegue sim conviver com ele, apesar dos hábitos de Dana, eu não acho como em silêncio estranho, tanto faz; espero um protesto de "Não, eu preciso cuidar do meu irmão", mas quando ela fala novamente não há nenhuma repreensão em seu tom.

— Não é pra sempre, ele tem 17 anos, daqui a pouco vai pra faculdade e aí-

— Você vai se casar – A ruiva solta seu braço para dar uma tapinha em seu ombro.

— E aí, ele vai morar sozinho e ficar em paz – Eleonora continua como se Hiezabel não a tivesse interrompido – Acho que ele precisa trocar de psicóloga. A do hospital não me fala nada e ele nunca mudou desde os 6 meses que tem se consultado com ela.

— Eu tenho um psiquiatra ótimo, foi o que deu um jeito na Eli – A ruiva se levanta para limpar o vinho derramado, vendo que sua anfitriã não vai fazê-lo.

— Eu vou pensar, eu preciso conversar com o Dana. A gente precisa delimitar os planos daqui pra frente... Eu quero viajar em Dezembro, para um lugar quente.

— Ah, eu conheço um lugar quente que você pode visitar.

Eleonora segura a amiga pela cintura quando ela está perto o suficiente. A outra não parece se incomodar quando a loira recosta a testa em suas costas.

— Tanto cuidado pra não ter uma criança e eu acabei com um adolescente.

— Você perdeu a melhor parte, eles são tão fofinhos quando são pequenos.

Então é isso que amigos fazem quando estão juntos, se abraçam e reclamam da vida. Esplêndido. Acho que não perdi muito. Elas continuam conversando, porém suas palavras entram por um ouvido e saem pelo outro. A relação de Dana com sua irmã é inusitada, é o que concluo ao saltar da mesa e atravessar a parede em um passo só.

Do quarto de Dana as vozes se tornam um ruído de fundo. Paz. Ou quase isso. Parado em um quarto escuro que não é o meu, a estranheza da situação me atinge dois dias depois do ocorrido.

O que foi que eu fiz.

Eu não preciso respirar, eu sei que não preciso respirar, assim como não preciso piscar e nem me alimentar ou tomar água, e mesmo assim sinto o ar inspirado e expirado rápido demais em meus pulmões sem nenhum alívio, sinto meu estômago revirar com o vazio que jamais será preenchido, meus olhos ardem e quando mais pisco pior a sensação. Eu morri e continuo tão patético quanto fui em vida.

Eu conheço essa sensação e tudo o que a acompanha. Meu corpo se dobra no meio,

Não preciso respirar

Minha mãe não gritou quando torci uma faca em suas costelas

Não preciso respirar

Eu não tenho nada pra vomitar e ainda assim as convulsões forçam o ar para fora, e as lágrimas que eu não quero chorar e não sinto são derramadas em torrentes. Paro de lutar contra a reação, deixo meu corpo se revoltar contra mim. É irracional, não estou arrependido, então o que é essa sensação deixando meu corpo pesado como chumbo?

Encaro o chão do quarto arfando, o desespero incontrolável engolfando minha consciência.

Se eu continuar assim, não vou ser mais do que mofo no escritório de Lilith e Lúcifer. Aos poucos o ataque sumiuporraumsinonimo, o único vestígio do que aconteceu são as imagens em minhas pálpebras quando fecho os olhos, dois corpos em um quintal.

Em algum momento rastejei para baixo da cama. Eleonora pode ter tido outros motivos, mas ela realmente limpou o quarto. O linóleo cheira a lavanda. A essência doce embala minha imaginação. Um campo roxo se estende até onde a vista alcança, o sol serve apenas para iluminar, pois o frio faz com que minha mandíbula trema. Pessoas caminham entre as fileiras de lavanda, na realidade elas estariam destruindo a plantação, porém em minha cabeça elas servem para dar vida ao campo. E, por fim, avisto alguém em um moletom cinza.

Entre um cenário e outro, não percebo quando durmo. Os passos leves de Dana me acordam. O silêncio no resto da casa me diz que Elisheva e Hiezabel já foram embora e Eleonora já foi dormir. Dana não me nota, estou completamente invisível. Ele para na beirada da cama, roupas começam a cair sobre o chão. Não ouso respirar, ciente da situação estranha que pode se desenrolar caso eu apareça e Dana esteja como veio ao mundo.

O pensamento me faz soltar um grunhido involuntário. Dana congela ao mesmo tempo que eu.

— Pervertido.

Ele diz e as ripas da cama afundam quando ele se senta. A humilhação de ser visto me arrastando pelo chão do quarto é demais; em minha forma imaterial, saio debaixo da cama e me sento na parede oposta a cama. Minhas pálpebras tremem em antecipação, mas Dana está sentado com uma camiseta branca – e o que exatamente eu antecipava não consigo dizer.

— Eu estava descansando, se eu não ficar acordado quem vai te acordar? – Digo, casualmente dobrando as pernas.

Dana se deita na cama. Antes de pensar que sua pose é um pouco sugestiva, lembro-me que estava deitado do mesmo jeito na mesa da cozinha, as pernas estendidas e a cabeça apoiada no cotovelo. Dana leva a outra mão a boca, um vinco se formando em sua testa.

—Alguém está se sentindo comunicativo hoje – Murmuro encarando a figura na cama.

— Posso fazer uma pergunta? – Ele pergunta. Não posso deixar a oportunidade passar.

— Mais uma? Pode, mas eu não garanto que vou responder.

— Você parece com o... com o-

Dana não termina a frase. Sua cabeça tomba no colchão. Alguma coisa está errada, isso é claro. Levanto do chão e dou a volta na cama. O rosto de Dana está contra o edredom, aproximo minha mão para vira-lo quando lembro das palavras de Eleonora. Dana não gosta de ser tocado. E eu com isso? Pairo sobre ele, tentando argumentar com a parte de meu cérebro que diz que ele está dormindo e não vai lembrar de nada. Paciência, quem foi que chacoalhou ele como um boneco de pano da última vez?

Levanto as pontas do edredom, rolando Dana para cima. Quando ele está encarando o teto, aproximo meu rosto do seu. Ele está respirando pesadamente, o que eu não tinha notado antes, seu rosto está fortemente corado. Ignoro as palavras de Eleonora. Toco sua testa e para minha surpresa ela está fria. Tudo em minhas mãos é frio.

Não sei como prosseguir. Dana simplesmente adormeceu no meio de uma frase e eu não fui puxado para dentro de seu sonho de forma automática. Astarte me explicou brevemente como entrar de forma manual, contudo, ela também me advertiu que seria difícil realizar o feito caso eu não tivesse nenhum laço com o Objeto – no caso, Dana.

Sento-me ao lado de Dana, de qualquer forma eu vou acordar antes dele. Fecho os olhos, respiro fundo e procuro em minha mente como uma memória há tempos esquecida. Em termos leigos, mergulho no pensamento e sou envolvido sem resistência alguma. A escuridão agora é diferente. Estou dentro de Dana... de seu inconsciente, pelo menos. Então quer dizer que pelo menos um pouco dele já não está na defensiva.

O próprio está de pés em meio ao breu, nenhuma luz o toca, contudo, posso vê-lo claramente. Uma mão agarra seu tornozelo esquerdo. Seu rosto continua imóvel, se possível ele fica ainda mais rígido. Várias mãos seguem a primeira, dedos pegajosos e repulsivos subindo por suas pernas. Dana cerra os dentes. Quando uma mão chega em seu joelho, seu rosto se contorce.

Os dedos se fecham em seu pescoço, mas não tocam seu rosto. Por alguns segundos aprecio sua expressão violentamente deformada pela repulsa. Afasto uma mecha de cabelo de sua testa.

Notas finais
Gente?????????? Deveria estar escrevendo um artigo pra entregar em 14/12/20 mas não consigooooooo se eu não terminar meu nome não vai como autoria quando publicarem e vou perder dois anos de trabalho em um grupo de pesquisa enfim descobri que sou mais feia do que eu pensei