Notas iniciais
Onism. Substantivo. A frustração de estar preso em apenas um corpo, ocupando um lugar de cada vez.

Não preciso pensar em um lugar para onde ir. Meu corpo decide antes mesmo de eu me dar conta. Conheço cada pedra no caminho, cada árvore que circunda a estrada. Rápido demais, passo pela entrada e pela distância entre ela e a casa em si.

A mistura entre pedras cinzas e madeira escura deve ter sido bonita quando foi idealizada, mas a ação do tempo, 20 anos para ser exato, dá ao lugar um aspecto assombrado. As telhas desalinhadas cobertas por folhas laranjas de todas as árvores ao redor, as janelas obscurecidas por cortinas fechadas, o mato seco que se fazia presente independente da estação do ano. A única coisa diferente desde a última vez que estive em casa é a fita amarela na porta da frente.

O lugar é igualmente familiar e desconhecido. A sala com o sofá intocado, as cortinas escuras, o papel de parede descascando e o rack repleto de fotos de um casal jovem tão feliz quanto estranho e outras bugigangas, tudo parece caótico e estático comparado a casa do Dana. Uma fina camada de poeira permeia a casa inteira. Corro o dedo pelo corrimão. As manchas de tinta remanescentes da minha fase artística com guache, as paredes riscadas com lápis de cor, as quatro portas fechadas; São fantasmas de uma família infeliz.

As duas portas à esquerda levam aos quartos de minha mãe e pai, lado a lado. A direita, o meu próprio e logo em seguida o escritório no qual Amatore guardava tralhas de seu tempo de faculdade, inclusive os livros de anatomia com imagens que me interessavam tanto quando ainda não havia aprendido a ler. Os sons de passos e coisas sendo arrastadas vem da primeira porta. É quase como se minha mãe estivesse lá, porém, se fosse o caso, tudo estaria no mais completo silêncio.

Paro em frente a porta, encaro as espirais na madeira escura, conheço o padrão, já estive parado aqui por horas quando era criança e não entendia que ela não podia ser uma mãe normal, como eu via as mães dos meus colegas na escola. Não demorou muito para perceber que ela não podia ser uma mãe e ponto. Nossa relação vinha de relances quando esta porta estava prestes a ser fechada.

Estou além de formalidades banais como abrir a porta. Seria interessante, pois me daria a oportunidade de absorver a cena lentamente, contudo, sou confrontado diretamente com algo que nunca pensei que veria novamente. Bellona Malloch, cabelos compridos e negros, pele pálida, possivelmente mais branca que sua camisola comprida, andando de um lado para o outro com pincéis em mãos.

Viva ela parecia um fantasma. Morta, ela parece viva.

Há a pequena adição de talhos e sangue em sua camisola, mas ela não parece se importar. Seus olhos brilham com vida, uma raridade, sua atenção voltada para um quadro em branco encostado na parede. E eu quero dizer mãe, de verdade, contudo a palavra não quer ser dita. Testo várias vezes e em cada uma delas os sons morrem em minha garganta.

— Mãe? – A palavra sai estrangulada. Bellona me nota. Seus olhos se arregalam e a boca abre e fecha. Ela coloca os pincéis em cima da estante ao lado do quadro, os olhos nunca se desviando de mim, e eles mostram descrença. Ela avança em mim, segura meu rosto entre suas mãos frias, corre os dedos em meu cabelo, aperta meus ombros, se certifica de que eu sou real, ou pelo menos tão real quanto ela.

— Cameron? – Sua voz é firme, um duro contraste aos murmúrios que eu ouvia dela.

— Sim.

Ah, Cameron.

Bellona me abraça. Seus braços me envolvem com força o suficiente para esmagar meu cotovelo contra meus pulmões inúteis. Ela é alta o suficiente para encostar a cabeça sobre meu ombro. Essa mulher é uma estranha. Ela é idêntica a mulher que me colocou no mundo, mas completamente diferente.

— E o Amatore?

Ele é a razão de eu estar em casa. Não posso evitar um grunhido de desdém. É exatamente a mesma mulher que me colocou no mundo; a que me encarou com olhos vazios e expressão vaga quando eu lhe disse que seu marido a estava traindo, que seu casamento de 20 anos ia acabar. A mulher que eu matei. E ela está me abraçando como se não houvesse dez facadas em seu corpo feitas por mim.

— Eu achei que fosse ficar sozinha pra sempre aqui – Bellona diz suavemente – Eles levaram nossos corpos anteontem. Eu ouvi Cecília dizer que o Amatore ia ser levado de volta pra Itália.

— O que você quer dizer com de volta? – Contorço meus braços para sair de seu aperto. Relutantemente ela me solta. Ainda não me acostumei com o brilho em seus olhos, mesmo quando ela fala de seu próprio cadáver.

— Ele vai ser sepultado no mausoléu da família Malloch em Turim... eu e você também – Bellona dá de ombros – Eu estava esperando um de vocês dois volt-

— Eu não… entendo. – Bellona fita o chão diante da pequena interrupção— Porque você, você, fala como se tudo estivesse normal?

— Porque eu estou bem agora, Cameron. – Sua voz é clara e alta. Ela se distancia de mim e volta ao quadro na parede. Pega os pincéis um a um de cima da cama. Volta a analisar o quadro branco. O cheiro de tinta permeia o quarto. Bellona carrega um dos pincéis na tinta em cima da estante. Ela parece pronta para me ignorar de novo, mas antes de tocar no quadro se vira e gesticula para a cama.

Não posso fazer muito além de me sentar. A confusão em vê-la sã e morta não se dissipa, entretanto, as respostas só virão se eu souber ouvir o que Bellona tem a dizer. Empurro o turbilhão para baixo do tapete, onde poderei lidar com ele mais tarde na privacidade do meu quarto.

— Eu sei que fui uma mãe ausente Cameron, não vou tentar amenizar esse fato. Eu deveria ter tido mais coragem. Eu poderia ter lutado para estar com você e o seu pai, mas decidi entregar os pontos e sobreviver nesse quarto – As palavras reviram meu estomago. Tudo o que ouço é ‘eu sou covarde, tenha pena de mim’ – Eu não sei o Amatore te contou sobre... nós.

Sua mão voa graciosamente sobre a tela. Esse deve ter sido seu passatempo nos anos vividos dentro deste quarto.

— Não.

— O seu pai e eu nos conhecemos na faculdade. – É repulsivo ouvi-la se referir a Amatore e a mim dessa forma, quase soa como se fossemos uma família de verdade – Ele estudava Medicina e eu, Artes. Nós viajamos para Turim, onde os seus avós moram. Eles me odiavam – Escuto o sorriso em sua voz – porque eu não era de lá e consideravam o meu curso um desperdício. Eles não vieram quando nos casamos, nem quando você nasceu, mas o Cipriano, seu tio, mandou presentes e lembranças. Deve ter sido ele quem arranjou nosso funeral.

— Eu não sabia. – Digo quando ela descansa a mão na estante.

— O que?

— Nada. Que eu tinha avós e um tio e uma família italiana.

Bellona se vira para mim, uma ruga entre suas sobrancelhas franzidas.

— Mas o Amatore disse que-

— Seja lá o que ele tenha dito, é mentira. – Bellona me dá as costas novamente. Seu cabelo balança com o vigor com o qual ela pinta.

— Eu tinha um problema, mesmo antes de você nascer. Enxaquecas terríveis que podiam ser controladas com remédios... o problema com dores crônicas é que uma hora os medicamentos param de fazer efeito. Minha mãe sofria disso, minha avó também. Possivelmente, você também sofreria no futuro.

Ela alterna entre mergulhar o pincel em dois recipientes diferentes. O resultado são duas listras de roxo e azul na tela. Não consigo distinguir a imagem, mas a mistura de cores é perfeita.

— Eu desenvolvi fonofobia. As vezes o som dos meus próprios movimentos me fazia perder o controle de tanta dor. Nos dias bons eu conseguia manter uma conversa se a outra pessoa também sussurrasse. Mas cheiro nunca foi um problema pra mim. Eu tentei cuidar de você... e eu consegui por exatamente uma semana. – Ela para por alguns segundos para analisar a pintura, retoma a fala ao mesmo tempo em que as cerdas tocam a tela – E aqui estamos.

— Por quê? – Faço a pergunta, a resposta não vai me devolver as horas que passei me corroendo, contudo, AH – Na noite que eu... lhe contei. Você não esboçou nenhuma reação.

Bellona, em silêncio, pincela a tela algumas vezes.

— Eu tomei uma dose de Metadona, e depois tomei mais uma dose. Eu ouvi, e eu senti, mas não conseguia responder. Eu queria tanto lhe dizer que há muito tempo Amatore e eu somos apenas amigos, que a moça a qual você estava se referindo era uma ótima pessoa e que ela tinha um irmão da sua idade e talvez vocês pudessem ser amigos.

O quarto no qual cresci segue intocado. O chão deve estar frio, o sol deve bater na cama e o vento chacoalhar o assoalho. Não posso dizer se isso está acontecendo. Desde minha conversa com Bellona podem ter se passado horas ou semanas, eu não saberia dizer a diferença. Embaixo da minha cama, coberto em poeira e rodeado por papel amassado, encaro o estofamento do colchão.

Dana poderia ter sido meu amigo. Bellona tinha planos de se mudar para uma casa mais reclusa do que a nossa, pois Amatore queria comprar uma casa no subúrbio da cidade sob o pretexto de que seria mais fácil para mim ir para a escola. Isso nunca o havia incomodado nos anos anteriores, todavia não interrompi Bellona para fazer a observação.

A casa de Eleonora e Dana deveria ser minha e de Amatore, porque Bellona não queria ser um fardo. Eleonora, Dana, Amatore e eu poderíamos ter sido a família mais disfuncional de Ilorno. Tudo isso passa por minha cabeça, tantas vezes que os cenários se integram e se destroem a cada piscar de olhos.

Eventualmente, decido não fechar os olhos.

— Cameron – Bellona chama em voz baixa.

— Oi – Não reconheço o som da minha própria voz.

— Posso te mostrar uma coisa?

Se fosse vivo, minhas articulações gritariam enquanto eu me arrastasse debaixo da cama. Deve ser uma cena cômica, me ver sair do escuro, Bellona, no entanto, permanece séria. Há um toque de solenidade em sua postura. Por alguns instantes, vejo de relance o que Amatore deve ter visto a tantos anos atrás.

Sigo o fantasma até seu quarto. Quadros cobrem as mais diversas superfícies. A cama, a estante, a cabeceira, a porta do closet, o chão. De todos os ângulos, meu rosto me encara de volta. Cameron com 4 anos de idade, flores em seu cabelo. Cameron sentado na grama olhando para o céu. Cameron com uniforme escolar. Amatore segurando um bebê envolto em renda branca sob um fundo preto. Uma criança de pé a sombra de um carvalho.

O estilo hiper-realista dos quadros transforma o quarto em uma galeria. Apoio o queixo em uma mão, controlando ao máximo meu rosto para que nenhum resquício de admiração transpareça.

— O que você acha?

— Eu acho que se você tivesse passado metade do tempo que passou pintando, comigo, ainda estaria viva.

— Com dor, sendo um desperdício de oxigênio e um fardo pra você – Bellona cruza os dedos sobre suas lacerações – Eu não guardo rancor, Cameron, de verdade. Se você não tivesse feito, eu faria, de uma forma menos dolorosa… talvez com remédios, – Ela admite, dando de ombros – mas eu penso em Amatore. Ele tinha o resto da vida pela frente. Você tinha o resto da vida pela frente. Você poderia ter estudado Artes, viajado pelo mundo, você poderia ter feito tantas coisas.

O sorriso dela é dolorido, me faz pensar que talvez, apenas talvez, abrir mão de Amatore e de mim não foi tão fácil quanto ela faz parecer.

Notas finais
eu não gosto desse capítulo