Hölle
12 Liberosis
Notas iniciais
Bellona preenche um número considerável dos quadros armazenados em seu closet. Ao assisti-la pintar, me sinto mais próximo do que se tivéssemos passado horas conversando e remoendo os 17 anos passados. Os temas de suas obras se estendem além de mim e Amatore. Ela pinta paisagens tropicais, objetos cotidianos, galáxias inteiras, florestas. Cedo ou tarde, seus suprimentos irão acabar. As telas, as tintas, o godê, os pincéis. Bellona não menciona o fato e ela não precisa. Não vai ser divertido passar a eternidade sozinha com seus pensamentos e nada mais.
Um fantasma e um demônio entram em uma casa. Soa como um começo de uma piada. Nenhum de nós sorri muito.
Bellona não se cansa e eu também não, ela pinta em seu quarto e eu desenho no meu. Por vezes ela para e espia o quintal pelas brechas da cortina. Segundo Bellona, Cipriano, o irmão de Amatore, deve vender a casa e se desfazer de todos os nossos pertences, ou levar alguns souvenirs para meus avós. Seus olhos varrem as árvores ao redor da casa como se esperassem um agente imobiliário surgir no meio do quintal.
O sol nasce e se põe, estou ciente disso pelo puxão insistente em minha consciência toda vez que Dana dorme e acorda.
Não adentro seus sonhos diretamente, contudo, pelas vibrações no véu entre nós deduzo que minha presença deixou uma impressão em sua mente. Os pesadelos não precisam mais de mim, nem Dana. Pontadas de culpa me assaltam periodicamente, com maior frequência quando ele é o objeto de estudo no meu caderno de desenho... que é o tempo todo.
Existem tantos tipos de olhares e expressões que consigo imaginar em seu rosto, é como se mais nada valesse minha atenção. Consigo até esquecer porque estou nessa casa, é fácil fingir que nada de errado está acontecendo quando tudo o que eu faço é desenhar Dana e ver Bellona pintar.
Por vezes eu paro e olho ao redor, esperando algum Demônio surgir no meio do quarto e me arrastar pela orelha até meu Objeto.
— Cameron? – Bellona atravessa a porta do meu quarto, os olhos se detendo na página meio rabiscada – É lindo. Você que fez?
Ela se agacha no chão, estendendo a mão para traçar as linhas com o dedo indicador.
— Sim.
— É alguém que você conhece?
— Sim.
— Eu acho que conheço... esse rosto.
Bellona inclina a cabeça para o lado, procurando por outro ângulo. Então Amatore havia até mesmo mostrado Dana para ela. A relação deles deve ter sido muito estranha neste estágio, “Olhe, querida esposa, esse é o irmão da minha namorada. Ele poderia ser amigo do nosso filho, que tal?”.
— É meu Objeto. – Digo para distraí-la da imagem.
— Objeto?
— Eu sou um demônio. Ele é a pessoa da qual estou encarregado de infernizar.
— Eu sabia que você é um demônio, mas-
— O que? Como você sabia? – Até o momento, revelar meu presente estado parecia irrelevante e ela nunca perguntou..
— Os olhos, a energia. Não precisa ser um gênio pra ligar os pontos. – Bellona esclarece com um meio sorriso – Eu quase esqueci. Tem um amigo seu na porta.
O coração imaginário palpita em meu peito. Só existe uma pessoa que poderia estar me procurando.
— Ela está lá embaixo.
As palavras são um balde de água fria. Claro. Ele nem deve saber onde eu moro, como ele poderia me procurar? Elisheva muito menos. Suspiro dramaticamente. Nula, atravesso o chão do quarto. Não é Elisheva, nem Dana, mas tem a expressão de alguém que veio me puxar pela orelha.
— Oi, Cam. – O anjo me cumprimenta. Ele é a imagem da propriedade, sentado no sofá com as pernas cruzadas e as mãos sobre o joelho.
— Oi, Seheiah.
Por alguns instantes, o único som é Bellona no andar de cima. Seheiah me varre com os olhos.
— Você deve estar se perguntando por que eu estou aqui. – Minha resposta é um dar de ombros – Elisheva me pediu para buscar você. Hoje é dia 31.
— Eu não sei o que isso-
— Halloween, Cam. Ela e Dana estão na festa de Halloween. Você quer saber de uma coisa irritante? Eu não posso ficar com minha Protegida enquanto ela está sendo babá do seu Objeto. Então…? — Seheiah cruza os braços, com impaciência estampada em suas feições afiadas.
— Eu não entendo o que eu poderia fazer para, ahn, remediar a situação.
— Sério? Eu acho que você entende. Do nada, o seu Objeto fica mais estranho do que o normal e a Elisheva fica preocupada de você ter possuído dele, ou alguma coisa assim, então ela me manda checar onde você está enquanto ela tenta distrair o Dana. Você volta, eu convenço a Elisheva de está tudo bem e todo mundo sai ganhando.
— Eu achei que você devesse ser meu inimigo. — Seheiah revira seus olhos, por alguns segundos apenas branco é visível.
— Eu não ligo pra isso, eu só me importo com a minha Protegida. E aí, você vem?
Eu poderia muito bem estar no inferno. O lugar aglomerado, as luzes cegantes e a música pulsante são um dejavú. Procuro na multidão pela figura que eu conheço tão bem, de blusa preta ou moletom cinza e cabelo amassado. Seheiah aponta para um par e ah não.
Depois que o encontro, Dana é a única pessoa que eu vejo no ginásio abarrotado. Ele não me vê. Ele dança com Elisheva, movimentos espontâneos em sincronia com a batida. Eu não sabia que ele dançava; e eu jamais o acharia na multidão. O cabelo loiro normalmente bagunçado foi penteado para trás; nenhum traço de suas olheiras é visível; seus lábios brilham de forma não natural; Ele não usa o moletom ou a camisa preta, estes foram substituídos por uma blusa cujo comprimento não alcança a cintura da calça justa, a adição de um cinto apertado lhe dá um ilusão de cintura inacreditável.
O tema da festa me escapa por uma fração de segundo. Noite da inversão.
Elisheva dança ao lado dele, o cabelo curto bagunçado como sempre, mas um moletom duas vezes o seu tamanho esconde qualquer traço de feminilidade em seu corpo. Uma pessoa desatenta poderia tomá-los como um casal adolescente normal, ainda mais depois que Elisheva vê Seheiah e imediatamente puxa Dana para sussurrar algo em seu ouvido.
Dana ergue o olhar, assustado, suas sobrancelhas param no meio de sua testa. As luzes lançam emoções fantasma em seu rosto, porque ele não deveria estar aliviado em me ver. magicamente em seu rosto.
Esbarro em vários alunos, é bizarro o que algumas semanas sem um corpo físico fazem com seu senso.
A distância diminui e minha cabeça continua em branco. As acusações injustas que queria lançar morrem em minha garganta, um pedido de desculpas se vai tão rápido quanto veio. A verdade é que não quero falar de nada disso e, sem isso, o que resta? Dana é apenas meu Objeto. O objetivo de minha existência é reduzi-lo a uma casca vazia. E essa é a última coisa que me passa pela minha cabeça.
Elisheva se inclina de novo e diz algo para ele antes de se misturar com a multidão. Seus olhos arregalados não se movem um centímetro.
É instintivo — mesmo que isso nunca tenha acontecido antes. As mãos que, a alguns dias atrás estavam em seu pescoço, envolvem a pele pálida exposta de sua cintura. Espero o empurrão, o escárnio, os insultos e me encontro boquiaberto porque Dana cobre minhas mãos com as suas. Eu queria poder dizer se há calor em seu toque.
Dana se inclina em minha direção, seus olhos escuros inebriados e os lábios entreabertos. Se eu tivesse um coração, ele estaria acelerado.
— O que você está fazendo aqui? Eu achei que fosse uma alucinação – Dana diz, seus lábios a milímetros de minha orelha, sem firmeza alguma em sua voz. O falar arrastado dele me faz suspeitar que ele e Elisheva tomaram algo mais forte do que vinho hoje.
— Não importa. Vamos para casa.
— Eu não quero. Desde que você foi embora a Eleonora ficou meio izzzquisita- Dana ri e encosta a testa em meu ombro. — Seu desgraçado, todo dia eu tenho que usar uma blusa de gola alta. Você poderia pelo menos pedir desculpas.
— Me desculpa.
— Eu vou pensar no seu caso.
Um estalo ecoa em meu ouvido. Dana pisca inocentemente para mim, como se ele não tivesse acabado de beijar minha orelha.
Eu realmente deveria levar Dana para um lugar seguro. Um lugar em que ele fique sozinho e longe de mim.
—Você não quer dançar, Cam? Eu não sei dançar, mas se for com você eu... posso tentar.
Não é uma verdade completa mas, a essa altura do campeonato, eu não dou a mínima.
— Lá fora.
— E a música?
— Você não precisa de música.
— Argh.
Dana aperta minha mão em sua cintura antes de se desvencilhar de mim. O olhar enevoado estuda meu rosto. Por fim, seus lábios brilhantes se partem em um sorriso, o tipo que faz uma covinha aparecer em sua bochecha. O gesto me faz gelar. Dana não tem a mínima ideia do que está fazendo.
Guio Dana entre o aglomerado de alunos, quando olho para trás, e sempre sou surpreendido pela delicadeza em seus traços relaxados. Saindo do ginásio, o silêncio no corredor é ensurdecedor. Escuto até a respiração acelerada de Dana.
Caminhamos entre as sombras do prédio da escola, e ele aperta minha mão insistentemente. Quando continuo andando sem parar ou falar com ele, Dana agarra meu pulso. Ele não tem força o suficiente para me fazer parar, porém, procurando não ferir seu orgulho, não me movo.
— Por quê? – Revira os olhos e os foca em mim, o rosto erguido para me encarar diretamente – Você tenta me matar, vai embora, passa uma semana sem me dar um sinal de vida. O que faz você pensar que eu vou te seguir? Você pode muito bem estar me levando para o cemitério pra se desfazer do meu corpo. –
— Eu achei que você quisesse sair. – É a resposta errada. Os lábios de Dana tremem e seus olhos brilham com lágrimas contidas. A mudança repentina de humor me pega de surpresa.
— É CLARO QUE VOCÊ ACHOU. O QUE MAIS EU PODERIA QUERER, AHN? AHN? – A voz dele ecoa pelo corredor vazio. A cada ‘ahn’ sua mão me empurra contra o armário na parede. Não respondo porque ele não parece querer uma resposta. Dana parece querer uma reação.
— Todos iguais, todos iguais – Dana se inclina na ponta dos pés, se apoiando em meus ombros, até que ficamos face a face. Dana poderia se gabar que seu sonho foi profético pois eu reconheço a cena, mas nem um milhão de sonhos poderiam me prevenir.
O toque é experimental. Dana meramente encosta seus lábios nos meus, os olhos fechados, a mão em meu ombro me segurando contra o armário. Ao não encontrar resistência ou repreensão, Dana sorri e se afasta.
A última corrente de restrição e moderação arrebenta, ela nunca foi páreo para Dana.
Segurando os pulsos que me restringiam, giro seu corpo de forma que nossas posições se invertem, mas com o adicional dos braços de Dana presos, por minha mão, acima de sua cabeça. Ao contrário de Dana, com os olhos bem abertos, não hesito.
Os lábios de Dana deslizam entre os meus, sinto em minha língua o gosto da menta de seu brilho e do sal de suas lágrimas. Ele morde meu lábio inferior e eu tenho certeza que estaria sangrando se eu fosse humano.
Nossos lábios se separam com um estalo. Dana abre os olhos, sua respiração acelerada é o único som no corredor. Solto seus pulsos e ele os cruza em minha nuca. Dana tem uma mistura de lágrimas e contentamento em seu rosto. Ele me analisa em silêncio.
Satisfeito com o que encontra, Dana se aproxima, consigo sentir sua respiração em minha pele, mas seu alvo não é minha boca. Ele mordisca o lóbulo da minha orelha e as borboletas murchas agitam suas asas em meu estômago
— Dana, Dana, ai – Exclamo, apesar de não estar sentindo dor. Segurando os braços sobre meus ombros, o empurro, forçando distância entre nós O que você quer?
— Du.
A boca e as bochechas de Dana não estão menos vermelhas do que uma cereja; a cor dança na borda de minha visão, prendo uma bochecha entredentes para evitar fazer o mesmo em Dana.
— Vamos.
Ele grunhe em protesto, contudo, não resiste quando o levo pelo braço. Com a supervisão praticamente nula de professores, saímos do prédio em questão de segundos. Não olho para trás. O ar da noite deve ser congelante, pois o braço de Dana se arrepia. Paramos em frente a escola. Neblina enevoa a luz dos postes e não há traço de pessoas ou carros na rua. Felizmente para Dana, eu sou o maior perigo que ele poderia encontrar.
— Eu só não quero ir para casa. – Dana murmura, me olhando sob seus cílios.
— Certo.
Faço os cálculos em minha cabeça, levando em conta a temperatura, a distância e os atalhos. Me viro para encarar Dana e ele, os olhos levemente arregalados, fita de volta. Seu lábio inferior treme levemente. Depois de jogar minha jaqueta sobre seus ombros desnudos, começamos a trilhar o caminho até a minha casa.
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