Hölle

9 Gnasche


Notas iniciais
Substantivo. O desejo intenso de morder profundamente o antebraço de alguém que você goste. Sugestão de música: Michael Bublé - Feeling Good

Rashida é boa, se não como psicóloga, como ouvinte. Eu odeio isso. Odeio que Dana consegue falar de tudo para ela, inclusive de mim. Ridículo. O meu próximo objetivo imediato é impedir Dana de a encontrar daqui a duas semanas. Devo ter grunhido involuntariamente, pois ele olha sobre o ombro e aperta o passo. Videtur.

— Como foi seu encontro? – Ando a seu lado. Dana me olha de soslaio, mandíbula cerrada.

— Por que a pergunta? – E a curva petulante em seu queixo é a única coisa que eu vejo.

Porque eu quero saber, ora, quero ouvir de você diretamente pra mim e não pra outra pessoa. Tenho a leve impressão que Dana não me responderia com nada mais do que um revirar de olhos se eu lhe dissesse isso.

— Se você não quer falar, só diz que não quer falar – Dana é tão facilmente convencido contra sua vontade. Suspirando dramaticamente, ele se vira para mim.

— Foi ótimo. Mal posso esperar pra encontrar ela de novo. — Dana olha pra frente, a expressão fria e fechada. Ele não diz mais nada pelo resto do caminho.

Eleonora já saiu para trabalhar quando chegamos em casa. Dana larga a mochila sobre o sofá e vai direto para o banheiro sem nem mesmo acender a luz da sala. É a primeira vez que o vejo saindo para outro lugar além da escola, ele deve estar cansado, sei que eu estou.

Ding, ding, ding.

O som ecoa no escuro. Ding, ding, ding. Olho ao redor, procurando da onde ele vem. Dana sai do banheiro, completamente vestido e com o rosto molhado, e de trás da televisão retira um telefone. Ele aperta um botão, consigo ouvir vagamente a voz do outro lado.

— Alô? Ah, oi Elisheva. Eu não sabia que você tinha o número da casa. Sim, eu acabei de chegar em casa. Não, eu acabei de chegar em casa. Eu tenho que pedir pra Eleonora... Ela disse que não. Não, eu não posso ir sozinho. Não, ele não conta. — Dana me olha rapidamente antes de voltar a encarar a parede — Amanhã? Eu não… Tá. Amanhã. – Ele coloca o telefone de volta com um suspiro exasperado, ele está cheio desses hoje.

— Nesse encontro você pode ir — Ele diz com um sorriso sarcástico.

— Eu achei que você gostasse da Elisheva. – Digo, adivinhando o resto do assunto. Dana me olha como se eu fosse uma coisa presa em seu sapato e volta para o banheiro batendo a porta atrás de si.

— O que você está fazendo aqui? – Dana pergunta, edredom puxado até os ombros, olhos fixos no teto.

— Ahn? Esperando você dormir. – Respondo, repousando o queixo nos joelhos. É a posição mais confortável que deixa um espaço considerável entre nós.

— Não, aqui aqui – Ele revira os olhos.

— Eu já disse. Meu objetivo não mudou.

— Então porque parece que você é um animal de estimação, me seguindo e me olhando com essa cara-

— É a única que eu tenho – Interrompo. Desde a volta para casa, Dana tem estado arredio, alternando entre me olhar de esguelha e fingir que não estou presente. O que acionou tal reação é um mistério para mim. Ele mostrou meu desenho para aquela mulher, eu deveria ser a pessoa com raiva.

Começo a sentir o puxão familiar em minha consciência; olho para Dana, ele não está nem perto de dormir, então o que está acontecendo?

As sensações vêm em ondas intrusivas, cerro os dentes, tentando não confundir os sentimentos de Dana com os meus.

Não é de raiva que minhas entranhas se reviram, que o gosto de metal invade minha boca e faz minhas pálpebras tremerem tanto quanto meus lábios; é de vergonha com uma dose letal de culpa. Minha cabeça é inundada por um turbilhão de pensamentos divergentes. Eu quero… mas eu não deveria. E se eu pedir? Não, ela já me dá tanto. Eu gosto… eu odeio tanto que poderia morrer.

Tudo está contido dentro desta pessoa deitada imóvel feito um cadáver a 30 centímetros de mim.

Dana tenta se afastar de mim ao mesmo tempo que seu subconsciente me puxa para mais perto. Não consigo ficar com raiva ao sentir a contradição, acima de tudo, mordo os lábios para não sorrir. Estamos cada vez mais perto do dia em que eu terei controle total sobre Dana, e não vou precisar usá-lo.

— Eu ainda não tenho o dom da telepatia. Se você não me disser, eu não posso adivinhar o que está te incomodando.

Minutos passam no silêncio até que Dana sussurra:

— Eu não sei o que está me incomodando. Isso me incomoda.

Ele fecha os olhos. Nós dormimos. Dana acorda gritando, nenhum de nós fala nada quando ele agarra meu pulso e segura firme até os primeiros raios de sol iluminarem a janela.

Eleonora empurra um casaco e uma bolsa com dinheiro no colo de Dana.

Vai ficar frio mais tarde. É pra você comprar alguma coisa quente pra vocês.

Dana agradece e desce os degraus da varanda com sua irmã a suas costas. Ela espera encostada na porta e acena ao ver Elisheva encostar no meio fio em um carro preto saído diretamente dos programas que Dana e ela assistem no domingo. E Elisheva não está sozinha, porém não posso dizer que está acompanhada de uma pessoa. A silhueta no banco de trás é difícil de distinguir rapidamente, mas ela também me nota, me assiste acompanhar Dana até o carro e cruza os braços quando ele entra no banco do carona e eu no do passageiro.

— Oi. Dana, esse é Seheiah, meu anjo da guarda.

— Oi, ahn, eu não estou vendo ninguém – Dana diz afivelando o cinto de segurança e acenando para Eleonora.

— Eu sei, mas não seria estranho ele ficar me acompanhando e eu não o apresentar pra ninguém?

Não, porque iam achar que você é louca. – Elisheva arqueia uma sobrancelha e olha de soslaio para Dana antes de pisar no acelerador.

Encaro Seheiah e ele me fita de volta. Anjo não é a primeira palavra que me vem a cabeça quando olho pra ele. O cabelo preto, liso e imaculado feito seda, se estende até o banco vazio entre nós; a túnica branca que eu esperava depois de ver gravuras em livros é na verdade algo mais próximo de um vestido e se confunde com o cabelo; A auréola, que deveria estar em cima de sua cabeça, é um cordão fluorescente justo em seu pescoço, parece mais uma coleira de luxo do que qualquer outra coisa. O brilho ilumina as feições que mostram curiosidade, os olhos claros e oblíquos sorrindo apesar da boca estar em uma linha reta.

— Ela sempre faz isso. – Seheiah revira os olhos afetuosamente, uma coisa que eu não sabia que existia – E você é?

— Cam, o demônio do Dana – A resposta natural faz Dana tossir no banco da frente. Eu não tinha percebido, mas ele conversava em voz baixa com Elisheva.

Seheiah estende a mão e eu aperto. É tão estranho, não porque ele é um anjo, mas porque Dana é a única pessoa com a qual tenho contato direto.

— Você não está com medo? – Seheiah pergunta, correndo um dedo pela auréola em seu pescoço.

— Por que estaria? – Considero as palavras de Astarte e... ah. Anjos, como eu poderia ter esquecido? Eles têm o poder de intervir, devolver demônios direto para o Inferno, caso estes estejam afetando coisas além de seus Objetos – Eu estou apenas acompanhando meu Objeto – Adiciono rapidamente e Dana engasga audivelmente.

— Eu gosto da sua atitude – Seheiah finalmente sorri com a boca – A quanto tempo?

— Dana é o primeiro.

— Eu não posso desejar que você tire uma vida e tudo mais, mas seu objeto não parece incomodado com a sua presença então eu vou assumir que as coisas estão indo ruim, nesse caso, boa sorte.

— Obrigada.

Seheiah é o par perfeito para Elisheva. Mal consigo imaginar as conversas que eles devem ter. Ao perceber que nós não estamos falando, Elisheva também para e aumenta o volume do som. Dana tamborila os dedos contra o vidro da janela ao ritmo da música, a batida é grave e os vocais melancólicos.

Você gosta dessa? — Ela pergunta, balançando a cabeça com a melodia.Mais ou menos.

Elisheva pode não morar em Ilorno a muito tempo, mas ela conhece as ruas como a palma de sua mão. A música termina ao mesmo tempo em que ela estaciona o carro. Ela e Seheiah descem do carro perfeitamente sincronizados. Dana não faz menção de desafivelar o cinto, nós permanecemos sentados no escuro.

— Objeto? – Sinto algo borbulhando por trás da calma de Dana, contudo, não consigo distinguir o que é.

— É como demônios se referem aos humanos designados a eles. Não é pejorativo, eu juro.

Dana sai do carro sem dizer nada, vai até Elisheva, mas para a 10 centímetros dela. Ela e Seheiah estão de mãos dadas, discretamente, para Elisheva não parecer que está segurando o vazio. Como Seheiah, não preciso abrir a porta para sair do carro, no entanto, Dana não demonstra surpresa quando apareço de seu lado. Ele demonstra desprezo a minha mão estendida, como eu sabia que faria, e coloca as suas no bolso da calça. É final de semana, então Dana trocou o moletom pela camiseta preta. Seheiah e Elisheva adentram o parque e, apesar de recusar minha mão, Dana segue a meu lado.

Luzes amarelas, brancas, rosas e azuis piscam nos brinquedos ao nosso redor; O cheiro de doces e salgados permeia o ar, desperta a fome que não posso saciar. Não conheço a música tocada no alto-falante, mas Dana murmura junto. Com Elisheva guiando, não é difícil andar costurando o espaço vazio entre as pessoas. Ela solta Seheiah e se vira para Dana.

— Você quer ir na Roda Gigante com a gente ou com ele? – Ela aponta pra mim. Dana examina nós três, incluindo o espaço vazio onde ele acha que Seheiah está, faz uma careta e responde.

— Ele – Elisheva e o anjo trocam um olhar conspiratório que eu não entendo e Dana não vê.

— Quem disse que eu quero ir na Roda Gigante – Murmuro ao lado de Dana na fila de entrada.

Saber que já estou morto é reconfortante diante da altura do brinquedo. Dana não se importa. Correndo os olhos pela fila, ele é a imagem de tranquilidade. Nossa vez chega cedo demais. Dana entrega o ticket ao funcionário no portão.

— Só você?

— Aham.

O funcionário rasga o ticket e o devolve. Para minha infelicidade, a cabine redonda e aberta não oferece segurança além da portinha que Dana fecha atrás de si. A roda gira lentamente enquanto outras pessoas sobem. As luzes brilhantes não mascaram a distância entre nós e o chão. Sentado de lado, Dana mantém os olhos no chão que se afasta cada vez mais.

— Você tem medo de altura – Ele diz.

— Eu não sabia – Respondo, sem desgrudar os olhos dele. Se eu olhar para baixo vou ter um aneurisma. Eu estou morto, a única coisa que pode me “matar” de novo é Seheiah (e Lilith e Lucifer), e mesmo assim preciso fechar minhas mãos em punhos para esconder os dedos trêmulos. A roda pára abruptamente.

— Eu não tenho medo de altura... facilitaria a sua vida se eu pulasse daqui – E Dana sorri, a covinha que eu só vi em pesadelos faz uma aparição inédita. Dana, com o olhar vago e o sorrindo sob as luzes coloridas, parece ter saído dos filmes que ele assiste no domingo quando Eleonora vai dormir. Esqueço o medo, momentaneamente atordoado pela sugestão.

— É, acho que sim. – Respondo distraidamente.

— Eu não facilito a vida de ninguém – O sorriso de Dana se esvai ao me ver encarando.

— Percebi – Digo, estudando a gama de cores em seu rosto para não pensar na altura. Dana suspira.

— De novo – Ele praticamente cospe, voltando a observar o lado de fora da cabine.

— O que?

— Você está me olhando com cara de cachorro de novo. – É difícil dizer se o vermelho vem das luzes ou de Dana.

— Eu não posso fazer n- Com um estalo a roda volta a girar e para novamente quando estamos no topo — Eu não posso fazer nada sobre isso. Se eu não te olhar, vou olhar pra quem?

— Sei lá, olha pra... – Ele não termina a frase. Contra meu bom senso, sigo o olhar de Dana.

A poucas cabines da nossa Elisheva e Seheiah tiram proveito da privacidade tênue que o brinquedo oferece. Para Dana, a vista deve ser estranha. Elisheva segurando o vazio em seu colo e ocasionalmente lambendo ar. Para mim, a vista é horrenda. Seheiah sentado no colo de Elisheva, sendo segurado firmemente pela cintura, tendo sua boca explorada pela língua incomumente longa da garota.

O vermelho definitivamente vem do rosto de Dana. Ele encara o chão da cabine, sua expressão denuncia que ele viu demais.

— Olhar pra onde, Dana? – Provoco. Então eles não são um par, mas sim um casal. Não fico surpreso, apenas horrorizado pela cena beirando o explicito.

— Lugar nenhum — Seu rosto me diz que ele está refletindo sobre todas as decisões de sua vida. Ele diz algo em voz baixa.

— O que?

— Ela fez de propósito. Não parece, Cam, pra você? Que ela marcou um encontro e nós estamos segurando vela? – Dana repete, os ombros encolhidos sem nenhum vestígio da tranquilidade de alguns segundos atrás.

— E o que você quer fazer sobre isso? – A pergunta salta da minha boca. Dana contempla uma réplica. As luzes, a altura, a música, tudo vira um pano de fundo. A única coisa que consigo ver é Dana calmamente considerando a alusão, o desprezo familiar ausente de seu rosto.

A roda gira novamente, me chacoalhando do breve devaneio. O brinquedo gira uma, duas, três vezes. Finalmente nosso tempo acaba, Dana desce da cabine sem olhar para trás. Tenho a decência de não o provocar novamente.

Elisheva admite não ter dinheiro para mais tickets, mas compra algodão doce para ela e Dana. Tenho certeza que o dinheiro que Eleonora deu vai voltar para ela intocado. Ele não a olha nos olhos e eu não consigo me forçar a olhar para os lábios inchados de Seheiah. A volta para casa é silenciosa.

A despedida deixa um gosto estranho em minha boca. Por alguns segundos depois das luzes do carro de Elisheva sumirem, eu e Dana encaramos a rua vazia.

— A sua amiga namora um anjo – Ele não responde.

Eleonora não está na sala quando entramos, mas ela deixou as luzes acesas. Dana as apaga no caminho para o quarto. A estranheza se espalha dentro de mim. Não quero entrar no quarto com Dana, quero esperar ele dormir antes de me aproximar, contudo, sei que ele não vai conseguir dormir se eu não estiver visível. Encaro a porta de seu quarto, esperando os ruídos anunciando que ele trocou de roupa e é seguro entrar.

Deixo Dana iniciar seu próprio sonho. O cenário se constrói lentamente. Imagens piscam rapidamente em meio a escuridão, e uma se fixa diante de meus olhos. As luzes, a música, a altura, tudo se materializa na forma enevoada típica de sonhos. Pela primeira vez, não sou um mero espectador, mas sim um personagem: eu mesmo.

Dana, assim como mais cedo, fita as próprias mãos em reflexão profunda; O Dana do sonho reflete por apenas mais dois segundos, sua decisão é tomada tão rapidamente, não tenho tempo de processar a mudança antes de senti-la.

Ele se acomoda em meu colo e o peso em minhas pernas é estranhamente reconfortante. As mãos que agarram, a boca que morde, os quadris irrequietos, os olhos abertos e tão, tão próximos, apagam de minha mente que eu estou no controle do sonho.

Minha cabeça dá mais voltas do que um carrossel, esse é o tipo de coisa que nunca fiz antes de morrer, o que posso fazer é segurá-lo pela cintura e sentir sua língua percorrer toda a anatomia da minha boca.

Notas finais
achei fofo o dicionário que eu uso nos títulos né aí fui fazer um trabalho de tradução e resolvi fazer sobre ele... me lasquei tem mais de duas semanas que tô penando bicho que ideia de jerico crl enfim odeio virgula não sei usar bjos pra quem chegou aqui ai to nervosa pelos próximos capítulos sou jovem inocente tenho vergonha de hot