Hölle

10 Nementia


Notas iniciais
Nementia Substantivo. O esforço, depois que você se distraiu, de lembrar o porquê de estar com raiva, ansioso ou agitado, no qual você tem que percorrer toda sua sequência de pensamentos até chegar nessas emoções. Sugestão de música: Always You - Flower Face

Saio do sonho antes de Dana, como de costume. Durante a minha estada em seu subconsciente, fui chacoalhado de toda a impressão que tinha do meu Objeto – e que estranho chamá-lo assim quando a alguns momentos era justamente o contrário. Toco meus lábios procurando por indícios, algum inchaço ou marcas de dente. O estado de minha existência é incerto pra mim. Antes desta noite, nunca havia me passado pela cabeça que meu corpo é físico e que o que faço dentro da cabeça de Dana reflete nele.

Certamente, meus dedos encontram o inchaço deixado pela avidez de Dana. Ele pode me apagar de sua visão pelo resto de nossa convivência, pode me ignorar e não responder nada que eu lhe disser, mas o sonho é a prova de seus sentimentos reais. Timidamente, e como essa palavra não combina comigo, levanto o véu que separa minha consciência da dele, os dentes cerrados em antecipação. A culpa é inquilina permanente, estou familiarizado com tudo o que a acompanha; o que encontro de novo simplesmente não têm nome.

E não é novo, eu apenas não havia lhe prestado a devida atenção.

Retorce minhas entranhas de um jeito completamente diferente, meus lábios formigam com a intensidade da emoção. Puxo o véu abruptamente. De fato, não posso nomear, tampouco descrever. E os vestígios queimam tudo o que resta dentro da casca em que habito.

Dana grunhe em seu sono, não quero imaginar que seja um sinal da progressão de... afetos, mas é a única probabilidade plausível.

— DANA, acorda – Os olhos castanhos não mostram nada além de assombro quando ele os abre. Pouco a pouco ele se situa e sua atenção se fixa em mim.

— Porque...? – O sussurro perturba o silêncio da manhã e o rosto assustado de Dana trai a calma de sua voz baixa.

— Bom dia.

Dana passa pelos 5 estágios do luto antes de levantar da cama. Seu rosto carrega a vermelhidão de uma cereja quando ele faz menção de sair da cama. Ele me olha, olha para o chão. Olha para o chão, olha para mim. Por fim, se vira para a parede e saí do quarto com as mãos dentro do bolso da calça de pijama.

Dana toma café da manhã em pé, descalço, e fingindo que não me vê sentado na mesa. Encara a caneca cheia, o café preto que ele preparou no micro-ondas perfuma a casa com a fragrância e, como de costume, Eleonora se levanta ao sentir cheiro de qualquer comida. A loira aparece na entrada da cozinha, o cabelo emaranhado, as olheiras escuras e a expressão ensaiada se acomodando em seu rosto quando ela vê Dana.

— Bom dia – Eleonora cumprimenta, indo direto para a caneca que ele deixou para ela em cima da pia.

— Bom dia – Dana responde.

São minutos isentos de conversa. Os irmãos são mais parecidos do que nunca. Um par de estátuas pálidas, monocromáticas, com um olhar vago e caneca em mãos. Eles assistem o sol nascer atrás da árvore, o trinado de pássaros, aos poucos, preenchendo o silêncio.

— Alguma notícia? – Dana inquire, assistindo os galhos balançarem na brisa fria de outono.

— Não – Eleonora responde, a máscara caindo por uma fração de segundo, espelhando o olhar assombrado de Dana sempre que ele acorda de um pesadelo.

Claro. Seria muito fácil se eles citassem nomes e situações concretas ao invés das alusões e perguntas enigmáticas. Eleonora termina seu café e vai para a pia lavar as louças, como sempre faz quando é Dana quem prepara a comida, seja de qual refeição for.

— Eu vou terminar meu dever de casa – Dana diz ao voltar para o seu quarto, mas não é o que ele faz.

Dana se senta no chão, as pernas cruzadas e a expressão séria. Ele ergue o rosto para me encarar. Seus olhos escuros brilham com a pergunta contida.

— Foi você? – Dana pergunta, hesitante, temendo e antecipando a resposta.

— Eu o que? – Pergunto, sentando e cruzando as pernas. O rosto de Dana perde ainda mais a cor quando ele não ouve uma afirmação.

— Você qu-que – Dana percebe a delicadeza da situação. Ele não pode me questionar sem revelar o que aconteceu no sonho, e não quer revelar o que aconteceu no sonho porque nunca mais falaria comigo sabendo que eu sei – que mexeu na minha mochila?

Dana passa uma mão em seu cabelo, os dedos se retorcendo entre as mechas.

— Não. – Ele assente, as sobrancelhas franzidas e os lábios cerrados.

— Eu preciso ficar sozinho. Por favor. – Dana enterra o rosto em suas mãos, e não é capaz de esconder o vermelho que chega até suas orelhas.

Eu não preciso obedecê-lo. Posso muito bem caecus e passar o resto da manhã observando Dana em silêncio, não seria a primeira vez, mas as ondulações no véu entre nossa consciência me alertam. Um pouco de distância seria bom para nós dois.

O mais longe que posso ir é a sala de estar. Meço o tempo que se passou pela progressão dos raios de sol no tapete. Dana e Eleonora não saem de seus respectivos quartos. É impossível dizer qual deles esconde mais coisas do outro, com Eleonora mantendo sua calma forçada e Dana retribuindo, salvo alguns raros deslizes.

A luz viaja pelos fios de algodão, chegando à mesa de centro sobre a qual repouso minhas botas. Estudo o couro sob o sol, contudo, minha atenção é interrompida pela porta do quarto de Eleonora se abrindo. A mulher sai do quarto e fica parada no corredor. Ela levanta a mão para bater na porta do quarto de Dana. Centímetros antes de sua mão tocar a madeira, coloca a mão contra o rosto. Eleonora cobre o nariz e a boca, mas lágrimas descem uma torrente em seu rosto. A mulher volta para o próprio quarto, bate e tranca a porta.

O estrondo não é alto o suficiente para Dana sair do quarto. Eu, por outro lado, sigo o rastro de Eleonora. Afasto de minha mente o constrangimento de entrar em seu quarto, apenas atravessando a porta e tentando manter o foco. Eleonora se ajoelha no chão, as mãos contendo o som, mas os soluços reverberando por todo seu corpo.

E ela chora e chora.

A luz avança no carpete do quarto e Eleonora se curva em si mesma, sua testa tocando os joelhos, os tremores de seu lamento a sacudindo intensamente. O celular em cima da cama de casal toca. A loira levanta o rosto para checar o contato que a liga . Não vejo o tipo de expressão que ela tem, todavia, seus movimentos são erráticos quando ela aceita a chamada.

— Hiezabel. É verdade? É verdade? – O choro violento esgotou suas forças. Sua voz mal passa de um sussurro – É verdade que o Amatore morreu?

Sangue gela em minhas veias, eu não estava ciente de que ainda tinha um sistema circulatório, e o frio me engolfa da cabeça aos pés. Amatore. Qual é a possibilidade de elas comentarem sobre outro Amatore?

— Ahn? Ahn? O Quê?

Minha mente processa vagamente as palavras de Eleonora. Amatore. Amatore Malloch. Dr. Malloch. Meu progenitor. O homem que eu esfaqueei até a morte. Como a irmã de Dana, ou melhor, por que a irmã de Dana se importa com a morte dele?

Eles fizeram o que com o corpo dele? — Eleonora pergunta entre a nova onda de lágrimas – Por favor, vem me buscar. Eu preciso, eu preciso, eu quero... Eu não me importo, eu posso esperar. Tá. Não, eu não vou contar pro Dana. – Eleonora encerra a chamada. Ela se vira para a porta, sua mão estendida me atravessa. É a primeira vez que noto a fina aliança dourada em seu dedo anelar.

De pé na entrada do quarto, assisto Eleonora puxar um conjunto de roupas de sua cômoda, pegar uma bolsa e o celular. Seus movimentos são precisos e curtos, lágrimas silenciosas caem, mas ela continua organizando seus pertences sem poupar um segundo para afastá-las. O último item que Eleonora pega da cabeceira de sua cama, é um par de óculos escuros.

A mulher respira fundo e me atravessa para sair do quarto.

Meu corpo paralisado se recusa a me ouvir. Não seria uma grande coincidência Eleonora conhecer o Dr. Malloch, visto que ela era uma enfermeira e, como ele, trabalhava no único hospital geral da região. Entretanto, o desespero de Eleonora não era por um simples colega de trabalho.

Eu preciso falar com o Dana, e continuo imóvel. Conjuro em minha mente as imagens que conheço tão bem. Amatore saindo de seu carro no estacionamento do hospital, as palavras frias e rápidas que trocou comigo e, quando decidi andar até em casa e ele abriu a porta do carro, uma mulher no banco do passageiro. Assumi que era uma mulher porque tudo o que vi foi um par de pernas em calças jeans e sapatilhas azuis; Amatore e, posso afirmar, uma mulher encostados sobre o capô do carro — o carro da família, que apropriado, se beijando como se estivessem em uma propaganda de preservativos

Eu não vi cabelos loiros, olhos azuis e semblante suave. Eu vi Amatore e a mulher pela qual ele deixaria a mim e minha mãe apodrecendo naquela casa.

Eleonora bate na porta de Dana e avisa que precisa sair. Assim que escuto a porta da frente fechando, atravesso as duas paredes até o outro quarto. Videtur. Dana se estira no chão do quarto, com as cortinas cerradas e a luz apagada, ele encara o teto de gesso branco. Ele não se levanta ao me ver, mas um suspiro deixa bem claro o que acha de minha aparição.

Quero não me importar. Quero deixar minha vida passada passar. O garoto deitado no chão do quarto não tem nada a ver com isso. É do que tento me convencer, apesar da parte de mim apontando todos os instantes que eu perdi, os momentos me alertando do que estava acontecendo. Mil palavras morrem em minha boca. Quero perguntar tantas coisas a Dana e nada deixa meus lábios. Respiro

Uma

Duas

Três vezes.

— No dia que você bebeu... você ia me falar que eu parecia com o Amatore, não ia? – Dana se apoia nos cotovelos para me olhar – E hoje de manhã, vocês estavam tentando falar com ele?

— Eu, não, sim. – Dana se senta com a cabeça inclinada para o lado, um sinal de sua confusão – Faz quase um mês que o Amatore não fala comigo nem com Eleonora – Ele fala sem um traço de malícia.

Isso é ruim. Isso é muito ruim. O quarto ganha tons de vermelho, desde carmesim profundo nos cantos mais escuros, até a tonalidade de sangue fresco nos mais claros. Desvio os olhos de Dana.

— De onde a Eleonora conhece ele? – Seguro a respiração que não preciso.

— Eu não sei, mas ele é namorado dela e eles trabalham no mesmo hospital, então deve ser de lá e, na verdade, eu não sabia que eles trabalhavam juntos até...

Ele continua falando, mas eu parei de escutar em namorado. Que piada. Eu fui pro inferno por matar meu pai e acabei como um demônio na casa de sua amante.

Fecho os olhos e mesmo assim continuo enxergando em vermelho. Fecho e abro as mãos repetidamente, tentando exercer uma ilusão de controle sobre meu corpo. Minha mandíbula estala sob a pressão de meus dentes cerrados. Tremores atravessam minhas pálpebras e algo como uma pulsação tolda meus ouvidos.

— Cam? – E meu nome não é Cam. Eu não sou uma pessoa. As únicas coisas em minha mente são sangue sangue sangue e poderia ser Dana ou qualquer outra pessoa em minha frente porque não são meus olhos que me guiam.

Você sabia.— E dessa vez, entredentes, eu realmente forço as palavras para fora.

Em um piscar de olhos Dana está embaixo do meu corpo, meus joelhos em cada lado de seu quadril e as mãos ao lado de seu rosto. A confusão dá lugar a exasperação e Dana, que não gosta de tocar nem ser tocado, empurra meu ombro.

— Você pode fazer o favor d-

Cubro sua boca com minha mão.

Sim ou não Dana. Você sabia que o Amatore era casado? – Espero a resposta de Dana, mas a única coisa que ele me dá é uma mordida. Felizmente para ele eu não sinto dor, se não a outra mão que se moveu para sua garganta estaria firmemente fechada em seu pescoço.

Dana percebe que eu não estou em meu estado normal e, o medo em seus olhos não é diminuído, mas sim causado por mim. A cor lentamente deixa seu rosto e ele levanta as pernas tentando se libertar, empurra meu peito com as mãos. E eu não me mexo um centímetro. Os olhos de Dana se arregalam como se nunca lhe tivesse ocorrido que eu realmente não sou humano.

— Não, eu não sabia. Você pode me soltar? — A voz de Dana é estável apesar do pavor em seu rosto. Ele sabe que, só com sua força, jamais vai conseguir se soltar.

E é o que me traz de volta, o vermelho se dissolvendo lentamente. Eu não posso ficar perto de ninguém, não agora. O controle tênue pode escorrer de minhas mãos a qualquer momento. Com a mesma velocidade que prendi Dana, desvencilho-me. A marca perfeita de cinco dedos na garganta de Dana faz meu sangue correr frio. Com uma última olhada ao garoto confuso e aterrorizado no chão do quarto, Nula, atravesso duas paredes em um flash e meus pés não param depois de atingir a rua.

Notas finais
ₒₕ ₙₐₒ ᵩᵤₑₘ ₚₒdₑᵣᵢₐ ₜₑᵣ ₚᵣₑᵥᵢₛₜₒ ₑₛₛₑ ₑₛₑₙᵣₒₗₐᵣ estava muito feliz ontem, tinha terminado todas as disciplinas do semestre, e daí minha professora mandou uma mensagem com um plano de trabalho trabalho? - você pergunta trabalho - eu respondo Não é trabalhar de ganhar dinheiro, é trabalhar de escrever artigo god tenha misericórdia AIIIIIII terminei aquele trabalho de tradução e acabou sendo sobre a versão em inglês daquela música dos barões da pisadinha (?) se sair em algum lugar eu boto o link aqui hihi (edit em 28.04.2021: apresentei em um evento e está no youtube mas percebi q vergonha de verem minha caraaaa) sobre a história... eu... escrevi um poquito sobre a Eleonora, de como ela virou um(a) comedor de casada(o)s se eu conseguir editar vou postar emendado com essa ai a vida é muito curta pra revisar texto se você notou algum erro finja que foi uma escolha estilística da autora é isso bjos até a próxima