Hölle
21 Extra II: Deep End
Eu tenho tentado não chegar ao fundo do poço
Acho que você não quer me dar um motivo
Eleonora estava ficando louca. Tinha que ser isso. Se ela estivesse sã, isso significaria que o Dr. Malloch definitivamente tinha piscado pra ela. Esses momentos, momentos nos quais ela duvidava de sua percepção das coisas, eram cada vez mais recorrentes. Um toque a mais quando o Dr. Malloch lhe entregou um copo de café; um sorriso discreto que parecia ser sempre direcionado a ela; os olhos que se ficavam em seu rosto quando as outras enfermeiras estavam distraídas. Os pequenos incidentes, fossem imaginários ou não, povoavam os turnos de trabalho e as noites de sono — ou falta dele. Às vezes o silêncio era insuportável, nada no ambiente a distraía do turbilhão em sua cabeça.
Eu não vou conseguir dormir, Eleonora rangeu os dentes e levantou da cama. Em um par de sandálias e um moletom sobre suas calças de pijama, ela fechou a porta do apartamento atrás de si. A loja de conveniência no final da rua deveria estar aberta e ela esperava que se segurasse o canivete em seu bolso com força o suficiente estaria segura.
A conveniência parecia assombrada naquela hora da noite. Nem mesmo o caixa parecia estar vivo. Eleonora apertou o canivete e espremeu os olhos para ler o rótulo da caixa de chá em suas mãos. Camomila. Por via das dúvidas, ela pegou um xarope para tosse e dois pacotes de bolacha.
O plano estava dando certo. Em nenhum momento desde que saíra de casa o Dr. Malloch havia cruzado seus pensamentos. A figura do homem, parado, contemplando uma caixa de giz de cera, a assustou de tal forma que quando ela se deu conta do que tinha acontecido, já tinha jogado todas as suas compras pra cima.
Nora? — O Dr. Malloch perguntou, aparentemente tão confuso quanto ela.Oi.
Ela respondeu e mergulhou para pegar o que tinha derrubado antes que ele fizesse menção.
Eu não consegui dormir e essa é a única loja perto o suficiente pra ir a pé, você mora por aqui? — Ela se ouviu tagarelando e quis tomar o xarope ali mesmo, ter uma overdose, entrar em coma e calar a boca. Na verdade não, mas eles ficam abertos até às três da manhã. — Ele sorriu olhou ao redor, escaneando a loja vazia — Você está bem?Uhn? Sim.Ah, desculpa por me intrometer, mas achei que tinha algo de errado pelo remédio que você pegou.
Eleonora corou até a raiz de seu cabelo bagunçado. Seu colega de trabalho a viu prestes a se automedicar — ele não tinha como saber que era pra dormir e que a culpa era precisamente dele.
Eu já vou indo então! — Eleonora forçou um sorriso e correu para o caixa.
O atendente não poderia ter escaneado suas compras mais devagar. Quando ela estava com sacolas em mãos e prestes a sair, o Dr. Malloch tocou seu ombro levemente.
Você não quer uma carona até em casa? É perigoso estar na rua sozinha a esse horário. Eu vou ficar bem. — Ela sacou o canivete e apontou para ele. Até amanhã.
Eleonora se virou e começou a caminhar, rápido demais para ver o Dr. Malloch lutar contra um sorriso.
O embrulho em seu estômago se transformou em fome. Sua aventura noturna lhe custou o último dinheiro de suas economias. A loira sorriu com a perspectiva de receber seu primeiro salário, comer uma refeição decente e ligar para sua avó e comunicar esses acontecimentos. Ela não mencionaria o que havia acabado de acontecer.
A enfermeira boquiaberta torceu os dedos em seu uniforme. Seu coração pulsava loucamente. Ela não sabia se temia mais do que desejava o convite recebido. Os passos do Dr. Malloch ainda ecoavam pelo corredor quando ela correu para o banheiro.
Uma mistura nova de desprezo e antecipação se agitou em suas entranhas. Ela não se espantou ao ver seu aspecto esbaforido no espelho, simplesmente o lavou com água fria para abrandar o calor em suas bochechas. Voltando ao trabalho, Eleonora tentava se convencer que só estava feliz pela refeição grátis.
Suas mãos tremiam ao manusear pilhas de papel e quando um paciente apareceu precisando de medicação, ela deixou Srta. Nieng atendê-lo.
Seu cérebro não conseguia parar de dissecar as últimas 12 horas. O Dr. Malloch lhe viu, de madrugada e vestida como uma mendiga, na conveniência e no dia seguinte decidiu que queria levar aquela pessoa para jantar. Talvez ele tenha pensado que eu estava tão maltrapilha que deveria estar passando fome, Eleonora tentava se convencer e justificar a atitude.
As horas se arrastaram até o fim do turno. Eleonora colocou as mãos no bolso e as fechou em punhos. Parada no estacionamento do hospital, a enfermeira recitava trechos de livros em sua cabeça para tentar se distrair. Todos os livros eram de romance, não estava funcionando muito bem.
A loira pulou quando uma mão tocou seu ombro. Era apenas o Dr. Malloch.
— Nora, pronta? – Eleonora mordeu sua bochecha para não reagir a proximidade. O que conseguiu responder foi um aceno de cabeça – Alguma preferência?
— Eu não conheço nenhum lugar aqui – Admitiu, recusando o braço do Dr. Malloch quando ele ofereceu para que eles andassem até o carro.
— Então eu tenho o lugar perfeito.
O Dr. Malloch sorriu apesar da recusa. Eleonora se amaldiçoou internamente. Em seu nervosismo, tinha esquecido a pior parte: andar de carro com ele. Com certeza o caminho seria pavimentado com um silêncio estranho e aí o Dr. Malloch nunca mais a chamaria para lugar nenhum.
Ótimo, eu nem quero sair com ele mesmo.
Ela pensou ao estender a mão para a maçaneta, seus pensamentos foram interrompidos quando o Dr. Malloch alcançou primeiro.
— Senhorita.
Ele abriu a porta. Eleonora queria que a terra a engolisse. Se as coisas continuassem assim até o fim da noite ela teria um ataque cardíaco. Respira, respira. Enquanto o Dr. Malloch dava a volta no carro, ela mordeu o lábio com tanta força que a dor a distraiu momentaneamente.
— Nora, você não precisa ficar tão nervosa, é só um jantar. – O Dr. Malloch a tranquilizou como se fosse a voz de sua consciência. Eleonora sentiu todo o calor de seu rosto ser empurrado para o sul.
— Dr. Malloch – Ela começou aproveitando que a atenção dele estava direcionada ao carro e ao trânsito inexistente.
— Amatore – Eleonora o encarou boquiaberta.
— Dr. Malloch – Ele suspirou dramaticamente – eu não sei se estou completamente confortável com essa situação.
— Por quê? Você preferia sair com as outras enfermeiras? – Amatore não olhava diretamente para ela, mas Eleonora sentiu que ele veria sua expressão se ela mentisse.
— Não. Mas-
— Eleonora – Essa era a primeira vez que ele a chamara pelo primeiro nome. A loira cerrou os dentes para impedir um som indigno de escapar – Se o meu julgamento foi equívoco e você não está interessada em mim como eu estou em você – O carro freou bruscamente – Sinta-se livre para me dizer seu endereço. Eu lhe deixo em casa e finjo que isso nunca aconteceu.
Eleonora estendeu a mão para a maçaneta. Em sua cabeça, ela tinha toda a convicção para saltar do carro, andar até sua casa e no dia seguinte pedir sua transferência para outro hospital. O que ela fez de fato foi recolher a mão e ignorar o olhar de Amatore sobre ela.
— Dr. Malloch, sabe o que falam sobre você no hospital? – Eleonora tinha a impressão de que ele estava completamente ciente, mas queria deixá-la dizer – Que você só tem dois defeitos. Uma esposa e um filho.
O carro lentamente voltou a se mexer. Eleonora reuniu a coragem que lhe restava e encarou Amatore. A realização de que apesar disso eles ainda iriam jantar significava que ela estava mesmo interessada. E ela estava, só não esperava que ele já tivesse notado.
Ele nunca mais vai sair comigo.
Eleonora lamentava em silêncio. Amatore não fez nenhum esforço para retomar a conversa. A atmosfera no carro era um pouco mais tensa do que estranha. O par de olhos claros não abandonou o rosto do homem dirigindo, tampouco notou que eles estavam de fato na frente do seu prédio.
— Eu sei que as pessoas comentam, especulam, tentam adivinhar qual é aminha situação matrimonial, mas eu não esperava que você estivesse entre elas. Você acha que eu estaria aqui se minha esposa estivesse me esperando em casa? – O rosto de Eleonora ardia como se ele a tivesse dado um tapa.
— Eu não entendo… o que você vê em mim? Certamente uma pessoa como você pode ter-?
Suas palavras foram cortadas ao meio por um beijo suave. Era o seu primeiro em muito tempo, e o primeiro com um homem. Ela inclinou o rosto em uma oferta e sentiu Amatore segurar sua nuca. O amanhã, seu turno, suas colegas, o final do mês, nada disso importava. Um dos trechos rodando em sua cabeça era “A única forma de se livrar da tentação, é ceder a ela”, mas ela não conseguia se lembrar onde o tinha lido. Ass mãos de Amatore deslizaram até sua cintura de Eleonora e quando ela tentou se soltar do cinto de segurança, a realidade do que tinha acontecido a atingiu. Exasperada pela própria falta de autocontrole, Eleonora o empurrou bruscamente e isso lhe custou o resto da sua determinação. Se Amatore estava irritado pela interrupção, não demonstrava. Ele era a imagem da tranquilidade, alisando as rugas da camisa de forma sugestiva; Eleonora escondeu o rosto com as mãos, queria gritar que não deveria existir uma forma sugestiva de se arrumar. Eleonora o olhou de esguelha, ele colocou as mãos no volante pronto para sair. Para sua surpresa, segurou o pulso de Amatore.
— Isso é muito estranho, eu não posso, não devo sair com você agora. Eu preciso de um tempo. – Ela o assistiu estender a mão em sua direção Eleonora sabia que, assim que ele a tocasse, não haveria argumentação, tempo, nada que a convencesse a não o aceitar. Abriu a porta do carro e saltou para fora, sem dar tempo para que ele a alcançasse.
— Leve o tempo que precisar.
A última coisa que viu quando desceu do carro foi Amatore correndo a língua em seu lábio inferior.
Fale com o autor