No qual o nosso herói tem uma visita inesperada. E indesejada.

Não sei se foram os sopapos que Jimmy Carbonell desferiu contra mim ontem, o fato de eu finalmente ter me declarado à sua irmã com todas as letras, o boato de que o ex-noivo dela está rondando Nova York ou tudo isso junto, mas minha mente ficou fervilhando boa parte dessa noite. Custei a dormir e, quando enfim, consegui pregar os olhos, tive um sonho um tanto impactante.

Sonhei com a dama mordaz. Vestida de... noiva. E acordei, alarmado, obviamente.

Confesso que a ideia de um matrimônio já havia espreitado meus pensamentos algumas vezes, porém sempre no âmbito da superfície, como uma sugestão para um futuro não tão próximo assim, um passo sobre o qual eu não precisava refletir a fundo por ora.

No entanto, agora que eu e o raio de sol enfim nos entendemos plenamente, a ideia parece ter ganhado substância e uma atmosfera de urgência dentro de mim a ponto de me fazer sonhar, como se um verdadeiro cutucão do meu subconsciente indicasse que é chegada a hora do tal passo.

Resumo da ópera: preciso me casar com Maria. Preciso e quero. E quero o mais breve possível. Para ontem, se viagem no tempo se mostrar algo viável.

Esse desejo latente me fez acordar um tanto intrigado porque... Bom, há pouco tempo, eu me imaginava morrendo solteiro. E não achava isso deprimente ou ruim, apenas natural. Mesmo porque, no meu dicionário particular, solteiro nunca significou sozinho. Então, a ideia era seguir a minha vida como ela sempre foi, sem me privar de variadas companhias femininas, até o meu derradeiro final.

Agora que a venda caiu dos meus olhos, percebo que só estava me enganando. Eventualmente, eu acabaria sim sozinho porque companhia não é o mesmo que companheira. Companhia apenas nos distrai e por isso podemos achar em qualquer lugar. Já uma companheira para a vida toda, alguém capaz de nos completar na essência e nos alegrar apenas pelo fato de existir... Essas são raras. Só existe uma para cada homem e eu tive sorte de encontrar a minha.

— Patife? Olá? Está me ouvindo?

A voz de Maria me desperta e, pego de surpresa, quase deixo a xícara de café cair da minha mão. A boa notícia é que a bebida não me queimaria, já que pela total ausência de fumaça parece ter esfriado consideravelmente há algum tempo. Aliás, o café não é a única coisa intocável na mesa farta que Jarvis dispôs essa manhã. Absorto em pensamentos, eu ainda não provei nada.

Ergo o olhar na direção da porta e vejo Maria na soleira da sala, um certo ar de curiosidade e diversão no semblante. Levanto-me da cadeira e enfim respondo a sua pergunta:

— Agora estou.

Vê-la caminhando na minha direção me transporta de volta ao sonho por um instante, quando ela se movia com a mesma graciosidade, só que com outro tipo de vestido...

— Estava tão distraído. Eu te chamei algumas vezes e nada. — Ela para diante de mim e me escrutina um pouco. — Em que tanto pensava?

Oh, Einstein! Eu não posso pedi-la em casamento agora mesmo, posso? Sem um anel decente? Não, não posso.

— Em você.

É tudo que respondo e, embora não seja a história completa, é a verdade principal. Uma verdade que parece mexer com a minha mordaz companheira, já que seu olhar dardeja ao mergulhar no meu e, pelo movimento marcante dos seus ombros, sei que ela respira mais profundamente agora.

Nota mental: providenciar um anel de noivado o mais rápido possível.

— Como está sua boca? — ela questiona, a voz um pouco mais baixa, olhando para essa parte do meu rosto com uma mistura de preocupação e algo que só posso entender como desejo genuíno.

Ontem à noite, minha boca estava inchada no canto, dolorida e com uma forte propensão a desenvolver um hematoma. Graças a Jarvis, que me convenceu a colocar algumas compressas de gelo quando cheguei, estou quase cem por cento recuperado dos socos de Jimmy Carbonell.

O que significa que se ontem tive que me contentar com um beijo cauteloso ao me despedir do raio de sol no Griffith, hoje... Ah! Hoje é um novo dia! Um belo e promissor dia!

Pensando nisso, envolvo a cintura de Maria com um braço, trazendo-a para mais perto de mim devagar a fim de misturar o calor dos nossos corpos, ao mesmo tempo em que lhe confesso:

— Minha boca está faminta.

Por sobre meu ombro e com um sorriso jocoso, ela observa a mesa intocada.

— Não pelo café da manhã — esclareço, atraindo o seu olhar de volta.

Ela me brinda com um novo e cúmplice sorriso.

— Imaginei que não fosse esse tipo de fome.

Um segundo depois, suas mãos sobem pelos meus ombros e pescoço até encontrem o encaixe perfeito em minha nuca. É o convite que minha mão livre precisava para mergulhar em seus cabelos com determinação e trazer o rosto dela para junto do meu.

Maria fecha os olhos, e eu faço o mesmo antes de pressionar os lábios nos seus com todo o apetite que estava represado dentro de mim desde ontem. Quando abro espaço em sua boca e toco sua língua com a minha, sinto Maria vacilar em meus braços.

Ela se agarra mais a mim, como se não tivesse muita confiança na firmeza das próprias pernas nesse momento. Nosso enlace caloroso se estreita e não demora para o beijo se tornar mais profundo, delicioso e... indecente.

Um suave gemido contra minha boca é a gota d’água.

Movido pelo desejo que já beira o limiar do insuportável, tomo Maria no colo sem pensar duas vezes e caminho, às cegas, na direção de onde minha memória espacial me diz que fica a escada.

Nesse momento, no entanto, o raio de sol interrompe o beijo de súbito e indaga com os olhos arregalados de apreensão:

— Santo Deus, Howard! O que pensa que está fazendo?

De cenho franzido, encaro-a sem entender direito a pergunta e acabo sugerindo em tom óbvio com outra:

— Dispensando o café da manhã de vez e indo direto para a sobremesa?

O raio de sol abre a boca, como alguém prestes a dizer algo, mas então desiste e torna a fechá-la.

Não estou enganado. Tenho certeza que o mesmo desejo que me atormenta também arde em Maria. Eu senti no calor do seu beijo, no jeito indecoroso como seu corpo estava pressionado ao meu, na respiração entrecortada em meio ao beijo...

Agoniado pela urgência que me inflama, argumento:

— Nós precisamos resolver essa situação no quarto. Fica lá em cima, lembra?

Parecendo hesitante e sem graça, ela morde o lábio inferior. Inevitavelmente, olho demais para a sua boca assim e minha calça parece ficar mais apertada.

— Desculpe, patife...

Engulo em seco e, torcendo por uma solução simples para o impasse, sugiro:

— Prefere outra parte da casa, meu amor?

Maria faz uma careta de culpa.

— Não podemos. Pelo menos, não agora — ela responde, e logo depois começa a se desvencilhar de mim, escapando dos meus braços e voltando a tocar o chão com os pés. — Eu devia ter dito antes, desculpe, mas não consigo pensar direito quando você me beija assim.

Quero acreditar que Maria está apenas brincando, só que algo em seu olhar me convence de que fala sério. Infelizmente.

Estou prestes a questionar o motivo (o que ela devia ter dito antes), quando ela mesma decide revelar:

— Meu irmão está aqui.

A sensação é de um soco no estômago. Um soco que me paralisa e faz a mente rodopiar ao mesmo tempo.

Meu sangue, que há pouco borbulhava por Maria, esfria consideravelmente. Logo, fica gélido.

Embora Maria tenha sido muito clara com as palavras, uma parte de mim reluta em acreditar no que acabo de ouvir porque, convenhamos, é meio absurdo.

Percebendo o efeito que causou, ela acrescenta uma explicação para que não reste sombra de dúvida:

— Eu o trouxe comigo. Ele ficou esperando lá fora. O Sr. Jarvis está conversando com ele porque eu precisava te ver primeiro, saber como você estava...

A sala mergulha no mais absoluto dos silêncios por um tempo que não sei precisar até que uma pergunta escapa da minha garganta em tom apático:

— Você tem outro irmão?

A dama mordaz franze o cenho.

— Claro que não. Por quê?

Confuso com a decisão que ela tomou, não consigo evitar o tom crítico ao expor como me sinto:

— Só queria ter certeza que estamos falando do mesmo brutamontes que tentou me matar ontem. E que você resolveu trazer para dentro da minha casa hoje. Eu nem sei por que isso me choca!

De um jeito cauteloso, Maria contrapõe:

— Eu entendo o seu pé atrás com o meu irmão. Sendo sincera, ainda estou indignada com o que ele fez.

Não consigo mascarar o sarcasmo quando retruco:

— Ah... Obrigado pela consideração, raio de sol.

Maria fecha os olhos por um instante e respira fundo antes de pontuar:

— Eu sei que essa visita é inesperada para você, mas eu não teria concordado com Jimmy se desconfiasse que ele está atrás de uma nova confusão.

— Aposto como ele está — retruco, relutante em acreditar nas boas intenções do sujeito.

Sem pestanejar, Maria dispara:

— Porque você não o conhece como eu conheço.

Tudo bem, admito que ela tem um bom argumento. O suficiente para me convencer a receber o meliante? Ainda não. Meu instinto de autopreservação me aconselha a proceder com cautela.

— Nós conversamos ontem, como você aconselhou que eu fizesse.

— Alto lá! Eu te aconselhei a não parar de falar com o seu irmão por minha causa. Só isso.

Maria cruza os braços, soando um tanto emburrada. E teimosa.

— Bem, eu não parei de falar com Jimmy. O que significa que nós conversamos sobre você, sobre o ocorrido, sobre tudo, porque uma coisa levou a outra. Ele entendeu, está arrependido e quer conversar. Só isso.

— Só isso... — Solto um riso sem humor.

Demonstrando certa impaciência, Maria coloca as mãos na cintura.

— Howard, pare de agir como se Jimmy fosse te matar. É ridículo e exagerado.

Brindo-a com um sorriso sonso.

— Acha que ele ficará satisfeito em me deixar apenas paraplégico? Por que não disse antes? Eu já me sinto mais animado em recebê-lo!

Afasto-me um pouco da dama mordaz e me sento em um dos sofás, esperando que assim ela entenda que a conversa está encerrada.

Não quero e não vou falar com Jimmy Carbonell. Ponto final.

O problema é que alguns instantes depois, para meu tormento, Maria vem até mim com um olhar doce e a postura aparentemente desarmada.

Ergo o indicador.

— Não se atreva, feiticeira.

Meu alerta (ou súplica) de nada adianta. Ela simplesmente senta no meu colo, acomodando-se devagar entre minha coxa e... uma área mais perigosa, cruza as pernas e enlaça os braços ao redor do meu pescoço com um ar lânguido e sedutor. Uma nova estratégia, é claro, já que o embate inicial não foi promissor.

— Patife... — recomeça com a voz melodiosa, enquanto eu tento pensar em qualquer outro assunto e olhar para qualquer outra coisa na sala. Sem sucesso. — Você é tão superior ao meu irmão.

Essa afirmação me pega de surpresa e é impossível não me ver interessado pelo rumo da conversa, mesmo ciente de que Maria tenta me manipular com a escolha das palavras.

— Você acha mesmo?

— Sem dúvida!

Ela se aproxima mais um pouco e estreita mais o enlace dos braços em meu pescoço, presenteando-me com uma visão privilegiada do seu decote.

— Isso é golpe baixo... — murmuro baixinho, sentindo o sangue, há pouco frio pelo golpe da visita indesejada, aquecer exponencialmente.

Engulo em seco, desejando mergulhar no vale entre os seios dela com ardor. Imaginando o que eu faria com cada um deles usando minha boca, a língua, os dentes...

Como não posso ceder, mas também sou incapaz de ficar indiferente ao encanto atrativo que Maria exerce, deixo minha mão repousar em sua perna cruzada pelo menos.

Não... repousar não é uma palavra justa pois indicaria inércia. E minha mão, definitivamente, não fica inerte. Ela passeia devagar e provocativa com movimentos ora para cima, ora para baixo, sempre circulares. Mesmo com o tecido do vestido impedindo o contato de pele com pele, consigo sentir o calor irradiando da coxa curvilínea sob meu toque.

Quando torno a mirar nos olhos da dama mordaz, o que vejo neles é uma mistura de “O que diabos você está fazendo, Howard?” com “Por favor, patife, continue o que está fazendo!”

Decido me ater ao pedido silencioso e ignorar a pergunta sem sentido, tomando a ousadia de deslizar a mão por baixo do vestido dessa vez.

O frescor dos meus dedos em contato com a pele quente provoca um tipo de faísca elétrica que só piora mais a situação entre minhas pernas. Mesmo assim, como um masoquista, não consigo afastar a mão do fogo. Em vez disso, sigo com a carícia, demorando-me mais com os movimentos circulares e afundando os dedos na coxa macia da feiticeira com mais ímpeto.

Maria faz um claro esforço para controlar a respiração entrecortada, agarrar-se a algum foco e então diz meio às pressas:

— Você foi mil vezes superior a Jimmy ontem! Não revidou toda aquela provocação desnecessária e comportou-se como um homem de verdade. Como... um homem de ferro, eu diria!

Só sendo de ferro mesmo para não sucumbir ao desejo doloroso que reverbera em cada nervo do meu corpo, à vontade de mergulhar em sua boca, ao anseio crescente de possuir essa mulher.

Maria me lança um sorriso largo, quase ardiloso e, mesmo consciente de que ela procura inflar o meu ego de forma deliberada, a verdade é que senti sinceridade em suas palavras e certo orgulho na maneira como ela me encara agora. O raio de sol realmente aprovou o meu comportamento de ontem, levando-me a sorrir de volta e incentivá-la:

— Fale mais, querida.

Ela parece muita satisfeita por eu, supostamente, ter mordido a isca e retoma a linha de raciocínio de pronto:

— Jimmy, por outro lado, agiu muito mal. Feito um menino.

Arrependo-me na mesma hora de alimentar o assunto pois, na verdade, não quero falar sobre Jimmy ou sobre qualquer coisa. Eu e o raio de sol, sem dúvida, podíamos aproveitar esse tempo juntos muito melhor se encerrássemos o tópico indesejado e fôssemos para o quarto a fim de conversar em outra língua. Uma língua na qual sou bem mais fluente.

No entanto, como o infeliz do irmão dela ainda está em algum lugar lá fora e Maria parece obstinada em me convencer a falar com o dito cujo, vejo-me obrigado a alimentar o maldito assunto...

— Sim, ele se comportou feito um menino brigão.

Diante disso, ela demonstra um ligeiro incômodo e eu me arrependo pela segunda vez. Claro, não deve ser agradável ouvir uma crítica a alguém de sua família, por mais que eu esteja coberto de razão.

Meio contrariada, ela resmunga:

— Eu sei.

— Brigão e estúpido. E inconveniente. O cara é uma mala.

O raio de sol disfarça, muito mal, uma respiração exasperada.

— Sim, sim, que seja. O fato é que Jimmy agiu daquele jeito... daquele jeito...

— Infantil?

Maria aquiesce com um meneio de cabeça meio impaciente.

— Daquele jeito infantil por minha causa. Eu sei que não justifica. Ainda assim, pelo menos explica alguma coisa, certo? Querendo me proteger, ele meteu os pés pelas mãos.

Recuo um pouco e retiro a mão de sua perna. E quase coloco-a de volta no mesmíssimo lugar porque Maria, por um instante, olha para ela de um jeito tão... desolado?

Só não faço isso porque o que ela acabou de argumentar me atingiu em cheio e sinto uma necessidade urgente de corrigir:

— Você quer dizer que ele meteu as mãos no meu lindo rostinho, certo?

Maria fica, nitidamente, emburrada de novo.

— Eu quero dizer que meu irmão errou sim, mas tentando acertar.

Assopro o ar com ultraje e solto um riso sem o menor humor.

— E acertou alguns socos em mim, caso não se lembre.

Ela inclina a cabeça e tudo o que diz, em tom cansado e de reprimenda, é o meu nome:

— Howard.

E tudo o que eu replico, em tom cínico e com um leve arquear de sobrancelhas, é o dela:

— Maria.

Ficamos em silêncio pelos instantes que se seguem. Instantes que mais me parecem uma era inteira. Presos em um impasse. Até que os braços dela deslizam do meu pescoço para o próprio colo. Até que ela se levanta e se afasta alguns passos.

Dessa vez, quem fica desolado sou eu.

Tenho vontade de chamá-la de volta, de trazê-la de volta para os meus braços porque, se estamos discutindo, eu prefiro mil vezes fazer isso com Maria no meu colo. Perto e envolvido pelo seu calor, podendo tocá-la e senti-la. Não assim, não com essa sensação de vazio e distância entre nós.

O que me impede de buscá-la é o receio de que se esquive de mim, caso eu tente uma aproximação. Eu ficaria mais do que desolado se ela me repelisse.

Temendo tal rejeição, apenas acompanho com os olhos Maria caminhar até uma janela lateral e observar o jardim. Não que ela esteja, de fato, observando qualquer coisa com o mínimo de atenção. Mesmo de costas para mim, posso apostar que seu olhar está perdido, sem foco em nada específico lá fora. Ela só precisou... se afastar de mim.

Engulo com dificuldade e, que se dane, coloco-me de pé e dou um passo à frente.

Antes que eu dê mais um passo em sua direção, no entanto, o raio de sol volta a se pronunciar:

— Eu sei que Jimmy é um bronco e que você tem mil motivos para preferir distância. Mas ele ainda é meu irmão. E você é o homem que eu amo. Nada me faria mais feliz hoje do que ver vocês dois se entendendo. Ou, pelo menos, dando um primeiro passo rumo a algum tipo de... paz. — Ela respira fundo, ainda de costas para mim. — Se você conseguiu ser superior ontem, com Jimmy agindo tão mal, por que não pode ser superior agora, com ele disposto a se comportar de maneira civilizada? Eu odeio essa situação...

Ah, não... Ela está me convencendo!

Que Isaac Newton e Albert Einstein me ajudem porque ela me convenceu... Nesse instante.

Estou perdido.

Maria tentou me seduzir, até me manipular, porém tudo o que precisava fazer para me convencer era dizer a verdade, se abrir, me contar como se sente sobre essa maldita rixa, da maneira franca e desarmada como acabou de fazer.

Não tenho argumentos contra isso, nenhuma carta na manga, nenhuma resposta afiada na ponta da língua, nenhuma desculpa, só um aperto estranho no peito.

Esse atrito com o brucutu causa tristeza no raio de sol, e eu estaria mentindo para mim mesmo se dissesse que isso não me afeta.

Se ela está triste, como eu posso ser feliz?

Por mim, eu não faria a menor questão de me entender com Jimmy Carbonell, é claro. No entanto, por Maria, e só por causa dela, a história é diferente. O que é importante para ela automaticamente se torna importante para mim também porque... Bom, porque eu a amo.

Decidido e sentindo o aperto em meu peito se transformar em outra coisa, algo mais leve, caminho até Maria. Quando estou bem perto, ela se vira, dizendo de um modo resignado:

— Eu não vou insistir...

E se cala, pois tem um pequeno sobressalto ao me ver.

Talvez eu tenha me enganado. Maria devia estar mesmo distraída com a paisagem lá fora para não notar minha aproximação. Ou absorta em pensamentos e não ouviu meus passos.

— Você não precisa insistir. — Pego uma de suas mãos. Depois, a outra. Aperto-as com carinho, aliviado por nada em sua postura indicar que ela irá me repelir. — Eu tenho mil motivos para não querer falar com o seu adorável irmão.

Ela suspira, parecendo muito cansada. Ao mesmo tempo, compreensiva.

— Eu sei.

Ergo o queixo e endireito a postura. Sorrio de leve.

— E um só motivo para falar. Eu amo a irmã dele. É o único motivo que importa. Você.

O semblante aparentemente cansado se ilumina. A princípio, ainda com uma nuance de incerteza, como se a dama mordaz não estivesse totalmente convencida de que entendeu direito. Instantes depois, ela se convence e a única coisa que ilumina seu rosto é um sorriso arrebatador carregado com a mais pura alegria.

Maria solta minhas mãos apenas para vencer a curta distância que ainda nos separa, jogar os braços em meu pescoço e pressionar minha boca com um beijo... diferente. Cheio de uma emoção forte.

Não é um beijo lascivo, é um beijo de... amor. Ainda assim, me incendeia como a boa e velha luxúria. Especialmente quando nossas línguas se encostam, se provam, se esfregam e nos levam a um beijo mais profundo, molhado, quente...

Ok, é um beijo lascivo. E de amor.

— Obrigada — Maria agradece momentos depois, com um sussurro, a testa encostada na minha, os olhos brilhando nos meus, os dedos passeando em minha nuca com carinho. — Eu te amo mais do que ontem e menos do que amanhã, patife.

Ah... Juro que eu queria retribuir com algo romântico agora. O problema é que mal consigo respirar, que dirá pensar em algo à altura. Se bem que, talvez, eu já tenha dito e o raio de sol é que está retribuindo agora, certo?

É difícil raciocinar porque ainda estou sob o efeito do seu beijo. E os seios de Maria estão pressionados no meu peito. E o restante do corpo está bem colado junto ao meu. Meus braços estão ao redor dela, embora eu não me lembre exatamente do momento em que lhe agarrei assim, e uma mão lhe segura pela nuca com certa força.

Mesmo assim, decentemente vestidos, nos encaixamos tão bem! Como se o corpo de um tivesse sido moldado para o corpo do outro.

E meu próximo pensamento é sobre como nos encaixamos ainda melhor quando não há qualquer barreira de roupa entre nós.

Sem medo de soar piegas, Maria Carbonell foi feita para mim, assim como eu, Howard Stark, fui feito para ela. Não há encaixe mais perfeito do que o nosso. Uma pena que não podemos aproveitar agora...

Faço uma careta, e Maria afasta o rosto sem entender.

— Jimmy terá que esperar mais um pouco, raio de sol — começo a explicar, e ela franze o cenho. — Eu preciso de alguns minutos para... me recompor. Ainda estou meio excitado.

Meio não é bem verdade. Inteiro faz mais jus ao meu estado.

— Ah...

Maria faz menção de olhar para baixo, porém desiste. Provavelmente porque toma consciência da nossa proximidade e percebe que não é preciso ver com os próprios olhos para sentir o tamanho do meu desejo por ela.

— Ah! — ela repete, com um rubor encantador surgindo no rosto e então... ri.

A feiticeira simplesmente ri!

— Desculpe! — Ela se afasta de maneira meio brusca, controlando o riso e dá mais uns bons passos para trás. As mãos cobrindo o rosto. — A culpa foi toda minha.

— Foi nossa — corrijo, antes de dar meia volta e me largar no sofá, os braços abertos no encosto.

— Eu comecei.

Isso na voz dela é mesmo culpa.

— E eu não posso terminar.

E isso na minha... agonia.

Quanto tempo temos até que seu irmão perca o pouco de paciência que possui e decida vir atrás dela? Jarvis conseguiria segurá-lo lá fora um pouco mais? Seria tempo suficiente para nós?

Não... Não podemos fazer isso de qualquer jeito. Quero tomar Maria em meus braços com calma, sem interrupções, levando nós dois ao paraíso sem pressa, pouco a pouco, de forma intensa, como ela merece.

Respiro fundo e observo o raio de sol dessa distância segura. Ela não está mais cobrindo o rosto com as mãos, porém definitivamente evita me olhar de maneira direta. Não por recato, ouso dizer, é outra coisa...

Frustração? Medo de não resistir? Vontade de ceder?

Ela parece prestes a dizer alguma coisa. E eu, atormentado e encantado ao mesmo tempo, apenas espero em silêncio resignado.

— Talvez, mais tarde... à noite, quem sabe, eu possa voltar — Maria sugere, examinando as próprias unhas, que devem estar exatamente iguais a última vez em que ela as inspecionou.

Meu desejo, como eu já tinha certeza, é recíproco.

— Mal posso esperar — confesso o óbvio.

Pego uma almofada e posiciono estrategicamente em meu colo, pois desconfio de que só assim Maria terá coragem de me olhar de novo sem fraquejar.

Funciona. Ela me lança alguns olhares, pelo menos, enquanto conclui a sugestão:

— E, então, nós poderemos continuar o assunto sobre... hum, a sobremesa.

Pela maçã de Isaac Newton... Essa mulher vai me enlouquecer!

— Você não está ajudando — alerto, sentindo o sangue ferver mais um pouquinho. — Eu preciso pensar em outra coisa agora, Maria. — Fecho os olhos e jogo a cabeça para trás. — Em qualquer outra coisa que não seja em você, completamente nua, embaixo de mim, em cima de mim, enrolada em mim, seu cheiro impregnado por toda a minha pele...

— Howard!

Abro os olhos, meio alarmado.

— Desculpe, eu falei isso em voz alta?

Maria não parece escandalizada pelo que ouviu, no entanto. Na verdade, parece mais tentada. Olhando o movimento do seu decote daqui de onde estou, acho que ela respira com dificuldade considerável. Sem dúvida, tentada.

Abro um sorriso lento para ela.

— Jantamos mais tarde, raio de sol. Com direito a sobremesa depois.

Ela assente de maneira quase régia e então...

— Ou podemos começar pela sobremesa. Para abrir o apetite.

Seu rosto, antes rosado, ganha um tom ainda mais rubro. Mesmo assim, ela não faz qualquer tentativa de retirar a sugestão que saiu de forma muita espontânea, como se ela não tivesse percebido as palavras se formando no fundo da garganta até que já tivessem ganhado vida própria.

— Será como você quiser, meu amor.

É tudo o que minha sanidade me permite elaborar em resposta nesse momento. Sob a almofada, a ereção é implacável e dolorosa.

Maria assente mais uma vez e aperta as mãos uma na outra antes de me lembrar do que nos trouxe até essa situação angustiante...

— Bom, eu vou avisar o Jimmy que você irá demorar um pouquinho para falar com ele.

Dito isso, gira nos calcanhares e segue em direção à porta de um jeito determinado.

— Bastante! — corrijo, fazendo-a deter o passo e me olhar de novo. — Acho melhor eu tomar um banho frio e demorado antes de falar com o seu irmão. Ou ele vai me odiar para sempre e eu nem poderei culpá-lo.

Maria lança um olhar furtivo para a almofada. Depois, se detém nos meus olhos por um instante significativo. Então, sorri sem jeito, como se me pedisse desculpa pela... terceira vez? E volta a caminhar em direção à porta convencida a não dizer mais nada, logo desaparecendo do meu alcance.

A título de curiosidade, a última coisa que admirei no seu corpo voluptuoso enquanto ela deixava a sala foram os benditos tornozelos.

O que me leva a uma nova e importante nota mental...

Mais tarde, assim que ficarmos sozinhos, livres de Jimmy e do mundo inteiro, livres das roupas também, vou começar a beijá-la por ali. Pelos tornozelos.

Jogo a cabeça para trás e volto a fechar os olhos, sonhando acordado.

— Sobremesa antes do jantar... Eis a mulher da minha vida.

Surpreendo-me com o som do meu próprio riso.