No qual a nossa heroína precisa de um espelho; e o nosso herói, de jogo de cintura.

Howard Stark me transformou em uma devassa. Ou, pelo menos, despertou a devassa que eu não sabia existir dentro de mim até conhecê-lo. De um jeito ou de outro, a culpa é dele! Aquele demônio...

Sinto o rosto aquecer só de lembrar que me sentei em seu colo com a intenção de seduzir. E que quando ele deslizou a mão pela minha perna, quase esqueci de tudo e me deixei seduzir! Só o que desejei foi que os dedos ágeis subissem mais um pouco e se perdessem em mim do jeito pecaminoso que só o patife descarado sabe fazer.

Esses são os pensamentos nada decentes que me acompanham enquanto sigo — com as pernas ainda trêmulas de desejo e o coração acelerado — pelo jardim de sua mansão.

Levo a mão à boca, contendo um riso ao me lembrar do que lhe respondi sobre jantarmos mais tarde. Eu sugeri mesmo que devemos começar pela sobremesa para abrir o apetite? Usando a palavra sobremesa de uma maneira... hum, corrompida e sensual?

Tento afastar todo e qualquer pensamento quando avisto meu irmão e o Sr. Jarvis conversando à beira da piscina, mas até isso — a piscina, no caso — me remete a lembranças libidinosas do gênio infame e é difícil ignorar a ansiedade para que o dia passe voando e a noite chegue logo. Nunca desejei tanto uma deliciosa sobremesa!

Ao me ver, o mordomo lança um olhar discreto e depois... meio encabulado em minha direção. Jimmy, que estava de costas para mim, vira-se e tem a mesma reação que ele. Quase a mesma, para ser justa. Seu olhar não é discreto como o do Sr. Jarvis, é alarmado e em seguida... desconfiado? Indignado? Furioso? Um pouco de cada coisa.

O que aconteceu com você? E por que demorou tanto? — meu irmão questiona, e suas narinas ficam meio dilatadas enquanto ele escrutina meu rosto.

Por falar em meu rosto, ainda o sinto quente, deve estar bem ruborizado. Meus lábios ainda estão ardendo pelos beijos. E não preciso passar as mãos pelo cabelo para deduzir que talvez estejam um pouco desalinhados também. Tudo em mim, inclusive a respiração um tanto ofegante, deve exalar... devassidão.

Por um instante, pergunto-me se Howard me deixaria sair da casa sem um mísero alerta sobre minha aparência. E no instante seguinte, lembro que ele, de fato, não fez qualquer menção de me avisar.

Aquele. Demônio.

Por mais que estivesse atordoado de excitação e por isso incapaz de raciocinar direito, aposto que uma parte de Howard ficou feliz ao imaginar que Jimmy me veria assim e tiraria conclusões óbvias. E erradas porque não aconteceu nada entre nós. Digo... aconteceu alguma coisa certamente, mas não tudo o que poderia ter acontecido. Ou seja, estou levando a fama sem ter me deitado na cama. Infelizmente.

Expiro com força, com raiva de Howard e Jimmy ao mesmo tempo, e ergo o queixo reunindo certa dignidade para responder apenas a última pergunta:

— Eu estava convencendo o patife a conversar com você, ora!

Jimmy abre a boca para dizer algo. E fecha, sem ter dito nada. Suponho que ele fosse questionar em tom acusatório “Convencendo de que forma?”

Para meu alívio, achou melhor não perguntar. Talvez por perceber que não é da conta dele. Ou, o mais provável, porque no fundo prefere não confirmar os detalhes. Melhor assim.

— Ele vai demorar um pouco, mas irá te receber, é o que importa.

Ao lado dele, o Sr. Jarvis convida:

— O senhor pode me acompanhar até a sala. — Então, olha-me com ar de dúvida e inquere baixinho: — Ele pode esperar lá dentro, certo, Srta. Carbonell?

Não preciso pensar muito para compreender o que há por trás dessa pergunta. O mordomo teme que meu irmão encontre Howard com a aparência tão desalinhada quanto a minha. Talvez, ainda pior, afinal o Sr. Jarvis conhece o patrão que tem.

Bem, a essa altura, o patife já deve ter ido tomar o tal banho gelado que mencionou. E se ainda não foi, ele que pense numa desculpa rápida para explicar sua situação afogueada a Jimmy. Não é um gênio, afinal de contas?

— Não vejo por que não — digo com uma pontinha de maldade, torcendo para que meu irmão encontre Howard da mesma forma comprometedora como o deixei. — Eu vou ver a sua esposa enquanto isso, Sr. Jarvis. Com licença.

— À vontade. — Ele sorri com gentileza. — Ela vai adorar a visita.

Viro-me para seguir rumo à casa dele e de Ana, porém Jimmy me detém ao segurar minha mão, ao mesmo tempo em que diz com uma nota de ansiedade na voz:

— Maria!

Ergo o queixo de novo, lembrando a mim mesma que ainda estou com raiva dele por ter batido em Howard no Griffith. Só que a maneira como ele me olha de volta, parecendo um menino que aprontou uma travessura e se arrependeu sinceramente, em vez de um homem feito que cometeu um erro de julgamento e me magoou, abala essa raiva.

— Eu não vou te decepcionar, prometo. Por mais difícil que seja para mim, eu falei sério quando disse que queria conversar com Stark e chegar a um entendimento.

Foi exatamente isso que Jimmy me assegurou ontem, depois que conversamos e eu lhe expliquei o que pude sobre Howard e nossa relação. Também deixei claro que não vou permitir que ele se intrometa entre nós de novo. Eu amo Jimmy e ele é meu irmão, porém isso não dá a ele qualquer direito de controlar a minha vida, tampouco meus sentimentos.

Assim como fiz ontem, selo a paz entre nós com um abraço meio relutante e, depois, apertado. Ele me abraça de volta e suspira com alívio.

Segundos depois, quando afasto o rosto e ele me vê assim mais de perto, fica incomodado com a minha aparência mais uma vez. A ponto de desviar o olhar e pedir baixinho:

— Por Deus, Maria, procure um espelho assim que possível.

Se não fosse loucura, eu diria até que Jimmy está um pouco corado quando solta tal orientação.

Assim que ele e o mordomo se afastam e seguem rumo à casa principal da propriedade, tomo o meu caminho também e vou para a casa onde Ana reside.

Chegando lá, ela me recebe primeiro com um sorriso largo e um abraço amável. Depois, com um franzir de testa cheio de curiosidade. Por fim, Ana Jarvis inclina a cabeça, analisando-me com certa perspicácia.

— Você já viu o Sr. Stark hoje, não foi?

Fecho os olhos por um momento e as mãos com força ao lado do corpo.

— Argh! Aquele...

Passo por Ana e me aproximo do espelho que fica sobre um aparador em sua sala. O que vejo no reflexo é mais do que uma mulher desalinhada, trajando um vestido meio amarfalhado, com mechas de cabelo fora do lugar e um penteado arruinado. Uma mulher que exala paixão por cada poro me encara de volta com olhos brilhantes e vívidos. Uma mulher que, claramente, foi bastante beijada e que, a julgar pela vermelhidão e inchaço em seus lábios, correspondeu cada beijo à altura.

Não me admira que o Sr. Jarvis tenha ficado encabulado e que o rosto de Jimmy tenha até ganhado uma coloração rosa peculiar.

Um riso de felicidade me escapa e me arrumo do melhor jeito que consigo.

[...]

Depois de acalmar meu corpo com um banho à moda Ártico, visto-me cantarolando La vie en rose a fim de me distrair do frio que ainda me castiga. A voz treme a cada verso, pois não consigo controlar o tremor em meu queixo.

Apesar do desejo sexual frustrado, estou feliz. Como nunca pensei que eu seria capaz de ser um dia. O que é curioso porque eu não me considerava infeliz antes. Sem dúvida, tive meus momentos de alegria ao longo dos meus trinta anos. Contudo, somente agora, depois de conhecer o que é ser feliz de fato, percebo que eu passei boa parte da minha vida apenas... distraído com esses momentos alegres.

Devidamente arrumado, dou uma última olhada no espelho e passo os dedos entre os cabelos molhados. Arqueio as sobrancelhas algumas vezes com diversão para o galã refletido e deixo o quarto aos assobios.

Assim que alcanço o último degrau da escada, ouço um burburinho e um arrastar de cadeira no canto da sala onde fica a mesa. É para lá que olho de maneira automática.

Jarvis está terminando de servir uma xícara de café para... Jimmy Carbonell, que acabou de se levantar da cadeira, pois deve ter me ouvido chegando. Pela fumaça que emana da xícara, um novo café foi passado especialmente para o infeliz.

Ora essa... Jarvis é um traidor! O máximo que deveria ter oferecido ao brucutu era água. Da torneira, de preferência.

— Bom dia, Stark — o irmão do raio de sol rompe o silêncio, cumprimentando-me com um aceno, antes de dar uma generosa mordida em um brioche.

Arqueio as sobrancelhas.

— Bom dia. Eu te diria para ficar à vontade, se você já não estivesse.

Se ele entende a crítica implícita, não se importa e apenas fornece uma explicação:

— O Sr. Jarvis perguntou se eu gostaria de tomar o café da manhã enquanto te esperava, e eu tenho um sério problema quando o assunto é comida. Não consigo recusar.

Sorrio de modo forçado para o mequetrefe esfomeado.

— Aposto como esse é só um dos seus inúmeros problemas.

Dessa vez, ele entende perfeitamente e me brinda com um sorriso sonso.

— Hoje eu não vim brigar com você, Stark. — Jimmy ergue a xícara de café e olha dela para mim. — Por mais que eu fosse adorar jogar isso aqui bem no meio da sua cara.

Jarvis pigarreia, chamando nossa atenção como se estivesse diante de duas crianças.

— Cavalheiros, por favor. Se precisarem de algo, estou às ordens, é só chamar. Com licença.

Antes de deixar a sala, ele me lança um olhar significativo, um olhar que aconselha “Comporte-se.” E eu retribuo com um olhar defensivo que diz “Foi ele que começou!”

Sem cerimônia, Jimmy volta a se sentar. Na minha cadeira. Embora não tenha meu nome escrito nela, é meu lugar favorito à mesa, no qual costumo sentar desde sempre, portanto, é minha cadeira e ponto final.

Sem escolha, acomodo-me em outra, de frente para a visita indesejada.

Enquanto mastiga, Jimmy me encara. Ou melhor, me analisa. Como se somente agora estivesse me vendo de verdade, prestando atenção. E pela expressão tensa, algo me diz que não está gostando do que vê. Jimmy repara especialmente no meu cabelo molhado.

— Por que você tomou banho?

A pergunta vem de forma tão inesperada que tudo o que consigo responder em tom espirituoso é:

— Chama-se higiene pessoal.

Jimmy, é claro, não vê a menor graça. Nem se contenta. E parece ter esquecido por completo do café da manhã ou perdido a fome subitamente.

— Você já tinha tomado banho hoje?

Ora, que intrometido... Vai querer dar pitaco no meu consumo de água agora?

— Já.

— Antes de falar com a minha irmã?

— Sim.

Santo Einstein! O que é isso? Um interrogatório? Sinto-me encurralado contra a parede. Aonde ele está querendo chegar?

— E resolveu tomar outro banho em tão pouco tempo? Depois de falar com ela?

Como meu único crime é amar demais a irmã dele, não abaixo a cabeça para o inconveniente investigador. Em vez disso, digo com humor cínico:

— É que eu adoro o frescor do meu sabonete. Flores silvestres e maracujá.

Encaro-o com ar de desafio, cruzo os braços e me recosto na cadeira, querendo descobrir até onde irá com essas perguntas tão idiotas quanto ele.

Só que Jimmy não faz mais nenhuma pergunta. Pelo menos, não de forma direta. Talvez tenha reavaliado a abordagem, já que até agora não conseguiu arrancar nada substancial de mim.

Parece atormentado com alguma coisa e fica um tanto ruborizado quando volta a se pronunciar:

— Eu não pude deixar de notar que Maria apareceu lá fora meio... desgrenhada. Depois de ter falado com você. Por um bom tempo.

Eu não devia arriscar o meu pescoço assim, porém é mais forte do que qualquer senso de sobrevivência. Um barulho surge no fundo da minha garganta e não consigo controlar, a risada simplesmente irrompe. Pelo nariz.

Eu devia ter alertado o raio de sol sobre a sua aparência comprometedora depois de tantos beijos e amassos, porém, em minha defesa, eu mesmo não estava raciocinando muito bem depois de... tantos beijos e amassos.

O que me faz rir também é a expressão carrancuda de Jimmy Carbonell. Uma carranca que esconde o verdadeiro motivo por trás de suas perguntas. Ele está aflito. Talvez até apavorado com a suspeita que ronda sua mente.

Bem, não é segredo que não gosto dele e também não acho que eu e o raio de sol lhe devemos qualquer satisfação. Ainda assim, não me parece certo deixá-lo com caraminholas na cabeça, atormentado com a ideia de que eu e Maria fomos muito além de alguns beijos essa manhã. E de alguns amassos.

— Declaro-me culpado pela aparência desgrenhada da sua irmã, mas o que você está imaginando que aconteceu entre nós não aconteceu.

O brucutu relaxa tanto na cadeira que parece diminuir de tamanho bem diante dos meus olhos. E solta uma respiração tão profunda que só agora me dou conta que ele estava prendendo o ar até então.

— Ufa... Obrigado!

O que não significa que já não aconteceu antes e que não vai se repetir em breve! Penso diabolicamente, enquanto ele parte para o próximo brioche e corta um pedaço generoso de queijo. Ah! E ele acrescenta mais café e leite na xícara. O apetite voltou aparentemente.

Quantas mãos esse ogro faminto tem? Porque, de algum jeito, ele ainda consegue pegar uma torrada e geleia num piscar de olhos!

Enquanto me pergunto como Jimmy fez tudo isso tão rápido, ele termina de engolir alguma dessas coisas e volta a se pronunciar:

— Eu vim em missão de paz. Por outro lado, se descobrisse que você andou se aproveitando da minha irmã, tomando certas liberdades com ela, não sei o que eu faria. Bem, na verdade, sei sim. — Ele aponta uma faca lambuzada de manteiga de amendoim na minha direção. — Você seria um homem morto, Stark.

Engulo em seco, sentindo uma pontinha de tensão. E certa raiva também por conta da escolha de palavras dele.

Como explico para esse ser dotado de muitos músculos e pouca massa encefálica que eu não me aproveito da irmã dele, e sim desfruto de cada momento com ela porque a venero? E o mais importante, devo explicar?

Pelo visto, Jimmy acredita que minha relação com Maria não evoluiu para algo mais íntimo. Para ele, eu e ela nunca fomos para a cama. E se o raio de sol não lhe contou a verdade sobre esse ponto, porque simplesmente não quis, não conseguiu dizer ou porque não achou prudente revelar, talvez seja inteligente eu não bater com a língua nos dentes também.

Não acho que Jimmy me mataria como ameaçou porque, apesar de muito latir, ele não parece do tipo cruel de cachorro que morde e arranca pedaço de fato. Por outro lado, sem dúvida, ele partiria para cima de mim daquele jeito descontrolado de novo e faria algum estrago na minha integridade física.

Como diria Pitágoras, tem irmão que é cego. E, por ora, concluo que é melhor manter Jimmy assim. No escuro. Quanto menos ele souber, melhor. Até porque não é mesmo da conta dele.

Sirvo-me de uma xícara de café e pego um biscoitinho amanteigado porque, apesar de não estar com apetite, participar desse café da manhã me ajudará a agir com mais naturalidade.

— O raio de sol deu a entender que você veio implorar o meu perdão. Eu entendi corretamente?

Agora é Jimmy quem é pego de surpresa por uma pergunta. Ponto para mim.

— Eu vim me retratar com você — responde com certo desdém, pegando para si uma fatia de mamão.

— E pretende começar a fazer isso quando? Depois de devorar toda a comida da casa?

O brucutu ri. Isso mesmo, ele ri. De modo espontâneo e sincero. Com direito a rugas no cantinho dos olhos.

Estou tão chocado por Jimmy ter se rendido ao meu lendário senso de humor, que sinto meus lábios se esticando com um sorriso simpático em retribuição. Não gosto dele, porém, nesse instante, detesto um pouco menos.

— Muito bem. — Ele limpa a boca com o guardanapo e o coloca sobre a mesa antes de prosseguir. — Eu e Maria conversamos ontem à noite. Na verdade, ela quem mais falou. Bastante. Ela me fez enxergar certas coisas e outras eu consegui ver por conta própria quando esfriei a cabeça o suficiente. — Jimmy faz uma pausa, olhando para um ponto qualquer da mesa. — Ela parece feliz.

— Deve ser porque ela está feliz. Porque ela é.

— Com você.

Não foi uma pergunta, mesmo assim respondo para confirmar:

— Comigo.

Jimmy fica em silêncio. Por um bom tempo. Olhando para o nada. Digo, para a comida mais uma vez. Só que é como se não estivesse olhando de verdade, está apenas de olhos abertos, pensativo. Até que recomeça:

— Eu não me orgulho de ter perdido o controle ontem e lamento por ter agido feito... feito um...

Pelo visto, ele tem o mesmo problema do raio de sol para encontrar as palavras precisas quando se trata de alguns assuntos. Deve ser de família.

Decido ajudá-lo:

— Feito um animal selvagem?

Apesar da provocação, tudo o que ele faz nesse momento é assentir, vestindo a carapuça com... humildade?

Depois, com um olhar completamente desarmado, confidencia:

— Eu já vi a minha irmã sofrer uma vez, Stark. Não sei lidar com o choro dela. É outro defeito que eu tenho.

Eu não estava esperando por essa confissão.

Olho para o pequeno prato diante de mim, ainda vazio.

— Entendo.

E o pior é que eu entendo mesmo. Das poucas vezes que vi a dama mordaz chorar — infelizmente, por culpa minha —, eu pensei que fosse desmoronar feito um castelo de areia no meio da maré cheia. De alguma forma, a dor dela dói em mim. Pelo visto, dói em seu irmão também.

E assim, vejo-me detestando Jimmy ainda menos. Sinto até certa empatia por ele.

Eu hein...

Pisco algumas vezes, tentando lembrar a mim mesmo que, há menos de vinte e quatro horas, ele me bateu. Ainda estou com raiva, não estou? Deveria estar.

— Eu tive medo que a história estivesse se repetindo e fiquei cego. Então sim, eu posso ter agido feito um animal selvagem, mas nunca foi minha intenção cometer uma injustiça. E, de acordo com Maria, foi exatamente o que eu fiz com você. Ela assegurou que você é diferente, e eu decidi acreditar no julgamento dela dessa vez. Mesmo que você não acredite em mim nem aceite o que vou dizer, eu... — Jimmy expira com força. — Eu te peço sinceras desculpas.

Jimmy sorri de leve. Com aquele ar desarmado que vi há pouco quando ele riu.

E assim, de repente, eu decido esquecer o que aconteceu ontem. Começamos com o pé esquerdo, contudo podemos trilhar um caminho diferente daqui para a frente, não podemos? É o que Maria quer, o que ele quer, o que eu quero também.

— Eu acredito em você. Desculpas aceitas. — Sorrio de volta para Jimmy e ergo uma jarra entre nós. — Suco?

— Ah, sim, por favor!

Ele parece muito satisfeito pelo desfecho do nosso atrito. Ou talvez só esteja empolgado pois percebeu que ainda há muito o que comer e beber, e agora que já se retratou com todas as letras, pode aproveitar a refeição sem culpa. Não que ele não estivesse aproveitando antes.

Encho o copo que praticamente se materializou na mão dele e pego um pouco para mim também antes que seja tarde.

Depois de sorver generosos goles, Jimmy coloca o copo na mesa e questiona:

— Por que você não reagiu?

Franzo o cenho.

— Perdão?

— Por que não reagiu quando eu te bati ontem? — Ele se recosta na cadeira e ergue as sobrancelhas com ar desdenhoso. — Tudo bem que você não seja páreo para mim, mas podia ter tentado alguma coisa, não? Por que não tentou? Só ficou lá... apanhando de bom grado.

Jimmy finaliza com um sorrisinho profundamente irritante, e eu imagino meu suco voando na direção do seu rosto e arruinando a expressão sonsa. Apesar da provocação, sinto que, no fundo, ele está mesmo curioso. Por isso, não entro no seu joguinho e explico do jeito mais franco:

— Eu imaginei que o raio de sol sofreria mais se eu revidasse, que a confusão seria maior e que ela ficaria mais angustiada. Além disso, você me agrediu porque pensou que eu fosse um cafajeste e, se eu revidasse, estaria vestindo a carapuça. Achei melhor manter a calma, ou o mais perto que consegui, esperando que isso te fizesse enxergar que estava errado ao meu respeito.

Com certeza não era a resposta que o brucutu esperava. Ele fica nitidamente intrigado ou... contrariado. Ou as duas coisas. Não o suficiente para afetar seu apetite, já que pega algumas uvas. Depois de engolir a última delas, ele enfim diz alguma coisa:

— Bom, funcionou. Parece que existe alguma integridade em você, Stark. Arrisco até dizer que as suas intenções com a minha irmã são boas. Estou certo? Digo... Você gosta mesmo dela? Não pretende apenas usá-la e fazê-la sofrer no fim, pretende? Como disse, eu não vou suportar vê-la passando por algo assim de novo.

Não há agressividade no tom de voz de Jimmy nem nada em sua postura que indique ameaça iminente. Tudo o que vejo é um irmão mais velho sinceramente preocupado com a irmã mais nova.

É impossível não gostar dele um pouquinho. Impossível não sentir certo respeito mesmo que ainda seja um respeito meio relutante. A verdade é que tanto eu quanto Jimmy só queremos uma coisa: que Maria seja feliz.

Então, para que não reste mais nenhuma dúvida na cabeça de vento dessa criatura, decido abrir o jogo sem meias palavras:

— Eu não gosto da sua irmã, eu a amo. Com cada partícula, com cada átomo que faz parte de mim. É um choque que algo assim tenha acontecido justo com alguém feito eu, mas não deu para evitar. Sua irmã é fascinante, mandona, teimosa e... perfeita. Quando eu vi, ela já tinha se tornado tão essencial quanto o ar que eu respiro. É por isso que eu vou pedi-la em casamento muito em breve. E já que nós seremos cunhados, Jimmy, acho que você deve abolir a formalidade e me chamar de Howard daqui para frente. O que me diz?

Por sorte, o brucutu não estava mastigando nada porque, caso estivesse, tenho certeza de que teria engasgado ou cuspido. Ou as duas coisas. Em vez disso, ele engole em seco e pisca meio desnorteado antes de conseguir formular algo:

— Caramba...

— Muito eloquente — debocho em tom jocoso, enquanto sirvo mais suco para mim e... para ele também, oras.

Ele observa o copo por alguns instantes antes de pegá-lo com certa hesitação.

— Você ama a minha irmã.

— Foi o que eu disse.

— E pretende se casar com ela.

— Você estava mesmo prestando atenção.

Jimmy me encara de um jeito ressabiado. Em nada lembra o urso furioso que me atacou ontem. Agora, o seu olhar me lembra mais um ursinho de pelúcia fofinho.

— Acho que eu te devo um pedido de desculpas.

— Você já fez isso.

— Outro então. — Ele coloca o copo de volta na mesa sem ter tomado um gole e exala a inquietação de alguém que faz questão de se explicar. — Olha... eu não fui com a sua cara quando te conheci, mas eu jamais teria me exaltado e metido os pés pelas mãos, se soubesse que você... que você ama a minha irmã, caramba!

Ele ri com estrondo, alívio e com algo genuíno que me pega de surpresa. O ursinho de pelúcia parece sinceramente feliz por nós. Acho que não só aceitou minha relação com a sua irmã, como agora está pronto para nos apoiar.

Ergo meu corpo e proponho um brinde:

— A um recomeço?

Ele sorri com suavidade antes de pegar o dele e fazer o tilintar de vidro contra vidro ressoar pela mesa.

— A um recomeço... Howard.

Podia ser um intenso uísque, mas entornamos o ácido suco de laranja mesmo.

[...]

Se eu não estivesse vendo a cena bem na minha frente, duvidaria muito que fosse verdade. Meu irmão e o patife parecem não só terem chegado a um entendimento, como estão... rindo juntos de alguma piada quando volto para a mansão.

Surpresa, estanco sob o umbral da porta.

Estranhei a demora da conversa e temi que os dois estivessem se engalfinhando pelo chão. Por isso, pedi licença para Ana e vim às pressas para cá. Porém, ao que parece, minha preocupação foi totalmente à toa.

Assim que nota minha presença, Jimmy se põe de pé e diz:

— Ah, falando no assunto...

Então a piada era sobre mim? Ora, essa! Como se atrevem?

Howard se levanta da cadeira também e explica de forma evasiva:

— Seu irmão estava me contando algumas histórias da infância de vocês. Nada que te desabone, raio de sol.

Duvido muito. Maldição.

Prefiro não entrar em detalhes e me volto para Jimmy com um chamado seco:

— Vamos embora?

Ele olha para o patife, depois para mim, bebe o último gole de um suco e coloca o copo vazio sobre a mesa. Limpa a boca com o guardanapo e dá um tapinha na própria barriga, parecendo satisfeito com a refeição.

— Eu vou te esperar lá fora, Maria.

Por um instante, não entendo o que ele quer dizer. Até que Jimmy aperta a mão do gênio infame de modo civilizado, chegando a sorrir para ele, e passa por mim, deixando-me a sós com o patife para me despedir dele sem a sua vigilância por perto.

Arregalo os olhos e dou alguns passos até parar perto da mesa.

— O que aconteceu aqui?

— Nada de mais, eu só conquistei o seu irmão com o meu magnetismo irresistível. — Howard sorri de um jeito relaxado, enquanto eu franzo o cenho. — Até que o seu irmão é um sujeito legal, raio de sol. Agora que não está empenhado em acabar comigo, é claro.

Eu queria que os dois se entendessem, contudo confesso que é um choque ver que o meu desejo se realizou tão fácil. Havia um ar de camaradagem entre os dois quando eu cheguei, o que me leva a concluir, com novo assombro, que talvez eles venham a se tornar amigos de verdade um dia. Em breve, quem sabe. E, certamente, Jimmy compartilhará mais histórias da nossa infância com Howard. Que Deus me ajude...

— Está com fome, minha rainha? — o patife pergunta, escrutinando a mesa. — Bom, Jimmy não deixou muita coisa a salvo do apetite voraz e eu não sei como você conseguiu sobreviver crescendo com alguém tão esfomeado, mas... Ah, aqui!

Howard encontra uma porção de morangos intacta e escolhe um bem vermelho para mim. Parece suculento.

Sem pensar direito, em vez de pegar a pequena fruta e comer sozinha, aproveito que a mão dele está suspensa no ar e trago-a para mais perto do meu rosto. E da minha boca. Dou uma pequena mordida no morango e fecho os olhos para saborear melhor a mistura de acidez e doçura. Está delicioso, decido aproveitar o momento e varro para o inconsciente a intrigante camaradagem entre Howard e Jimmy. Mais tarde reflito sobre isso.

Dou a segunda e última mordida, tomando cuidado para não mordiscar os dedos do patife por acidente, e só então solto a mão dele e abro os olhos.

— Humm...

Meu coração acelera forta quando encontro o olhar dele muito fixo na minha boca enquanto eu mastigo devagar. Um olhar intenso e que fica mais escuro quando eu passo a língua pelos lábios para aproveitar o restante do sabor frutal.

Howard engole a própria saliva ou o ar com certa dificuldade e só agora percebo como meu gesto deve ter parecido sensual para ele. Não tinha a intenção de provocá-lo, mas confesso que constatar que fiz exatamente isso me diverte bastante.

— Outro — peço com a voz suave.

Ele balança a cabeça lentamente e esconde a porção atrás de si.

— Vou guardar para mais tarde.

Dou mais um passo à frente, sentindo o calor dele rente ao meu corpo. Subo a mão pelo seu peito, brincando com o suspensório por um instante.

— Para a sobremesa?

O olhar dele agora é mais perigoso.

— Maria...

O jeito como diz meu nome é um alerta que decido ignorar. Com os dedos, percorro seu ombro, resvalando no pescoço, até encontrar a pele quase febril da nuca. Fecho os olhos e pressiono a boca na sua de um jeito lânguido.

Depois de um instante apenas aproveitando a maciez da sua boca, abro os lábios do patife com os meus sem que ele demonstre qualquer resistência e passo a língua pela cavidade úmida e quente, saboreando seu gosto tal como fiz com o morango suculento. Constato que ele é ainda mais delicioso.

Não demora quase nada e a mão livre de Howard sobe pelas minhas costas e me prende em um meio abraço apertado, enquanto a língua travessa não resiste mais à investida da minha e corresponde com uma intensidade lenta que faz meus joelhos amolecerem. Já não sei mais quem está seduzindo quem, mas preciso me lembrar que não podemos ir longe demais.

É com muita força de vontade e uma manobra rápida da minha mão livre que consigo pegar um morango atrás dele e me afastar de forma abrupta.

— Obrigada, patife! Até mais tarde!

Mordo a fruta enquanto ando de costas com ar vitorioso rumo à saída.

Ele me encara. Desconcertado. Ultrajado.

— Feiticeira! Mil vezes feiticeira!

É tudo que diz enquanto deixo a sala.

Ainda ouço um ranger de cadeira quando me viro e imagino que ele se deixou cair nela, sofrendo da mesma fraqueza nas pernas que, com certeza, me acompanhará por todo o caminho de volta.