No qual nossa heroína fica entre um valentão e um idiota.

Eu amo Howard Stark. De verdade. Porém, às vezes, ele é tão estúpido que eu me pergunto por que fui amá-lo. Como agora.

Jimmy já o acertou com três socos, e o gênio infame não só não reagiu, como parece disposto a receber o quarto golpe de bom grado. Que homem mais imbecil, meu Deus!

Ele me afastou há pouco para que eu não interferisse, só que não posso aceitar essa violência desnecessária e desproporcional! Se isso prosseguir, Jimmy irá massacrá-lo!

Sei que meu irmão é fisicamente mais robusto, ainda assim, seria esperar muito que o patife tentasse ao menos se defender?

Bom, já que ele se recusa a fazê-lo, eu mesma o faço, tomando a sua frente de novo e me colocando entre ele e o outro ser estúpido dessa equação insana.

Jimmy detém a mão fechada no ar para não me atingir sem querer e ordena com ar furioso:

— Maria, saia da frente agora.

Ergo o queixo em desafio e finco os pés no mesmo lugar.

— Não.

Howard tenta me afastar, e eu me agarro ao seu pescoço com todas as forças.

Jimmy, por sua vez, fecha a cara e repete com mais dureza na voz:

— Eu estou falando sério. Saia daqui, Maria.

— Não! — repito, com mais teimosia.

— Raio de sol, está tudo bem...

Volto-me abismada para encarar o homem estúpido que acabou de dizer tal mentira.

— Bem? Bem?! Não tem nada bem aqui, Howard! Francamente, onde você estava com a cabeça quando resolveu contar a Jimmy sobre nós?!

O gênio infame abre a boca para explicar o inexplicável, porém Angie, que havia ido até o balcão da recepção para falar algo com a Sra. Fry, se reaproxima nesse instante, anunciando:

— Pessoal, ela aceitou não chamar a polícia desde que a briga tenha terminado.

— Briga? — Jimmy ri. — A senhorita quis dizer surra, certo?

Pela primeira vez, Howard demonstra alguma reação real em sua defesa. Ele tenta se desvencilhar de mim a fim de enfrentar o meu irmão do jeito que for. Eu me agarro a ele com mais força, capturo seu olhar, seguro seu rosto entre as mãos e peço desesperada:

— Por favor!

E ele para.

Não acho que ele venceria uma luta contra Jimmy, ainda assim, se quisesse, aposto que conseguiria desferir alguns golpes. E imaginar a cena agora me faz perceber que eu não poderia suportar isso, ver o meu irmão e o homem que amo se engalfinhando numa briga — ou surra — por minha causa.

— O que me diz, Stark? É homem para continuar essa conversa lá fora ou prefere se esconder atrás da minha irmã para sempre? — Jimmy o desafia, feito um moleque.

Mais uma vez, Howard busca se esquivar de mim; e eu, mais uma vez, luto para contê-lo. Estou quase perdendo a batalha, quando Angie exclama de um jeito muito alarmado:

— Ai, meu Deus! Isso é sangue?!

Ela chama a nossa atenção ao apontar para o rosto do patife. No canto da boca dele, um filete vermelho escorre. É revoltante que Jimmy tenha o machucado, porém não parece grave e tenho certeza que Angie já tinha notado o ferimento antes.

— Eu não posso ver sangue... — ela confidencia, com a mão sobre o coração. — Sempre me deixa... zonza.

De repente, suas pernas vacilam e ela busca algo para se apoiar. E encontra tal apoio em Jimmy, pois ele corre em seu auxílio murmurando um...

— A senhorita está passando mal?! Permita-me ajudá-la!

— Sim, por favor. — Ela se deixa segurar por ele, apoia a cabeça em seu ombro e aponta o sofá. — Pode me ajudar a chegar ali?

— C-claro!

Ao passar por nós, Angie pisca de maneira discreta e eu tenho a comprovação de algo que, no fundo, eu já sabia. Ela nasceu para ser atriz.

Assim que se acomoda no sofá, ela fecha os olhos e joga a cabeça para trás. Não sem antes segurar a mão de Jimmy com determinação e fazer novos pedidos:

— Pode ficar aqui até eu melhorar? E me abanar um pouco? Estou meio sem fôlego...

Ele olha embasbacado para a minha amiga. E depois, com azedume para Howard. Parece furioso por ter que adiar a tal conversa, contudo, satisfeito em fazer companhia a Angie.

— Tudo que precisar, Srta. Martinelli.

De pronto, ele pega uma revista na mesinha ao lado do sofá e começa a abaná-la com deferência. E assim, ao que parece, a bela acalma a fera. Pelo menos, por ora.

Aproveito a trégua para voltar toda a atenção ao homem mais idiota desse planeta e examiná-lo melhor. Além do corte no lábio inferior, seu rosto está vermelho e já é possível notar certo inchaço. Dos dois lados. Em poucas horas, Howard terá dois hematomas.

— O que está doendo mais? — pergunto, consternada.

— O meu orgulho.

— Posso imaginar...

Abraçando-o de lado, indico a poltrona e vamos até ela. Antes de se sentar, o patife pega um... magnífico buquê de rosas vermelhas e, com um olhar travesso, entrega a mim.

— Ah! São para você.

Seguro o presente com cuidado e certa descrença. Em meio ao caos, esse gesto ganha uma dimensão genuína.

As rosas são tão belas que nem parecem reais. E emanam um perfume tão delicioso que me levam a inspirar com o rosto mais próximo das viçosas pétalas. Fecho os olhos e inspiro mais uma vez. Não é um buquê qualquer, é um sonho em forma de rosas.

— São lindas. — Abro os olhos e reencontro Howard no mundo real. — Obrigada, eu adorei.

Ele estufa o peito. O orgulho parcialmente recuperado.

Até que...

— Lembra quem costumava te presentar com rosas também?

É meu irmão desnaturado quem indaga de repente, demonstrando que, embora esteja ocupado babando em cima de Angie, também está de olho no que acontece desse lado da recepção.

Sem me dignar a olhar em sua direção, replico tranquilamente:

— As do William tinham espinhos e eram meio murchas. Essas não, essas são perfeitas.

O orgulho do patife recebe uma nova injeção de ânimo e ele diz:

— Fico feliz que gostou, raio de sol.

Howard tenta sorrir e desiste, fazendo uma careta de dor e massageando o queixo. Preocupada, faço-o se sentar ao mesmo tempo em que coloco o buquê na mesa ao lado da poltrona. Então, pego um lenço em minha bolsa e, com cuidado, começo a limpar o sangue.

Agora que a situação está sob controle, começo a processar de fato o que aconteceu. Por uma infeliz coincidência, ele e meu irmão se encontraram aqui e, por algum motivo que aprendo averiguar, Howard acabou batendo com a língua nos dentes.

— Você é um idiota, sabia?

Meio emburrado, ele começa a se explicar:

— Seu irmão já estava bem desconfiado, e eu achei inútil negar. Mesmo porque era contar de uma vez ou convencê-lo de que eu e sua amiga ali estávamos nos conhecendo melhor.

— O quê?!

Acabo rindo.

— Hein? — Angie retruca do sofá. — Mas o senhor nem faz o meu tipo.

— Eu sabia... — Jimmy comemora e, apesar do tom discreto, posso sentir o sorriso em sua voz.

— Ele faz o tipo da sua irmã.

Olho para ela e protesto:

— Angie!

— O que foi? — Ela dá de ombros. — Pelo que entendi, não é mais um segredo, é?

Antes que eu diga qualquer coisa, ela se lembra que ainda está passando mal e volta à encenação, atraindo novamente a atenção do meu irmão.

Essa é a segunda vez que os dois se veem. Antes disso, Jimmy perguntou sobre minha amiga em uma das cartas que me escreveu. Assim, como quem não queria nada.

Ele não me engana. Jimmy é discreto no que diz respeito a mulheres, mas eu percebi, pela forma como olhou para Angie, quando se conheceram de relance na primeira vez que ele veio me visitar, que houve uma fagulha em seu olhar, talvez a semente de um interesse sincero.

Quando soube que ele havia perguntado sobre ela, Angie fez questão que eu mandasse lembranças a Jimmy na resposta da carta. E pouco a pouco, eu me vi transmitindo recados entre os dois. Até que, um dia, recebi duas cartas de Jimmy no mesmo envelope. Uma delas era para mim, a outra... não.

Apesar de ainda me sentir nervosa com essa noite catastrófica e com as consequências que o atrito entre Jimmy e Howard pode trazer, sorrio de leve ao observar meu irmão e minha melhor amiga por um instante a mais.

Na sequência, volto a cuidar do patife e pergunto baixinho:

— Não pensou em me consultar primeiro? Não passou pela sua cabeça de vento que eu quisesse preparar o terreno antes? Que seria melhor contarmos juntos, talvez? Num momento oportuno?

Ele expira sonoramente e retruca:

— Não deu tempo de considerar esses pormenores, coração. Quando eu cheguei, o seu irmão já estava aqui, esperando por você e ficou desconfiado até o último fio de cabelo assim que me viu. Não demorou a ligar os pontos, eu só confirmei.

Ah... Ele confirmou! Que maravilha!

Dessa vez, sou eu quem fica com a respiração exasperada.

— Você podia ter negado.

— Esse é o ponto, eu não quis negar.

Detenho o lenço no ar por um momento, um tanto surpresa com a resposta. Howard parece tão resolvido. Não sei explicar, só sei que ele está... diferente. Essa manhã, em seu quarto, eu estive nos braços de um homem cheio de paixão. Agora, tem algo mais no olhar profundo que esse homem mantém em mim. Não sei o que aconteceu, mas gosto dessa evolução.

Howard beija minha mão, arrancando-me do pensamento e causando uma palpitação no centro do meu peito.

— O que eu quero dizer é que não precisamos nos esconder de ninguém, entendeu? — E num volume mais alto e provocador, ele emenda: — Nem mesmo daquele troglodita!

Ah, não... E lá vamos nós!

Não leva nem dois segundos e Jimmy já devolve a farpa:

— Apesar de tudo, eu admiro a sua coragem, Stark! Mesmo que me ofenda a uma distância segura, o que é muito conveniente.

— Não seja por isso! Eu posso repetir agora mesmo, face a face.

Howard toma impulso para se levantar, e eu não tenho como impedir. O máximo que consigo é ficar na sua frente de novo, atrapalhando-o com meu corpo, tentando segurá-lo com um abraço, tudo para que não consiga desviar de mim e seguir até meu irmão.

— Será que vai sobrar algum resquício dessa coragem toda quando eu arrancar a sua pele? — Jimmy debocha, também de pé.

— Depende. Vai fazer isso antes ou depois de quebrar todos os meus dentes? A propósito, ainda estão intactos aqui, valentão!

Reviro os olhos, começando a perder a paciência com esses dois!

— Argh... Já chega!

O que faz Jimmy se sentar, no entanto, não é o meu pedido por ordem e sim um murmúrio angustiado de Angie. Sem pestanejar, ele volta a abaná-la.

Aproveito para empurrar o gênio infame de volta para o seu devido lugar e pressiono o lenço em seu queixo. Talvez com mais força do que eu deveria, já que sua reação é recuar o rosto e reclamar:

— AI!

Sentindo-me culpada, pergunto de imediato:

— Machuquei você?

Ele fecha os olhos e ergue o rosto na minha direção ao sugerir:

— Um beijinho para sarar.

É inevitável, apesar de tudo, ouço-me rindo. Sem pensar duas vezes, toco seus lábios por um instante com um beijo cálido.

— MARIA! — Jimmy protesta do outro lado da recepção, soando muito abismado por Howard ter ganhado o que pediu. — Ora, isso já é demais! É um escândalo! Eu não vou admitir que...

Chego ao meu limite e olho, possessa, para ele.

Eu que não admito você se intrometendo na minha vida de novo! Eu sei que não aprova, que não é o ideal para você, mas é melhor superar porque aconteceu, é o ideal para mim e nada nem ninguém me fará mudar de ideia!

Visivelmente surpreso e irremediavelmente contrariado, meu irmão se limita a resmungar:

— Essa conversa não terminou.

— No que depende de mim, terminou sim.

Quando torno a me concentrar em Howard, ele está me encarando com uma expressão admirada.

— E você — começo a lhe dizer baixinho —, é melhor ir embora agora mesmo.

Tal expressão se desfaz de súbito.

— Como assim?

Aproximo-me mais um pouco a fim de sussurrar em seu ouvido:

— Esqueceu que o seu passado te condena, querido? Se alguma das moças que moram aqui colocarem os olhos em você, a confusão será ainda maior. Jimmy não precisará mais te bater, ele terá reforços.

O patife pisca meio desnorteado, como se somente agora tivesse se dado conta desse outro perigo que corre e visualizado o cenário. Sem demora, coloca-se de pé e endireita a postura, reconhecendo:

— Você tem um ótimo argumento, coração. Confesso que não tinha pensado nisso.

Pego-o pela mão e seguimos rumo à saída. Não sem antes ele acenar um tchauzinho debochado para Jimmy, é claro. Tenho a impressão que meu irmão solta um rosnado em resposta, mas, graças a Deus, não vem atrás de nós.

Assim que estamos a uma boa distância, seguindo até à escadaria, vejo-me impelida a questionar:

— A propósito, no que exatamente você estava pensando quando decidiu aparecer aqui assim?

— Em você — ele responde de pronto, fazendo-me estancar o passo e buscar o seu olhar de novo. — Eu só pensei em você.

Sinto uma ligeira onda de calor percorrer o meu corpo. Meu rosto também esquenta e, tenho certeza, que estou tão vermelha quanto um tomate maduro agora. Não esperava por essas palavras nem pela forma intensa e franca como o patife as disse.

Rio meio sem jeito e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:

— Bom, infelizmente essa visita surpresa complicou um pouco as coisas, não acha?

— Eu sei — ele reconhece. — Mas, mesmo agora, sabendo o que enfrentaria por sua causa, eu teria vindo.

Ok... Isso também não era algo que eu imaginava ouvir em resposta. Franzo o cenho, intrigada sua postura.

— O que aconteceu com você? — antes que ele abra a boca, no entanto, eu mesma mato a charada: — Oh, claro! Jimmy te bateu com tanta força que você não está no seu juízo perfeito. É melhor ir para casa logo, colocar gelo nesse rosto e descansar o resto da noite. Amanhã nós conversamos, tudo bem?

Volto a caminhar, levando-o comigo. Estranhamente, Howard diminui a velocidade a cada degrau da escadaria que descemos e não acompanha o meu ritmo. É como puxar um zumbi.

— Amanhã...? — ele murmura mais para si mesmo, eu acho. — Não! Maria, espere! Eu não posso deixar para amanhã!

Ele interrompe o passo de zumbi e com isso me faz parar no último degrau antes da calçada como ele. Parece muito ansioso de repente, o que me deixa alarmada e confusa de novo.

O que está acontecendo com Howard Stark essa noite? Do nada, decide entrar pela porta da frente do Griffith à minha procura, me traz rosas exuberantes, apanha por minha causa de bom grado e tem falado de modo misterioso e romântico.

Como se visse sinais de interrogação na minha cabeça, ele esclarece parte das dúvidas ao explicar:

— Não foi uma mera visita surpresa. Eu vim até aqui para te dizer uma coisa importante e não vou conseguir dormir essa noite se der meia volta e não disser.

Confesso que fico meio apreensiva de novo com a postura dele. Na maior parte do tempo, Howard é tão descontraído, jovial e destila senso de humor pelos poros, porém agora parece... tenso e mais velho. Deve ser um daqueles momentos raros em que ele precisa falar algo mais sério.

— Muito bem. Então, diga. — Coloco as mãos na cintura e arqueio as sobrancelhas. — O que é?

Apesar da minha nítida curiosidade, ele hesita. Abre a boca e torna a fechá-la um segundo depois. Olha para o chão. Para as pessoas que passam pela calçada. Para os carros que percorrem a avenida em torno do Griffith. Por Deus, ele até contempla a Lua por um breve instante.

Não parece que desistiu de dizer a tal coisa importante, talvez só esteja procurando as palavras certas. Ou talvez meu irmão tenha batido nele com muita força mesmo e isso comprometeu seu raciocínio.

— Você tem minha atenção, patife.

Ao ouvir minha voz de novo, ele reencontra meus olhos. Não desvia mais deles.

— E você tem mais do que isso.

Howard dá um passo à frente e segura minhas mãos. Primeiro uma, depois a outra, junto às suas, acariciando minha pele com a ponta dos polegares.

— Você tem o meu coração, Maria. Inteiro. É só seu.

Sinto o ar faltar por um momento. Abro a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, e tudo o que sai é:

— Howard...

Ele toca meus lábios com o indicador a fim de me silenciar e depois continua:

— Eu estava perdido sem você. E agora estou perdido de... amor por você.

Meu coração dá um salto e respirar se torna uma tarefa ainda mais difícil. Um turbilhão de emoções que não sei explicar ao certo me agita por dentro, embora por fora eu permaneça paralisada feito uma estátua, presa ao olhar do patife e ao efeito de suas palavras.

Ele, por sua vez, parecendo mais relaxado e confiante, sorri de leve e emenda:

— Eu não sei se existe algo depois que nós deixamos esse mundo para trás, ninguém sabe, mas eu posso prometer que vou te amar até o meu último suspiro por aqui, Maria. Preciso que você saiba, sinta e nunca duvide do tamanho desse amor. Porque é pra sempre.

Minha Nossa Senhora...

Engulo em seco.

O coração descompassado.

A pele em chamas.

As pernas fracas.

Nunca senti uma felicidade tão plena e tanta euforia ao mesmo tempo.

Howard deve interpretar a minha inércia de um jeito negativo, já que começa a se desculpar meio sem jeito:

— Eu devia ter dito antes, mais cedo, lamento por...

Jogo os braços em volta do seu pescoço e o interrompo sem pensar duas vezes:

— Valeu a pena esperar, patife!

Abraçando-o com força, enterro o rosto em seu ombro, fecho os olhos e me agarro a esse momento precioso enquanto suas mãos, meio trêmulas e frias, buscam minha cintura e depois envolvem as costas por inteiro.

Sinto Howard soltar a respiração e só então percebo a real dimensão do seu nervosismo. Não deve ter sido nada fácil para ele dizer essas coisas, mas ele disse.

Ele disse!

Ele me ama!

Com receio de perder o equilíbrio, busco mais apoio em seu corpo, abraçando-o mais forte e mais perto de mim. Se ainda havia uma distância decente de alguns centímetros entre nós, agora ela não existe mais.

Como se tivesse lido meu pensamento, ele alerta:

— Ei... Longe de mim ser puritano, só que um abraço caloroso assim em público pode ser visto como escandaloso. Há pessoas em volta, raio de sol. O que elas vão pensar?

Quase posso sentir o olhar dos transeuntes sobre nós e, mesmo em meio ao ruído dos carros, ouço certo burburinho vindo dessas pessoas que passam por perto.

— Eu não me importo, mas se pensarem que eu te amo, pelo menos estarão certas. — Busco o rosto dele mais uma vez para mirá-lo profundamente nos olhos. — Porque eu amo você, Howard Stark. Sempre vou amar. Por mais que você me irrite na maior parte do tempo, eu não consigo evitar e te amo cada vez mais.

Uma faísca cintila em seu olhar. Um olhar que sorri para mim com uma tangível compreensão e total entrega.

Fecho os olhos e, com cuidado, toco sua boca em um beijo suave, segurando seu rosto entre as mãos com carinho, enquanto uma onda elétrica parece nos percorrer e envolver ao mesmo tempo, como se quisesse nos reduzir a um só.

Os burburinhos se tornam mais audíveis.

— E, por favor, fique bom logo — peço instantes depois, lançando-lhe um olhar travesso. — Eu quero te beijar como se deve.

Uma nova faísca dardeja nos olhos que me encaram de volta. Uma mais perigosa.

— Anotado.

Então, de mãos dadas, acompanho Howard até o carro estacionado rente ao meio-fio. Ele beija a minha mão e, antes de entrar no veículo, declara:

— Amo você.

Fico sorrindo feito uma bobona, anestesiada mais uma vez enquanto Howard se prepara para dar partida.

— Ah... Raio de sol!

Pisco duas vezes, voltando ao nosso planeta.

— Sim, querido?

Ele pensa um pouco antes de aconselhar num tom cauteloso:

— Não deixe de falar com o seu irmão por minha causa. Apesar de tudo, aquele ogro só quer o seu bem.

Surpresa, faço questão de lembrá-lo:

Aquele ogro bateu em você.

Mesmo sentindo dor, Howard consegue sorrir um pouco antes de pontuar:

— Porque ele ainda não entendeu que eu também quero.

De um jeito muito assertivo, o que mexe profundamente com meu coração.

Enquanto observo o Plymouth se afastando, reflito sobre o conselho. Eu prometi que romperia relações com Jimmy, caso ele não deixasse Howard em paz, porém... ainda é meu irmão e doeria muito fingir que ele não existe.

Jimmy errou. Aparentemente, tentando acertar. Sem dúvida, precisamos conversar e determinar alguns limites sobre o seu zelo comigo daqui para a frente, mas já não estou tão furiosa assim com ele.

Como posso estar furiosa com ele ou com qualquer ser humano depois de ter ouvido o que eu mais queria ouvir do patife?

Como posso guardar qualquer rancor se eu amo e agora tenho certeza de que sou amada?