Gênio Infame, Dama Mordaz
16 Belo Adormecido
No qual nosso herói deixa nossa heroína totalmente sem fala.
Primeiro foi o perfume, suave e levemente adocicado, desafiando a névoa do sonho e conquistando espaço no meu subconsciente. Depois, uma pressão leve e deliciosa na minha boca, junto com a respiração entrecortada e suspirante que eriçou minha pele como uma brisa faria. Mas, o que me acordou de fato mesmo foi o calor que o toque misterioso atiçou em mim, espalhando-se feito chamas desenfreadas, derrubando qualquer barreira que me mantinha adormecido. Num minuto eu estava dormindo, no outro... foi impossível manter os olhos fechados. Ainda mais porque me dei conta de um leve toque no meu peito também, uma mão pequena e quente captando os batimentos.
Quando abri as pálpebras, ainda meio zonzo pelo estado sonolento, não poderia ficar mais surpreso com a imagem da mulher debruçada sobre o meu corpo. A pressão que senti na boca era o roçar dos lábios de Maria Carbonell. O encaixe perfeito de sua boca macia na minha. Era ela.
Nesse momento, meu coração bateu mais forte. Mais rápido. Foi como se eu acordasse pela primeira vez na vida, como se acordasse de verdade e para a vida. E desde então, não sei o que fazer ou dizer.
Simplesmente, continuo olhando para Maria. Paralisado num choque silencioso que nada tem a ver com o bom e velho Howard Stark, alguém que sempre sabe como agir diante de uma mulher. Pelo visto, eu sabia até esta aqui chegar e bagunçar tudo.
Em minha defesa, Maria, sempre tão rápida no raciocínio e afiada com as palavras, também permanece imóvel e muda feito uma estátua, olhando de volta para mim. Enquanto isso, me pergunto se não estou imaginando essa cena, se tudo é parte do sonho mais realista que já tive.
De repente, ela parece tomar consciência do que fez e umas oito coisas acontecem ao mesmo tempo. Bom, pelo menos é o que parece. Ou talvez seja só o ritmo acelerado como tudo ocorre que me dá essa impressão. Maria arregala os olhos, pisca rápido e se levanta meio — totalmente — desnorteada. Ela dá uns três ou quatro passos desengonçados para trás, e acaba despencando sentada no chão ao esbarrar no pé da mesa. Graciosa de tão atrapalhada e constrangida. O rosto parecendo um tomate. Um lindo tomate.
Eu deveria rir. Céus, eu quero rir! E quando conseguisse me controlar, deveria confrontá-la também, com certeza. Iria me vangloriar por esse momento e provocá-la ao extremo por ter me beijado. Justo eu! O homem que ela jurou jamais beijar em sã consciência. Acho que as palavras exatas foram estas: nem que eu perdesse o juízo, nem que minha vida dependesse disso.
Quando dizem que o mundo dá voltas...
No entanto, para minha sincera surpresa, não canto vitória. Ao invés disso, apenas afasto o lençol e me levanto da cadeira devagar. E quando me aproximo de Maria não é com um sorriso vitorioso, sedutor ou zombeteiro, mas sim com a mão estendida e o semblante acolhedor porque, apesar de ter o direito de alfinetá-la agora, não quero que Maria se sinta mal pelo que fez. Nunca.
Ela analisa a oferta por um momento, é nítido que está indecisa sobre aceitar ou não. Porém, talvez convencida de que seria muito infantil recusar, Maria segura minha mão por fim e se ergue do chão quando a puxo com delicadeza para cima.
Droga... E ficamos muito perto com isso. Quase nos braços um do outro. É delicioso e perigoso ao mesmo tempo. Tão perto que sinto aquela respiração entrecortada no meu rosto de novo, me inebriando numa vertigem cheia de calor e... outra coisa. Nunca senti isso antes, é intenso demais.
Não consigo soltar a mão de Maria. Ela não protesta quanto a isso. Na verdade, até sinto seus dedos delicados apertarem os meus com um pouco mais de vigor. E meu coração é acometido por uma estranha arritmia enquanto encaro os olhos dela e desço para sua boca ligeiramente entreaberta.
Eu deveria beijá-la. Céus, como eu quero beijá-la! O desejo de fazer exatamente isso chega a doer em cada nervo, em cada fibra, cada parte de mim quer terminar com a mínima distância, tomá-la pela cintura e beijar Maria Carbonell até esquecer meu nome, até esquecer que sou um gênio. E pela faísca dardejante que capto no olhar dela agora, sei que não sou o único a querer desesperadamente esse beijo.
Jarvis e Ana estão certos, afinal. Ela não é indiferente a mim. Não pode ser.
Infelizmente, não posso abraçar a vontade... Não, a necessidade de beijá-la agora. Mesmo um homem maravilhoso como eu, precisa escovar os dentes de manhã depois de acordar. Quando eu beijar Maria Carbonell — e não estou sendo presunçoso por saber que vou beijá-la muito em breve —, não aceito nada menos do que propiciar a perfeição para ela. Será inesquecível de tão maravilhoso, simplesmente o paraíso.
Engulo em seco e, com certa relutância, solto a mão dela e recuo três passos. E essa distância segura faz o encanto do momento se dissipar e o raio de sol reencontrar o poder da fala.
Desviando do meu olhar e ruborizando de novo para seu próprio desespero, ela anuncia:
— Eu posso explicar.
Dessa vez, não resisto. Não chego a rir nem a gargalhar, mas um pequeno sorriso de apreciação estica meus lábios.
— Sem dúvida, será muito interessante ouvir.
Cruzo os braços, esperando, o sorriso ainda aqui. Não pretendia provocá-la sobre a situação em que se meteu por conta própria, mas se Maria quer brincar esse jogo, quem sou eu para recusar um pouco de diversão?
Ela expira com força, visivelmente irritada. Mais com ela mesma, é nítido, do que comigo.
— Tudo bem, eu não posso explicar — admite, a contragosto, o olhar furioso e, de novo, sei que é direcionado mais a si mesma. — Mas posso me desculpar, pelo menos. Isso foi errado de tantas maneiras que... Sinto muito, Sr. Stark, eu não devia ter...
— Não. — interrompo Maria, colocando o dedo indicador em seus lábios, causando-lhe um encantador sobressalto. — Nunca se desculpe por esse beijo.
Como foi que eu cheguei tão rápido até ela de novo? E por que sinto uma euforia me consumir por dentro enquanto a maciez da boca sob a ponta do meu dedo faz minha pele formigar?
Maria, visivelmente surpreendida pelo gesto, demora a recuar, mas o faz e isso termina com nosso contato.
— Não foi um beijo — ela dispara, na defensiva. Talvez por ver o meu cenho franzido ao ouvir isso, reformula: — Não um beijo de verdade, eu quero dizer.
Meu pulso acelera ao entender o que isso significa. Embora Maria não pareça ter dito isso para me fazer imaginar a sensação de mergulhar em sua boca, é exatamente o que acontece. E o calor que me agita por dentro não pode ser normal.
Não sei de onde tiro forças para soar despretensioso quando concordo com ela:
— Você tem razão, Carbonell. Para ser um beijo de verdade, a outra parte precisaria estar acordada. Para retribuir como se deve, entende?
Ela parece levemente irritada. E encantadoramente constrangida.
— Eu sei como um beijo funciona, Sr. Stark, muito obrigada!
Devo encará-la de um jeito muito impróprio, porque Maria fica ainda mais ruborizada e se apressa em mudar de assunto:
— Suponho que o senhor vai me demitir agora.
Pisco algumas vezes. Essa possibilidade nem me passou pela cabeça.
A arrumadeira beijou o patrão que dormia.
Soa como um escândalo, claro. Só que eu e Maria não seguimos bem as normas de tratamento entre empregador e empregada. Nunca seguimos, apesar das tentativas de trégua. Seria hipócrita dispensá-la por um atrevimento mais direto, como esse beijo roubado. Ainda mais por que eu, obviamente, gostei muito.
Não posso esquecer também que ela precisa do trabalho. E eu preciso — nem tanto de uma arrumadeira — mas de Maria por perto. Depois de hoje, preciso ainda mais.
Está claro para mim que Maria só está tentando fugir. Porque está confusa e morrendo de vergonha. Isso devia inflar ainda mais o sentimento de vitória dentro de mim, porém a verdade é que me vejo querendo que ela se sinta melhor. Ou menos pior com a situação.
É só por isso que digo no tom mais delicado que consigo:
— Demiti-la por um beijo que não foi um beijo de verdade? Nunca. Se preferir, se for se sentir melhor com isso, eu posso fingir que ele nunca aconteceu.
Uma pergunta se faz transparente em seus olhos. Algo como: o senhor conseguiria fingir? Mas o que Carbonell diz na sequência é...
— Eu não preciso da sua condescendência. — E antes que eu me defenda, afirma num tom de aço: — Eu quero me explicar.
— Não é necessário — dispenso, tentando mesmo poupá-la da saia justa em que se meteu.
E é óbvio que Maria, alguém que adora me contradizer em tudo, insiste no propósito:
— Mas se eu não me explicar, aposto que ficará imaginando que eu fiz isso porque... porque gosto do senhor. Coisa que não é verdade!
Ok. Isso já é demais. Até agora, estou sendo relativamente paciente e gentil. Bem razoável. Mas negar o que ficou tão na cara é algo que esse raio de sol não pode se atrever a fazer agora.
— Então, você me beijou porque não me suporta? Claro, faz muito mais sentido. Que bom que esclarecemos isso.
Carbonell fecha a cara, ansiando por soar brava, só que na verdade o que sinto no ar é uma tensão deliciosa emanando dela.
— Não seja irônico comigo.
E, mais uma vez, perco a paciência com a sua capacidade surpreendente de negação.
— Então não seja covarde com você! — disparo, o tom de voz mais alto e rascante.
Não quis ser rude, mas ora essa! Eu não tenho sangue de barata!
— O que-e... disse? — ela gagueja. Maria Carbonell, a dama mordaz, simplesmente gagueja.
Por essa ela não esperava, claro. Para ser sincero, nem eu. Mas agora que saiu, não posso voltar atrás. Ao invés disso, vou além:
— Não seja covarde com você. Nós dois sabemos muito bem porque você me beijou. Você sabe. Pode negar, bater o pé, pode espernear, continuar rindo ou ganindo feito um terrier, que nada vai mudar isso. Você me beijou porque quis. Porque você me quer, Maria.
Ela fica paralisada por um longo momento. Depois, ri sem humor. A atrevida ri e desvia o olhar, como se eu estivesse delirando no argumento! Contudo, se há pouco tempo isso me desanimaria, agora só me faz ter mais certeza de que é verdade. E é verdade que...
— Eu também quero você!
Isso faz Maria parar, congelada feito um iceberg mesmo. Ao mesmo tempo, me lança um olhar surpreso e totalmente desarmado. Agora nem dá risada, tampouco diz qualquer coisa, nem pisca. Apenas me encara continuamente. Fixamente. Perdida.
Por um momento, eu também fico sem reação. Até meio sem jeito, confesso. Nunca me expus tanto diante de mulher alguma. Mesmo quando fico nu com elas não é nada parecido, nem de longe. Porque nunca senti isso por nenhuma delas. Até hoje foi apenas atração momentânea, o meu corpo respondendo. Mas isso? Isso é tão maior, tão mais forte, isso é... o meu coração falando.
— Eu quero você — repito baixinho, enquanto Maria segue embasbacada. — E quando você estiver pronta para admitir que também me quer, com esse mesmo desejo que... que arde tanto... — Luto para manter algum foco e endireito a postura, mantendo o olhar firme no dela. — Eu terei imenso prazer em lhe ser útil, raio de sol. Você não faz ideia do quanto.
Espero alguns instantes, na esperança de que Maria diga alguma coisa. Na esperança que diga o que quero tanto ouvir em resposta. Mas ela está desnorteada demais ou é teimosa demais, talvez as duas coisas, para dar o braço a torcer tão fácil.
Ela me quer, eu sei, porém precisa de tempo para enxergar isso. E, sem dúvida, também precisa de espaço para assimilar tudo que eu disse e o beijo que me deu por escolha própria.
Sentindo-me meio ridículo, recolho o lençol, o travesseiro e, sem conseguir olhar diretamente para Maria dessa vez, deixo a biblioteca desejando de um jeito formal:
— Tenha um bom dia, Carbonell. E um bom trabalho.
Ela não responde. Não acho que por grosseria. Apenas continua sem fala.
[...]
Assim que alcanço o corredor, vejo uma pessoa um pouco adiante, de frente para uma mesinha no canto que faz a junção com o corredor seguinte.
Estranho sua postura. Meu mordomo e amigo parece ligeiramente agitado, quase como se tivesse corrido para lá ou, no mínimo, andado bem depressa.
Com o travesseiro e o lençol a tiracolo, passo por ele com um breve cumprimento.
— Jarvis.
— Bom dia, Sr. Stark! — ele responde, virando-se para me ver e soando surpreso. Falsamente surpreso.
Estanco alguns passos adiante. Depois, volto para trás e fico bem na frente dele, com um olhar desconfiado em sua direção.
— Jarvis?
— Senhor?
É gritante que ele se faz de desentendido, por isso pergunto sem rodeios:
— O que está fazendo por aqui?
Ele coloca as mãos para trás, endireita a postura e responde com muita, muita, desfaçatez:
— Apenas o de sempre, checando se está tudo em ordem.
Não me dou por satisfeito. E como poderia?
— Parado feito uma estátua no meio do corredor? — indico sua atual posição, estreitando ainda mais o olhar.
Um leve tom de rosa perpassa seu rosto. Mas Jarvis me surpreende e, de um jeito ardiloso, indica alguns vasos com flores sobre a mesinha e se justifica:
— Ajeitando esses belos arranjos.
Pena que ele seja um péssimo mentiroso. Seu esforço em disfarçar o flagrante só me faz querer que ele confesse tudo de uma vez.
— Você não vai perguntar por que eu estou vindo assim da biblioteca? Por que dormi lá?
Jarvis dá uma boa olhada para os meus trajes, para o travesseiro e o lençol também. Então, ele torna a me encarar e dispensa com muita cordialidade:
— Tenho certeza de que há uma justificativa interessante, Sr. Stark, mas podemos deixar para outro dia.
Expiro sonoramente, impaciente, e vou direto ao ponto:
— Você ouviu tudo, não foi?
Não estou exatamente recriminando meu mordomo pela postura. Conhecendo-o como o conheço, é claro que Jarvis não tinha intenção de ouvir atrás da porta de propósito. Ele não é insolente. Deve ter passado por perto, escutou alguma coisa e a curiosidade falou mais alto. Não cometeu nenhum crime, afinal.
Ele não nega nem afirma. Não diz nada por um bom tempo. Até que deve perceber que não estou zangado, porque o semblante relaxa consideravelmente e tudo o que diz é:
— Muito bem, Sr. Stark.
A questão é que eu não sei se Jarvis está confirmando a minha acusação retórica ou me parabenizando pela postura franca com Maria. Ou ainda, dizendo isso por acreditar que fiz um progresso real e que algo bom virá do ultimato que dei a ela. Provavelmente, por tudo.
Meneio a cabeça, num agradecimento discreto. Ele sorri, também com discrição, mas é nítido que está controlando uma animação bem maior por dentro.
Então, deixo Jarvis sozinho e sigo para os meus aposentos com um sentimento de leveza engraçado no peito. Nunca me senti tão livre e seguro do que quero. Tão ansioso e eufórico ao mesmo tempo.
Preciso de um bom banho agora (e escovar os dentes também, é algo muito importante!) para retomar esse dia magnífico que se revelou um tremendo divisor de águas!
No mais, só me resta esperar Maria se libertar da teimosia e dar o próximo passo. De preferência, logo. Céus, que seja logo! Não sei quanto tempo consigo esperar para sentir sua boca de novo. Para mergulhar naqueles lábios como se deve.
Um beijo de verdade é tudo que eu mais quero.
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