Gênio Infame, Dama Mordaz
17 Doçura Selvagem
No qual nossa heroína toma duas decisões.
Não acredito que você foi capaz de cometer tamanha estupidez, Maria! Onde diabos estava com a cabeça? Beijar o seu patrão! Howard Stark! O gênio infame, o mulherengo que não leva nenhuma mulher a sério, o patife! Um homem por quem você não devia ter se apaixonado, para começo de conversa! E enquanto ele dormia! O homem dormia, pelo amor de Deus!
No que você estava pensando quando teve essa brilhante ideia? E o que esperava que fosse acontecer? Como pôde não medir as consequências do seu ato? Como pôde não se importar?
O problema é justamente esse. Eu sabia que havia um risco, que ele podia acordar a qualquer momento e, apesar disso, arrisquei tudo. E com certeza também sabia que era errado beijá-lo por uma série de motivos, inclusive porque ele estava dormindo!
Atormentada pelo que fiz essa manhã, gemo de desespero, sopro o ar com força e praguejo baixinho, enquanto meu rosto esquenta com a lembrança de tudo.
A única coisa que me mantém um pouco menos aflita é o esforço que faço para me concentrar no trabalho. Tirando o pó das estantes na biblioteca e colocando os livros por autor e ordem alfabética de volta aos seus respectivos lugares me distraio um pouco e quase esqueço como fui uma idiota. Quase.
A cadeira reclinável de leitura, na qual encontrei o Sr. Stark esparramado essa manhã, me encara como um lembrete, feito uma testemunha do momento insano e constrangedor que protagonizei por escolha própria.
Foi exatamente isso, aliás. Escolha própria. Eu me coloquei na situação porque quis, porque agi por impulso, porque não estava pensando em mais nada que não fosse ele, porque simplesmente não resisti à ideia de beijar... Howard Stark. Uma única vez que fosse. E consegui.
— Excelente trabalho, sua tonta! — resmungo, inconformada com minha estupidez.
O pior é que agora ele deve estar se sentindo um rei! E com toda a razão! E por minha culpa!
Como se não bastasse todo esse tormento no qual me coloquei, ainda estou perturbada pelas coisas que o Sr. Stark disse. E pela maneira segura e provocativa como as disse.
Ele falou mesmo que me quer? E o que exatamente posso concluir disso? Que ele me quer como deseja todas as mulheres à sua volta? Apenas para uma aventura? Nada mais, certo? Nesse caso, por que dizer algo tão óbvio e com tanto... ardor?
Engulo em seco, sentindo meu corpo inteiro se arrepiar ao lembrar do olhar quente que o Sr. Stark manteve no meu enquanto dizia aquelas coisas perturbadoras. E ele falou mesmo que eu o quero?
Maldição... Como eu gostaria de desmenti-lo, mas a essa altura é inútil negar.
Eu cheguei a tentar, inclusive, rindo como se tivesse ouvido um tremendo absurdo. Só que, lá no fundo do meu coração idiota, sei que é a mais pura verdade, que Howard Stark está coberto de razão sobre o que sinto por ele, que estou perdida.
Eu o quero sim. Muito. Não devia, mas quero. Para o meu desespero, para minha surpresa. Não estava nos meus planos me apaixonar de novo. Pelo menos, não por ele. Muito menos por ele. Ainda assim... aqui estou eu. Apaixonada por um homem de quem não sei o que esperar.
E maldição, apesar de toda essa dor de cabeça que o beijo suave nos lábios dele me trouxe, eu não consigo me arrepender por completo de ter feito aquilo. Porque foi bom. Incrivelmente bom para um resvalar despretensioso de lábios. Foi... revelador. Foi como acordar depois de um sono longo e profundo. Como sentir o mundo à minha volta pela primeira vez. Um mundo belo e vibrante.
E, desde então, estou me perguntando como seria um beijo de verdade. Com o Sr. Stark bem acordado. O que foi mesmo que ele disse sobre isso? Ah! Para retribuir como se deve.
Um novo arrepio me percorre ao ponderar a respeito. Se um simples toque em sua boca já me abalou tanto, imagine se eu considerasse a oferta atrevida que ele fez, admitisse que o quero mesmo e o beijasse para valer?
Meu coração dá um salto, levianamente animado com a possibilidade, implorando que eu procure aquele pavão exibido agora mesmo e me atire em seus braços sem pestanejar.
Mas não posso fazer isso. Porque é quase certo que o Sr. Stark só me quer por um momento. Para me usar, se divertir e me descartar, como faz com todas as outras mulheres, claro. Eu não sou diferente delas. Não sou especial para ele. Seria tolice supor o contrário.
Essa constatação faz meu peito, antes acelerado, se comprimir de um jeito defensivo e doloroso. Tudo que minha consciência me diz agora é algo que eu já sei, preciso esquecer esse homem. Pelo meu próprio bem, devo tirá-lo da cabeça e esquecer o papelão que fiz.
Infelizmente, só há uma maneira de colocar essa intenção em prática. Tenho que pedir demissão. Isso mesmo, depois de hoje é insustentável continuar aqui. Não posso mais trabalhar na mansão Stark. Não posso permanecer perto do proprietário dela.
Por mais que eu evite vê-lo, como fiz no restante do dia aliás — só saí da biblioteca em momentos específicos —, mais cedo ou mais tarde nossos caminhos vão se cruzar de novo. Será impossível sufocar meus sentimentos com Howard Stark bem na minha frente, bem ao meu alcance, oferecendo-se para me beijar... como se deve, lançando aquele maldito sorriso torto que, admito, tem lá o seu charme.
Exausta de pensar em tudo isso, termino a arrumação na última estante e depois procuro por papel e caneta numa escrivaninha posicionada num canto do enorme recinto.
Respiro fundo, encarando o papel de ótima qualidade por algum tempo. Apesar de todas as provocações do meu patrão, de todo o tormento que foi trabalhar para ele, eu gosto daqui e de me sentir útil. O salário também é ótimo. Sem dúvida, o emprego me fará falta.
Também vou sentir falta de Ana e do seu gentil marido. E de Bernard, um animal de estimação bem atípico, mas muito encantador. Não guardo qualquer ressentimento por ele ter me atropelado. E claro, vou sentir falta de... Stark. O que é um choque admitir, porém impossível negar.
Paciência. Não dá para fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Sentir falta faz parte do processo de esquecê-lo. É o único jeito, a única saída possível e eu tomei minha decisão. Não voltarei atrás.
Resoluta, enfim puxo a cadeira e começo a escrever a carta de demissão.
[...]
Depois de redigir um texto direto e educado, agradecendo pela oportunidade que me foi oferecida, pela generosidade salarial e comunicando meu desligamento da função de arrumadeira por decisão própria, coloco a carta num envelope que achei em uma das gavetas e só então me dou conta de algo elementar. Preciso entregar a carta para o Sr. Stark.
Eu poderia entregá-la ao Sr. Jarvis, claro. Com certeza, ele seria eficiente em comunicar o patrão. Porém, sinto que seria um ato de covardia da minha parte que não passaria despercebido. E tudo o que menos preciso agora é que o Sr. Stark pense que eu o estou evitando, fugindo dele, essas coisas. Tudo bem que eu estou, mas ele não precisa saber disso. Não posso deixar que a última lembrança que ele tenha de mim seja da mulher embasbacada que ele desconcertou nessa biblioteca mais cedo.
Eu devo me aproximar do gênio infame uma última vez e encerrar nossa relação empregatícia com firmeza e profissionalismo. Com certeza, posso fazer isso. Agora mesmo.
Coloco a carta num compartimento da minha bolsa, deixando a pontinha do envelope para fora. Olho uma última vez, e com inevitável tristeza, para a vasta biblioteca que estou deixando para trás e apago as luzes ao sair.
[...]
Depois de trocar o uniforme pela minha roupa pela última vez, encontro o Sr. Jarvis na sala de estar, a postos para me levar de volta ao Griffith, como sempre faz.
Já perdi a conta de quantas vezes lhe disse que não precisava fazer isso por mim, que sou apenas uma funcionária e não uma convidada especial do patrão dele, que gosto de caminhar, que o Griffith nem é tão longe, que a noite está linda para andar sem pressa. E é sempre inútil. Edwin Jarvis é um homem que ama ser gentil e prestativo, não saberia viver de outro jeito. Acho até que murcharia feito uma planta convalescente, se não pudesse ajudar.
É por isso que, hoje, eu nem tento recusar a oferta. Será a última vez mesmo que ele fará o percurso...
— Eu gostaria de falar com o Sr. Stark antes de irmos.
Primeiro, o mordomo fica visivelmente surpreso. Depois, um mínimo sorriso surge e ele prontamente disfarça. Por fim, ele soa um tanto suspeito quando informa:
— O Sr. Stark está enfurnado no laboratório há horas. Acho que foi acometido por uma inspiração especial hoje. Tenho certeza que o ouvi cantarolar há pouco.
Jarvis engole em seco e endireita a postura, como se tivesse falado demais e se arrependido do devaneio.
Confusa, retomo o foco da conversa:
— Eu posso ir lá? Não quero atrapalhar a concentração dele nem invadir um espaço tão pessoal. Talvez seja melhor o senhor chamá-lo aqui.
O sorriso mínimo ressurge.
— Não, acho melhor se a senhorita for até ele. O Sr. Stark, sem dúvida, ficará feliz com a visita.
Lembro da carta de demissão na minha bolsa, aguardando ansiosamente para ser entregue. Aposto que meu patrão — em breve, ex-patrão — não ficará feliz por ter uma de suas conquistas frustrada assim.
E por que eu continuo com a impressão de que há alguma coisa errada no comportamento do Sr. Jarvis? Ele parece mais que suspeito, parece estranhamente animado e tentando se conter.
Ele fica em silêncio por um bom tempo. Por tempo demais. Olhando para mim de um jeito indecifrável.
— O senhor pretende me anunciar?
Digo isso porque ele parece não ter intenção de se mexer um centímetro do lugar.
— Oh, é verdade! Não se preocupe, certamente minha voz pode fazer isso por si só. Não anunciá-la exatamente, mas avisar o Sr. Stark que tem alguém se aproximando do laboratório.
— Como assim?
— O Sr. Stark fez algumas gravações da minha voz e implantou no sistema de segurança da casa. Confesso que, num primeiro momento, achei um recurso bizarro, mas agora estou começando a gostar, é como estar por toda a parte. — Ele ri um pouco e então gesticula para indicar o caminho. — O laboratório fica numa área restrita, seguindo naquela direção ali. A senhorita deverá descer dois lances de escada, virar à esquerda e seguir o corredor até o final. Lá, será preciso digitar uma senha para destravar a porta e acessar o laboratório.
— Tudo bem, e qual é a senha?
— Atualmente é... — De repente, Jarvis hesita, engole em seco e seu rosto ruboriza um pouco. — Tornozelos. Por favor, não me pergunte o motivo, Srta. Carbonell.
Ele desvia o olhar e coloca as mãos para trás. Nesse momento, entendo o motivo para a senha.
— Eu não ousaria perguntar — asseguro de maneira automática e rápida, sentindo meu rosto esquentar também. Ainda assim, confesso que uma parte insana de mim até aprecia a homenagem. — Bem, eu volto logo.
Jarvis esquece o constrangimento e me olha daquele jeito suspeito de novo. E com aquele estranho sorriso de novo. Parece até que está ansioso para que eu vá conversar com o Sr. Stark. Como se algo bom fosse vir disso, e não a costumeira troca de farpas. Tenho a impressão que, assim que eu lhe der as costas, ele pode chegar até mesmo a saltitar de alegria. O que não faz o menor sentido.
Prefiro não olhar para trás e tomo logo o caminho indicado por ele de uma vez. E mais rápido do que eu previa, estou de frente para a porta do laboratório.
Como se despertada pela minha proximidade, uma voz se espalha pelo ar:
“Olá. Você está numa área de acesso restrito. Por favor, informe a senha de segurança para continuar.”
É a voz do Sr. Jarvis! Em alto e bom som! Formidável!
Santo Deus, o gênio pode ser infame, mas é brilhante também! Um sistema de segurança atrelado a uma voz espectral!
Espere... Eu acabei de fazer um elogio ao Sr. Stark?
Pisco, um tanto desnorteada.
“Por favor, informe a senha de segurança para...”
Dou um passo à frente e observo o teclado acoplado à porta. Devagar, digito as letras e formo a senha Tornozelos. Depois, confirmo apertando um botão verde nada discreto.
Meio minuto se passa. E então a mágica enfim acontece, fazendo-me sorrir. Provavelmente de um jeito bobo.
“Senha correta. Acesso permitido.”
Um clique metálico se faz audível. Seguido de outros. Todos vindo da porta a poucos centímetros de distância do meu corpo. Até que a última trava interna é aberta e o pesado aço desliza devagar para o lado esquerdo, revelando o laboratório lá dentro.
E o homem lá dentro.
Ainda devo estar com uma expressão um tanto deslumbrada quando o Sr. Stark, usando um tipo de óculos protetor que cobre metade do seu rosto, meio curvado atrás de uma longa banqueta, sobre a qual equipamentos misteriosos trabalham num ritmo contínuo e ruidoso sob o comando dele, ergue o olhar na minha direção dizendo:
— O que foi, Jarvis...
E então ele para. Pois se dá conta de que não é o mordomo, motorista, seu amigo, o dono da voz fantasmagórica, que está aqui. E sim, eu.
Mesmo a certa distância, juro que o vejo engolir em seco daqui enquanto me olha de um jeito que eu só posso definir como pasmo e até descrente. Talvez supondo que está imaginando coisas, ele sobe os óculos de proteção, encaixando-o no topo da cabeça. Não demora muito e a surpresa se dissipa, dando lugar a outra coisa. Um brilho malicioso no olhar e um sorrisinho enviesado.
— Isso foi rápido.
É tudo o que ele diz. De uma maneira irritantemente convencida.
Levo menos de um segundo para entender o significado por trás disso, o Sr. Stark acredita que eu vim até aqui para finalmente ceder aos seus caprichos e admitir que o quero. Como uma resposta ao ultimato que me fez mais cedo. Meu rosto arde, em parte por raiva, em parte por um embaraço que me revira por dentro.
Visivelmente interessado, o cientista exibido se apoia na banqueta com um ar e trejeitos sedutores. A performance, no entanto, o faz esbarrar por acidente em algum aparelho e quase derrubar os tubos de ensaio acoplados ali. Atrapalhado, ele impede a desgraça bem a tempo, e eu me sinto, de certa forma, vingada. É bom saber que o gênio infame também pode ficar nervoso perto de mim, bom saber que não sou a única sentindo coisas estranhas por aqui.
Mais segura, dou alguns passos à frente e, numa resposta automática, a porta é fechada atrás de mim. Fico mais nervosa, as mãos me denunciando e começando a suar. É desconfortável me ver num mesmo ambiente que o meu patrão depois de ter descoberto meus sentimentos por ele. Desconfortável no sentido de perigoso para o meu coração. Temo não conseguir agir de uma maneira natural. Temo perder a razão e a mim mesma.
Respiro fundo, porém é como se não houvesse ar suficiente para nós dois aqui. Como se o laboratório fosse pequeno demais, abafado demais, coisa que não é. Por outro lado, também é como se o ambiente fosse enorme e o Sr. Stark estivesse muito longe. Dolorosamente longe.
A necessidade por uma aproximação é mais forte do que eu. Simplesmente não consigo evitar seguir esse inexplicável instinto. Dou mais alguns passos. Incertos. Na direção dele.
Devagar, o Sr. Stark faz o mesmo. O sorrisinho torto desaparece dos lábios e permanece apenas no olhar caloroso que mantém em mim.
Eu vim aqui para lhe entregar a carta de demissão, e vou fazê-lo daqui a pouco. Mas antes... Oh, não.
Se de manhã tive aquela brilhante ideia, agora a coisa não é diferente. Mais uma vez, minha mente me prega uma peça e pergunta algo sem parar.
E se você o beijasse? E se o beijasse de verdade?
É uma ideia estúpida e eu não deveria sequer ter pensado nela. Muito menos, parado para considerar como estou fazendo. Mesmo porque é exatamente o que o Sr. Stark acredita que vim fazer aqui e eu, certamente, não quero que o seu ego, já enorme, infle ainda mais.
Só que, querendo ou não, eu pensei, considerei e, assim como essa manhã na biblioteca, é impossível descartar e ignorar a vontade que sinto após cruzar essa linha tênue. Além do mais, essa será a última vez que me verei diante do Sr. Stark. Depois de hoje, nossos caminhos não voltarão a se cruzar. Nada mudou e eu ainda pretendo esquecê-lo.
Por tudo isso, qual o problema em fazer o que, claramente, estou ansiosa demais para fazer? E depois enterrar o assunto e meus sentimentos por ele, como se esse momento de fraqueza nunca tivesse acontecido?
Exato, não vejo nenhum problema. Nenhum problema para pensar hoje. Posso muito bem deixar para me arrepender amanhã ou depois. Não é o mais lógico, afinal?
Com certeza, vou me arrepender, claro que vou. Mas, pelo menos não me sentirei frustrada nem ficarei imaginando como seria o beijo de Howard Stark. Porque eu terei a resposta, a lembrança e saberei que não fui covarde quanto ao meu desejo por ele nesse momento.
— Ah, que se dane... — murmuro, vencida.
Não alto o bastante para ele entender.
— O que você disse?
A voz rouca planta uma reação imediata no centro do meu peito, levando o coração a disparar e se perder num ritmo frenético. Minha respiração fica entrecortada, novamente parece que o ar se recusa a circular no laboratório.
Então, o Sr. Stark dá um passo à frente, ficando muito perto de mim. Para meu total deleite.
Deleite? Quem diria que um dia eu fosse achar alguma coisa vinda dele tão boa assim... Mas é. É muito bom sentir a sua respiração no meu rosto. É perturbador e só intensifica a vontade de beijá-lo de uma vez.
Dou um mínimo passo e meus pés tocam a pontinha dos sapatos dele, o que me desequilibra. Eu teria caído em cima dele, como uma pata atrapalhada, caso o Sr. Stark não agisse tão rápido. Antes que eu pisque, mãos firmes encontram minha cintura. Só que, ao mesmo tempo que me devolvem certa sustentação, elas me deixam muito zonza também.
De alguma forma, ficamos ainda mais próximos, a ponto de eu sentir o nariz dele roçar de leve no meu e nossas bocas ficam a uma distância insignificante.
Com uma sutileza sedutora, o Sr. Stark encaixa uma mão no meu rosto, deslizando os dedos até a nuca e fincando-os ali, o que semeia um arrepio vertiginoso que percorre todo o meu corpo. Enquanto isso, a outra mão continua segurando a minha cintura. Com mais vigor do que o necessário, acho, mas não ouso reclamar.
— Fique sabendo que eu não vou implorar por um beijo — esclareço, lembrando de uma discussão que tivemos. Algo que parece ter acontecido há séculos e com outra Maria, mas que guardei muito bem.
Um sorriso surge nos lábios tão próximos dos meus. Um sorriso de entendimento e diversão. Um sorriso malicioso.
— Eu nunca esperei que você fosse. E, aqui entre nós, nunca foi preciso.
Ele empurra uma mecha de cabelo para trás do meu ombro, inclina minha cabeça para o lado e me surpreende ao deslizar a boca pelo meu pescoço. O bigode, que eu julgava tão ridículo, arrepiando minha pele no caminho, me fazendo estremecer e fechar os olhos com força. Lábios quentes encostam na minha orelha, dentes mordiscam de leve um ponto muito sensível e me encolho um pouco. A tortura não conhece limites.
Deixo a bolsa deslizar rumo ao chão porque preciso das duas mãos livres para me agarrar aos ombros de Stark. Aos poucos, enrosco os dedos nas alças dos suspensórios para me equilibrar melhor e para que ele não ouse escapar também.
Tento não pensar na fraqueza misteriosa que se instalou nas minhas pernas e me concentro no calor que emana do corpo dele através da camada de tecido.
— Maria...
Meu nome em sua voz só piora tudo. Ou melhora. Já nem sei mais o que estou sentindo ou pensando. Só sei que uma curiosidade desperta em mim na mesma hora e, de repente, quero muito testar o som do nome dele na minha voz também.
— Howard...
Não Sr. Stark. Não patife. Não gênio infame. Apenas Howard. Que Deus me ajude, mas gosto do som. Amo esse som.
— Howard — repito, simplesmente porque posso, porque quero, porque nesse momento ele é apenas esse homem para mim.
Sinto cada parte de mim se aquecer quando uma mão me aperta com mais força e desliza um pouco mais para baixo, parando na base das minhas costas. Com isso, nossos corpos ficam indecentemente colados um no outro, atiçando ainda mais a onda de calor que nos envolve e parece capaz de me consumir a qualquer instante. Não duvido de mais nada...
Sim, Howard parece ter gostado muito de ouvir o próprio nome e, talvez exatamente por isso, chega ao seu limite e procura meu rosto de novo. Um tremor reverbera pela minha coluna e meu coração erra todas as batidas possíveis quando nossos olhares se reencontram.
Vejo a satisfação dardejando e o desejo inegável escurecendo os olhos que me encaram de volta com expectativa. Eles me aquecem e arrepiam ao mesmo tempo, na mesmíssima e insana medida. Olhos que se fecham no mesmo momento em que os meus cedem também.
E um segundo depois, a boca dele, de Howard, captura a minha. Não com calma, não de maneira gentil, mas com um vigor desconcertante, exigindo espaço com lábios ágeis e uma língua muito, muito atrevida. Ainda assim, há certa doçura na maneira urgente e profunda como ele me beija. Uma doçura selvagem que me devora mais e mais a cada segundo. Que me arrebata para si com maestria.
Howard me beija com tudo o que tem, com tudo o que é, com tudo o que quer. E a única coisa que sou capaz de fazer em resposta é o mesmo porque o quero com a mesma intensidade. Então, salto no abismo perigoso e irresistível, me agarro mais a ele, puxo-o para mim com a ajuda dos suspensórios e sinto o furor delicioso se alastrando por cada pedacinho do meu corpo, levando meu coração ao limite, fazendo minha alma vibrar como se, somente hoje, estivesse completa.
As mãos de Howard estão por toda a parte e juro que são capazes de colocar fogo em tudo que tocam pelo caminho. Envolvem minha nuca com sofreguidão, seguram meu rosto bem junto ao dele, perdem-se em minha cintura, deslizam pelas minhas costas e me apertam contra o corpo dele como se Howard quisesse me reivindicar ainda mais para ele.
— Maria... Meu raio mordaz de sol — sussurra contra o meu pescoço, trilhando com beijos o caminho de volta para a minha boca, me arrepiando inteira ao mergulhar nela mais uma vez.
Agarro-me mais a ele e não tenho como não corresponder ao novo beijo. Mais calmo e suave agora, igualmente delicioso e profundo. Até que nossos lábios diminuem o ritmo pouco a pouco, e o segundo beijo chega ao fim.
Continuamos nos braços um do outro, agarrados feito dois bêbados, ou dois amantes, as respirações descompassadas se misturando no mínimo espaço, completamente desnorteados e em chamas. Não acredito que foi tão bom assim.
Só quando Howard encosta a testa na minha, e eu reencontro seus olhos castanhos com um brilho muito intenso, me dou conta do quanto será difícil ir embora. E do quanto terei de me esforçar para esquecê-lo.
Só que é exatamente o que eu preciso fazer.
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