Gênio Infame, Dama Mordaz
25 Almoço Romântico
No qual nosso herói e nossa heroína aproveitam cada momento.
Trabalhei a manhã inteira pensando na dama mordaz e no quanto ela é doce ao mesmo tempo. Um verdadeiro enigma em forma de mulher. Um encanto no qual me perdi e agora estou irremediavelmente preso.
O mais surpreendente nessa história é que estou feliz por ter virado refém de um sentimento novo e tão forte que me pôs de joelhos. Se eu tivesse imaginado como era bom estar apaixonado, teria prestado mais atenção às mulheres ao meu redor antes.
Se bem que nenhuma delas era Maria Carbonell e, por isso mesmo, não despertaram tal paixão em mim. Elas não poderiam. Meu coração, enterrado no corpo de um libertino e anestesiado por aventuras efêmeras, estava esperando por ela para vir à tona, se libertar e bater de verdade.
Enquanto eu trabalhava assobiando no meu laboratório, também fiquei pensando nos limites que Maria impôs à nossa relação dentro da minha propriedade.
Embora uma parte de mim tenha ficado muito frustrada por não poder agarrá-la em cada canto e beijá-la como bem desejo sempre que quiser, entendi o seu lado na questão. No fundo, admiro Maria por ser alguém tão obstinada a ponto de resistir ao meu charme inegável em prol de suas convicções pessoais.
O resumo da ópera é que Maria não quer misturar as coisas no território profissional mais do que nós já misturamos. Porque ela gosta e precisa desse trabalho, da sua independência financeira, de ser útil. É uma mulher forte e especial, sem dúvida.
Por outro lado, pensando em aproveitar cada minuto em que os papéis de patrão e empregada ficarão em suspenso, convidei Maria para almoçar comigo no seu intervalo de refeição.
Para meu deleite, o raio de sol ficou tão descompassada quando sussurrei a proposta em seu ouvido, enquanto ela arrumava a sala de estar, que balançou a cabeça de maneira afirmativa num gesto sútil e sorriu, parecendo nem perceber que fez tais coisas.
Ao me afastar, fiz questão de passar os lábios muito perto de sua boca de modo perigoso, deliciando-me ao ver que Maria entreabriu os dela também sem notar.
Não a beijei. Não por falta de vontade, já que estava muito inclinado a sucumbir à armadilha que eu mesmo criei. Entretanto, Maria estava em horário de serviço naquele instante, e eu prometi respeitar suas regras quanto a isso, não prometi?
Quando veio me encontrar à mesa no jardim — porque eu propus um almoço ao ar livre —, tive certeza que ela se jogaria nos meus braços. Ao notar Jarvis saindo da mansão, segurando a enorme bandeja com a refeição e ultrapassando-a com as pernas compridas que ele tem, Maria estacou o passo de maneira tão cômica que meu peito encolheu em solidariedade.
Ela ainda estava visivelmente constrangida e incerta quando afastei a cadeira para que se sentasse ao meu lado. E continua assim agora, enquanto meu mordomo e melhor amigo dispõe os pratos e talheres sobre a mesa com precisão clínica.
Combinei com Jarvis que eu mesmo serviria nós dois, porém ele fez questão de ajeitar a entrada e os refrescos.
Depois de muitas orientações sobre o cardápio preparado e de fazer uma boa propaganda do suflê de frutas vermelhas como sobremesa, ele enfim se despede com um meneio de cabeça, vira-se e está prestes a dar o primeiro passo quando...
— Sr. Jarvis! — Maria chama num tom alto demais, causando um sobressalto no pobre homem.
Ele se volta para ela de imediato.
— Pois não, Srta. Carbonell?
Inquieta, Maria se mexe na cadeira e pergunta com um desconforto que me intriga:
— Eu sei que essa situação parece estranha, mas... Bem, nosso patrão me convidou para almoçar. E eu achei que não seria nada de mais, me pareceu bem gentil para recusar e... Bem, por que não se junta à mesa? Isso! Almoce conosco! Não é uma ótima ideia, Sr. Stark?
Ela olha para mim, esperando que eu concorde, porém, tudo o que faço é franzir o cenho.
É impressão minha ou Maria está constrangida com a ideia de almoçar a sós comigo? Será que está preocupada com a opinião de Jarvis sobre nossa relação?
Por falar nele...
— Agradeço muito o convite, porém terei de dispensá-lo. Já prometi almoçar com minha querida Ana. Ela fez o meu prato favorito hoje, está muito animada.
O homem está se virando de novo quando Maria argumenta ainda mais afoita:
— Ah, mas o convite se estende a ela também! E o senhor pode trazer o prato especial e...
Uma risada sobe pela minha garganta e, por mais que eu tente contê-la, o ruído irrompe dos lábios que comprimo muito tarde. E isso atrai o olhar de Maria no mesmo instante. Um olhar mortífero.
— O que é tão engraçado, Ho... Sr. Stark?
Você completamente sem jeito diante de Jarvis por estar apaixonada pelo próprio patrão e tentando manter tudo em segredo, sendo que, na verdade...
— Jarvis sabe sobre nós, raio de sol. E também sabe muito bem que o propósito desse almoço romântico é nos deixar sozinhos. Aliás, pode me chamar na frente dele como você gosta. — Sorrio torto para ela, meu olhar fixo nas orbes azuis cercadas pelas curiosas linhas verdes. — Apenas Howard, lembra? Ou até patife, se for daquele seu jeito carinhoso.
Suas bochechas ganham um tom de rosa na mesma hora, e Maria engole em seco como se o deserto do Saara tivesse se materializado ao seu redor.
Ela olha para Jarvis, depois de volta para mim e para ele mais uma vez, ficando ainda mais vermelha ao perceber, pelo olhar sereno dele, que meu mordomo não está nos julgando. Muito pelo contrário, Jarvis nos apoia sinceramente. Antes mesmo de nós dois imaginarmos que um sentimento inesperado nos uniria assim, já tínhamos a torcida dele.
— Ora, eu... — Maria se recompõe da maneira mais rápida que consegue, é encantador observar seu esforço. — Eu cheguei a desconfiar que já soubesse, Sr. Jarvis. No fundo, acho que esperava por isso. Mesmo porque aposto que alguém fez questão de contar e se vangloriar bastante pela conquista.
Não preciso nem pedir para Jarvis me defender da acusação, ele logo revela a verdade por si só:
— Engana-se, Srta. Carbonell. O Sr. Stark não fez nenhum comentário específico sobre essa parte. Por outro lado e com o perdão pela minha audácia, eu seria cego se ignorasse que a senhorita reconsiderou o pedido de demissão ou se não notasse os olhares e sorrisos dos dois lados desde então. Bem como o fim da troca de farpas. Bem como esse almoço. Ana também percebeu a mudança no ar e, assim como eu, está radiante por vocês finalmente terem se entendido. Não se preocupe com o meu julgamento, eu jamais pensaria mal da senhorita.
Jarvis parece mesmo feliz por mim e Maria. E ela parece entender isso também e relaxa de forma visível, os ombros mais leves, a postura menos empertigada.
Tudo está perfeito até o mordomo rir e disparar a máxima:
— Eu nunca imaginei que viveria para ver o Sr. Stark domado de verdade por uma mulher. É esplêndido!
Oras... Agora a audácia foi longe demais!
Maria sorri com ar muito vitorioso, enquanto eu fecho a cara nenhum pouco satisfeito — por mais que ele não tenha dito qualquer mentira afinal.
— Jarvis — repreendo em tom de alerta, pois um homem tem lá uma imagem a preservar.
— Bon appétit! Com licença!
Assim que ele desaparece, trilhando depressa o caminho rumo à casa onde mora com Ana, Maria me lança um sorrisinho sardônico e diz com muita petulância:
— Seu orgulho deve estar em frangalhos depois dessa, não é?
Meu mordomo estava errado sobre a troca de farpas. A natureza delas pode ter mudado, mas definitivamente não acabou. A verdade é que esse jogo de cão e gato entre Maria e eu é forte demais para resistir.
— Só porque eu fui cavalheiro o bastante para preservar o seu orgulho. Imagine o choque se Jarvis soubesse que você cedeu primeiro?
Maria ri. A atrevida!
— Se me lembro bem, você confessou que me queria primeiro, patife.
— Se me lembro bem, eu só disse aquilo depois que você, raio de sol, me beijou enquanto eu dormia inocentemente na biblioteca.
O ar confiante é abalado. Porém, ao invés de admitir que eu estou coberto de razão, a dama mordaz coloca as manguinhas de fora novamente ao argumentar com desfaçatez:
— Aquilo não foi um beijo de verdade. Foi um... Um momento de fraqueza e curiosidade.
— Rá! Se quer chamar assim. — Bebo um gole do suco, deliciado por vê-la contrariada. — Mas aqueles beijos no laboratório, quando você foi até mim com os próprios tornozelos, por livre e espontânea vontade... Aqueles foram beijos, Maria. Nem você pode negar isso.
As bochechas ficam rubicundas mais uma vez, e Maria bebe um pouco do suco também, parece estar mais com calor do que com sede.
Talvez consciente de que seria muito ilógico negar, ela assente por fim:
— Tudo bem, foram. — Só para, em seguida, contra-argumentar com o nariz empinado de sempre. — Acontece que, naquele dia, a ideia era me despedir. Portanto, eu não estava cedendo a coisa alguma, estava apenas... me agarrando um pouco à despedida.
Lanço um sorriso endiabrado a ela.
— Já me chamaram de muitas coisas, despedida é a primeira vez.
Maria engasga com um gole do suco e toma mais um pouco para retomar o fôlego.
— Por falar em se agarrar... — Sigo provocando-a, a voz mais baixa enquanto me aproximo do pé de sua orelha. — Griffith. Nossa tórrida manhã juntos. Esse é o ponto afinal, o grande marco e o divisor de águas.
Meus lábios resvalam na pele sensível do lóbulo, e Maria fecha os olhos, estremecendo para seu desespero.
— Você é um demônio.
— Disso já me chamaram.
Sorrio satisfeito contra sua pele quente e me afasto de maneira abrupta, tomando mais um gole do saboroso refresco e olhando de soslaio para ela.
— Se aquilo não foi ceder, precisamos editar os dicionários com urgência, raio de sol.
Maria até tenta me encarar de um jeito intimidante, porém falha miseravelmente por ainda estar desconcertada pelo efeito da sedução.
Com certa raiva, ela praticamente destrói um pãozinho em seu prato. Confesso que recuo um pouco quando ela pega a faca para passar a manteiga nas fatias disformes.
— Muito bem, eu cedi — admite, os dentes trincados. Maria aponta a faca para mim, e eu me afasto mais um pouquinho. — Só que você cedeu antes, quando decidiu me visitar. Esse sim é o ponto, o grande marco e divisor de águas. Você foi atrás de mim, portanto, cedeu primeiro.
Assim que ela volta a torturar o pãozinho esquartejado, arqueio as sobrancelhas e faço questão de esclarecer:
— Eu fui até lá para confrontá-la.
Maria sorri com presunção e cantarola ao retrucar:
— Não foi por isso que ficou.
Touché. Ainda assim...
— Bem lembrado, você me pediu para ficar.
Ela ri, largando a faca no prato com um baque estridente e virando o corpo na minha direção.
— Eu concordei que ficasse porque você propôs primeiro. Olhando para mim com uma cara de cachorro abandonado na chuva, devo ressaltar.
Dou de ombros e, mesmo não achando justa a comparação com o cachorro, pontuo com uma insolência que sei que irá irritá-la ainda mais:
— E você não resistiu. Portanto, cedeu primeiro...
Maria respira fundo, o olhar estreito cravado no meu. Ainda assim, sinto que ela não está com raiva de verdade. Apenas contrariada de um jeito muito excitante e doce.
— Essa é a conversa mais inútil que já tivemos, Howard.
Abro um sorriso preguiçoso, satisfeito por ela não ter mais argumentos para alimentar a discussão em círculos.
— Acha mesmo? E aquela sobre a diferença entre correr e andar depressa?
Maria solta uma risada deliciosa.
— É verdade, aquela foi bem mais maluca!
Uma risada que mexe de um jeito curioso com a minha cabeça. E com outras partes do meu corpo também.
Apoio o queixo na mão para observar com mais atenção o brilho de diversão em seus olhos. Nem me importo que Maria perceba o quanto estou hipnotizado por eles e por seu riso agora.
Ela logo se dá conta e vai parando de rir, até que tudo o que resta é um sorriso tímido e um olhar muito caloroso na minha direção. É maravilhoso constatar que não sou o único à mercê do encanto.
— Podemos aceitar que nós dois cedemos ao mesmo tempo? — Maria propõe, o timbre suave e conciliador.
— Claro, meu raio de sol. — Busco sua mão sobre a mesa e planto um beijo demorado no dorso, fazendo-a estremecer de leve. — Se isso te faz se sentir melhor, que seja — provoco, com um dos meus sorrisos mais cretinos.
A reação vem depressa e de três maneiras diferentes. Um riso de protesto, um cutucão preciso entre minhas costelas e uma bronca:
— Howard Stark! Você está mesmo empenhado em me tirar do sério hoje, não é?
Dou de ombros.
— Virou um dos meus hobbies, nunca me canso.
Maria se aproxima, ficando deliciosamente perto demais do meu rosto, a respiração fresca contra minha pele provocando uma reação imediata no centro do meu peito, o olhar travesso me arrepiando a cada instante.
— Será que terei de beijá-lo para calar essa boca infame?
Não tenho dúvidas, estou mesmo perdido. Tudo que faço é inclinar o rosto na direção dela, reduzindo a nossa distância a nada, enquanto retruco:
— Parece uma ótima ideia para que eu ceda dessa vez.
Fecho os olhos, faço um biquinho com os lábios e, um segundo depois, Maria estala um beijo muito rápido neles. Querendo mais, passo um braço ao redor dela, fazendo sua boca voltar exatamente para onde estava.
Assim, o momento já perfeito dura mais um pouco, tornando-se ainda mais especial.
[...]
Nunca tive um almoço tão agradável com uma mulher antes. Nem mesmo os jantares, que sempre terminavam entre lençóis, me deixaram assim. Genuinamente feliz.
O único problema é que passou rápido demais. Instantes depois de engolir a sobremesa, Maria disse que seu horário de almoço já havia acabado há cinco minutos e que precisava voltar ao trabalho naquele segundo. Pouco importou quando eu assegurei que o patrão dela compreendia perfeitamente os minutinhos a mais...
Com um beijo jogado no ar, Maria me deixou sozinho no jardim antes que eu piscasse de novo. E foi onde permaneci, pensando nela, até Jarvis reaparecer para tirar a mesa.
Só voltei a vê-la no fim do expediente, depois de avisar a Jarvis que eu mesmo a levaria até o Griffith a partir de hoje.
Pela primeira vez, ele não ficou cabisbaixo por ter os serviços dispensados. Ao contrário, aprovou de pronto com um sorrisinho indisfarçável e dizendo:
— Muito bem, Sr. Stark.
[...]
Decidido a fazer o caminho durar mais do que o necessário, conduzo o Plymouth por uma avenida diferente daquela que Jarvis costuma acessar todas as noites ao levar Maria até o Griffith.
Ela nota, porém não reclama, e logo começamos a conversar. Mais sobre mim do que sobre ela, o que é um tanto frustrante.
Gostaria de conhecê-la mais, saber por que exatamente veio morar em Nova York e algo mais sólido sobre o troglodita que a magoou tanto. Porém, Maria se esquiva e sempre me lança perguntas por cima das minhas.
Se eu já era criativo na infância? Qual foi minha primeira invenção? Por que sou tão exibido? (O que não é verdade, diga-se). Como e por que adotei um flamingo? Se eu conheci mesmo o Capitão América? Qual é o meu maior sonho?
Essa última pergunta fica sem resposta. E é meio intrigante perceber que eu não tenho um. Possuo objetivos, metas, projetos, todos relacionados ao meu trabalho e minhas finanças. Mas um sonho pessoal, algo genuíno, algo para mim... Nunca sequer parei para pensar a respeito.
Inquieto comigo mesmo, reverto a questão:
— Ainda não sei. E você? Com o que sonha, raio de sol?
Estaciono o Plymouth rente ao meio-fio, e Maria observa os arcos do Griffith por longos segundos antes de voltar o olhar para mim e responder:
— Eu tenho dois. Mas um deles é um livro em aberto, na verdade. — Ela hesita um pouco, tomando seu tempo para formular as palavras. — Eu sei que quero fazer algo bom e importante, algo que traga esperança e me faça ser lembrada de algum jeito. Só que ainda não sei como chegar lá nem o que esse desejo significa exatamente. Então, por ora, eu só busco viver do melhor jeito possível, tentando ser respeitada, como qualquer pessoa, e traço o meu destino no dia a dia.
Maria sorri levemente, parecendo um tanto envergonhada por ter se mostrado tão humana assim.
De repente, sinto-me melhor comigo mesmo porque percebo que entendo exatamente o que ela quer dizer. Porque compartilho desse desejo, desse sonho em aberto. Também quero deixar minha marca no mundo fazendo algo memorável. Algo muito além das minhas invenções...
A verdade é que fico profundamente agradecido por Maria ter me feito enxergar esse anseio puramente humano que, afinal, sempre esteve aqui embaixo do meu ego.
— E o outro sonho?
Dessa vez, ela responde sem pestanejar e com nítida empolgação:
— Ah, eu quero uma biblioteca!
A confissão me diverte.
— Uh la la!
Maria ri, mas não perde o fio da meada.
— Isso mesmo! Um dia, quando eu tiver a minha própria casa, vou reservar um bom espaço para montar uma biblioteca linda, aconchegante e com grande variedade de títulos! Sempre achei bibliotecas um ambiente fascinante, sabe? Quase... mágico por abrigar tantas histórias bem ali, em estantes e prateleiras. Pense um pouco, Howard. Tramas e personagens ao alcance das mãos a qualquer instante? Livros protegidos do mundo exterior num local só deles? Como um santuário! A possibilidade de viajar sem sair do lugar e mesmo assim, de algum jeito, sair? É maravilhoso! Mundos inteiros dentro de um universo particular!
Maria sorri de um jeito distraído, mergulhada no próprio sonho.
Eu também sorrio, satisfeito de maneira genuína por conhecê-la melhor afinal.
De repente, ela parece se dar conta de algo e volta o olhar para mim.
— Bom, você tem uma biblioteca, deve entender do que estou falando.
Acho que não é a mesma coisa. Minha biblioteca é mais técnica e minha relação com os livros se resume praticamente a isso, embora eu aprecie uma boa literatura de vez em quando. Ainda assim, consigo compreender Maria. Para ela, os livros são alguma coisa maior, como tesouros em páginas. Bibliotecas, lugares mágicos, como bem pontuou.
Só que, olhando um pouco para trás agora, tem um pequeno ponto que vai contra essa sua paixão. E eu, é claro, não posso perder a oportunidade de alfinetar...
— Por falar na minha biblioteca, é difícil entender como alguém tão fascinada por livros foi capaz de tentar me agredir com um deles.
Maria fica horrorizada e leva as mãos à boca, exalando arrependimento. Prevejo um pedido de desculpas. Ao invés disso...
— Oh! Aquilo foi um sacrilégio com o pobre livro! Ainda bem que você o segurou a tempo, patife, e não houve qualquer dano à capa.
Arqueio uma sobrancelha ao lembrá-la:
— Nem ao meu lindo rostinho, certo?
Ela comprime os lábios para não rir. Depois, revira os olhos e dá um tapinha no ar.
— É, isso também.
Então, Maria apoia a cabeça no encosto do banco e fica olhando para mim em silêncio. E eu para ela. Por quanto tempo, não sei ao certo.
— Obrigada pela carona.
Busco sua mão e dou um beijo na pele suave entre os dedos.
— Sempre ao seu dispor.
Ela se aproxima para um beijo. Um toque suave, doce e demorado em minha boca. O paraíso em um relance quente.
— Boa noite, Howard — deseja baixinho, encarando-me de perto e com afeição. — Até amanhã.
Maria fecha a porta ao deixar o veículo, e eu acompanho seu caminhar até ela desaparecer no interior do Griffith.
— Até daqui a pouco, raio de sol — corrijo em tom conspiratório.
Maria pediu que eu não usasse o atalho na lavanderia para entrar no hotel. Que, ao invés disso, encontrasse outra maneira. O que ela ainda não sabe é que eu, como o gênio que sou, já encontrei a solução.
É por isso que dou a volta no quarteirão e manobro o carro até o beco atrás do Griffith. Paro com ele bem embaixo da janela do apartamento 204. Então, espero o movimento na rua adiante minorar e as janelas vizinhas se fecharem.
Reclino o banco e ligo o rádio num volume baixo enquanto a noite evolui e fica mais quieta ao som de Édith Piaf. Demora, mas quando o cenário enfim se torna seguro para a execução do meu plano, aciono um botão especial do Plymouth.
Instantes depois, com certo solavanco, o veículo começa a levitar, impulsionado pelo motor aprimorado e pelas rodas que passam a funcionar como turbinas compactas e, graças ao último upgrade, mais silenciosas.
Logo, estou voando até Maria.
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