Gênio Infame, Dama Mordaz
26 Fora de Órbita
No qual nossa heroína é surpreendida por um visitante.
Angie anda de um lado para o outro do seu pequeno apartamento, gesticulando com empolgação e despejando uma frase atrás da outra no ritmo acelerado que lhe é tão comum. Juro que tento acompanhá-la, porém é simplesmente impossível. É como ouvir um solilóquio em grego, embora eu saiba muito bem que Angie está falando comigo no bom e velho Inglês.
Confusa, abaixo a cabeça e examino o cálice vazio em meu colo. Só tomamos uma dose do seu licor de framboesa, duvido que a dificuldade de concentração esteja relacionada ao álcool.
Ah, quem eu quero enganar? Sei muito bem por que estou tão fora de órbita assim. Ou melhor, por causa de quem.
A verdade é que desde que Howard me trouxe ao Griffith e nos despedimos em seu carro, o dito cujo não me sai da cabeça. Seu sorrisinho torto, o olhar com aquele perigoso brilho endiabrado, o sabor doce de sua boca na minha, todas as lembranças dos nossos momentos juntos antes disso e como meu nome soa especial naquela voz rouca...
— Maria!
Alarmada, endireito-me na cama e ergo o olhar na direção de Angie. Postada na minha frente, ela me encara de cenho franzido e com a cabeça inclinada num ângulo engraçado.
— Desculpe, o que você disse?
Pela sua postura, é óbvio que ela terminou algum relato importante e me convocou para a conversa questionando alguma coisa também relevante.
Ainda com ar desconfiado, Angie esclarece:
— Eu pedi a sua opinião. Você acha que passei no teste?
Oh! O teste! Era disso que ela falava!
Angie sonha em ser atriz e fez uma audição para uma peça hoje. Agora me lembro que, no começo do seu desabafo, captei algo sobre isso mesmo.
— Claro que sim! — Sorrio para minha amiga, tentando lhe transmitir tal segurança. — O papel sem dúvida é seu, não se preocupe.
No entanto, meu apoio não surte o efeito esperado. Angie não só não parece convencida, como cruza os braços e estreia o olhar ao contrapor:
— Mas como será meu se eu sinto que nem de longe dei o melhor de mim? E como se as outras candidatas pareceram muito mais confiantes do que eu jamais serei?
Oh... Acho que perdi essa parte do relato.
Abro a boca para argumentar de volta, porém torno a fechá-la, pois me dou conta de que não sei o que falar.
— Você não ouviu uma palavra do que eu disse antes, ouviu?
Ante o tom retórico de Angie, tudo que faço é encolher os ombros e lamentar sem jeito:
— Desculpe, estou meio desligada hoje.
Ela volta a me encarar. Depois, senta-se ao meu lado. Não parece brava, apenas curiosa.
— Meio desligada não passa nem perto, doçura. Isso é outra coisa. Você mal está aqui comigo. O que aconteceu?
— Nada — desconverso, sem saber por onde começar, nem mesmo se quero falar sobre a recente reviravolta em minha vida agora. É tudo tão novo e surpreendente.
Além disso, como contar para Angie que eu e meu infame patrão estamos intimamente envolvidos se, há pouquíssimo tempo, eu assegurei a ela que não acreditava em nada romântico vindo de nós?
Inquieta, desvio do seu olhar inquisidor. E num gesto patético, levo o cálice vazio à boca, sorvendo um gole invisível. Angie arqueia as sobrancelhas diante da cena, enquanto minhas bochechas esquentam pela gafe cometida e que em nada me ajuda.
Com delicadeza, ela pega o cálice, coloca-o sobre o criado-mudo ao lado de sua cabeceira e volta-se para mim com interesse renovado.
— Você conheceu alguém, não foi? Alguém especial?
Incapaz de negar, tudo que respondo depois de um instante pensativa é:
— Conheci.
Animada por ter acertado o palpite, Angie leva as mãos à boca e seus olhos cintilam com ainda mais curiosidade. Logo em seguida, ela despeja de maneira implacável:
— Muito bem! Quem é o príncipe encantado?
Recuo um pouco, absorvendo a pergunta, pensando sobre ela, sobre ele e como minha maneira de enxergá-lo mudou da água para o vinho.
— Bem... Em minha defesa, eu nunca pensei que fosse dizer isso um dia, mas, ao que parece, é... — Mordo o lábio inferior por um segundo e me encolho um pouco. — Howard Stark.
Angie arregala os olhos e a coluna se estica como se fios de aço a tivessem puxado com força.
— Virgem Santa!
Há algo de cômico em sua reação, algo que me faz relaxar o bastante para confessar:
— Agora eu posso afirmar que conheço Howard de verdade. E que Deus me ajude, Angie, porque eu gostei do que vi. Gostei demais.
Meu coração se aquece ao pronunciar essas palavras francas e pelo efeito da paixão que sinto.
— Ai, meu Deus!
— Pois é!
— Vocês se entenderam?
— Contra todas as probabilidades, sim.
Angie me analisa com um olhar de águia.
— Vocês...? — Ela arqueia as sobrancelhas, deixando a pergunta no ar.
Não preciso de um espelho, sei que minhas bochechas ficam vermelhas.
— Sim, aconteceu.
Embora feliz, minha amiga parece intrigada com a revelação também, o que acho bem compreensível. Em seu lugar, eu também estaria, afinal não estava nos meus planos me envolver com alguém, muito menos com o homem em questão.
— Mas você disse que queria tirá-lo da cabeça, virar a página, essas coisas! — Angie coça a cabeça por um instante. — Nós não brindamos a um plano assim numa noite dessas?
— Sim. E eu sei que prometi que faria exatamente isso, mas...
— Mas não conseguiu cumprir.
Não foi uma pergunta, mesmo assim acabo explicando melhor:
— Como eu poderia, Angie? Foi tolice pensar que eu seria capaz de tirar aquele patife da cabeça. Ele já estava no meu coração.
Ela suspira, unindo as mãos sob o queixo.
— Ah... Isso é tão romântico!
Sentindo meu peito leve feito uma pluma, ainda acrescento:
— Howard Stark não é uma página que possa ser virada. Acho que ele é uma história inteira e importante demais para isso. Um livro, que eu quero ler e reler para não perder nenhum detalhe.
Deixo meu olhar se distanciar, levando-me até o gênio infame por um momento que não sei precisar quanto dura. Contudo, deve ter sido bastante pois, quando torno a olhar para Angie, ela está me observando com uma expressão engraçada e um tanto acusatória.
— Pode dizer. Eu sei que você está doida para dizer.
E sem nem ao menos pestanejar, ela mexe nas unhas com ar superior e cantarola:
— Eu avisei.
— E eu mereço ouvir — admito, abrindo os braços ligeiramente. — Porque você estava certa o tempo todo. Howard gosta mesmo de mim.
Angie sorri de canto, analisando-me de maneira atenta e divertida.
— Olhe só para você... Nada de Sr. Stark. Agora é Howard para lá, Howard para cá, Howard por toda a parte, Howard isso e aquilo.
— Pare... — tento desarmá-la, porém acabo rindo. — Certa mais uma vez.
Não, a boba não é ela, sou eu. Uma boba apaixonada e feliz.
Angie se ajeita melhor na cama, segura minhas mãos e exige:
— Eu quero detalhes!
Apesar do horário avançado e de querer guardar muitas coisas sobre Howard apenas para mim, percebo que também estou ansiosa para falar sobre os últimos acontecimentos com alguém. Como Angie se tornou minha melhor amiga desde que me mudei para Nova York, esse alguém só pode ser ela.
Assim sendo, endireito a postura, disfarço mais um sorriso bobo e começo a contar.
[...]
Passa da meia-noite quando deixo o quarto de Angie e volto para o meu. Como já tomei um banho antes de ir conversar com ela, tudo que quero agora é me livrar do robe e me enfurnar embaixo das cobertas.
Logo entro e tranco a porta. Porém, antes que eu alcance o interruptor, o recinto é iluminado parcialmente por uma luz suave. Tenho um pequeno sobressalto ao reconhecer a pessoa estirada na minha cama e abafo um gritinho com a mão. Enquanto isso, a pessoa em questão afasta os dedos do abajur e me lança um sorriso preguiçoso.
Meu coração, obviamente, dispara.
— Howard? — sussurro, franzindo o cenho. — O que está fazendo aqui?
O sorriso se desmancha e, em seguida, ele está fazendo uma imitação do meu tom de voz:
— Oh, patife! É tão bom te ver! Sei que estivemos juntos ainda há pouco, mesmo assim eu não consegui evitar e já estava morrendo de saudade!
Comprimo os lábios para não rir da péssima e atrevida imitação.
— Obrigado, raio de sol! Imaginei que você fosse gostar da surpresa, mas é sempre bom ouvir o quanto sou querido e bem-vindo. Faz eu me sentir mais especial, sabe?
Cruzo os braços e arqueio as sobrancelhas. Se Howard acha que eu vou admitir o quanto ele é especial assim tão fácil, está muito enganado. Primeiro, preciso entender como ele veio parar aqui.
— Como você conseguiu entrar?
— Pela janela. Usando meu carro voador — ele revela, como se não fosse nada de mais. O choque deve ficar visível em meu rosto porque, na sequência, ele diz: — Não se preocupe, eu fui discreto.
— Difícil acreditar. Essa imagem não combina com discrição.
Exalando tranquilidade, Howard se recosta melhor nos meus travesseiros e explica:
— Eu esperei o movimento na rua e no hotel terminar, ninguém me viu, você está a salvo. Ah! Para registro, programei o Plymouth para voar até a janela antes de amanhecer. Assim, saio sem chamar a atenção também. Admita, é ou não é um plano genial?
Bem, é um plano arriscado, mas uma parte de mim se alegra muito por Howard não ter usado o atalho da lavanderia. Por ele ter pensado num novo caminho, criando um atalho nosso.
Saio da defensiva de uma vez e o contemplo com um sorriso.
Só então reparo melhor nele. O patife está bem à vontade na minha cama, sem os sapatos e com os botões da camisa abertos, revelando uma camiseta branca e mais justa por baixo. Os cabelos um pouco desgrenhados pelo contato com a cabeceira.
— Há quanto tempo você estava me esperando?
Howard sorri torto.
— Acho que a vida inteira.
Não preciso de um espelho na minha frente para saber, o comentário faz meus olhos brilharem de um jeito diferente. Com intensidade e de forma carinhosa enquanto olho para ele.
Numa reação natural, estou me aproximando da cama. Howard se afasta um pouco, dando-me espaço para sentar em sua frente.
— Gostei disso — sussurro em tom de confissão, dando graças a Deus pela luz fraca ocultar o rubor em minhas bochechas.
— Não, não! Eu quis dizer que pareceu mesmo uma vida inteira. Você demorou uma eternidade, mulher — Howard esclarece; e eu, rindo, lhe dou um cutucão nas costelas pela provocação. — Onde diabos estava?
— Aqui ao lado, tomando uma dose de licor com a Angie e conversando sobre... — Limpo a garganta, um pouco sem graça. — Bom, sobre nada em específico.
Howard estreita o olhar em minha direção. Um olhar perigoso. Por um momento, acredito que ele sabe que estou mentindo e vai encontrar uma maneira de se gabar.
— Licor, é? — diz, ao contrário do que eu esperava.
Ele busca minha mão sobre a cama e me puxa devagar. Sem qualquer resistência, simplesmente vou e me aninho em seus braços. Deitado vis-à-vis comigo, Howard afasta uma mecha de cabelo do meu rosto e lentamente, de maneira quase torturante, saboreia meus lábios com uma reverência que me arrepia por inteiro e faz meu coração errar muitas batidas.
— Licor de framboesa? — arrisca um veredicto.
Confirmo com um meneio e, por um instante, penso em admitir que eu já estava mesmo com saudade dele. Mas então, Howard murmura algo sobre adorar framboesa, sou beijada mais uma vez e o pensamento se perde dentro de mim.
De qualquer forma, tenho certeza que ele sabe. E pela maneira como mergulha em minha boca agora e como capto seu coração disparado sob a minha palma, eu sei que não fui a única que sentiu falta disso.
[...]
Antes dos primeiros raios de sol tingirem o céu de Nova York, estou lutando para não rir de Howard se equilibrando na varanda para alcançar a porta do carro em suspenso. Gênio ou não, parece que alguém calculou errada a distância necessária quando programou o veículo para voar novamente até minha janela. Coisa de centímetros, mas que fazem toda a diferença agora.
Depois de mais uma tentativa infrutífera de alcançar o carro, ele olha para mim de maneira desconfiada e nada satisfeito.
Homens...
Disfarço meu divertimento como posso, porém Howard continua me encarando e ergue um dedo em riste ao dizer:
— Você é uma mulher muita má, Maria Carbonell.
Com ar de inocência, retruco:
— O que foi que eu fiz, querido?
— Pode rir agora, mas se eu cair daqui de cima, aposto que vai ficar inconsolável e se sentir muito culpada.
Um calafrio percorre meu corpo ao imaginar esse cenário. Não acho que a queda iria matá-lo, não estamos tão no alto assim, porém não quero arriscar que ele se machuque o mínimo que seja.
— Muito bem. Pare de drama e segure a minha mão.
Não preciso lhe explicar o plano, logo Howard está fazendo exatamente isso. Enquanto me mantenho firme com a outra mão cravada no gradil, ele me usa como apoio, uma espécie de extensão, para se inclinar na direção do Plymouth com mais liberdade.
Não demora e o clique da maçaneta do carro se propaga pela madrugada antes mergulhada em silêncio, mas não acho que seja suficiente para acordar alguém do Griffith. Por sorte, o motor do carro é pouco ruidoso também. Acho que o plano de Howard sobre ir embora sem chamar a atenção pode mesmo funcionar.
Equilibrando-se como pode, ele consegue abrir a porta, segura-se nela e finalmente entra no veículo. Respiro aliviada.
Antes de partir, no entanto, Howard ainda manobra o carro voador para mais perto da varanda e esboça um sorrisinho que me diz exatamente o que quer. Inclino-me em sua direção e lhe beijo em despedida. Um beijo rápido, mas dúlcido.
— Vá, patife — sussurro.
— Até daqui a pouco, raio de sol.
É verdade, logo mais tomaremos o café da manhã na Marsh’s Bakery, aquela padaria onde, há poucas semanas, Howard e eu tivemos um de nossos primeiros embates. É engraçado pensar no quanto evoluímos daquele dia até hoje.
O mundo, sem dúvida, está muito melhor agora.
[...]
Depois que Howard foi embora, ainda dormi um pouco, sentindo seu cheiro nos travesseiros e me emaranhando nos lençóis que bagunçamos juntos.
Por volta das oito horas, após um banho rápido, deixo o quarto e cruzo a recepção do jeito mais discreto possível. Não acho que alguém tenha flagrado o patife indo embora, mas temo que, se a Sra. Fry me ver agora, perceba a verdade só de olhar para mim.
Sério, aquela mulher assustaria o próprio diabo.
É com alívio que passo pelos arcos da saída sem ser vista e começo a descer os degraus rumo à calçada. Howard disse que passaria aqui em frente para me pegar. Porém, ainda na metade da escadaria, esbarro em cheio em alguém que vem na direção oposta e que não notei a tempo.
Com o choque, desequilibro-me bastante e tropeço nas próprias pernas. Talvez eu tivesse despencado, caso essa pessoa não tivesse sido mais rápida e me segurado pelos cotovelos, livrando-me assim de um acidente patético e de pelo menos um joelho ralado.
— Ora, ora... Se não é justamente quem eu vim procurar.
A voz familiar me sobressalta e o mundo gira em trezentos e sessenta graus.
Tomada pela surpresa e por uma série de emoções, ergo o rosto na direção do homem sorridente.
E ele não é Howard.
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