No qual Jarvis dá um empurrãozinho em nosso herói.

Conheço Edwin Jarvis há uns bons anos, desde antes da Segunda Guerra. Sem querer soar sentimental, nós temos um laço que vai muito além da relação patrão e empregado. Mais do que meu mordomo e braço direito, ele é meu amigo. Daquele tipo verdadeiro e raro.

Era de se esperar que, a essa altura, eu o conhecesse como a palma da minha mão e nada mais me intrigasse. Porém, às vezes, Jarvis se transforma em uma esfinge. Como agora. Chega a ser irritante não conseguir decifrar o que se passa por trás do olhar vazio que ele sustenta na minha direção.

Incomodado com a postura enigmática, decido retomar o que eu fazia antes dele adentrar o laboratório há alguns minutos. Assim, continuo a busca por um componente específico na estante ao meu lado, dando um tempo para Jarvis processar o que lhe confidenciei e que reencontre o som da própria voz.

Enquanto percorro as etiquetas coladas aos frascos com a ponta do dedo, avalio se eu disse alguma coisa imprópria para deixá-lo mudo e paralisado feito uma estátua.

Jarvis estava curiosamente agitado quando chegou aqui, visivelmente ansioso para saber se a visita do raio de sol, mais cedo, teve um resultado promissor para a nossa relação de agora em diante.

Óbvio que ele não queria saber detalhes, jamais me perguntaria algo assim pois é um cavalheiro como poucos, e eu jamais diria algo íntimo sobre Maria também.

No entanto, sem dúvida, ele captou tudo nas entrelinhas quando contei que sim, eu e a dama mordaz nos entendemos muito bem e que o resultado foi mais do que promissor, foi... perfeito.

Confessei ainda que Maria declarou o seu amor por mim e que essa foi a melhor coisa que eu já ouvi em toda a minha vida.

Meu fiel escudeiro ficou muito feliz ao saber de tudo isso. Juro que, por um momento, pareceu que ele daria um pulo de alegria e sairia saltitando pelo laboratório tamanha euforia, porém se conteve e respirou fundo uma vez antes de emendar uma nova pergunta ao assunto.

E desde que ouviu a resposta, emudeceu.

Oh, droga... O que foi que eu falei de errado para deixá-lo assim? E por que Maria também ficou meio estranha depois de dizer que me amava? Inclusive, ela mal falou no caminho de volta ao Griffith. Não me destratou nem nada do tipo, porém me apareceu um tanto... apática.

— Sr. Stark, temo não ter compreendido muito bem o que falou por último — Jarvis, de repente, mostra que ainda sabe se comunicar verbalmente. — Poderia repetir, por gentileza?

— Você ficou congelado aí por uns setenta anos e espera que eu me lembre do que falei?

Quem estou querendo enganar? É óbvio que me recordo muito bem, só pretendo ganhar tempo. Ganhar tempo porque, no fundo, sinto que fiz algo errado e imagino estar em maus lençóis. Busco ganhar tempo numa tentativa de contornar a situação em que pareço ter me metido por algum deslize tolo.

Que deslize será esse, Santo Einstein?

Encurralando-me ainda mais, Jarvis desenvolve o assunto:

— O senhor comentou que a Srta. Carbonell declarou que o ama e o quanto ficou feliz ao ouvir as palavras dela. Então, eu quis saber como ela reagiu ao ouvir o mesmo, e o senhor respondeu que...

— Que eu não disse.

Inferno.

Já sei por que Maria estava tão reservada e distante quando lhe dei carona. Eu não disse a ela como me sinto. Não foi um deslize tolo, foi um tremendo escorregão. Talvez... imperdoável.

Inferno. De novo!

Ainda estou assimilando o que fiz, ou melhor, o que não fiz, quando Jarvis me pressiona com uma nova questão:

— E por que não disse a ela, senhor?

— Não sei — respondo meio no automático.

Há um tom descrente em sua voz na sequência:

— Sr. Stark...

Eu não sei — interrompo-o entredentes.

Percebo que estou furioso, mas não com Jarvis que, convenhamos, é incapaz de despertar a ira de alguém. Estou furioso é comigo! Afinal, que espécie de conquistador eu sou para ter deixado de pronunciar palavras tão românticas a uma mulher?

Os ruídos do laboratório parecem evaporar e o mundo congelar a minha volta. Sento, ou deixo meu corpo cair na cadeira perto da banqueta, e me pego refletindo sobre a questão que eu mesmo levantei. E acho que encontro alguma pista nela.

Um conquistador que foi conquistado, essa é a espécie que me tornei. E Maria não é qualquer mulher, mas sim a única que eu realmente quis de verdade. A única que quero cada vez mais. A mulher que quero ao meu lado para sempre.

Alguma explicação plausível deve residir nesses fatos. Seja como for, uma conclusão me parece mais do que certa:

— Eu sou um idiota.

— Bem, se o senhor diz...

As palavras de Jarvis me despertam do momento de reflexão, levando-me a encará-lo de cenho franzido.

Ele se dá conta da impertinência e conserta de pronto:

— Se diz isso é porque está sendo muito duro com o senhor mesmo.

Estou?

— Não — admito de vez, afinal é preciso assumir quando erro, por mais raro que aconteça. — Eu fiquei lá, sorrindo com gratidão para o raio de sol, feito um idiota. Incapaz de retribuir, incapaz de me colocar no lugar dela por um momento e perceber que Maria esperava... Que ela merecia... Tem alguma coisa muita errada comigo, Jarvis. Pode dizer, sem meias palavras, eu aguento.

Meu amigo me avalia por um bom tempo antes de dar o veredicto:

— Não há nada de errado, Sr. Stark. Eu só vejo um homem meio perdido porque está experimentando um sentimento novo. É natural não saber lidar com algumas situações que envolvam a Srta. Carbonell...

Jarvis hesita, e eu estreito o olhar.

— Mas?

Com muita cautela nas palavras, ele ressalva:

— Mas é necessário aprender ou, eventualmente, o senhor irá perdê-la. Se acreditar que é apenas estimada ou desejada pelo senhor, e não amada de verdade, a Srta. Carbonell se afastará pouco a pouco. Não para feri-lo, e sim para se preservar e não ferir a si mesma. Não pode restar qualquer dúvida no coração dela sobre o que o senhor sente.

Droga... O que Jarvis diz me causa um receio assaz desconfortável. Não preciso ponderar por muito tempo para me convencer que ele está coberto de razão. Como, geralmente, está.

Inferno. Sim, pela terceira vez!

— E para não perdê-la, eu tenho que me abrir. Tenho que dizer a ela... como me sinto.

— Exato.

Meu mordomo exala satisfação por eu ter compreendido. O problema é que um buraco surge no meu estômago e meu rosto esquenta só de imaginar a cena.

— E se eu soar ridículo?

Se percebe que estou corando, ele prefere não comentar nada. Ao invés disso, ele ri de leve e argumenta com firmeza:

— Ah, o amor é a coisa mais ridícula desse mundo, Sr. Stark! E a mais maravilhosa também. Não se preocupe tanto em como dizer, apenas diga. Ficará mais fácil depois que falar pela primeira vez, acredite.

— Duvido.

Se me ouve, ele acha melhor ignorar.

— E quando menos esperar, estará viciado em repetir que a ama!

Meu rosto arde mais um pouco e meu único desejo é encerrar o assunto para ficar sozinho de novo na segurança do meu laboratório. Fórmulas não são nada complicadas comparadas a sentimentos.

— Jarvis...

— Ora, aconteceu comigo! — ele decide contar. — Não tem um único dia que se passe em que eu não diga a Ana, pelo menos cinco vezes, que a amo muito. Em alguns momentos, ela nem me deixa terminar e já me silencia com um beijo impaciente para que eu cale a boca de uma vez. — Jarvis ri de si mesmo e chega a suspirar antes de concluir: — E eu só consigo amá-la ainda mais por isso...

Aperto seu ombro, para que ele volte ao planeta Terra, e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:

— Você venceu, eu falarei com o raio de sol. Satisfeito?

O olhar dele demostra noventa e nove por cento de satisfação.

— O mais breve possível, seria aconselhável.

Expiro com força.

— Esta noite, que seja!

— Perfeito!

Ele me dá as costas de imediato e caminha rumo à saída.

Esta noite? Eu acabei de me comprometer, afirmando para Jarvis que vou me declarar ao raio de sol esta noite?

Bem, isso só me dá algumas horas para pensar em como fazer isso. Porque não há como escapar. Tenho que dizer a Maria, ele tem razão. Porque se eu nunca me abrir por completo, mais cedo ou mais tarde, a incerteza irá abalar o que ela sente por mim e que teve coragem de me dizer.

— Ah! — Jarvis exclama, parando na porta e se virando para me encarar de novo. — Seria apropriado levar um buquê de rosas para se desculpar com a Srta. Carbonell por qualquer má impressão que possa ter causado. Devo providenciar na floricultura?

Penso um pouco. Lembro de quantas vezes encarreguei Jarvis de comprar e enviar flores às mulheres com as quais me diverti por um tempo. Nenhuma realmente importante para mim. Eram apenas casos efêmeros, relacionamentos carnais e vazios. Agora é diferente. Maria é diferente.

— Não. Eu mesmo cuidarei das rosas.

Jarvis sorri com certa surpresa e cem por cento satisfeito quando respondo isso. Antes de sair, ele ainda registra a aprovação:

— Muito bem, Sr. Stark.

Mais tarde...

Depois de passar em uma refinada floricultura, onde fiquei um bom tempo escolhendo a dedo as rosas vermelhas mais perfeitas que a natureza já produziu, estaciono em frente ao Griffith e deixo meu Plymouth para trás enquanto assobio La vie en rose e subo a escadaria do prédio.

Eu sei, não parece muito inteligente da minha parte vir assim a esse lugar, correndo o risco de levantar suspeitas de Mirian Fry sobre Maria e eu. Entretanto, enquanto cantarolava no chuveiro há pouco, me dei conta de algo bem óbvio. Eu e o raio de sol não estamos fazendo nada de errado e não precisamos nos esconder de ninguém.

Na verdade, eu quero mais é que o mundo inteiro saiba que estamos definitivamente juntos.

Porque estamos.

Ou estaremos tão logo eu consiga deixar claro para ela como me sinto...

De qualquer forma, se minha presença aqui acender o alerta supremo de Mirian e dificultar o acesso ao quarto de Maria daqui para frente, que seja. Aliás, por mais excitante que os encontros noturnos com a dama mordaz sejam, creio que é chegada a hora de pararmos de agir feito dois clandestinos.

Digo mais. Se depois de hoje, Mirian redobrar a atenção e se tornar inviável me encontrar com o raio de sol aqui, talvez seja a hora de Maria ganhar um novo endereço. O meu.

A ideia me agrada tanto que quando cruzo o arco de entrada do Griffith, estou sorrindo. E ainda estou quando avisto a proprietária atrás do balcão da recepção, separando o que parece ser uma pilha de correspondências.

— Boa noite, Mirian! — cumprimento, radiante.

Ela desvia o olhar da pilha por um momento e olha para mim por um segundo sem me enxergar de fato. Só na sequência é que se dá conta da minha presença e não esconde o espanto:

— Sr. Stark?! O que faz aqui?!

Pisco para ela.

— Apenas Howard. — Depois de pegar sua mão para dar um beijo, solto um galanteio: — Estou impressionado, o tempo só tem feito bem a você. Está ainda mais graciosa do que me lembro.

E assim, como uma garotinha, Mirian Fry enrubesce.

— Ah, você acha mesmo? Seu demônio...

Visivelmente lisonjeada, passa a mão pelo cabelo a fim de ajeitar o penteado, esquecendo-se por completo da tarefa a qual se dedicava antes da minha sublime aparição em sua frente.

O momento de desconcerto e de guarda baixa, no entanto, não dura muito. Tão logo nota o suntuoso buquê que trago comigo, ela deve deduzir que não pode ser para ela e, com a expressão de águia, inquere sem rodeios:

— Para quem são essas rosas?

Estou pronto para dizer. De fato, já abri a boca para revelar quem é a mulher mais sortuda do universo. Só que antes que o primeiro sopro de sílaba saia, uma voz grave emana de algum lugar atrás de mim:

— É uma ótima pergunta, Sra. Fry. Mal posso esperar pela resposta.

Grave, desconfiada e familiar.

Ah, não! Só pode ser brincadeira...

Numa reação automática, viro em busca da confirmação e, para meu azar, a suspeita se confirma. Porque num canto da recepção, sentado no centro de um sofá, está ninguém mais ninguém menos do que o irmão brucutu de Maria.

— Olá, Stark. Surpreso em me ver?

Surpreso não chega nem perto. Desgostoso se aproxima mais. Francamente? Não acredito que Jimmy Carbonell está aqui! O sujeito só pode ter algum tipo de sexto sentido que o traz a Nova York nos momentos mais inoportunos.

Como vou dizer ao raio de sol o que preciso lhe dizer, com esse cão de guarda por perto?

Disfarço a frustração do melhor jeito que consigo e, já que não tenho escolha, interajo com o mequetrefe:

— Muito surpreso. Veio visitar a sua irmã?

De modo direto e antipático, ele rebate:

— Óbvio. E você? E as rosas?

Oh, não... Ele desconfia. Como todo irmão chato e superprotetor, Jimmy Carbonell desconfia de algo.

Aliás, quando esteve em Nova York pela primeira vez e eu fiz aquela cena ridícula de ciúme por achar que o sujeito era o homem do passado de Maria, deu para perceber que ele ficou com a pulga atrás da orelha. No fim, pareceu ter comprado a ideia de que eu era apenas o patrão de sua irmã e só estava me comportando de maneira excêntrica, porém a maldita pulga... Pelo visto, ela nunca o abandonou por completo.

E eu sei que, há dois minutos, eu estava convencido a revelar ao mundo inteiro a minha relação com Maria, mas isso foi antes do visitante indesejado aparecer. Afinal, uma coisa é o mundo inteiro, outra bem diferente é o irmão mais velho e ameaçador de Maria, um sujeito que claramente possui uma inclinação à violência para protegê-la.

Por falar nele, Jimmy arqueia as sobrancelhas de modo impaciente e irritante, deixando claro que ainda espera uma resposta para suas eloquentes perguntas.

— Ah... As rosas são para... — Viro de volta para Mirian e, disfarçadamente, espio o primeiro nome na pilha de correspondências. — Para a Srta. Martinelli! — minto com alívio, soltando a respiração devagar. — Ela está?

Mirian franze o cenho, claramente intrigada.

— Para a Srta. Martinelli?! Eu não sabia que o senhor estava interessado nela.

— Nem eu... — Jimmy comenta do sofá, chamando minha atenção de novo.

Por mais esquisito que isso seja, há certa decepção em sua voz.

Será que ele esperava que eu dissesse outro nome? Srta. Carbonell, por exemplo? Só para ter a justificativa necessária e partir para cima de mim de uma vez como o ogro que é?

Estranho, não me parece ser isso. Olhando daqui, o homem parece meio tristonho.

— Ela não está. Saiu com a Srta. Carbonell — Mirian revela com azedume. — Não sei para onde, tampouco se irão demorar. Se quiser esperar, junte-se ao outro cavalheiro.

Oh... Acho que alguém está um pouco enciumada.

Em outros tempos, eu reverteria a situação com um olhar sugestivo, acompanhado por um galanteio qualquer e arrematado com um sorriso de incendiar uma plantação, mas não sinto a mínima vontade de usar tais artifícios agora, pois acredito que seria desrespeitoso com o raio de sol flertar com outra mulher.

Embora eu até tenha usado o meu charme natural assim que cheguei e beijado a mão de Mirian, não foi com segundas intenções reais, apenas a força de um hábito que quero deixar para trás em respeito a Maria. De agora em diante, de uma vez por todas, quero que meus olhares, galanteios e sorrisos sejam reservados apenas para ela.

— Obrigado, Mirian, vou aceitar a sugestão.

É o que digo antes de assentir com um meneio e caminhar na direção de uma poltrona ao lado de Jimmy para me acomodar.

Não pretendo ficar por muito tempo, no entanto, pois me veria numa saia justa quando Maria e sua amiga chegassem. Porém, acredito que ir embora pura e simplesmente, sem esperar pelo menos um pouco, causaria mais alerta no cão de guarda. É como dizem, quem não deve não teme.

— Está mesmo interessado na Srta. Martinelli?

A pergunta de Jimmy me pega de surpresa. Ainda assim, consigo pensar rápido numa resposta qualquer.

— É uma boa moça. Encantadora. — Ergo um pouco o buquê entre nós. — Acha que ela vai gostar das rosas?

O irmão de Maria encara o buquê com uma expressão esquisita. Como se quisesse dissimular algo com esse ar de indiferença. Seria... despeito? Mas por quê?

— Algum problema?

— Nenhum — ele resmunga, desviando o olhar e cruzando os braços.

Eis um homem feito que mais se assemelha a uma criança emburrada agora.

Afinal de contas, qual é o problema de Jimmy Carbonell? Minha língua coça para pressioná-lo e arrancar alguma pista, porém, antes que eu abra a boca, ele comenta ainda sem me olhar:

— É só meio decepcionante, sabe? Certas mulheres e o péssimo gosto para homens. Seria esperado que elas preferissem outro tipo de homem ao seu lado. O tipo mais decente. E não qualquer conquistador barato.

Um som escapa da minha garganta e me surpreendo ao perceber que foi uma risada. Solto esse riso involuntário primeiro porque me surpreendo com a ofensa repentina, mas principalmente porque enfim tenho uma suspeita do motivo por trás do incômodo de Jimmy.

Dou risada também dessa ironia do acaso, pois, ao dizer o primeiro nome da pilha de correspondências, acreditei que seria a saída perfeita para uma saia justa, entretanto, apenas me colocou em uma nova enrascada.

Em minha defesa, como eu ia imaginar que Jimmy tinha uma certa queda pela Srta. Angie Martinelli? Acho que ele só viu a moça por um instante quando veio visitar a irmã pela primeira vez. E Maria nunca comentou nada comigo, embora talvez não tenha mencionado por falta de oportunidade, afinal nós reatamos oficialmente hoje e ainda não colocamos todos os assuntos em dia.

Atraindo meu foco de novo e deixando claro que não viu a menor graça na minha reação, Jimmy indaga com a voz mais dura:

— Algum problema?

E talvez eu esteja brincando com o perigo, só que não consigo resistir e acabo imitando, do jeito mais sonso possível, o que ele me respondeu há pouco:

— Nenhum.

As narinas dilatam quando ele expira com força, e resolvo dizer a primeira coisa que me vem à cabeça para apaziguar os ânimos:

— É que você se parece muito com a sua irmã! E isso é um elogio, acredite.

Oops... Nem sempre a primeira coisa que nos chega à mente é a mais prudente a se dizer, certo? A essa altura, eu já devia ter aprendido tal lição, mas... velhos hábitos são assim, difíceis de largar.

Jimmy franze o cenho, demonstrando nova desconfiança e que não largará do meu pé tão cedo.

— O que quer dizer com isso?

Para ser sincero, é cansativo pisar em ovos com esse enxerido. Posso estar me arriscando de novo, porém decido ser franco com ele pelo menos uma vez:

— Ela também é afiada com as palavras. Tem uma capacidade peculiar de me alfinetar com alguma ofensa gratuita e ainda assim fazer isso soar engraçado. Eu quase me sinto lisonjeado quando ela faz isso.

Jimmy estreita o olhar. Um olhar felino e muito astuto.

— E quando exatamente Maria teve oportunidade e liberdade para lhe dar essas alfinetadas, Stark? Pelo que me consta, minha irmã trabalhou para você e por um período muito curto. Depois disso, eu imaginei que vocês, sabiamente, haviam perdido qualquer contato. Estou certo no meu raciocínio?

Tudo bem, talvez eu tenha falado um pouquinho demais. Como não dá para voltar atrás, decido, pelo menos, trazer o rumo da conversa para águas mais tranquilas:

— O que veio fazer em Nova York mesmo? Digo, eu sei que está aqui para visitar a sua irmã, mas por que justo agora? Simplesmente saudade?

Jimmy me analisa por um longo momento. É nítido que nota a minha mudança de assunto nada sútil. E é claro que isso só deve fortalecer a desconfiança dele ao meu respeito. Contudo, como se não tivesse tanta pressa em me pegar no pulo, ele aceita a mudança e retruca:

— Maria é parte da minha família. Eu não preciso explicar a você por que decidi visitá-la justo agora.

Diz isso de um jeito muito ríspido, ao meu ver, virando o rosto em seguida e ignorando minha presença magistralmente.

Respiro fundo, porém não consigo me conter e a resposta malcriada simplesmente escapa da minha garganta:

— Tem razão. E eu não queria mesmo saber, só estava puxando assunto por educação. Tolice minha esperar que entenda o mínimo de etiqueta e civilidade.

E viro o rosto também.

Do balcão, Mirian nos espia por um momento antes de voltar à pilha de correspondências. Tenho certeza, no entanto, que seus ouvidos continuam atentos.

Pelo canto do olhar, percebo Jimmy virar a cabeça na minha direção. Devagar, chocado e ameaçador.

Talvez eu seja um homem morto agora, só que precisava me defender, ora essa! Afinal, que sujeitinho mais desagradável! Só porque tem dois metrôs de altura e a natureza foi exagerada com os músculos que lhe deu, acha que pode me intimidar?

Talvez ele possa mesmo, admito... Nesse caso, eu morrerei lutando!

Quando ele torna a se manifestar, a voz é gélida feito um iceberg:

— Muito bem. Eu vim para proteger a minha irmã de um malfeitor. Fiquei sabendo que o crápula está em Nova York.

Por um momento, tenho certeza que Jimmy está falando de mim, pois deve acreditar que eu sou um malfeitor e talvez apenas precise que eu confirme a desconfiança que tem sobre meu vínculo com Maria.

Essa ideia logo cai por terra, no entanto, porque meu sexto sentido me diz outra coisa. Embora possa até desconfiar de mim, dessa vez Jimmy está falando de outra pessoa.

Não é preciso pensar muito a respeito para deduzir quem é o verdadeiro malfeitor e crápula dessa história. Antes de mim, Maria se relacionou apenas com outro homem. Com um rato, melhor dizendo. Alguém que certamente despertou a ira de Jimmy, já que iludiu sua irmã por anos com a promessa de um casamento, usou-a ao seu bel prazer e a dispensou sem hesitar, manchando a reputação dela na cidade onde vivia e quebrando seu coração.

Em choque, olho para um ponto qualquer da recepção sem enxergar nada de fato. A visão estranhamente turva. Sinto também como se tivesse levado um soco no estômago e algo ferver em minhas veias. Uma mistura de descrença, revolta e um ciúme irracional duelam em minha mente desorientada.

Então, o sujeito está em Nova York? Está atrás do meu raio de sol? Por quê?

Lembro-me bem daquela fatídica carta que Maria escreveu para o ex-noivo e das coisas que me contou sobre ele depois. Lembro-me bem do nome do rato. Era...

— William.

Só percebo que falei em voz alta quando Jimmy questiona com um ar intrigado e perigoso:

— Como diabos você sabe o nome dele, Stark? É um assunto íntimo e delicado para Maria. Ela não te contaria algo tão pessoal. A menos que...

Um silêncio aterrador paira entre nós e me vejo obrigado a encarar Jimmy de novo. O que mais eu poderia fazer? Eu não sou um rato, não vou fugir.

A menos que tivesse algum grau de intimidade com você, é o que o olhar dele me diz. Um olhar feroz, só para constar, que se move até as rosas que seguro, antes de voltar para o meu rosto e se cravar em mim feito duas adagas.

— O buquê não é para a Srta. Martinelli.

É tudo o que Jimmy diz. E embora não tenha sido uma pergunta, decido admitir de uma vez:

— Não.

Ele expira com força.

— E para quem é?

Talvez esse seja o meu último dia de vida, porém não há como voltar atrás. Mesmo porque Jimmy não está perguntando de verdade, ele só quer a confirmação. E é exatamente isso que resolvo lhe dar.

— Você sabe.

Jimmy fica imóvel por um instante que parece durar uma eternidade. Sim, ele sabe. Acho que, no fundo, sempre desconfiou que poderia acontecer algo entre sua irmã e eu.

Ele ri de repente. Não um riso feliz, longe disso, mas um riso nervoso. E de fúria. O riso de um psicopata.

Estou quase rindo também quando, de súbito, a expressão se fecha feito o céu anunciando uma forte tempestade. Então, Jimmy coloca uma mão pesada no meu ombro e pede com a voz estranhamente mansa:

— Stark, me dê um bom motivo para não quebrar todos os seus dentes agora mesmo.

Penso rápido.

— Bom, você estragaria um lindo sorriso.

Ele fecha ainda mais a cara e se move, dando a entender que partirá para cima de mim nesse exato instante, porém consigo reagir mais rápido e me ponho de pé. Jimmy então se levanta do sofá e fecha as mãos ao lado do corpo com força enquanto me fuzila com um olhar... assassino.

Preocupado com a integridade das rosas, deixo o buquê na poltrona atrás de mim e ergo as mãos na altura do peito, esperando que ele considere se acalmar um pouco.

— Ok, claramente foi a resposta errada. E claramente você não gosta muito de mim. — Reparo na forma como ele me encara ao ouvir isso e reviro os olhos. — Nenhum pouco, ok, mas...

Procuro o que lhe dizer, alguma justificativa, qualquer coisa para acrescentar a esse mas e acalmar o seu ânimo exaltado. Só que acabo percebendo que não quero fazer isso. Na verdade, não preciso inventar desculpas para ele ou para qualquer outra pessoa. Não vou fugir. Não tenho que fugir. Jimmy Carbonell pode até não gostar de mim, mas...

— A sua irmã gosta.

Ele parte para cima de mim e crava as mãos enormes no colarinho da minha camisa com uma força descomunal, gritando:

— Eu vou te matar, Stark!

— Cavalheiros, por favor! — Mirian diz com firmeza atrás do balcão. — Sem violência nas dependências do Griffith.

Ainda estou lidando com o fato de que meus pés estão saindo do chão pouco a pouco, tentando me equilibrar na ponta dos pés, quando Jimmy sugere entredentes:

— Tudo bem, nós iremos lá para fora então.

Logo entendo que não foi uma mera sugestão, e sim uma ameaça real que ele não demora a colocar em prática. Ainda com as garras no meu colarinho, Jimmy me puxa e me empurra ao mesmo tempo rumo à saída. E com certeza, ele teria me arrastado mesmo até a calçada, se duas pessoas não tivessem surgido sob o arco da recepção nesse momento, impedindo nossa tumultuada passagem e minha morte prematura.

Uma dessas pessoas é Maria.

Apesar de nunca ter lhe visto tão pálida e apesar do perigo iminente que corro, não consigo evitar e sorrio para ela.

— Olá, raio de sol.

Sua resposta é arregalar os olhos, muito surpresa e alarmada, enquanto o brutamontes me fulmina ainda mais e reclama rente ao meu rosto:

— Como ousa chamar a minha irmã com tanta intimidade?

Nesse momento, a segunda pessoa resolve entrar na conversa com um simpático:

— Boa noite, rapazes!

— Boa noite, Srta. Martinelli — eu e Jimmy cumprimentamos Angie em uníssono.

Eu, digo isso meio sufocado, pois o colarinho está ficando cada vez mais apertado em meu pescoço. Jimmy, diz isso com certa gentileza e dando um olhar atencioso à moça antes de tornar a se concentrar em mim com a expressão implacável de antes.

É então que Maria enfim encontra o som da própria voz:

— Jimmy, o que pensa que está fazendo com... o Sr. Stark?!

Mesmo com dificuldade, consigo lhe falar:

— Pode dispensar as formalidades e me chamar de Howard mesmo, meu bem. Seu irmão já sabe sobre nós.

Ela arregala os olhos de novo e respira com certa dificuldade.

— Ele sabe?!

Balanço a cabeça algumas vezes, afirmando.

— Você contou?!

— Sim! Não... Mais ou menos! É difícil de explicar nessas... circunstâncias...

Jimmy me segura com mais força e, sem tirar o olhar feroz de mim, responde à irmã:

— Eu converso com você depois, Maria. Primeiro, preciso falar com esse aproveitador lá fora.

E assim, estou sendo arrastado e empurrado de novo.

É então que o raio de sol finca os pés na nossa frente e impede que o irmão passe comigo pela porta mais uma vez.

— Howard não é um aproveitador. E eu exijo que você o solte agora mesmo.

Jimmy ri, sem levá-la a sério. E como resposta, Maria se aproxima mais de nós, coloca a mão sobre as do irmão que ainda estão arruinando meu colarinho e comprometendo minha respiração, e avisa de um jeito muito sério:

— Jimmy, se você machucá-lo, se arrancar um fio de cabelo que seja, eu juro que nunca mais falarei com você. Eu não vou te perdoar nunca, entendeu?

Após alguns segundos de avaliação e muito a contragosto, o brutamontes acredita nela. Com a delicadeza de um cavalo selvagem, ele me larga de uma vez e dá um passo para trás.

Com os pés devidamente no chão agora e o orgulho meio ferido, alinho a camisa e esclareço:

— Eu tinha tudo sob controle, raio de sol, não precisava intervir.

Maria sorri de leve e passa a mão no meu rosto com carinho antes de abaixá-la para entrelaçar os dedos nos meus.

— Eu sei que tinha, patife.

Parecendo horrorizado com a cena, Jimmy leva as mãos à cabeça, afasta-se mais alguns passos e passa a andar de um lado para o outro, feito um animal enjaulado.

Um animal furioso com quem, eu sei, ainda terei que lidar.

— Por que diabos você contou pra ele? — Maria questiona baixinho, apertando minha mão com força.

Não parece muito satisfeita com a novidade e, pelo visto, terei que lidar com isso também.

— Eu posso explicar — asseguro. — Mas antes... Eu te trouxe uma coisa — lembro, sorrindo para ela.

Solto a mão de Maria e dou os primeiros passos na direção da poltrona, a fim de pegar o buquê de rosas.

No meio do caminho, no entanto, Jimmy surge na minha frente e algo me acerta em cheio no queixo. Surpreso, deduzo que foi o seu punho. O desequilíbrio me leva ao chão.

— Jimmy! — Maria grita de algum lugar, antes de surgir ao meu lado.

— Santo Deus! — Martinelli soa perplexa.

— Cavalheiros, eu já disse, não admito violência dentro do Griffith — é Mirian que reforça, nada satisfeita.

Meu queixo lateja de dor e algo quente escorre da minha boca. O maldito não me quebrou os dentes, mas certamente me arrancou um filete de sangue.

— Levante, Stark! — Jimmy berra de algum lugar no alto. — Levante para eu te bater de novo!

Olho para cima e lhe encaro com raiva antes de me levantar. Maria tenta ficar entre nós dois, porém eu consigo afastá-la com cuidado.

— Howard, não seja tolo...

Não lhe dou ouvidos. Posso ser um tolo, mas não sou um covarde.

Em pé, espero o próximo soco. E ele vem. Mais forte e doloroso do que o primeiro.

— Já chega... Eu vou chamar a polícia.

Ouço Mirian dizer isso com certo enfado, assim que o terceiro soco me atinge do outro lado da face.

Orgulhoso, reúno forças e consigo permanecer de pé.