O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Maria Julia Paes de Silva

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SCORPIUS

Por algumas semanas, Rose permaneceu incomumente retraída.

Não a culpava. Eu mesmo estivera a perder a concentração várias vezes, toda vez que deixava minha mente divagar de volta aos acontecimentos dos últimos dias.

Mesmo com toda a ajuda que lhe demos para desvendar aquele estranho enigma de Nina, não conseguimos quaisquer resultados, apesar de termos revirado a biblioteca em busca de alguma informação útil.

Todo o assunto sobre profecias, e as coisas estranhas que andavam ocorrendo... eu e Alvo estávamos realmente preocupados com ela.

Infelizmente, isso não foi compreendido pelos demais primos dela. Todos achavam que a mudança de atitude dela se devia à sua amizade comigo, o que não ajudou com que me encarassem de modo benevolente — apesar de Tiago ter começado até a me cumprimentar nos últimos dias, ainda que de modo excepcionalmente formal.

Para nosso alívio, porém, dois meses se passaram, sem que nada de anormal acontecesse. E, com o passar do tempo, nós três acabamos finalmente deixando de nos preocupar com o que havia acontecido.

Tanto meus pais quanto os de Rose e Alvo nos deram a opção de permanecer no castelo durante as festas de Natal — o que me surpreendeu, já que imaginei que os Potter e os Weasleys haviam adotado a mesma visão que os primos deles tinham de mim, e tirariam ambos de Hogwarts assim que tivessem oportunidade. E foi com satisfação que os vi darem o nome à diretora para passarem o Natal na escola, na primeira semana de Dezembro.

Na manhã de Natal, fui acordado com golpes animados de um travesseiro.

— Acorda, seu preguiçoso!

— Já estou indo – choraminguei de sono, me encolhendo nas cobertas.

— Anda logo, Scorpius – ralhou Alvo, fungando – ou vou abrir os presentes sem você!

Bocejei, me espreguiçando, e descendo da cama, sob o olhar humorado do meu amigo.

Descemos as escadas correndo, indo até a bela árvore de Natal que havia sido colocada no canto de nosso Salão Comunal. Como os primeiros a acordar, éramos os únicos ali naquela hora.

Alvo foi o primeiro a ajoelhar-se diante dos presentes, desembrulhando-os avidamente. Segurei o riso, vendo toda a sua empolgação.

— E aí? — indaguei – algo de bom?

Ele soltou um muxoxo, empilhando o conteúdo das embalagens ao seu lado.

— Chocolates da vovó Molly... e um suéter Weasley – fez uma careta, me mostrando um suéter de cor vermelha, com um grande A bordado na frente – hum... — pôs o suéter de lado, continuando — ah, o livro que papai escreveu... já foi publicado!

Inclinou-me um livro de capa vermelha, com o título "Desvendando o Quadribol – Passado e Futuro". Um pouco abaixo, vi o nome do pai de Alvo nos créditos de autoria. Peguei-o nas mãos, dando uma rápida folheada, e percebendo várias imagens e tópicos.

— Que legal! — arfei, realmente excitado.

— Pois é – concordou Alvo – ah... o tio Rony me mandou uma miniatura de Nimbus Ultimate! Que máximo!

Percebi que a família de Alvo realmente lhe mandara vários presentes. Porém, quando verificou a caixa do último embrulho, pareceu enrijecer ligeiramente, ofegando.

— Alvo? Tudo bem?

O garoto virou o rosto em minha direção, engolindo em seco.

— Da tia Hermione – sussurrou, virando-o para mim disse para entregar pra Rose.

Era um apito tosco, talhado em algo que lembrava um pedaço de osso. Franzi o cenho, segurando a ponta do objeto com os dedos.

— Um apito?

— È – ele respondeu em voz baixa – eu... eu acho que sei de onde é. Era dela – baixou a cabeça, pensativo – ouvi falar que ela o ganhou de uma criatura com que se deparou, quando ainda estudava em Hogwarts – piscou – por que minha tia daria isso para mim, e não direto para ela?

Dei de ombros, tão confuso quanto ele. Alvo fez uma careta, guardando o apito no bolso do robe.

— Quer ver os meus? — sugeri, tentando desviar sua atenção.

— Claro – Alvo concordou, sentando-se ao meu lado.

Nunca me surpreendi muito com os presentes de minha família. Embora sempre fossem realmente muito bons, eram o tipo de coisa que eu teria ganhado se simplesmente tivesse pedido. O ruim de pertencer à uma família rica era justamente saber que sempre ganharia os melhores presentes. E, uma hora, aquilo virava algo corriqueiro demais para se apreciar.

Assim como suspeitei, havia recebido um relógio novo de ouro dos meus avós, e vários doces feitos por mamãe, juntamente de um kit de limpeza para varinhas.

No entanto, quando abri o presente de papai, senti meus olhos se arregalarem.

Era um frasco pequeno, quase menor do que meu dedo mindinho. Possuía um conteúdo de cor dourada e brilhosa, e exalava um cheiro muito agradável ao olfato.

Junto dele, havia um bilhete.

Querido Scorpius,

Feliz Natal, campeão. Espero que esteja se divertindo.

Use isto APENAS quando necessário. Você saberá a hora certa.

Cuide-se, e não se meta em encrencas.

Abraços,

Papai

P. S. quando estiver pronto, siga o agoureiro.

— "Quando estiver pronto, siga o agoureiro" — balancei a cabeça – o quê?

Alvo apanhou o frasco de minha mão, soltando um longo arquejo.

— Scorpius... se isso for o que estou pensando, é realmente um senhor presente! — colocou-o contra a luz – ah, é sim, cara.

— O que é?

— Felix Felicis.

Foi minha vez de arquejar. Caramba. Felix Felicis... uma Poção da Sorte.

Ele tinha razão. Era um presente incrível....

E perigoso.

— Imagino o que ele fez pra deixarem mandar isso para mim – ergui-me, colocando o fraco no bolso do pijama – cara....

— Acho que acabei – Alvor recolheu tudo nos braços e voltou a subir as escadas – vamos ver o que Rose ganhou!

Dito e feito. Assim que guardamos nossos presentes, nos trocamos em silêncio, para não acordar nossos colegas, e nos encaminhamos para o Salão Principal.

Encontramos Rose sentada na beira da mesa da Grifinória, que estava quase vazia, exceto por uns poucos alunos que haviam ficado no castelo. Ela percebeu nossa presença, acenando para nós, e nos convidando para sentar com ela. Levantou-se do banco, virando-se em nossa direção.

— Feliz Natal, Rosie! -adiantou-se Alvo, abraçando a prima.

—Feliz Natal, priminho – Rose sorriu.

Para meu choque, ela jogou-se sobre mim, me apertando num abraço.

— E Feliz Natal, Scorpius!

Senti meu rosto esquentar involuntariamente, colocando o braço sobre as costas de Rose.

— Para você também... — murmurei, pego de surpresa.

Rose pareceu ficar um pouco sem graça também, já que me soltou rapidamente, colocando as mãos entrelaçadas atrás das costas, mordendo o lábio.

— Ahn... — sua cabeça virou-se de volta para a mesa, onde enfim percebi um punhado de embrulhos espalhados – eu não quis abri-los sozinha. Tiago está dormindo ainda... — suspirou – pensei em abri-los com vocês.

— Claro, Rosie! Por que não? — segurei seu ombro, dando-lhe um sorriso.

— Eu começo – brincou Alvo, se jogando do outro lado da mesa, fazendo alguns alunos da Corvinal rirem – estou andando nos presentes!

—Desce da mesa, seu maluco – desaprovou Rose, revirando os olhos, embora fosse óbvio que reprimia uma risadinha.

— Olha só – ele se dependurou de ponta-cabeça na mesa, sacudindo o maior pacote – esse é dos meus pais! — Alvo fingiu ler — "para a coisinha mais fofinha dos tios"....

— Me dá isso aqui, Alvo! — ele riu quando Rose lhe arrancou o presente das mãos – seu bobo!

Rindo, sentei-me ao lado de Rose, enquanto Alvo cruzou as pernas, ainda sobre a mesa de madeira, abarcando o queixo com as mãos.

— Do tio Harry e da tia Gina... — vi Rose lançar um olhar bem indulgente para Alvo, que se limitou a mostrar-lhe a língua, enquanto ela rasgava o embrulho – ah.... que máximo!

Além de também ter ganhado um exemplar do livro de Harry Potter, ela também recebera uma linda pena de pavão e um frasco de tinta vermelha.

— Exibida – Alvo me lançou uma piscadela.

Rose também havia sido presenteada com vários doces, e um suéter Weasley tricotado em lã rosa – nada mais adequado, na minha opinião.

— Da vovó Weasley– apontou para o suéter – docinhos da vovó Granger... sem açúcar – riu consigo mesma – e do papai e da mamãe.

Era uma embalagem bonita, toda embrulhada em papel prateado. Humorado, notei que ela aparentava sentir demasiada pena de rasgá-lo.

— A gente te compra outro – falei por fim, dando-lhe um empurrão nas costas, o que fez Rose gargalhar – abre logo!

Sacudindo a cabeça, Rose enfiou as mãos no presente, desembrulhando-o. Inclinamos as cabeças também, olhando dentro da caixa.

Para minha perplexidade, assim como eu e Alvo, Rose recebera algo bem incomum.

— Uma chave – peguei o objeto de cor prateada, decorado com padrões curiosos em sua base.

Havia outras duas coisas ali: uma fotografia bruxa, e um colar de prata.

Rose retirou o colar da caixa, erguendo-o na altura dos olhos. Dedilhou o pingente, que tinha a forma de um oito, posicionado na horizontal.

— Que lindo – pegou-o, colocando ao redor do pescoço – o que acharam?

Assentimos em aprovação.

— E essa chave? Para que serve?

— Tem um bilhete – apanhei o minúsculo papel, mostrando-o para os dois.

Querida Rosie,

Espero que esteja curtindo seu primeiro Natal em Hogwarts. Eu e o papai estamos morrendo de saudade, mas esperaremos vocês nas férias de Páscoa.

Tomara que não se sinta confusa com esses humildes presentes.

Essa chave abre uma porta – uma porta ao qual torço que espere pacientemente para encontrar. E esse colar é bem mais do que um simples adereço. Essa foto é bem mais que um registro. Guarde-os com carinho.

Irá compreender quando estiver pronta.

Com amor,

Mamãe

Rose franziu o cenho, recolhendo a fotografia na mão.

Enverguei o corpo para analisá-la, vincando a testa de confusão.

Reconheci a mãe de Rose, ajoelhada em uma das pernas, sorrindo serenamente para a câmera, abraçada em uma elfa doméstica de vestidinho rosado, que também tinha um amplo sorriso aberto, parecendo exageradamente eufórica com a perspectiva se ser fotografada.

Senti Rose paralisar-se ao nosso lado.

— Meu Deus.

Atônito, a vi empalidecer.

— Rosie?

Ela levou as mãos à boca, estremecendo.

— Vocês vão achar loucura – sua voz era pouco mais do que um chilrear de pássaro – mas eu... eu sonhei com essa elfa... na noite em que voltamos do Lago Negro.

Pisquei, sem compreender.

— Você nunca soube que seus pais tiveram uma elfa?

Rose negou com a cabeça, ainda abalada.

— Mamãe sempre defendeu o direito dos elfos domésticos... criou um artigo todo na Constituição voltada para eles... — Rose parecia atordoada – eu nunca imaginei... que essa elfa existiu... de verdade.

Uma tensão estranha pareceu se erguer entre nós.

Quando finalmente havíamos nos convencido de que toda aquela conversa de profecia havia terminado....

— Olha... eu sei que estamos todos confusos – Alvo interveio, taxativo – mas não vamos estragar o restante do dia correndo por aí atrás de pistas outra vez. Eu sei, Rose – interrompeu-a antes mesmo que ela abrisse a boca para protestar – prometo que vamos voltar a procurar. Mas não hoje.

Ela pareceu considerar a sugestão por um momento. Por fim, soltou um suspiro alto.

— Está bem – cruzou os braços – até por que não quero passar o dia todo com essa paranoia – soltou uma risadinha – podem me ajudar a guardar as coisas?

— Não sei – funguei, achando graça – podemos entrar na Torre da Grifinória?

— Claro que podem... só precisam ir acompanhados de alguém da Casa – observou.

— Por que só eu pareço achar que isso é errado? — ganiu Alvo.

Eu e Rose rimos, começando a recolher os presentes dela. Alvo aproveitou para lhe entregar aquele estranho apito, comentando que a tia dele devia ter enviado para o garoto por engano.

O resto do dia foi muito agradável. Yoko Thomas havia ganhado um pacote inteiro de Snap Explosivo, que jogamos por um bom tempo, enchendo o pátio de risadas.

Já as gêmeas Longbottom tinham feito a palhaçada de substituir algumas frutas do almoço por Frutas Falsas, que gritavam quando eram mordidas. Quase metade dos alunos da Grifinória caiu na brincadeira, causando uma maré de risos nos demais alunos – e quase um bom punhado de infartos.

Quando chegou de noite, a maioria estava cansada demais para ficar acordada, então acabamos indo dormir cedo.

Nos despedimos de Rose às nove horas da noite, pegando o caminho de volta para o Salão Comunal da Sonserina.

Notei que Alvo me acompanhou e modo anormalmente quieto.

— Tudo bem, Alvo?

Ele sacudiu os ombros, passando a mão pelos cabelos.

— Eu não sei, Scorpius. Isso tudo está muito suspeito para mim. Não parece ser coincidência termos ganhado presentes tão incomuns no mesmo dia.

Eu não sabia o que dizer. Hinam cabeça ainda estava tentando achar uma explicação para todos aqueles eventos estranhos.

No entanto, estávamos longe de conseguir a resposta.