“A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil serem felizes é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.”

Marcel Pagnol

—------0-------

ROSE

Faltava apenas um dia para que o trimestre de inverno começasse.

Era dia de Ano-Novo, e todos os alunos que haviam ficado em Hogwarts estavam eufóricos. Alguém havia espalhado o rumor de que um belíssimo espetáculo nos aguardava na virada do ano – e o rumor havia queimado como fogo, deixando todos extasiados, mal conseguindo esperar para que a noite chegasse.

Passei a mão pelo pescoço, acariciando o colar que mamãe me presenteara no Natal.

Ainda estava com a cabeça concentrada no curioso bilhete que ela havia enviado… e nos presentes incomuns de Scorpius e Alvo.

O que minha mãe havia tentado dizer com aquela conversa de eu “estar pronta”? Pronta para o quê, afinal de contas?

Eu tinha a sinistra impressão de que aquilo estava relacionado aos bizarros eventos que haviam começado à três meses atrás.

Ao mesmo tempo, achava isso uma bobagem. Afinal, se fosse verdade, por que meus pais simplesmente já não teriam me contado qualquer segredo?

— Anda, Rosie! — Alvo exclamou, me despertando de meus devaneios – vamos logo!

— Logo? — pisquei, ainda desorientada – para onde?

Meu primo riu, continuando a me puxar.

— Tãpuaki disse que ia fazer um duelo na forma animaga – ele explicou – Tamahine chegou em Hogwarts essa manhã, e eles combinaram de divertir os alunos com uma encenação.

Gracejei, balançando a cabeça. Era bem a cara de Tamahine aproveitar uma visita à escola como pretexto para se exibir.

Assim que nos aproximamos da campina mais próxima do porto do castelo, ouvimos um coro alto de vozes animadas, cantando em conjunto e batendo palmas.

Olá, olá, mas que baixaria

Olá, olá, mas que baixaria

Olá, olá, mas que baixaria

Olá, olá, olá

Luzes acesas, sinal de perigo

Aqui estamos, vai ser divertido

Rebelde sem causa e sem inimigo

E aqui estamos, vai ser divertido

Nos entreolhamos, rindo e nos unindo ao coral, entrando numa grande roda mista de estudantes, que nos receberam cheios de sorrisos.

— Eles chegaram?

— Já – Yoko confirmou com um aceno da cabeça – por que acha que os sanguinários da Sonserina estão pirando?

— Ei! — Alvo cruzou os braços, fingindo indignação, enquanto a cantoria continuava.

E eu esqueço o porque eu almejo

Oh sim, eu acho que é meu desejo

Eu achei difícil, é difícil de achar

Bem, tanto faz, deixa pra lá

Olá, olá, mas que baixaria

Olá, olá, mas que baixaria

— Sério? — ergui uma sobrancelha para Scorpius, que se divertia em esgueirar-se sobre os ombros dos alunos mais altos, tentando enxergar – Nirvana?

— È um clássico, priminha – Alvo deu de ombros, achando graça.

O canto cessou, dando lugar a gritos e mais palmas.

Do ponto em que estávamos, podia ver claramente dois lobos adentrando na clareira, vindos de pontos opostos do enorme círculo de terra. Já sabíamos que o menor e cinzento era Tãpuaki. O outro, de uma bela pelagem marrom, rajada de branco, só podia ser Tamahine.

Funguei, risonha, sem saber para qual daqueles dois malucos torcer.

— Eu aposto dois nuques na Tamahine – Alvo falou.

— Corta essa – contestei – Tãpuaki é menor. Sendo assim, é mais ágil.

— Acaba com ele, Tama! — gritou Tiago, enquanto Fred gargalhava.

Os dois nem deram tempo da plateia se recuperar. Tamahine empinou nas patas traseiras, vociferando um rosnado assustador, e lançando-se adiante, galopando na direção do irmão.

Como eu previra, Tãpuaki se esquivou com facilidade do ataque de Tamahine, causando vários assobios entre os espectadores. Pude jurar que ele emitiu um grunhido de humor, empinando a cauda provocativamente na direção da loba castanha.

Foi o bastante para Tamahine sair do sério, apelando para uma mordida no rabo do lobo, que ganiu desesperadamente, arrastando-se pelo solo como uma formiga pisoteada. Os risos coalharam a clareira.

— Na jugular! Na jugular! — berrava Scorpius, aparentando ser um torcedor eufórico numa final de Quadribol.

— Nossa, Scorpius – riu-se Alvo.

Tãpuaki revidou, abocanhando o pescoço de Tamahine e jogando-a contra um grupinho de alunos da Lufa-Lufa, que deram gritinhos de surpresa. Antes que eu tivesse tempo de ficar preocupada, a loba se reergueu, aparentemente ilesa, e voltou para o centro da clareira.

Por mais que o embate parecesse violento, eu sabia que nenhum dos dois estavam se machucando. Haviam treinado desde bebês para serem animagos plenamente conscientes, e aquele feroz confronto, para mim, nada mais era do que uma brincadeirinha amigável entre irmãos.

Os demais não compartilhavam de minha visão, vez ou outra fazendo expressões de horror e medo.

Por fim, quase cinco minutos depois, Tamahine cravou os dentes na nuca de Tãpuaki, imobilizando o lobo contra o chão, encerrando definitivamente a luta.

Toda a roda de alunos explodiu em aplausos e risos.

— Falei! — senti Alvo me sacudindo – Tamahine ganhou! Estão me devendo dois nuques!

— Ah, cala a boca – desdenhei, vendo Scorpius rir.

A multidão começou a se dispersar, com alguns poucos alunos ainda mantendo-se na clareira, a fim de parabenizar Tamahine – e consolar o coitado do irmão dela.

A loba ergueu-se, tomando sua forma humana original, e ergueu os braços em minha direção.

— Tama! — sorri, abraçando-a.

— Olá, aroha whero – ela retribuiu o abraço, afagando meus cabelos – como você está?

— Melhor do que eu, imagino – Tãpuaki, novamente como um garoto, desandou a resmungar, afagando a nuca.

Tamahine piscou um olho azul elétrico para o irmão.

— A culpa não é minha se você é um wuruhi desengonçado, teina.

Tãpuaki continuou xingando baixinho em maori, fazendo nós quatro rirmos.

— Isso foi… incrível! — ofegou uma garota da Corvinal – eu adorei cada segundo!

— Você é minha ídola a partir de agora – Tiago suspirou.

— Não se preocupe, cara. Você lutou bem – Chloe deu um tapinha reconfortante no ombro de Tãpuaki.

— Obrigada – Tamahine agradeceu aos alunos, dando uma risadinha e abraçando Tãpuaki. O garoto bufou por um momento, mas finalmente permitiu-se dar um sorrisinho.

Assim que nós três e eles ficamos finalmente a sós, ouvi Tãpuaki cochichar com a irmã atrás de nós.

— Devíamos perguntar se ela já sabe é uma huāngapēne?

— Ficou louco? — vi os olhos de Tamahine faiscarem – não… eu devia… eu não consigo ver…

— Hem, hem – pigarreou Alvo, interrompendo os dois – somos amigos… não precisam cochichar, cara.

Ambos se entreolharam, surpreendentemente tensos.

— Ah, certo – Tamahine assentiu, virando-se em minha direção – ah… céus – ela ergueu a mão, tocando o pingente do meu colar – foi Hermione que lhe deu isso?

Confirmei com a cabeça, acarinhando o delicado colar de prata.

— Foi. Mamãe me deu no Natal.

Percebi a expressão de Tamahine se turvar em uma preocupação estranha. Era como se a visão do colar lhe evocasse alguma lembrança do passado…

Uma bem ruim, por sinal.

— Ficou bonito em você – ela se limitou a dizer, ainda contemplativa.

— Rose não foi a única que ganhou um presente inesperado – Scorpius observou, me dando um soquinho de brincadeira no ombro – meu pai me entregou algo estranho também. E a mãe de Rose deu um apito para Alvo.

— Um apito? — o rosto de Tãpuaki se vincou – é sério?

É – acompanhei Alvo retirar o objeto do bolso de seu suéter – nunca vi um desse tipo. È muito curioso.

Os olhos de Tamahine se arregalaram, assim que ela os pousou no apito.

— Esse… apito…? — ofegou.

—Algo errado?

Ela emudeceu, baixando a cabeça.

— Não.

— Tamahine – senti minhas sobrancelhas se franzirem – estão escondendo alguma coisa da gente?

— Deixe de bobagem, Rose. Por que faríamos isso?

Percebi uma hesitação mínima na voz de Tamahine.

Suspirei.

— Só… curiosidade – menti, ainda pouco convencida.

Estava me sentindo levemente desapontada.

Tamahine sempre havia sido minha amiga desde sempre. Havíamos crescido juntas, e eu via nela a irmã mais velha que eu nunca tive oportunidade de ter. Sentir que estava ocultando algo de mim me magoava um pouco.

Ela aparentou perceber, já que debouçou-se sobre mim, me dando outro abraço.

— Ah, Rose… — lamentou-se – sabe que eu te contaria tudo que você estivesse pronta para saber.

Refreei a vontade de perguntar o que raios eu teria que esperar tanto, e o motivo por trás de tanto mistério.

Mas a família Williams era um grupo de pessoas que só guardaria um segredo se realmente fosse necessário escondê-lo.

Decidi que confiaria neles. Por mais que minha mente ainda se mantivesse confusa, ia entender que precisava espera para que se abrissem comigo.

O que não significava que eu não tentaria descobrir por mim mesma.

— Tudo bem – dei de ombros.

Tamahine sorriu.

— Ótimo. Nos vemos mais tarde, whero.

Ela deu um grito agudo quando Tãpuaki arrancou dois penachos de sua roupa maori.

— Eu vou acabar com você, seu pōrangi tampinha!

Começamos a rir quando ele correu, sendo perseguido por nossa amiga, até desaparecerem entre as árvores adiante.

— Esses dois são um barato – riu-se Alvo.

Sorri, concordando com a cabeça. Havíamos nos divertido um bocado naquela manhãzinha.

Ainda assim, tudo aquilo não parava de martelar em minha cabeça.

Eu estava começando a ter o assustador pressentimento de que minhas dúvidas iriam se multiplicar em breve.

E era exatamente isso que aconteceria…

À noite, finalmente fomos orientados a subir até as torres mais altas do castelo, para assistirmos à queima de fogos. Scorpius havia se adiantado, indo à nossa frente para guardar um lugar para nós três.

Enquanto subíamos as escadas da torre, porém, alguém avançou ao nosso lado, me empurrando contra Alvo.

— Ei! — reclamei, irritada.

Uma cascata de cabelos cacheados desapareceu á minha frente, assim que Astrid McLaggen virou seu rosto na minha direção, dando um sorriso desdenhoso. Ao seu lado, Thomas Clifford nos encarava do mesmo modo, cruzando só braços.

— Oh… cuidado, Thomas – ela deu uma risadinha – a escada está cheia de vermes. Cuidado para não escorregar!

Acima da escadaria, alguns alunos da Sonserina riram maldosamente.

— O que você disse? — rosnou Alvo, fechando os punhos.

Astrid baixou os olhos em Alvo, esquadrinhando-o com a expressão enojada.

— Já conheço a laia dos Potter – sussurrou venenosamente – mas você é nova no poço de lama, não é, Weasley? A filhinha adorada dos funcionários do mais alto escalão do Ministério… — deu um muxoxo de desgosto – sem o papai e a mamãe, você também não é nada.

Minha mão comichou em direção ao bolso da varinha. Ou pelo menso pensei que fosse uma comichão, já que minhas mãos começaram a formigar de modo estranho.

Antes que eu acabasse fazendo qualquer besteira, porém, senti uma mão pousar sobre meu ombro.

— Tudo bem por aqui, meninos?

Thomas se afastou, puxando Astrid consigo. A garota fechou a cara para nós.

— Tudo, Prof. Longbottom – resmungou, antes de desaparecer na curva da escada, com Thomas em sua cola.

Neville passou ao meu lado, dando uma piscadela em nossa direção.

— Essa foi por pouco, hein, Rosie?

Ri, sem graça, enquanto Alvo fazia uma careta.

— Obrigada, Neville – agradeci, aliviada – nossa… minha mão já ia fazer um passeio turístico na cara dela.

O professor deu risada, dando-me um tapinha nas costas.

— Vamos lá – acelerou o passo, subindo à nossa frente – já deve estar quase na hora…

Acompanhando-o, continuamos nosso trajeto, até finalmente terminamos a subida, desembocando no parapeito da torre.

Vi uma mão pálida acenar em meio ao grupo de alunos adiante.

—Aqui! — Scorpius nos chamou, sorrindo.

Nos juntamos a ele, ficando defronte a uma excelente visão dos terrenos de Hogwarts.

— Bom lugar, não acham? — ele reparou que Alvo ainda estava contraindo o rosto – o que houve?

Alvo ergueu uma sobrancelha.

— Astrid McLaggen. Foi isso que aconteceu.

Scorpius rosnou baixo.

— Essa garota tira qualquer um do sério – suspirou – ainda vou descobrir por que ela implica tanto com vocês.

— Ah. Deixa isso pra lá – puxei-os, brincando – novo ano, nova vida!

Ambos tiram, se posicionando ao meu lado, erguendo os olhares para o céu.

Acima de nós, perto das nuvens, uma contagem regressiva, conjurada por algum feitiço, começou a contar os segundos que restavam para o novo ano.

— DEZ…. NOVE… OITO…. SETE…

Comecei a contar também, acompanhando os demais. Estava realmente feliz por estar ao lado dos meus amigos naquele momento.

— SEIS… CINCO… QUATRO…

Desejei que o futuro me trouxesse mais momentos assim.

— TRÊS… DOIS… UM….!

O som foi ensurdecedor. Centenas de fogos de artifício explodiram no céu, clareando a imensidão negra, anunciando a chegada do Ano-Novo.

— FELIZ ANO NOVO!

Gargalhei, abraçando Scorpius e Alvo. Risonha, senti Yoko Thomas, Surya Patil, Michael Stark vários outros colegas nossos se juntarem, num enorme e divertido abraço coletivo.

— Feliz Ano-Novo, Rosie…. – Scorpius apertou minha mão.

Ver sua felicidade contagiante fez meu peito se esquentar de um jeito engraçado.

Repentinamente, porém, todos se viraram, exclamando alto e apontando em direção ao bosque. Os fogos pararam repentinamente, mergulhando o horizonte, por alguns segundos, num silêncio espantoso.

Arregalei os olhos quando, emergindo dentre as árvores, um gigantesco luzeiro de fogo ascendeu em direção ao céu, lançando labaredas coloridas sobre as nuvens, e causando um relampejo espetacular. O crepitar mais parecia um trovão retumbante, unido ao som do vendaval que o sustentava.

Era a coisa mais linda que eu já havia visto em minha vida.

Surpresa, senti um palpitar curioso em meu peito, como se meu coração quisesse se aproximar daquela manifestação surpreendente, e mergulhar em suas chamas.

Tão rápido como veio, o luzeiro se dissipou, desaparecendo no escuro da floresta, e os fogos recomeçaram.

— O que foi isso? — Scorpius estava deslumbrado.

— Cara… eu não sei – os olhos de Alvo estavam saltados – nunca ouvi falar de nada parecido em toda a minha vida!

— Foi lindo – falei, maravilhada.

Eu realmente estava disposta a descobrir quem havia criado aquele luzeiro tão bonito.

No entanto, naquele momento, me bastou simplesmente começar um novo ano ao lado dos meus melhores amigos.

Eu podia até ainda estar confusa e preocupada. Mas estava com meu ânimo interior renovado.

E isso seria vital para o que estava por vir….