“Para quem ama, qualquer sacrifício é alegria.”

Benjamin Franklin

—-----o------

SCORPIUS

Acordei com o piado alto e indignado de minha coruja.

– Ei… — murmurei, sonolento, enquanto Crystal sapateava em cima de mim com suas garras – já estou acordado. Se acalme.

Abri os olhos, ainda me espreguiçando.

Foi só aí que percebi por que ela estava tão aflita.

– Meu Deus!

Todo o chão do dormitório estava inundado.

Outros alunos começaram a acordar, dando guinchos de indignação e surpresa, tentando chapinhar através dos cinco centímetros de água que empapavam o dormitório da Sonserina.

– De onde veio essa água toda? — reclamou Alvo, andando na ponta dos pés numa tentativa desesperada de não ensopar seus sapatos.

Percebi Thomas Clifford nos lançando um olhar estranhamente desconfiado, como se nós dois tivéssemos alguma coisa a ver com aquela inundação.

As exclamações foram tantas que, finalmente, depois de alguns minutos, Peter Wayne surgiu na porta, arregalando os olhos para o caos aquático que se desenrolava ali.

– Que diabos… — ergueu a mão para nós – fiquem onde estão! Vou chamar um dos professores!

Dito e feito. Depois de mais algum tempo, ninguém menos do que a própria Diretora McGonagall veio nos recepcionar.

— …. e quando cheguei, havia água por toda a parte – ouvi Wayne dizer, enquanto os dois adentravam no dormitório.

Vi o rosto da diretora ficar nada menos do que aterrorizado.

Franzi o cenho. Sim, a situação estava mesmo lastimável. Mas não havia necessidade de ficar tão chocada assim.

Ela olhou ao redor por um segundo, finalmente dando um pigarreio e mascarando sua perplexidade.

– Sr; Wayne, acompanhe todos os garotos para os vestiários do campo de Quadribol. Pedirei que mandem vestimentas secas para todos, enquanto reúno os professores para organizar este dormitório.

– Sim, senhora – o monitor assentiu, por fim nos chamando – vamos, pessoal. Me acompanhem.

Eu e Alvo nos entreolhamos, atônitos.

Ninguém havia ouvido um gotejamento sequer durante a noite. Até onde sabíamos, nenhum cano, mesmo que interligado ao lago, poderia ter trazido toda aquela água.

Então… de onde ela viera?

– Olhe – Alvo disse.

O Salão Comunal não estava em melhor estado. A água havia escorrido pelas escadas e empapado todo o chão. Várias meninas, com as vestes molhadas, praguejavam à frente de nós.

– Não acredito! — ralhou Astrid McLaggen – se eu descobrir quem foi que fez isso…

Ela finalmente nos viu, e veio até nós, apontando o dedo acusatoriamente em nossa direção.

– Vocês! Foram vocês, não foram? Mas é claro!

– O que está havendo? — Peter irrompeu entre os alunos do primeiro ano.

– È mentira! — falei – não fizemos nada!

— Foram eles! — ela virou-se para o monitor – eles fizeram isso, monitor! Foi por causa do que eu fiz à amiguinha nojenta deles ontem à noite!

– Basta – Peter a olhou, fechando a cara – essa é uma acusação muito séria, Srta. McLaggen. Tem alguma prova?

– Eu só sei que foram eles! — insistiu Astrid, irritada – tem que levá-los à diretora imediatamente!

– Me chamou, Srta. McLaggen?

Vimos McGonagall lançar um olhar azedo à Astrid.

– Sim, diretora… eu disse…

– Já ouvi o que a senhorita disse – replicou Minerva – e suas suspeitas são infundamentadas. Tudo foi fruto de um vazamento do cano da parede acima do dormitório masculino, cuja inundação atingiu esse andar inferior. Nada além disso – ergueu uma sobrancelha para Wayne – não estava levando os alunos para o vestiário, Sr. Wayne?

– Sim… estava – Peter não parecia mais contente do que a diretora – vamos logo, pessoal. Sem demora. Andem!

Sem outra opção, continuamos nosso trajeto – agora agraciados pela presença irritante de Astrid e seu guarda-costas imbecil.

– Você acha que foi ela? — perguntei, meia hora depois, após sairmos dos vestiários, devidamente secos e trocados – quer dizer… acha que Astrid armou pra gente, tentando nos incriminar?

– Não sei – Alvo deu de ombros – ela é repulsiva, mas não parece coisa dela. Afinal, poderia acabar se arriscando a ser descoberta… eu acho.

– Que pena – resmunguei – adoraria pegar aquela patricinha mimada com a boca na botija…

Ouvimos um pigarreio no corredor em que entrados.

– Vocês vão acabar é se metendo em encrenca.

Reviramos os olhos para Tãpuaki, que se aproximou de nós, cruzando os braços.

– Vai passar sermão agora, Tapu? — Alvo o encarou, soltando uma risadinha– que eu saiba, você é monitor da Lufa-Lufa. E sabe que Peter detesta competição…

Tãpuaki empurrou a cabeça de Alvo, segurando o riso.

– Mais respeito, tampinha.

Sorri. Ele e Alvo, assim como os demais conhecidos da família Potter e Weasley, pareciam se dar extremamente bem. E eu gostava muito de Tãpuaki também – algo surpreendente para alguém da Sonserina, que tecnicamente não devia ser tão amigos de alunos das demais Casas.

– Ei, tá bagunçando meu cabelo – ralhou, embora parecesse achar graça – deixa a gente passar, halterofilista!

O rapaz deu uma risadinha, soltando Alvo. Meu amigo balançou a cabeça, me puxando adiante.

– Até mais! — acenei para ele.

Dobramos o corredor, finalmente bem-humorados, com a mente desviada daquele assunto do incidente no dormitório.

Quase nos esbarramos com Rose, que vinha na direção contrária.

– Oi, Rosie! — sorri para ela – está tudo… bem?

Rose me encarou, e ergui a sobrancelha, surpreso. Estava meio pálida, o corpo enrijecido de tensão, como um animal acuado.

– O que houve, Rosie? — Alvo segurou o ombro dela, preocupado.

– Eu… eu não sei. Acordei mal – ela gaguejou, abrindo e fechando as mãos na altura do peito – eu… não sei explicar… deve ter sido um pesadelo.

Baixei o olhar, encarando seus dedos. Estavam estranhamente úmidos, embora não houvesse nenhum sinal de água ou suor sobre sua pele.

– Soube o que aconteceu no nosso Salão Comunal? — falei, ainda confuso.

Ela assentiu.

– Yoko me contou – ela soltou um gracejo, um pouco mais animada – na verdade, a escola inteira ficou sabendo.

– Que ótimo. Agora vão zoar os alunos da Sonserina – funguei.

Caminhamos juntos pela área leste do castelo. Embora estivesse um dia bonito lá fora, a neve havia se atulhado nas saídas do pátio, desencorajando os alunos a caminharem pelas áreas externas.

Antes que chegássemos ao corredor do Salão principal, porém, ouvimos vozes adiante. Paramos de andar, encostando contra a parede do corredor em que estávamos.

– Você não compreende… — ouvi a voz da diretora ofegar, ansiosa – isso… e se tiver sido…? — ela resfolegou – se for verdade, teremos que dizer tudo. Não podemo arriscar!

Outra voz ressoou – uma voz que eu lembrava vagamente.

– Não! Não podemos fazer isso! Não agora! Tem que ser apenas uma coincidência, Minerva!

Rose franziu o cenho, perplexa, postando-se defronte ao corredor. A seguimos, estranhando sua mudança de atitude.

– Mamãe?

Mamãe?

Enverguei a cabeça, finalmente identificando a pessoa que conversava com a diretora McGonagall.

Era Hermione Weasley.

– Rosie! — a mulher exclamou.

Rose adiantou-se, abraçando-a. Hermione afagou-lhe s cabelos, enquanto minha amiga erguia a cabeça para a mãe.

– O que a senhora está fazendo aqui?

Vi a mãe de Rose lançar um olhar assustado para mim e Alvo, espreitando de esguelha a expressão tensa da diretora.

– Vim resolver um… assunto, querida – não pude deixar de reparar que a Sra. Weasley estava com a mesma expressão assustada que a diretora havia feito no dormitório da Sonserina.

Embora eu percebesse que Rose não se dera por satisfeita com a explicação, ela não pareceu ficar se remoendo com isso naquele momento, simplesmente voltando a abraçá-la.

– Senti sua falta.

A diretora deu uma risadinha apreciativa.

– Eu também, minha flor – Hermione beijou o topo da cabeça de Rose – depois nos vemos de novo, meu amor. Volto logo – ela se reergueu, virando-se para Minerva – podemos continuar essa conversa em… outro lugar, Minerva?

Me surpreendi com o ligeiro tom seco da diretora.

– Pensei que já tivéssemos encerrado a questão, Sra. Weasley.

Algo muito estranho aconteceu nos segundos seguintes. McGonagall ofegou, dando alguns passos para trás, abrindo um esgar de espanto.

– Por favor, Minerva.

Alguma coisa no modo como Hermione falou me causou um bizarro calafrio.

McGonagall suspirou, relaxando o corpo, fechando os olhos por um momento.

– Está bem… — rendeu-se – vamos – meneou a cabeça em nossa direção – aproveitem o tempo livre, meninos.

Acompanhamos a mãe de Rose e a diretora deixarem o corredor, entrando na trifurcação adiante e desaparecendo de vista.

– Ok. Isso foi… estranho – Alvo coçou a cabeça – por que tia Hermione está aqui?

– Não sei – Rose suspirou – cara eu… não sei.

Bufei. Quando achávamos que todas as coisas estranhas já haviam acontecido naquele ano, vinha o destino e nos dava outro tapa na cara.

Primeiro, meu pai aparecia do nada no primeiro dia de aula. Depois, aquela estranha pessoa no lago havia surgido, quase matando Nina. E agora a mãe de Rose vinha conversar com a diretora, sobre um assunto que, pelo visto, não podia esclarecer diante dos alunos.

Agora era oficial. Algo estranho estava acontecendo, e havia quem estivesse escondendo tudo da gente.

Mas por quê? Por que todos pareciam saber o que estava acontecendo, exceto nós três?

– O que? — Alvo troçou, parecendo ler minha mente – acha que é algum tipo de conspiração?

Rose estreitou os olhos.

– Você está assistindo muito Once Upon A Time, primo. Só acho.

– A culpa não é minha – ele sacudiu os braços – a Regina é muito gata.

Os dois começaram a rir, enquanto eu só os encarava, sem entender nada. Ambos se entreolharam, achando graça.

– Sabe, Rosie… acho que está na hora de mergulhar Scorpius na cultura trouxa….

Encurralado, tive que deixar Alvo e Rose praticamente me darem uma aula sobe o modo de vida dos trouxas.

Para minha surpresa, até mesmo Tiago decidiu participar, juntando sua coleção de estranhos objetos com as quinquilharias de Yoko Thomas.

E, pobre de mim, fui seduzido pela curiosidade.

– O que é isso? — sacudi algo de forma retangular, fino e relativamente pesado.

Ah… isso é um celular – riu Yoko – não funciona aqui por causa da magia… mas serve para ligar para outras pessoas… e mandar e-mails.

– E-mails?

– È – assentiu Tiago – são como correspondências de correio coruja… só que só podem ser lidas quando chegam ao destinatário.

– Como cabe tudo isso aqui dentro? — sacudi o celular – que magia estranha…

– Tecnologia – Rose sorriu – é um tipo de magia que os trouxas desenvolveram para facilitar a vida, já que não conhecem a nossa.

Estava simplesmente encantado. Era fascinante ver a criatividade dos trouxas para substituir a necessidade de magia em sua sociedade.

– Olha essa revista – Alvo me entregou uma publicação de várias páginas, com várias figuras estranhas e coloridas.

– Que legal – apontei para uma das imagens da revista – o que é isso?

– Só o melhor desenho japonês do mundo – vangloriou-se Yoko Thomas.

– E desde quando Naruto ganhou prêmio no Tokyo Anime Award Festival para ser considerado o melhor anime? — replicou Rose.

– Ah, pelo amor de Deus – interrompi os dois, fazendo todos rirem – eu só falo inglês!

Passamos uma tarde divertida brincando com os objetos de Yoko e Tiago. Aprendi muitas coisas sobre os aparelhos eletrônicos, conheci vários livros de autores não-bruxos, e, até o fim do dia, já sabia explicar de cor todo o primeiro episódio do seriado de The Walking Dead.

Assim que o toque de recolher foi dado, acompanhamos Rose até a Torre da Grifinória, e nos despedimos dela.

A vi entrar na passagem do quadro da Mulher Gorda, até que ela sumiu na escuridão.

Suspirei, soltando um risinho. Rose era mesmo uma criatura inigualável.

Percebi, espantado, Alvo me abrir um grande e pretensioso sorriso.

– Ah, cara. Sério?

– O quê?

Ele riu, cruzando os braços.

– Você… está gostando da minha prima, Scorpius?

Recuei, embasbacado, sentindo meu queixo cair.

– Quê? Claro que não! — ofeguei, chocado – somos amigos!

– Só isso? — insistiu, içando uma sobrancelha de modo sugestivo.

– È, cara – ainda estava perplexo demais para pensar direito – ela é minha melhor amiga! Ah, para, Alvo! — bati no ombro dele, enquanto Alvo só ria.

Observamos um pequeno grupo de alunos da Grifinória se aproximarem da entrada da torre – entre eles, Yoko Thomas, que se prontificou para dizer a senha.

– Renovação — proferiu, confiante.

A Mulher Gorda lançou-nos um olhar estranhamente sorrateiro.

– Sinto muito, meninos. A senha foi mudada pela próxima meia hora. Só poderão entrar com a senha antiga daqui a alguns minutos.

– O que? — exclamou Yoko – como assim? Ninguém nos avisou nada! Não há ninguém da Grifinória aí dentro ainda! — sua expressão se fechou – quem foi que fez isso?

– Sejam pacientes, crianças – a mulher aconselhou gentilmente – a Sra. Weasley irá se retirar em breve.

Foi o bastante para fazer com que Alvo e eu recuássemos.

Hermione estava dentro na Torre da Grifinória.

E, pelo visto, queria que ela e Rose ficassem completamente a sós….