“Se não queres que ninguém saiba, não o faças.”

— Provérbio Chinês

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ROSE

A Torre da Grifinória estava estranhamente deserta.

Confusa, tentei vislumbrar qualquer aluno que fosse dentro do Salão Comunal. Nunca havia visto aquele lugar sem o som de risadas e passos animados.

— Olá?

Alguém finalmente abandonou as sombras que já se erguiam da janela da torre. A pessoa se aproximou cuidadosamente, sorrindo para mim.

— Sou eu, querida.

Ofeguei.

— Mamãe! – dei uma risadinha surpresa, indo abraçá-la – você apareceu!

Ergui meu olhar, sentindo meu próprio sorriso vacilar.

Minha mãe estava com uma aparência incomum. O olhar inquieto, o corpo retraído. Jurava que o tremor em seus dedos não se originava da corrente de ar frio do castelo.

— Ah, Rose – mamãe suspirou, dedilhando suavemente meus cabelos – não faz ideia da saudade que eu senti de você, filha...

— Está tudo bem, mamãe? – desatei a indagar – onde... onde estão todos?

Ela deu uma risadinha baixa.

— Estou, meu bem. E... bem... pedi que McGonagall me desse privacidade para... uma conversa particular com você. Sabe como é... tenho um ou outro privilégio com relação á visitas na escola.

Senti meus olhos saltarem. Minha mãe havia praticamente interditado uma torre inteira... só para conversar?

— Eu fiz algo errado? – guinchei, preocupada.

— Oh, não. Não, Rose. Você não fez nada de errado. Eu só queria... ter um momento a sós com minha filhinha – mamãe ensaiou um balançar de ombros – mas se eu estiver sendo incômoda...

— Não, mãe. Está tudo bem. Pode ficar – disfarcei um pigarreio – é que... a senhora me surpreendeu. Só isso.

— Entendi – mamãe sentou-se no sofá defronte á lareira, gesticulando para que eu me acomodasse ao seu lado, o que fiz logo em seguida – mas e então? Como estão as coisas por aqui, Rose? O que acha do primeiro ano?

— Ah, é incrível, mamãe – excitada, comecei a tagarelar – estou adorando as aulas! Alvo está indo bem também... a prima Victorie quer bancar minha babá particular – revirei os olhos, enquanto minha mãe riu

— E seus amigos? – prosseguiu.

— Fiz bastante – falei, entusiasmada – ando mais com Alvo, mas conheci o filho da Oliviene... Yoko, a filha do Dino... eles são muito legais. E o... o Scorpius.

Percebi que mamãe enrijeceu, quando eu lhe disse o nome do meu amigo.

— Scorpius Malfoy, não é? – assenti timidamente – parece ser um bom garoto... – ela deu um sorriso torto – você gosta dele?

— Ele é o meu melhor amigo – falei em tom baixo, hesitante.

Fiquei esperando que minha mãe, tal como meus primos, dissesse que Scorpius era uma má companhia para mim.

No entanto, para meu espanto, ela apenas murmurou consigo mesma.

— Tudo bem... fico feliz que esteja se divertindo – os dedos dela tamborilaram no encosto do sofá – e tem alguém lhe aborrecendo?

Fiz uma careta.

Não sabia se devia contar para ela sobre Astrid. A última coisa da qual eu precisava era que meus pais fossem tirar satisfações com a família dela, e eu fosse tachada como a garotinha indefesa, que mal sabia lidar com uma briga. Não daria esse prazer á McLaggen.

— Não.

Vi-a cruzar os braços.

— Rose...

Minha mãe parecia ter um assustador sexto sentido para detectar mentiras. Essa era uma das coisas que mais me surpreendia nela.

— Está bem – suspirei, derrotada – é uma garota da Sonserina... Astrid McLaggen.

Á menção do nome dela, mamãe fechou a cara.

— Ah... a filha de Córmaco... e daquela mulher – foi impressão minha ou o tom dela pareceu ficar quase venenoso no fim da frase? – compreendo. Ela deve ter um gênio bem difícil, certo?

— Nem me fale – rilhei os dentes, irritada só de pensar – mãe... você não vai... falar com ela, não é?

— Quem? Eu? – surpresa, encarei-a , enquanto mamãe dava uma risada gostosa – e tirar de você a chance de resolver isso por si mesma? De provar á ela, e á todos os demais, que você é bem melhor do que parece ser?

Arfei, pega de surpresa.

— Puxa... obrigada, mamãe.

Ela bagunçou meus cabelos, gracejando.

— Você vai fazer isso, meu bem. Mais cedo do que imagina – seu sorriso esvaneceu por um momento – agora... eu queria lhe perguntar algo, Rosie. E quero que seja sincera. Pode fazer isso?

Senti um arrepio perpassar por minha espinha.

Por alguma razão, tinha a impressão de que minha mãe estava prestes a tocar em um assunto bem delicado. E, talvez pelo mesmo motivo, sentia que sinceridade seria a última coisa que eu usaria á partir daquele momento.

— Sim – me esforcei para parecer convincente.

Se ela percebeu a mentira, não demonstrou.

— Muito bem – sua voz baixou, ligeiramente mais séria – você já conheceu uma ninfa aquática chamada Nina?

Foi como levar um coice de hipogrifo na cara. Arquejei, erguendo a cabeça.

Por que mamãe queria saber sobre ela?

O medo se agitou em meu estômago. Todas as lembranças de meses atrás ressurgiram. E com elas, as palavras de Nina

“Vocês não poderão contar sobre ela à ninguém. Guardem esse segredo.”

Tinha parecido fácil no começo. Mas agora, com mamãe confrontando diretamente a questão de minha relação com Nina...

Como eu mentiria sobre algo tão sério para a minha própria mãe?

— Sim – disse cautelosamente – eu a conheci.

Vi suas mãos se fechar em punhos.

— E ela... contou-lhe alguma coisa? – acrescentou, objetiva — algo que disse para não... contar á ninguém?

Tentei controlar o tremor em minha voz.

— Não – respondi, enrijecida – ela não... me disse nada.

Um silêncio tenso surgiu entre nós duas. Algo me dizia que mamãe estava mais do que apenas querendo descobrir a falsidade em meu olhar.

Por fim, desmanchando aquele momento aflitivo, minha mãe meneou a cabeça.

— Tudo bem... – declarou – era só isso, doçura – consultou seu relógio de bolso – minha nossa... olhe só a hora... McGonagall vai me azarar por isso. Melhor sua velha mãe pegar o trem de volta para Londres.

Ri, numa tentativa de voltar á ficar descontraída.

— Você não é velha, mamãe.

— Ah, é? – ela soltou um muxoxo – diga isso para o seu pai. Disse á ele ontem o quanto estava acima do peso, e implorei para ele me dar um elogio.

— E o que ele disse?

A ouvi soltar um falso choramingo.

— “Sua visão está ótima, querida.”

Não agüentei. Gargalhei junto com mamãe.

Por fim, assim que sequei as lágrimas de tanto rir, ela adiantou-se erguendo-se do sofá e começando a pegar o caminho para fora da Torre da Grifinória.

— Bem... vou embora agora, meu anjo – mamãe me deu outro abraço apertado – se cuide... e mande uma carta na próxima semana. Está bem?

= Pode deixar – concordei.

Mamãe me lançou uma piscadela, por fim empurrando o retrato.

Ainda dentro do Salão Comunal, ouvi várias exclamações exasperadas dos estudantes que começaram a adentrar na torre. Vi mamãe me acenar ao longe, e finalmente desaparecer quadro afora.

— Mas que diabos...? – Yoko praguejou, sacudindo a cabeça – o que vocês duas estavam tramando aqui dentro?

Mantive-me em silêncio, hesitante.

— Mais respeito, garota! – Tiago ralhou – ela é minha tia – ele empertigou-se – e a Vice-Ministra da Magia.

— Espera um pouquinho – uma garota de cabelos louros guinchou – você realmente é filha de Hermione Weasley?

— Sou – careteei, aborrecida com aquela velha pergunta.

Antes do quadro se fechar, percebi Alvo e Scorpius do lado de fora, me encarando com evidente preocupação;

Acenei para eles, torcendo para que entendessem que eu diria o que havia acontecido assim que deixasse a Torre no dia seguinte.

Suspirei alto, vendo a passagem enfim se fechar completamente.

— Mas isso não dá o direito de botar meia Grifinória pro lado de fora da Torre no meio da noite! – ia esbravejando a garota loura.

Yoko bateu o é, irritada.

— Cara... se você achou ruim, registra uma queixa com minha mãe lá na Ouvidoria do Ministério – ralhou — agora para de fazer baderna no meio do Salão Comunal, e deixa a gente subir para dormir!

— Nossa, Yoko – Tiago gemeu.

— Ah, eu estou revoltada mesmo! Me processem! – continuou falando, enquanto subia escadaria acima.

Entreolhei-me com a pobre menina, segurando o riso.

— Não ligue para ela – falei, achando graça – Yoko é meio espalhafatosa mesmo.

— Mas numa coisa ela tem razão – bocejou Tiago – está mais que na hora de dormir. Vamos subir logo.

Atendendo mais que prontamente á sugestão de Tiago, todos nós tomamos nosso rumo em direção aos dormitórios.

Acompanhei as garotas até o dormitório feminino, também me arrumando para dormir.

No entanto, quase meia hora depois, já com todas as garotas em suas devidas casas, eu ainda me mantinha acordada, seriamente perturbada pelo que havia acontecido algumas horas atrás.

Era estranho. Quase assustador. A visita de mamãe á Hogwarts não podia ter sido uma mera coincidência — assim como seus questionamentos sobre Nina.

Eu estava começando a ficar realmente perdida.O que todos pareciam estar escondendo de mim?

Estava começando a achar que havia sido uma péssima ideia manter o que Nina havia me dito em segredo. Por que não havia contado á mamãe, afinal de contas?

Soquei o travesseiro, emburrada, enfiando minha cabeça na maciez do tecido.

Senti Teaspoon esgueirar-se por cima de mim, aninhando-se ao meu lado, ronronando suavemente.

— Olá, Tea – sussurrei, acarinhando a pelagem macia de minha gata – você não deve saber o que estão aprontando pelas minhas costas, não é?

Ela miou em tom absurdamente baixo, como quem pede desculpas.

— Ah, tudo bem – cocei suas orelhas – um dia, vou descobrir. Não posso ficar me estressando com isso, ou vou acabar ficando louca. Certo? – assumi que o meneio de seus bigodes tivesse sido um sim – está decidido então. Não vou ficar pensando nessas coisas. Já tenho muito com que me preocupar.

Soltei um longo bocejo, aninhando-me ainda mais contra o colchão. Teaspoon encolheu-se em meu braço, também se aconchegando em meu corpo.

— Boa noite, Tea.

Minha gatinha ronronou em resposta.

Abracei-a, fechando os olhos, finalmente me permitindo adormecer.

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Quando acordei, percebi um rebuliço incomum dentro do dormitório feminino.

Havia várias garotas falando em voz alta, aparentando um crescente desespero. Outras, contradizendo as primeiras, cochichavam em tom muito baixo.

Levantei-me, assustada.

Para meu maior desespero, Yoko Thomas estava soluçante, com o rosto inchado de tanto chorar. Gritava coisas desconexas, tapando os ouvidos, recusando qualquer aproximação das demais estudantes da Grifinória.

— O que houve? – exclamei, atordoada.

Clary veio até mim, também chorando.

O que ela me disse fez meu estômago despencar.

— È o Dino. O pai dela, Rose... o encontraram na Floresta do Deão – soltou um lamento torturado – ele está morto.

Foi a ultima coisa que ouvi, antes de tudo escurecer.