Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I
18 Cisnes e Cristais
“O medo atribui a pequenas coisas grandes sombras”
— Provérbio Sueco
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ROSE
Acordei ouvindo gritos altos ao longe.
Pisquei, confusa, vendo minha visão voltar lentamente ao foco.
Não consegui distinguir o que as exclamações diziam, mas identifiquei uma cólera ameaçadora nas palavras que eram ditas.
Finalmente me ergui, ainda tonta, por fim entendendo o que diziam.
— Eu te protegi, Hermione! Fui sua amiga! Dino confiava em vocês, mais do que confiava na própria família!
Perplexa, ouvi a voz de minha mãe soar, num tom suplicante.
— Eu sei, Cho. Eu sinto muito... também estou arrasada.
— Arrasada! – a outra voz caçoou, de um modo terrivelmente sofrido – você não sabe o que é ficar arrasada, Granger! Só por que perdeu um tio, acha que pode dizer que sofreu, é? Pois está enganada – a mulher soluçou – você não sabe... não sabe o que é acordar de manhã... e saber que seu marido... nunca mais voltará para casa...
— Cho... – mamãe suspirou.
O som de um tapa ecoou tão alto, que refreei um pulo na cama em que estava sentada.
— Fique longe da minha filha – Cho sibilou — fique longe de nós. Mantenha sua pequena aberração longe de Yoko – o tom seguinte foi de uma surpreendente ameaça – você podia ter feito algo. Podia ter salvado Dino. A culpa é sua, e você sabe disso – aumentou o tom, vociferando – mantenham-se longe de nós... ou não serei mais a única a arranjar um enterro.
Em seguida, ouvi passos velozes deixando o recinto, e o som de uma porta batendo violentamente.
Vi uma sombra se aproximar, puxando a cortina que havia ao redor de meu leito, recolhendo-a para o lado.
Da fresta, surgiu o rosto inchado e choroso de minha mãe.
— Ah, Rosie...
— Mamãe... – ofeguei – é verdade? O Dino...
Ela sentou-se ao meu lado, me abraçando. Senti-a assentir contra meu ombro.
— Sim, querida. Infelizmente.
Senti um soco na boca do estômago.
— O que aconteceu?
Vi mamãe balançar a cabeça sofregamente.
— Não sabemos ainda. Ele havia mandado uma coruja para o Ministério da Magia ontem á noite, pedindo reforços em uma incursão na Floresta do Deão. Quando os aurores chegaram, ele...
Ela arquejou, e não completou a frase. Ela parecia realmente desolada com o que havia acontecido.
Condoída, segurei a mão dela.
— Vai ficar tudo bem, mamãe – tentei consolá-la – Cho só deve estar... enlutada. Você nunca poderia ter evitado isso, não é?
Minha mãe levantou os olhos, me encarando.
Seus olhos me percorriam de modo analítico. Pela primeira vez, me dei conta de que Hermione Weasley, uma das maiores bruxas dos últimos tempos, havia visto e vivido coisas que eu jamais poderia imaginar.
— È... complicado, Rosie – disse por fim – é complicado.
A cortina voltou a se retrair, e Madame Pomfrey surgiu diante de nós, parecendo estranhamente agitada.
— Hermione... – ofegou baixinho – uma carta do Ministro acabou de chegar para você. E disse para retornar imediatamente para Londres.
Mamãe se levantou, acenando com a cabeça.
— Está bem. Diga á McGonagall que estou de saída.
A curandeira concordou, afastando=se para que minha mãe deixasse o acortinado do leito, retirando-se daquele cubículo.
— Mãe?
Ela me fitou, forçando um sorriso.
— Descanse, querida. Vou resolver isso. Apenas... cuide-se. E tenha cuidado.
Deixando-me mais essa sugestão enigmática, ela adiantou-se, retirando-se da enfermaria, e finalmente sumindo de vista.
Quando eu retornei para a Torre da Grifinória, ainda havia uma relativa balbúrdia entre os estudantes, principalmente entre aqueles que conheciam a família Thomas.
Havia um grupo de várias meninas ao canto do Salão Comunal, parecendo revezarem-se para apoiar a garota soluçante diante delas.
Tiago me interceptou na entrada da Torre. Estava absolutamente chocado.
— Rosie? – segurou meu ombro – aconteceu? De verdade?
— Sim – respondi, pesarosa – como ela está?
Ele lançou um olhar nervoso ao canto.
— Nada bem.
— Eu devia falar com ela...
Antes que Tiago fizesse qualquer observação sobre a imprudência de minha sugestão, porém, vi Yoko se erguer, abrindo passagem entre as demais alunas – e, para meu choque, dirigindo-se diretamente até nossa direção.
Tiago recostou-se de modo protetor em meu braço.
No entanto, percebi que tal gesto não seria necessário, assim que Yoko postou-se diante de mim, lacrimejante, soluçando alto, Abraçava o próprio corpo, como quem lutava para não se dispersar em milhares de pedaços.
Era doloroso de se ver.
— Yoko...
Ela me encarou, ofegando.
— Eu estava lá, Rosie... – murmurou, angustiada – eu não... não concordo com mamãe... Ninguém podia... ter feito nada... ninguém poderia ter salvado meu pai... v-vocês não tem culpa...
Não me importei com sua possível reação. Meu impulso foi natural e necessário.
Yoko desabou em meu ombro, chorando alto, assim que a abracei.
— Sinto muito, Yoko. Sinto muito – guinchei, também sentindo meus olhos lacrimejarem de aflição.
Ela não respondeu. Desconfiava até que não tinha nenhuma condição de fazê-lo naquele momento. Simplesmente continuou soluçando em meus braços pro alguns segundos, desconsoladamente.
Enfim, algum tempo depois, Yoko soltou-se de mim, sussurrou um agradecimento choroso e disparou em direção á escadaria, subindo Torre acima e desaparecendo de meu campo de visão.
Baixei a cabeça, tristonha. Senti uma mão se apoiar em meu braço.
— Ela vai ficar bem – Clary suspirou – foi um baque para todos nós.
Imaginava que Clary mal tinha noção da verdade em suas palavras.
Durante o resto do dia, ninguém estava se sentindo bem para se animar com o retorno do período letivo. Não se cochichava outra coisa entre os corredores.
As aulas do dia haviam sido suspensas pela diretora, que comentara sobre o terrível incidente durante o almoço, estabelecendo luto oficial até a manhã seguinte – algo que achei realmente gentil da parte dela, considerando que Yoko Thomas mal tinha vontade de sair de nosso Salão Comunal.
Havíamos tentado de tudo para fazê-la ao menos se alimentar, mas a garota estava inconsolável. Não sabíamos mais o que fazer.
Alvo e Scorpius haviam até desconsiderado a possibilidade de ir até o porto para assistirem o retorno dos alunos que haviam passado o Natal em casa. Decidiram, em vez disso, ficar em minha companhia, á beira do Lago Negro – um gesto pelo qual me senti realmente grata.
— Que coisa terrível – Alvo disse, jogando mais uma pedra contra a água do lago – coitada da Yoko. Dino sempre foi muito amigo de papai... era um cara tão legal...
— Nem me diga – queria que não tocassem mais no assunto, mas entendia que isso não aconteceria tão cedo, dado o coque coletivo que aquilo havia produzido – ele entrou para a frente de aurores na mesma época que meu pai. Era quase da família.
Scorpius apenas nos ouvia em silêncio, observando as marolas que a pedra de Alvo havia criado na água.
— O que acha que aconteceu? – meu primo indagou, tenso.
— Não faço ideia. Mamãe disse que iria resolver tudo quando chegasse a Londres. Penso que os aurores já estão investigando... – inspirei, pensativa – ela estava tão chateada quando me contou...
— Será que foi algum bruxo das Trevas? – Scorpius finalmente se manifestou – os Comensais da Morte já não foram todos presos... ou mortos?
— Aí é que está, cara – Alvo fungou – na teoria, sim. Mas sempre existem alguns radicais... pessoas que ainda simpatizam com a obra que Voldemort fez... – ele balançou a cabeça – mas ainda assim... é estranho. Dino era um auror excepcional. Era versado em todas as técnicas de luta e magia, assim como nossos pais. Seja lá quem tiver feito isso, sem dúvida tem uma magia bem forte.
Olhei de esguelha para Alvo, suplicante. Ele compreendeu meu pedido mudo, assentindo lentamente.
— Devíamos fazer um presente para Yoko – sugeriu Scorpius – sabe... para ela se animar um pouco, se possível...
— Boa ideia – concordei.
— Vejamos... do que ela mais gosta? – Alvo abraçou os joelhos.
Antes que eu pudesse dizer pela décima vez a Alvo que Yoko adorava cisnes, ouvi um burburinho estranho adiante, vindo da beira do lago, atrás de uma das árvores mais frondosas ao meu lado.
— Que som é esse?
Levantei-me do gramado, caminhando até a margem.
— Mas que di...?
Abismada, baixei a mão, segurando uma surpreendente estatueta de cisne, que parecia ter magicamente emergido entre os ramos da árvore. Era todo feito de cristal, e brilhava de modo fantástico á luz do sol.
— Rosie?
— Olhem só isso! – arfei, espantada, inclinando a pequena estátua para eles.
— Nossa! Que lindo! – Alvo se boquiabriu – você fez isso... agora?
— Tá brincando? – exclamei – encontrei isso ali atrás, na raiz da árvore.
Os dois se entreolharam, atônitos.
— De onde isso veio?
— Olha, eu não faço ideia – Scorpius adiantou-se, analisando o delicado cisne de cristal – mas acho que concordamos que era justamente o que precisávamos para dar a Yoko.
Balancei a cabeça. Só eu estava achando aquilo irracionalmente suspeito? Um pequeno artefato praticamente emergir da terra, no exato momento em que havíamos concebido a ideia de presentear minha amiga?
De qualquer forma, Scorpius tinha razão. Era exatamente o presente que Yoko poderia gostar.
— Está bem – dei de ombros – vamos tentar...
Quando bati na porta do dormitório, porém, mão houve nenhuma resposta animadora.
— Yoko? – tentei outra vez, batendo o nó do indicador na madeira – eu posso entrar?
— Ah. Dá um tempo, Weasley! – ouvi alguém ralhar do lado de dentro. Pela voz, a prima carrancuda de Yoko, Satiko.
Desapontada, recuei, fazendo menção de descer as escadarias. Antes que o fizesse, contudo, a porta do dormitório se abriu, e Yoko emergiu da fresta.
— Rosie...
Ela estava péssima. O rosto inchado e vermelho... devia ter passado toda a tarde chorando em sua cama.
— Não quero atrapalhar... – falei em tom baixo – só quis... te trazer uma coisa.
Abri minha mochila, retirando de lá a estatueta de cristal, e a coloquei delicadamente nas mãos de Yoko.
Ouvi-a arquejar, observando seus dedos acariciarem levemente o bico arredondado do minúsculo cisne.
Para minha surpresa, um sorriso lacrimoso perpassou pelo seu rosto.
— O patrono de papai era igualzinho – Yoko soltou um misto de risada e choramingo – e é tão lindo quanto o dele... – seus olhos se ergueram, enquanto abraçava a estátua contra o peito – obrigada, Rosie.
Sorri, afagando seu ombro.
— Não foi nada, Yoko – disse – sempre que precisar, vou estar aqui. Está bem?
Ela assentiu, acarinhando o cisne em seus braços.
— Obrigada. De verdade – suspirou, antes de voltar para dentro do dormitório, fechando a porta atrás de si.
Sentindo meu peito um pouco mais leve, desci a escadaria, saindo da Torre da Grifinória. Do lado de fora, Scorpius e Alvo me aguardavam, ansiosos.
— E então? Ela gostou?
— Sim – olhei em direção ao quadro da Mulher Gorda – ele... o lembrou de Dino – senti minha testa se vincar – eu nunca soube que o patrono de Dino era o mesmo que o de Cho. Que estranho...
— Não. Estranho foi essa estatuazinha aparecer justamente quando a gente precisou dela – fungou Alvo – isso sim foi bizarro.
Soltei um muxoxo.
Coisas estranhas. Com o tanto de bizarrices que andavam acontecendo comigo naquele ano, já não estava mais me surpreendendo com a mesma facilidade de outrora.
Embora, obviamente, eu ainda continuasse com uma curiosidade ímpar sobre tudo aquilo.
Afinal, aqueles acontecimentos inusitados tinham alguma relação entre si? E se havia, que relação era aquela?
As perguntas só aumentavam em minha mente. E nenhuma resposta havia sido erguida para me satisfazer.
Pelo visto, já que todos mantinham segredos guardados de mim, eu teria que pessoalmente investigar o que estava acontecendo.
Havia sido um dia cansativo para todos. Com isso, decidi que minha missão de detetive podia esperar.
Dentre tudo aquilo, porém, eu só tinha certeza de alguma coisa: algo no modo como Cho Chang acusara minha mãe parecia insinuar algo bem mais sério do que uma simples falha de policiamento da vice-ministra da Magia.
E eu estava começando a ter medo de descobrir a verdade, no fim das contas.
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