“Guarda um segredo: às vezes, é preciso se desprender do que deseja para descobrir o que merece.”

Renata Carneiro

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SCORPIUS

Três meses se passaram após o terrível incidente com o pai de Yoko Thomas.

As aulas tinham sido retomadas havia um bom tempo. Mesmo assim, ainda não haviam pistas sobre o assassino do auror. A balbúrdia que havia sido criada na escola diminuiu gradativamente, até que todos finalmente pareceram se esquecer do incidente.

Segundo Rose, Yoko ainda se sentia triste com frequência, mesmo que todo o pesar e luto, pouco a pouco, estivessem se tornando apenas uma forte saudade. Os mais próximos tentavam animá-la, o que dava certo em algumas vezes – pelo menos até algo fazê-la se sentir novamente infeliz.

Infelizmente, não havia mais anda que pudéssemos fazer por ela – e muito menos por sua mãe, que ainda parecia hostilizar Rose e a Hermione Weasley de modo quase violento. Até onde entendi, Yoko parecia discordar do comportamento da mãe, mas tampouco tinha ânimo para contrariá-la.

Estávamos na véspera de férias de Páscoa, e Rose havia optado por passá-las na casa dos avós. Por isso, eu e Alvo estávamos aproveitando o máximo de tempo com ela, antes que os alunos dispensados retornassem para Londres.

Ela ainda parecia muito chateada com a morte do pai de Yoko – e, a meu ver, aparentava se sentir culpada por alguma coisa que fosse. E ainda estava terrivelmente intrigada com os acontecimentos esquisitos que haviam se iniciado há tantos meses antes.

— Pelo amor de Deus, Rose – eu disse pela décima vez, enquanto estávamos na aula de Estudos dos Trouxas – você já fez tudo que podia para ajudá-la!

— Eu sei, Scorpius – suspirou Rose, levantando os olhos do rádio de pilha que tínhamos sobre a mesa. Com a balbúrdia das conversas sobre o funcionamento de rádios na sala, podíamos conversar sem a preocupação de sermos ouvidos – mas ainda assim… sinto como se eu pudesse fazer algo a mais… só não sei o quê – ela franziu o lábio – falando nisso… eu estive pensando…

— Sobre aquela profecia. Sei – Alvo a interrompeu, revirando os olhos – a gente quer ajudar, Rose. Sério. Mas a gente nem sabe por onde começar! Não temos pistas!

— Exatamente – ela lançou um olhar condescendente ao primo – quero começar a coletar pistas. E acho que sei aonde procurar.

Ela tirou algo do bolso do suéter. Reconheci a foto que sua mãe havia lhe presenteado no Natal do ano passado.

— Na foto? — indaguei, confuso.

— Tecnicamente, sim – ela abriu um sorriso torto – estive pensando… se mamãe realmente teve uma elfa… eu poderia tentar achar o registro de propriedade dela. Mamãe costumava dizer que odos os elfos domésticos nascidos até o fim do século passado tem um registro de propriedade.

— Por que não pergunta logo pra titia, Rose? — Alvo se esbaforiu.

Rose revirou os olhos.

— Por que ela não me diria, Al. Será que não percebeu? Isso deve ser outra parte do que todo mundo anda escondendo de mim! — ela resfolegou,

— Está bem. Entendi – ele ergueu as mãos em rendição – registro de propriedade, não é? E onde achamos isso?

— Eu sei – falei de supetão – papai me falou uma vez. È um livro grande, com registros de propriedade de todos os seres mágicos e não-mágicos sobre cuidado dos bruxos. Existe um no Ministério da Magia – franzi o cenho – mas imagino que haja um aqui em Hogwarts também. Havia mais de duzentos elfos que trabalhavam na cozinha da escola no passado… um lugar com tantos elfos domésticos, com certeza, devia ter um registro deles.

Ouvi Rose ofegar.

E, para minha surpresa, ela me deu um beijo animado no rosto.

— Genial, Scorpius! — assim que o sinal soou, Rose apanhou seu material, entusiasmada – vou agora mesmo à biblioteca perguntar para a Madame Pince!

Ela saiu correndo da classe, enquanto os demais alunos começavam a guardar suas coisas, retirando-se da sala de aula.

Senti um formigamento estranho no lugar onde Rose havia me beijado.

Para meu espanto, Alvo sorriu de um modo realmente zombeteiro, cruzando os braços e erguendo uma das sobrancelhas.

— Acho que a Rose tá retribuindo você, Scorpius.

— Ah, cala a boca, Alvo – ralhei, apanhando meu material, enquanto Alvo gargalhava – Vamos pro intervalo, antes que eu resolva arrancar suas orelhas fora.

— Que meda – Alvo troçou, saindo comigo da sala de Estudos dos Trouxas, definitivamente às gargalhadas.



Quando Rose reapareceu, ostentava uma expressão um tanto quanto desapontada.

— Falou com a bibliotecária? — perguntei.

— Sim – ela fez uma careta, soltando a mochila no banco em que estávamos sentados – saiu me xingando por chegar quase no horário de fechar e por atrapalhá-la em sua leitura, mas, pelo menos, me contou onde está o livro de registro..

— E…? — Alvo disse.

Rose sentou-se ao nosso lado, cruzando os braços.

— Está na Seção reservada… — suspirou – que, adoravelmente, só é permitida para os alunos do sétimo ano.

Eu e Rose nos viramos imediatamente para Alvo, esperançosos. E meu amigo fechou a cara para nós dois, visivelmente agoniado.

— È. Está bem. Acho que vamos ter que tirar a poeira da minha Capa da Invisibilidade outra vez…. esta noite?

Rose assentiu, séria.

— Essa noite.



Assim que anoiteceu, esperamos que todos os alunos fossem para suas camas. Depois que um irritante Thomas Clifford finalmente caiu no solo, eu e Alvo nos esgueiramos para fora do dormitório, ocultos pela Capa da Invisibilidade do pai dele, e deixando o Salão Comunal da Sonserina em seguida.

Transitamos tranquilamente pelos corredores desertos, protegidos pela capa. Por fim, ficamos defronte ao quadro da Mulher Gorda,

Vimos o quadro se abrir, e Rose saiu, trazendo uma estranha bolsinha de contas. Rapidamente, ela tateou no ar, nos identificando e puxando a ponta da capa sobre o próprio corpo.

— Que sorte – apontei com o queixo para a pintura, onde a Mulher Gorda se encontrava – está dormindo.

— Pois é. E espero que continue assim – Alvo titubeou, tenso – vamos logo.

A ansiedade era tão latente ente nós que os corredores pareciam passar como borrões sobre nossos campos de visão. Eu mesmo estava começando a pensar se já não estávamos nos arriscando demais – afinal, havíamos escapado de sermos castigados uma vez, e duvido que a professora Hawkes, ou qualquer outro professor, mostraria tal benevolência outra vez.

Mas se aquilo era tão importante para Rose, nós devíamos tentar. Era isso que os melhores amigos faziam, afinal de contas.

Por fim, chegamos na Seção Reservada da biblioteca. Alvo adiantou-se, puxando o trinco para o lado, abrindo a porta cuidadosamente.

— Estamos dentro – sussurrou Alvo, assim que adentramos no local – o que devemos procurar?

— Talvez devêssemos nos separar – antes que eles protestassem, acrescentei – um de nós fica com a capa. Se alguém vier, corremos de volta para a porta e nos cobrimos com ela outra vez.

— Boa ideia – Rose concordou, saindo debaixo da capa – vou por esse corredor. Procurem um livro comprido, com muitas páginas. Talvez empoeirado ou desgastado.

Assentimos, concordando.

— Eu fico – Alvo sugeriu, assim que Rose contornou um dos corredores da Seção Reservada, desaparecendo de vista.

Confirmei com a cabeça, tomando o corredor adiante, olhando para onde Alvo estava e mapeando visualmente o local para onde deveria voltar se necessário.

Comecei a percorrer as várias fileiras de livros empilhados nas estantes, procurando qualquer coisa que se assemelhasse com o que Rose havia dito para nós. Algumas publicações aparentavam emanar um tipo de aura hostil e sinistra, como se estivessem irritadas com nossa presença ali. Já estava começando a entender por que aquele lugar só era visitado por alunos do último ano.

Um deles me chamou a atenção, fazendo-me parar no meio do trajeto.

Era bonito, encouraçado, de uma forte cor vinho. Tinha, encaixado em sua capa, um tipo de estrela de cinco pontas, circundada por uma esfera. Apesar de aparentar ser pesado, ela relativamente leve em minhas mãos. Tinha um tipo de selo ao canto, que nãos e abriu quando o forcei.

O bom senso me dizia para ignorar, e voltar a procurar o livro de registros. Mas havia alguma coisa naquele livro que me impedia de simplesmente prosseguir. Era como se, por algum motivo, eu tivesse que levá-lo também.

Aninhei-o debaixo do braço, continuando minha incursão.

Quase no fim do corredor, identifiquei um livro grosso, de aparência quase abandonada. Aproximei-me, folheando-o rapidamente.

— Rose – disse em voz baixa – acho que encontrei.

Senti uma sombra se aproximar de mim pela esquerda. Ergui a cabeça, focalizando o rosto pálido de Rose sobre a luz de minha varinha.

— È. Acho que é ele – disse, passando os dedos pelas páginas amareladas – categoria elfos… — abriu em uma das divisórias – nomes dos elfos… donos…

Haviam vários nomes… dezenas deles. Cada elfo doméstico vinha em ordem alfabética, com o respectivo nome de seu proprietário e endereço de residência, bem como ano inicial e final de propriedade. Li um deles, subitamente interessado.

NOME: Adrielle

PROPRIETÁRIO: Rufino Falldown

RESIDÊNCIA: Borgin & Burkes, Travessa do Tranco, Londres

ANO DE AQUISIÇÃO: 1985

— Não vamos encontrar nunca – lamentou-se Rose – são muitos!

Folheei um pouco adiante, me sentindo quase mal por Rose. No entanto, repentinamente, ela exclamou ao meu lado.

— Espera!

— Rose! — cochichei, alarmado.

— Desculpa – ela tapou a boca – eu vi. Ali. Umas duas páginas para trás.

Abri onde ela apontava. De fato, havia mesmo um registro surpreendente do nome da mãe dela, paralelo à propriedade de uma elfa doméstica.

NOME: Becky

PROPRIETÁRIO: Hermione Granger

RESIDÊNCIA: Casa de Veraneio Heaven, Hogsmeade

ANO DE AQUISIÇÃO: 1998

BAIXA DE PROPRIEDADE: 1998

Então era verdade. A mãe de Rose realmente tivera uma elfa.

— Baixa de propriedade? — ofeguei – quer dizer que ela…?

Ao longe, vimos pontos luminosos atrás da porta. Alvo arquejou, entrando em pânico, colocando a cabeça para fora da Capa de Invisibilidade.

— Estão vindo! — alarmou-se – vamos embora!

Rose adiantou-se, enfiando surpreendentemente o livro de registro dentro da bolsinha de contas. Abracei o outro livro que carregava contra o corpo, abotoando-o dentro de meu casaco, e corri para baixo da capa com ela.

Prendemos a respiração, escondidos debaixo da capa, quando usa pessoas adentraram na Sessão Reservada.

— Juro que ouvi sussurros, madame – resmungou Argo Filch, acompanhado de uma gata negra de pelo ressecado.

Para nossa tensão, Yara Hawkes surgiu ao lado dele, lançando um olhar ao redor das vastas prateleiras da biblioteca.

— Estava destrancado – observou – hum….

Decidimos não ficar para descobrir se Yara já desconfiava de nossa presença. Ainda sem fazer barulho, recuamos lentamente pela saída da Seção reservada, até alcançarmos o corredor norte, disparando de volta para nossos respectivos salões comunais.

Ofegantes, finalmente retornamos para a entrada da Torre da Grifinória. Rose piscou, aflita, abraçando a bolsinha de contas.

— Cara… — Alvo ofegou – você está… devendo uma… pra gente.

— Eu sei – ela riu em meio à falta de ar – eu sei…

Ela fez menção de sair da capa, mas a segurei pelo braço.

— Espere, Rose… leve este também.

Retirei o livro que havia pego de minha blusa, entregando-o à Rose. Ela não disse nada, limitando-se a agradecer com um meneio da cabeça e guardando o livro junto com o outro.

— Obrigada – sussurrou, correndo em direção ao quadro – Empatia!

A passagem se abriu, e Rose adentrou, acenando para nós. Nos despedimos dela, já tomando nosso próprio rumo, assim que desapareceu dentro do quadro.

— Amanhã nós a ajudamos a ler os livros – comentei com Alvo, quando já estávamos dentro do nosso Salão Comunal.

— È.. — ele ainda aparentava estar trêmulo de adrenalina – amanhã… — estremeceu – hoje eu só quero… dormir…

Bocejando, subimos para nosso dormitório. Sem acordar os demais, colocamos nossas roupas de dormir, tomando nossos lugares na cama.

— Scorpius?

— Sim, Alvo?

Alvo virou-se para mim, abrindo um sorriso.

— Eu não me importaria de ter sido pego – riu-se – contanto que fosse com vocês.

Sorri também, aninhando-me no colchão.

Havia cetas coisas que não se podia fazer, sem que você se condenasse a uma verdadeira e duradoura amizade com quem estava ao seu redor.

E tentar desvendar uma profecia bizarra, acompanhado dos dois jovens bruxos mais extraordinários que já havia conhecido, era uma destas coisas.