Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I

13 Segredos de Um Futuro Esquecido


O ar pareceu congelar ao nosso redor.

Eu não conseguia tirar os olhos das labaredas suaves da chama que surgira em minha mão espalmada. Ainda que crepitasse de modo audível, não estava queimando minha pele.

O pânico me inundou, fazendo-me sacudir o braço em desespero. O fogo desapareceu, sem deixar nenhum rastro.

O que havia sido aquilo?

Sentia os olhares aterrorizados de Alvo e Scorpius sobre mim. Mas ninguém parecia mais escandalizada do que a própria Professora Hawkes.

— Não pode ser... – guinchou, aflita – impossível...

Ela parecia ter se esquecido completamente de que estava prestes a nos aplicar uma detenção por nos achar perambulando no meio da noite.

— Professora Hawkes... – Scorpius se adiantou, embora ainda ostentasse uma expressão de puro choque, me olhando temerosamente – podemos explicar...

Yara olhou ao redor, colocando a mão sobre a varinha em seu bolso.

— Mais alguém viu vocês? – indagou em tom baixo.

— Não – Alvo negou com a cabeça.

— Ótimo – ela ofegou – venham comigo. Em silêncio.

Atordoados demais para protestar, obedecemos, acompanhando-a para dentro das amuradas do castelo.

Cabisbaixa, abraçando meu próprio corpo, senti-me estremecer.

Primeiro, Nina pedia para que eu a encontrasse. Depois, surgia aquela pessoa misteriosa entre as árvores. Recebi um tipo de profecia – uma profecia sobre mim. E agora, aquela estranha manifestação de magia.

Alguma coisa estava terrivelmente errada ali.

— Entrem – ordenou a professora, dando-nos espaço para adentrar em uma das salas de aula vazias do corredor leste.

Não discutimos. Alvo praticamente me puxou para dentro da sala, enquanto Scorpius nos ladeou, os olhos saltados de tensão.

Quando Yara fechou a porta, um arrepio correu pela minha espinha.

Só conseguia imaginar o tamanho da enrascada em que havíamos nos metido, e a punição que receberíamos. O que nossos pais diriam? E pior... e se perguntassem o que tínhamos ido fazer àquela hora da noite, sendo que Nina me alertara para não contar á ninguém?

Hawkes conjurou três cadeiras diante da mesa do professor, e acomodou-se, apontando o queixo para elas.

— Sentem-se.

Os meninos praticamente desabaram sobre elas, como se já não conseguissem mais ficar em pé. Eu mesma fiquei aliviada por poder finalmente me aninhar num lugar onde o chão não estivesse girando ao meu redor.

Ninguém ousava dar um pio.

Vimos a professora passar as mãos pela testa, exasperada.

— Por favor... – sacudiu a cabeça – será que um de vocês pode me explicar o que estavam fazendo lá fora á essa hora?

Entreolhamos-nos, incentivando mudamente um ao outro para escolher quem falaria primeiro.

— Professora – Alvo arquejou – é... é complicado.

Não ia deixar que Alvo e Scorpius fossem punidos. Fora escolha minha chamá-los para o encontro com Nina. Eles não tinham culpa alguma.

Então, decidi contar parte da verdade.

— Foi minha culpa, Profª Hawkes.

— Srta. Weasley? – ela ofegou, surpresa.

— Sim – confirmei o que dissera com um aceno da cabeça – eu... eu que chamei Scorpius e Alvo para irem comigo lá fora... até o lago. Eles sabiam que estava quase na hora do toque de recolher, mas eu... eu insisti que fossem.

— Rosie... – Alvo contestou.

— Eu os arrastei comigo – continuei, impedindo que meu primo tentasse levar parte da culpa.

— E o que a senhorita julgou ser tão importante para fazê-la burlar uma regra da escola, colocando a si mesma e á eles em perigo? – sussurrou, de modo frio.

Baixei a cabeça, envergonhada.

Deveria envolver Nina naquilo? Afinal, ela só havia tentado me ajudar – embora eu ainda desconfiasse de toda aquela conversa sobre profecias e segredos.

Não. Não seria justo.

— Eu queria poder dizer, professora – assumi, constrangida – mas não posso.

Yara ergueu os ombros, içando uma sobrancelha dourada.

— Não vai dizer o motivo?

— È bem pior, professora – mordi o lábio, desolada – eu... eu não posso. Não posso dizer... de verdade. Queria poder contar – suspirei – mas não dá.

Scorpius agitou-se ao meu lado, lançando-me um olhar aturdido.

Hawkes se levantou, colocando as mãos sobre a mesa.

— Não preciso nem dizer que o que fizeram foi muito perigoso e irresponsável. E eu não esperava algo assim vindo de você, Srta. Weasley. Seus pais ficariam desapontados se soubessem o que fez – franziu o lábio – vou descontar quinze pontos da Grifinória por isso – cruzou os braços – e não quero novas reincidências, ou serão mais cinqüenta pontos, junto á uma detenção para os três. Estamos entendidos?

Quase perplexos por termos escapado de uma detenção, assentimos na mesma hora, concordando.

— Ótimo – ela suspirou, puxando para si três pedaços de pergaminho, começando a escrever febrilmente em cada um deles – e quero que isso fique apenas entre nós. Não contem á ninguém sobre o que aconteceu hoje.

Para o espanto de Alvo, ela pegou a Capa da Invisibilidade, dobrando-a, e devolvendo-a nas mãos dele.

— É um belo presente, Sr. Potter. Um objeto realmente valioso – comentou – espero que faça um uso mais digno dele no futuro.

— Sim, senhora – Alvo agradeceu, guardando-a em sua bolsa de briba.

Yara assentiu.

— Já está tarde – ela disse, distribuindo os pergaminhos para nós – para o caso de Filch os encontrar... agora voltem para seus dormitórios – franziu a testa, séria – não façam com que eu me arrependa de não contar aos seus pais.

— Sim, professora – dissemos em uníssono.

Alvo e Scorpius se levantaram imediatamente, como se ficar um segundo mais ali fosse fazer com que a professora quisesse mudar de ideia.

Disparamos porta afora, correndo de volta á Torre da Grifinória.

Não pude deixar de notar uma expressão de extremo desconforto em Yara, antes que a porta finalmente se fechasse.

Por sorte, não encontramos ninguém durante nosso trajeto de volta.

Acompanhei Scorpius e Alvo até a entrada do Salão Comunal da Sonserina.

Ambos me agradeceram por tê-los encoberto durante o interrogatório da Profª Hawkes.

— Escapamos de uma fria – Alvo estremeceu, segurando meu ombro — vai ficar tudo bem, Rosie. Você vai ver. Vamos te ajudar.

Scorpius me sorriu.

— A gente vai tirar esse mistério á limpo.

Acenando-me entusiasticamente, ambos entraram sem demora pela parede mágica da masmorra, desaparecendo na escuridão.

Eles tinham razão. Por mais que eu estivesse completamente perturbada com todos aqueles acontecimentos, de nada adiantaria me remoer agora. Tinha certeza que esclareceríamos toda aquela confusão no dia seguinte.

Para meu alívio, quando finalmente cheguei á Torre da Grifinória, a Dama Gorda estava feliz o bastante para me abrir o retrato sem reclamar – provavelmente auxiliada pelo inteiro barril de vinho ao seu lado.

Subi correndo a escadaria, esgueirando-me em silêncio pelo dormitório. Sem sequer trocar de roupa, aninhei-me nas cobertas de minha cama, pousando a cabeça no travesseiro.

E, enfim, exausta, consegui adormecer.

Tive um sonho estranho.

Havia vozes ao meu redor. Eu não conseguia ver nada. Estava cercada por uma densa névoa dourada.

As vozes eram estranhamente familiares, ecoando de modo rouco em minha audição, seguindo-se uma á outra com perturbadora rapidez.

— Se isso for ocorrer mesmo comigo, ninguém ao meu redor vai estar seguro.

— Não vai enfrentar isso sozinha.

— Você é a esfera dessa herança.

A névoa se dissipou, revelando-me uma grande sala de uma casa antiga. Era escura, mas emanava um ar de curiosa nobreza em suas colunas decoradas e paredes arcaicas.

Sobre uma lareira, havia a pintura surpreendente de uma elfa doméstica, que balançava as longas orelhas de morcego, sussurrando baixinho consigo mesma, apoiando as mãos na moldura de seu retrato.

Seus grandes olhos pousaram-se sobre mim, e ela sorriu.

— Já não era tempo, menina Weasley.

— Como sabe meu nome? – ofeguei.

A elfa baixou a cabeça, dando uma risadinha triste.

— Vai acontecer de novo, não é? – suspirou – sim. A ameaça nunca termina. Mas ainda há esperança...

A sala sumiu, dando lugar á um jardim, com várias plantas e flores plantadas em gigantescos vasos. Uma fonte jorrava ali perto, cuja água, em contato com a luz do Sol, produzia um belíssimo arco-íris, que abarcava todo o local onde eu me encontrava.

Diante de mim, encontrava-se um belo espelho, que refletia todo o meu corpo. Aproximei-me, curiosa, erguendo a mão contra o vidro.

Meu reflexo estava de olhos fechados, sorrindo serenamente.

Ouvi alguém me chamar.

— Rose?

Olhei para trás, mas não vi ninguém. Voltei-me para o espelho, onde minha outra eu ainda mantinha-se cabisbaixa. Seus lábios se moveram, e o chamado ecoou outra vez.

Surpresa, percebi que era minha própria voz.

— Não pode fugir disso, Rose – meu reflexo ciciou – esse será o seu futuro.

E então ela abriu os olhos, revelando íris incandescentes como rubis.

Acordei gritando.

De olhos saltados, girei a cabeça ao meu redor, visualizando o dormitório feminino quase vazio – exceto por Yoko Thomas, que havia paralisado a alguns metros de minha cama, agarrada em seu uniforme.

— Rose? – ela guinchou, parecendo chocada.

Senti Teaspoon esgueirar-se por meu pescoço, lançando-me um olhar aborrecido com seus olhos azuis.

— Desculpa, Tea – gemi, sem graça – assustei vocês?

— Ahn... não – Yoko murmurou, sem nem sequer disfarçar a mentira – você está bem? Acordou gritando!

— Foi só um pesadelo – esfreguei os olhos, trêmula.

Percebi que minha gata ficou me encarando, de modo muito semelhante ao que mamãe fazia, quando sabia que eu estava escondendo alguma coisa.

— Hum... então tá – deu de ombros – melhor se vestir logo. Nossa aula de Poções vai começar em meia hora!

— Estou indo – assenti, vendo Yoko começar a se trocar – e você... vá caçar algum rato – cutuquei o nariz de Teaspoon, que espirrou, fitando-me como quem censura, antes de pular do criado-mudo e desaparecer porta afora.

Enquanto eu e Thomas íamos em direção ás masmorras, minha mente disparava, tentando reorganizar as idéias.

Eu tinha prometido á mim mesma que não pensaria mais naquelas bizarras ocorrências do dia anterior. E agora, com aquele sonho absurdo, as dúvidas só tendiam a aumentar dentro de minha cabeça.

Estava pensando seriamente em mandar uma carta para mamãe e papai, lhes contando tudo que havia acontecido.

Mas a voz de Nina pareceu reverberar outra vez em minha consciência.

Vocês não poderão contar sobre ela.

Mas e se eles fossem as únicas pessoas que poderiam me ajudar a desvendar todo aquele mistério? Por que Nina parecia ter se referido até mesmo aos meus pais, ao alertar-me sobre não dizer nada á ninguém?

Eu não conseguia entender.

Decidi que deixaria aquilo para lá. Se eu focasse minha mente nos estudos, não teria tempo de me afligir com toda aquela conversa de profecias e sonhos esquisitos.

Para minha sorte, a aula de Transfiguração seria partilhada com os alunos da Sonserina. Com isso, pude me reunir novamente á Alvo e Scorpius, dividindo com eles a mesa em que tentávamos transfigurar um camundongo num apagador de lousa.

— Isso não devia estar certo – Scorpius resmungou, aborrecido – o meu apagador ainda tem bigodes!

— Não reclame – fungou Alvo – tenho quase certeza que o meu ainda está se mexendo!

Meio constrangida, não fiz nenhuma observação sobre meu apagador perfeitamente imóvel, procurando não deixá-los ainda mais chateados.

Percebi Astrid McLaggen nos lançar um olhar irritado, parecendo exasperada por seu colega ainda estar tentando imobilizar seu camundongo, que corria aterrorizado em cima da carteira.

— O que ela tanto olha a gente com essa cara de peixe morto? – Alvo encarou-a, erguendo uma sobrancelha.

— Não importa, cara. Preste atenção na aula! – ralhou Scorpius.

— Muito bom – elogiou a Profª Aline Sierra, passando ao longo das mesas para avaliar as transfigurações – razoável, Sr. Malfoy – assentiu levemente, encorajando-o – apenas dê mais atenção aos bigodes da próxima vez, Sr. Potter – deu uma piscadela para Alvo, sorrindo – e Rose... excelente! – ela apanhou meu apagador, satisfeita – vejamos... dez pontos para a Grifinória, e vinte pontos para a Sonserina. Ótimo trabalho, meninos.

— Obrigado, professora – dissemos, sorrindo.

Assim que ela nos deu as costas, Scorpius chacoalhou o corpo, com a mão no peito, fazendo uma voz de falsete.

— “Muito bem. Sra. Weasley. Arrasou” – imitou-a, fazendo com que eu e Alvo segurássemos o riso.

— Viu, Rose? Não sou só eu que te acho uma nerd – brincou meu primo.

Revirei os olhos, sorrindo.

Parecia-me que, afinal, meus planos de desviar a cabeça daquele assunto da profecia correriam de modo mais fácil do que eu imaginava.

No entanto, eu estava redondamente enganada.