Gêmeas
1 Episódio I: 221B
Notas iniciais
Baker Street é realmente uma rua muito calma. Os vizinhos se gostam. O barzinho debaixo do 221B é divino, devo admitir que fazem o melhor capuchino que já tomei em Londres. Me mudei para cá há algumas semanas, e já fui extremamente bem acolhida pelos moradores. O doutor do 219 é muito gente boa, o casal de velhinhos da casa ao lado, mesmo que estejam sempre brigando, também são divertidos. A senhora do 221 é uma doçura.
Mas um vizinho que nunca vi sair de casa é o 221B. Sempre achei estranho o fato de que, normalmente, pelo menos duas vezes por dia uma viatura da polícia pare diante da casa. Perguntei a dona da casa, quando a encontrei um dia desses, o que a polícia tanto queria com ela. Ela riu. Disse-me que seu inquilino, um moço com um nome estranho, era detetive e ajudava a Yard. Estranho.
__ Mas esse moço... como é o nome dele mesmo? Com que ele trabalha? – perguntei.
__ Sherlock. Sherlock Holmes – ela respondeu, percebendo que eu me interessara no detetive. – Sherlock ajuda a Yard com os casos difíceis.
__ Mas ele trabalha para eles, então?
__ Não, longe disso. Ele gosta de se chamar de “detetive consultor”, mesmo que eu nunca tenha visto tal emprego. Ele gosta de resolver mistérios.
__ Hum – me detive. Interessante. Alguém que gosta de resolver mistérios.
Fiquei imaginando se, algum dia, eu o veria fora de casa. Não demorou muito para o pensamento se concretizar.
Eu saia de casa, pronta para pegar um táxi, quando notei que a porta da casa do tal Sherlock Holmes estava aberta, e diante dela, a viatura da polícia. Estava a ponto de pegar um cab, mas a curiosidade era maior. Sai de perto do meio-fio, sentando em um dos bancos na calçada e fingi esperar alguém. Para uma garota que nunca fez aulas de teatro, eu atuava bem.
Cinco minutos depois, um quarentão saiu da casa. Cabelo acinzentado, japona cinza, jeans desgastados e sapatos sociais. Levava no cinto um walkie-talkie, então supus que ele fosse o dono da viatura. Depois dele, um moço baixinho apareceu; cabelos loiros, camiseta branca, jeans e tênis. Esse seria o tal Holmes? Talvez. Pensei que ele fosse ser mais... que ele fosse ter cara de detetive.
Mas então, a imagem de um homem alto brotou na porta. Cabelos escuros, cheio de cachos. Os olhos de um verde esmeralda brilhavam, embora não houvesse sol, e uma garoa ameaçasse começar a qualquer instante. Com um casaco longo, calças pretas e sapatos da mesma cor. Ele sim tinha cara de detetive. Sempre olhando para todos com uma certa superioridade, parecia ter o ego maior do que o próprio peito.
O loiro o esperou, até que ele fechasse a porta do 221B e os três embarcassem no carro da polícia. Aquele era Sherlock Holmes, não poderia não ser. E ele parecia... curioso. Sempre enfurnado no apartamento, tocando violino até altas horas da madrugada – sim, eu o ouço tocando de noite. Juro que até já ouvi barulhos de tiros vindo de lá. Essa vida de resolver crimes não parece ser tão segura.
Depois dessa breve observação, esperei um táxi. Entrei, entreguei o dinheiro ao motorista e disse o destino.
__ Hospital St. Bartholomew, por favor.
*
Passei a viagem toda observando a paisagem de Londres. Mesmo com os tons de cinza do céu, que deixavam a cidade parecendo estar de luto, ela ainda tinha vida, brotando de casa ruela. Lembrava um pouco minha cidade. Não tenho saudades do tempo que passei lá, minha vida era um inferno enquanto eu vivia lá. Agora, vida nova, cidade nova, emprego novo. Essa mudança era promissora.
Chegando a porta do hospital, saltei do táxi e adentrei. Lá dentro, era sempre frio, e tive de colocar uma blusa para conseguir chegar ao necrotério sem congelar. Subi as escadas, dobrei a esquerda, trespassei a porta que separava o corredor do resto do St. Barts, e adentrei calmamente as portas. Molly – uma das únicas amigas que eu conseguiria ali — estava sorridente como sempre. Com o mesmo jaleco de sempre, calças jeans escuras e os pés ensacados nas luvas de sapato. As mãos cobertas com as luvas de silicone seguravam um copo de café e uma prancheta.
__ Bom dia, Luna – ela disse. – Temos trabalho hoje.
__ Bom dia. Graças a Deus, estava louca para trabalhar. O que temos?
__ Assassinato. Envenenado e esfaqueado.
__ Coitado. Bom, vamos lá.
Entrei no vestiário, troquei a jaqueta pelo jaleco, as luvas de pano pelas luvas brancas, e cobri os pés com as luvas de sapato. Antes de sair, ouvi a porta do necrotério se abrindo. Pelas minhas contas das vozes, eram três pessoas. Sai atendendo ao chamado de Molly.
__ Luna, temos visitas. Venha aqui!
Abri as portas da sala e dei de cara com a pessoa mais improvável. O detetive, o loiro e o policial. Tentei não esboçar meu susto, mas foi difícil não conter os olhos arregalados.
__ Luna, esse é Sherlock Holmes. Aquele ali é John Watson, e esse é Lestrade – Molly nos apresentou.
__ Bem-vinda ao St. Barts, Luna – John estendeu a mão. Apertei sua mão e a de Lestrade, mas Holmes parecia não se importar com a minha presença. Contentou-se em dizer:
__ Olá, vizinha.
__ Vizinha? – John olhou para o moreno.
__ Não a viu hoje de manhã, sentada no banco? Está precisando de mais aulas de percepção, Watson – ele respondeu.
__ Prefiro deixar a percepção para você, Sherlock.
__ Vi as suas correspondências, jogadas na porta – ele se virou para mim. — Notei seu nome também por esse colar. Luna Patel. Oxford, não?
Silêncio. Eu estava embasbacada. Como assim ele mexeu na minha correspondência? E como assim Oxford?
__ Oi? – soltei.
__ Estudou em Oxford, não? O anel.
Estava confusa. Como ele sabia de Oxford?
__ É, eu estudei em Oxford. Como sabe?
__ O “o” gravado dentro. Comum dos alunos de Oxford fazer isso nos anéis de formatura.
Como ele viu? A marca da letra é minúscula, e estava escondida, grudada a meu dedo. Não teria como ele ver. Ou teria?
__ Sherlock, está deixando-a vermelha. Vamos logo para o corpo – John chamou-o. Ele nada respondeu, somente olhou para mim do alto do trono de arrogância que construíra para si e virou-se para o cadáver, exposto na bancada.
Não consegui pensar direito depois daquele primeiro encontro. Segui seus passos cuidadosamente com os olhos, notando como ele se divertia procurando coisas no corpo do morto. Parava por alguns instantes, fechava os olhos, seguia para outra parte da anatomia, continuando assim por alguns minutos.
__ Conseguiu tudo o que precisava? – Lestrade perguntou.
__ Foi o jardineiro. O jardineiro o matou. Um caso chato. Vou voltar para casa.
OI?
__ Poderia nos explicar? – John parecia tão confuso quanto qualquer um na sala que não fosse Sherlock Holmes. – Essa parte fugiu.
__ Debaixo das unhas dele está cheio de terra. Pela posição que o encontraram, estirado no chão, com os braços para frente, supus que ele segurou alguma coisa antes de morrer, provavelmente as pernas do assassino. Comparei as duas terras, das unhas e do jardim da casa. São iguais. A única pessoa que teria tanta terra na barra das calças a ponto de deixar no morto seria o jardineiro. Pronto. Um caso chato.
__ Oh – Watson disse. – Bom, pode voltar para casa, eu vou sair com a Mary. Nos vemos mais tarde.
Os três saíram antes que eu pudesse concluir meu pensamento, ainda analisando o que ele dissera. “Como” era a única pergunta que eu conseguia me fazer, antes de John aparecer uma última vez, na porta.
__ Bom trabalho. Espero que goste daqui, Luna.
Sumiu novamente.
*
Meu dia correu extremamente rápido. Eu não conseguia prestar atenção em mais nada. Minha mente circundava aqueles olhos verdes, e aquelas palavras cuspidas no necrotério, como se a morte do pobre coitado não fosse importante. O que mais me intrigava era o fato de que, ninguém além de mim, se impressionara com o que ele fez – todos pareciam já estar acostumados. Até mesmo Molly.
Saindo do hospital por volta de seis horas da tarde, voltei para casa. Mal eu lembrava que tinha um encontro com o cara do 220. Eu não tinha a mínima vontade de me arrumar para sair, queria mesmo era ficar em casa com os meus livros e a minha música, mas não tive coragem de desmarcar tão em cima da hora. Recebi uma mensagem de Ben – meu par para esta noite – logo que pus os pés para fora do St. Barts.
“Passo te pegar as nove. Ben”.
Joguei-me dentro do táxi, voltei para casa. Tinha três horas para me arrumar, mas decidi gastar uma com um chá e um livro. Quando o relógio soou sete e meia, decidi sair debaixo das cobertas e da proximidade da lareira para tomar um banho.
Tirei todo aquele cheiro de morte de mim antes de vestir um vestido tubinho preto, uma bota baixinha e sumi com as minhas olheiras usando a boa e velha maquiagem de sempre – base, pó, rímel e um batom vermelho, meu toque final e preferido. Decidi manter meus cachos ruivos soltos. Terminei tudo as oito e meia.
Uma hora me arrumando e já estou pronta, bati o recorde dessa vez. Sentei novamente na poltrona da sala e olhei ao meu redor. Minha casa não era tão espaçosa, o que a deixava aconchegante. Sempre gostei de lugares frios e casas quentinhas, e tinha tirado a sorte grande com o 222. Minha sala tinha livros espalhados por todas as prateleiras, pilhas pequenas sobre a lareira, junto ao meu globo de neve de Veneza, minha miniatura do Coliseu e meu action figure do Homem de Ferro. No chão, o carpete era cor de areia, e o sofá de dois lugares marrom combinava perfeitamente. Do lado da lareira, a entrada para a escada, que levava aos dois quartos e a sacada.
Terminei com o meu chá – que ainda estava meio quente – e acabei ligando a tv, grudada a chaminé. Nada de interessante. Em um canal, o filme dos Vingadores da Marvel, que eu já assisti umas vinte vezes; no outro, o jornal, e nos outros, novelas. Só um se salvava, passando a terceira temporada de Doctor Who.
O tempo passou rápido, e quanto notei, já eram nove horas. Em ponto, a campainha tocou. Respirei muito, tentei abrir um sorriso, para que eu não parecesse tão desanimada. Andei até a porta e a abri. Ben estava com uma jaqueta preta, camiseta cinza, calça escura e um sapato qualquer. Na mão, uma rosa vermelha. Ele se assustou logo que eu abri a porta. Ninguém nunca tinha me visto daquela forma, vestida para sair. Pelo menos não em Londres.
__ Você está... linda.
__ Obrigada – abri um sorriso. Ele me entregou a rosa. Agradeci com um olhar. – Então, onde vamos hoje?
__ Tem um pub aqui perto, e uma balada. Qual escolhe? A noite é sua – ele respondeu. O pub parecia ser a melhor opção – mais calmo, reservado, onde poderíamos conversar sem ter que gritar nos ouvidos do outro. Mas, uma parte de mim, que normalmente costuma falar mais alto, pedia para que eu escolhesse a balada. “Vamos, saia, se divirta, seja normal” ela repetia. “Admite, vai ser bom, dançar, beber, se divertir! Vamos Luna, faz quanto tempo que você não mete o pé na jaca?”.
Fiz minha escolha. Ele sorriu.
__ Não sabia que você gostava de dançar.
Mal sabia eu que essa seria uma das piores escolhas que fiz na vida.
Notas finais
Beijinhos da ruiva,
Amelia.
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