Gypsy

17 Voltar A Namorar.


Nova York acordou do jeito que eu imaginei. Ensolarada. O que era uma coisa bastante atípica nesse estado, considerando que estamos bem no norte e temos clima que varia do frio para o gélido e do gélido para o congelante – esse que da as suas caras durante todo o inverno de janeiro junto com aquela neve ridícula e escorregadia que me faz levar tombos que será bem melhor não comentar!

De qualquer jeito o Cara Lá De Cima parecia estão ao meu lado, pelo menos dessa vez. O que também costuma ser atípico, vale acrescentar. Whatever.

– Bom dia – Finn já estava de pé e sorriu ao me ver

– Está um lindo dia, não é mesmo? –tentei soar simpática. Afinal, estamos numa trégua.

– Bom, como está sua costela?

– Roxa. – ele encolheu os ombros – Mas não está doendo.

– Posso? – disse, acanhada

– Claro. – ele pareceu achar graça por eu ficar sem graça

Eu levantei a blusa dele com cuidado, tentando me focar só no trabalho. Ali eu era uma medica e ele era um paciente como qualquer outro que eu atendia na emergência. Mas, enquanto meus dedos apalpavam profissionalmente a área arroxeada, alguma coisa aconteceu, por algum motivo estranho e desconhecido em alguns segundos ele não era meu paciente e eu não era mais uma residente em medicina. Ele era um homem. E eu era uma mulher, E era difícil, muito difícil, me concentrar assim.

– Dói? – pelo menos a voz parecia ser de profissional.

– Não.

– Vou passar aquela pomada, está bem?

– Tudo bem. Que horas é a consulta?

– As duas. Você vai almoçar ainda. — Ele fez uma careta.

– Você não reclamou da comida de ontem.

– É verdade. Foi você mesmo que fez?

– Deu um trabalho do cão. Mas você estava há muito tempo sem fazer drama, então achei que merecia.

Aquilo não era toda a verdade. Mas, veja bem, você não queria que eu chegasse na lata e dissesse que era para me desculpar, não é? Até porque ninguém em Nova York faz comida para pedir perdão. Tudo bem. Ninguém em Nova York faz comida hora alguma, a gente está sempre correndo contra o tempo para parar na cozinha e é por isso que a maioria dos nova-iorquinos estão acima do peso, para não dizer obesos, e correndo grande risco de vida.

– Obrigado – ele me encarou e pos a mecha do meu cabelo atrás da orelha

– Não disponha – sorri e passei a pomada no roxo dele – Não é sempre que sou boazinha assim.

–Eu sei. — Finn não tirava os olhos de mim, eu sentia ficar mais vermelha a cada segundo. Era melhor eu fazer aquilo rápido antes que cometesse alguma loucura ou demência. Tipo, pedir um beijo pra ele. E, se eu fizesse isso, eu podia ir até a Estatua da Liberdade e pular de lá de cima.

– Você tem certeza que isso não arde? Já vi homens bem maiores gritarem de dor.

– E eu já disse que você tem mãos de anjo.

– Há um mês atrás e isso nem passaria pela sua cabeça!

– Há um mês atrás nós não nos conhecíamos.

– Nossa, e seu conceito sobre mim mudou drasticamente assim tão rapidamente? –brinquei

Ele deu um sorriso, meio misterioso, me olhando. E , então, eu decidi que era melhor para nós dois que ele almoçasse e nós fossemos de uma vez à consulta, porque estávamos, definitivamente, entrando em terreno perigoso e eu não estava afim de ser engolida pela areia movediça.

–Hm... — Blaine disse, há quinze minutos examinando Finn, com uma lentidão exagerada! Desesperadora, era a palavra certa.

Uma coisa era eu examiná-lo sem camisa, outra coisa era vê-lo sem camisa sendo examinado. Porque agora eu não precisava manter o foco e ser profissional, eu podia simplesmente olhar, sem qualquer pudor, como toda mulher olha um corpo másculo e atlético correr sem camisa nos raros dias de verão pelo Central Park. Não era um corpo forjado pela academia ou suplementos milagrosos. Ele tinha os ombros largos e os braços eram fortes. E, pelo modo estúpido que seus ossos quebraram, eu tinha certeza absoluta de que academia e exercícios físicos não faziam mesmo parte da rotina de Finn. O que o tornava mais atraente. Pelo menos para mim. E viva a genética!

– Hmmmmmm....

Finn ergueu os olhos e me encarou, me pegando, literalmente, no flagra. Eu só faltava babar, por muito pouco, vale acrescentar. Ele deu um sorriso torto, me deixando vermelha e me fazendo virar o rosto para o outro lado e forçar meu pescoço para não olhá-lo de novo.

– Aonde arranjou esse roxo? – Blaine disse sobressaltado. Eu quase dei um grito nessa hora. Droga, droga, droga! Eu devia ter imaginado que ele perguntaria. É claro que perguntaria. Blaine era conhecido por ser minucioso, nenhum detalhe, por menor e mais discreto que fosse, passava despercebido por seus olhos. E aquele roxo era tudo menos pequeno e discreto. Aliás, era totalmente indiscreto. Por qualquer ângulo que você olhasse.

– Ele... ele... – balbuciei tentando achar uma desculpa plausível – Dormiu de muito mau jeito. Blaine me olhou, notavelmente desacreditado dessa desculpa horrível.

– Dormiu de mau jeito? –ergueu a sobrancelha

– Ele não entende o conceito de ficar imóvel – sorri amarelo

– Rachel, sinceramente, você não espera que eu acredite nisso, não é? Trabalho há quase 15 anos como ortopedista nesse hospital e nunca vi alguém ter um roxo nas costelas porque dormiu de mau jeito!

– Não é impossível – murmurei

– Tem certeza?

– Rach... – droga, Finn, por que não fica calado? – É melhor falar a verdade, não é? — Arregalei os olhos e tive que me segurar para não cair. Se Blaine sonhasse com o que aconteceu eu estava ferrada. Eu teria uma anotação nada agradável de agressão no meu prontuário antes mesmo de ter um diploma. E aí eu podia dar adeus a uma carreira arduamente sonhada para o sucesso.

– Ótimo, conte-me a verdade, senhor Hudson – Blaine disse ainda me olhando. Acho que vou desmaiar.

– Bem, desculpe, doutor – ele levou a mão boa ao pescoço – Ela não mentiu por mal.

– Nunca vi ninguém mentir por bem – resmungou

– Eu sei. Mas é que eu pedi, implorei na verdade, para que ela não contasse para quem quer que fosse. Sabe, é bastante... vergonhoso. Se é que entende.

– Finn! – eu falei

– Não, Rach, ele precisa saber. – me olhou – Eu...caí da cama. Arregalei os olhos. Por que não pensei nessa hipótese? Cômico um cara da idade de Finn cair da cama? Sim. Mas totalmente plausível. E agora vou dever esse favor eternamente para ele. Urgh. Sua burra. Você realmente precisa aprender a sair de situações quando está sob pressão!

– Caiu da cama?

– Eu disse que ele não conhece o conceito de imobilidade – sorri amarelo. — Blaine olhou de Finn para mim, de mim para Finn, então deu um de ombros e suspirou.

– Se continuar vamos ter que comprar um berço para você. — E rimos. Por motivos diferentes, creio eu. Quer dizer, pelo menos eu estava rindo porque tinha me livrado de uma falta gravíssima no meu currículo. Graças a Finn. Eu sei.

– Bem, parece que, apesar de você não conseguir ficar imóvel, sua recuperação está acontecendo bem rápido. Sua perna, por exemplo, está quase perfeita. Você pode recomeçar a fazer algumas coisas da sua rotina.

– Tipo... – ele pareceu interessado

– Tipo algumas caminhadas, de meia hora por dia.

– Isso não fazia parte da minha rotina!

– Nós sabemos. – Blaine encolheu os ombros – Mas você precisa mudar algumas coisas no seu dia-a-dia se não quer que isso se repita. Então, tirar 30 minutos por dia de caminhada não é um grande esforço, por mais ocupado que seja, e vai fortalecer seus ossos. — Ele assentiu.

– Vou cuidar das caminhadas dele, Blaine. –falei

– É o que espero.

– Eu posso voltar a trabalhar?

– Bom... Eu não vejo porque não, desde que saiba dosar suas horas diárias.... E eu acho que não deveria voltar à empresa ainda. É melhor esperar se recuperar totalmente.

– E, por acaso, só por acaso, posso voltar a... Você sabe... – tossiu – namorar? — Ergui a sobrancelha.

– Que sentido de namorar você quer dizer, exatamente?

– Você sabe... – disse, aparentemente sem jeito – Ter um momento íntimo, essas coisas. — Eu tinha mesmo que ouvir essa conversa?

– Bom... – Blaine disse assinando alguns papeis – Eu não vejo porque não, desde que nada em excesso e que sua parceira consiga entender seus limites atuais.

– Ah, ela entende. – sorriu presunçoso. Ai, meu Deus, por que ele ta olhando para mim? Não responda.

– Então, sem contra-indicação – deu de ombros – Rachel, quero um exame de sangue completo para ver se o nível de vitamina D e de cálcio nele está melhorando – me entregou a receita – E por esses dias vou mandar um fisioterapeuta na sua casa, Finn, porque agora está na segunda fase do tratamento,

A primeira foi a de recuperação, essa é a de exercícios e a próxima é de cura e mudança de hábitos. Não tem nenhuma objeção pelo fisioterapeuta?

– Acho que confio nas suas escolhas profissionais, doutor. – ele disse divertido, enquanto eu o ajudava com a camisa, de um jeito que pareceu ser uma piada interna. E realmente era.

– Ótimo. Estão liberados.

– Nós dois?

– Você deu plantão ontem, Rachel, não se lembra?

– É claro.

– Cuidado para não cair da cama de novo, Finn. E eu te vejo amanhã as dez, Rach.

Notas finais
Sou uma fofa e postarei outro capítulo ainda hoje pra vocês. Na verdade daqui a pouco! Tô felizona porque as férias estão quase aqui e que apareceram novos leitores lindos, então postarei Continuem aparecendo, beijinhos e té mais