Gypsy
18 Central Park e Amor.
Finn e eu saimos. Não trocamos uma palavra enquanto saiamos do hospital. Só quando entramos no taxi e o motorista perguntou para aonde é que ele abriu a boca. Quer dizer, para questionar minha resposta certeira e objetiva em duas palavras.
–Central Park.
– Central Park? – Finn levou susto – O que vamos fazer lá?
– Achei que tivesse ouvido meu supervisor. 30 minutos de caminhada por dia.
– Mas já?
– E por que não? – o encarei – Se você está tão afoito para voltar a trabalhar e a ter encontros com as suas mulheres, então está pronto para cuidar de sua saúde.
– O motorista deu um risinho, me fazendo rolar os olhos.
– E de onde tirou essa historia de mulheres, no plural? — Dei um risinho cínico.
– Sou monogâmico. – disse, em alto e bom som, me olhando nos olhos
– Claro que é.
– Você nunca acredita em mim! – se fez de ofendido – Odeio infidelidade, sabe? — Que conversa para se ter num banco de taxi! Principalmente quando o motorista é totalmente indiscreto e não faz nem questão de disfarçar.
– Claro, gostosão – ironizei
– Achei que estávamos numa trégua.
– E estamos. Quando você não resolve mentir.
– E de onde tirou essa ideia de que estou mentindo? — Nós nos olhamos.
– São doze dólares – o taxista interrompeu, notavelmente contra-feito. Ele tava adorando aquele barraco no taxi dele e com certeza não queria ter chegado tão de pressa no Central Park.
Abri a porta e sai enquanto Finn tirava a carteira do bolso. Respirei o único ar verde e puro de Nova York, enquanto deixava a paz e a calma encher meus pulmões. Quando abri os olhos Finn já estava do meu lado, com uma cara nada feliz.
– Se esforce – estiquei minhas mãos alongando – Temos que aproveitar esses raros dias de sol em Manhattan, porque você vai assimilar muito mais calcio assim do que tomando vários vidros de vitamina.
– A questão não é essa. É que, acho, a ultima vez que fiz algum exercicio eu ainda estava na Califórnia.... provavelmente ainda na UCLA. E meu corpo ainda está dolorido, não sei se aguento...
– Olha, a gente caminha até você aguentar. Depois a gente senta no sol para descansar. — Finn não aguentou nem 15 minutos! Contra-feita apontei uma arvore para nos sentar, onde o sol batia e não tinha nem crianças ou cachorros muito perto. Finn, é claro, resmungou dizendo que sua roupa ia ficar toda suja, como se fosse ele quem as lavasse, sei! Nem dei trela e me deitei na grama verde olhando o céu e como uma criança vendo formatos incoerentes nas nuvens. Ele não veio tão feliz assim, mas se sentou encostado na arvore. Ficamos por minutos em silencio.
– Sabe que eu nunca havia vindo aqui? – ele falou, me despertando dos meus pensamentos
– Tá falando serio? Há quanto tempo está em Nova York?
– Uns cinco anos, acho.
– Isso é absurdo!
– Acho insosso o Central Park. Ou, pelo menos, achava. Você está mudando meu conceito. — Me sentei, para encará-lo.
– Eu?
– É, você. – piscou – Na verdade, meus conceitos vêm mudando consideravelmente depois daquele acidente.
– Bom... ter te acidentado me fez mudar de supervisor. Então, vai me desculpar, mas tirando sua chatice e seus choros como se fosse um bebe... É, não foi uma das piores coisas que aconteceu na minha vida!- Nós rimos. Eu voltei a olhar pras nuvens.
– Rach... Posso fazer uma pergunta intima?
– Eu não sou virgem! – ele fez uma cara engraçada – Esquece. – ri – Piada interna de meu grupo de amigos. O que é?
– Tá né. Até porque... bem, não tem como não ser depois da última vez que esteve na minha cama – rolou os olhos, concluindo o óbvio, enquanto eu ficava vermelha – Enfim, mas... Por que medicina? — Isso me pegou desprevenida, completamente. Era algo que ninguém sabia exatamente, nem mesmo Quinn. A única pessoa que sabia era minha mãe. Eu nunca tinha, se quer, pensado em contar para alguém. Quando me perguntavam eu dizia “vocação” ou algo do tipo. Vocação era. Com certeza. Mas na realidade existia algo muito maior e mais nobre que isso. Fiquei tensa.
– Desculpe, não queria ser indiscreto. É só que... bem, lembra quando me assustei ao descobrir que era medica?
– Claro, eu quase te bati pelo seu comentário idiota.
– Você é mesmo uma desastrada, Rach, mas é alem disso. Você não tem cara de medica.
– Porque, na verdade, eu ainda não sou.
– Tudo bem se você não quer falar. Desculpe de novo. — O problema é que, por mais estranho que parecesse, eu queria falar.
– Eu tinha sete anos – disse encarando o céu – Minha mãe tinha me feito tranças, uma de cada lado – deixei minhas lembranças florescerem em minha cabeça – Eu adorava tranças – dei um sorriso –Na verdade, meu pai adorava. — Finn me olhou, aparentemente interessado. — Era véspera de 4 de julho, meu feriado preferido. Adorava os fogos no céu, colorindo-o – sorri – Meu pai tinha conseguido tirar uns dias de folga e nós Íamos viajar até a Florida, para que eu conhecesse minha avó paterna. Nós raramente viajávamos, minha mãe, meu pai, eu. Foi um dos melhores feriados da minha vida. — Eu o encarei. — Foi na volta. – dei de ombros – Minha mãe dormia e eu cantava algumas músicas com minha boneca preferida no colo. Eu não vi como aconteceu, estava distraída, no meu mundo infantil. Só que de repente, do nada, meu pai virou o carro de uma vez e antes que eu pudesse gritar o caminhão nos atingiu – respirei fundo – O atingiu.
– Eu sinto muito, Rach – ele pôs a mão no meu ombro, calorosamente.
– Ele morreu para salvar minha mãe. Foi a explicação dos peritos, pelo menos. Gosto de pensar que ele não sentiu dor, porque ele morreu na hora. Com o impacto mesmo. Minha mãe nada viu, eu queria não ter visto, mas fiquei acordada o tempo todo, os olhos arregalados, até a ambulância chegar. Foi exatamente nessa hora que decidi pela medicina, porque quando vi aqueles paramédicos descendo da ambulância, todo de branco, para mim eles eram os anjinhos de Deus. Meu pai sempre dizia que pessoas boas sempre tem anjos de Deus por perto. — Finn secou minha lagrima solitária. — Então coloquei na cabeça que queria ser “anjinho de Deus” também e aqui estou eu, em Nova York, cuidando de um crianção histérico de 28 anos, vejam só! –tentei descontrair. Ele deu um sorriso.
– É uma bela história, não o acidente, mas a visão de uma criança de sete anos de tudo. – fez carinho no meu rosto — Tenho certeza de que, onde ele estiver, esta muito feliz com a sua dedicação. — Eu voltei a olhar pras nuvens, ficando em silencio por alguns minutos.
– E você? – resolvi perguntar, já que estávamos naquela de relembrar o passado –Por que seguir uma profissão fria e sem graça como empresário?
– Pelo meu pai também. Mas por motivos bem diferentes. — O encarei.
– Ele deve ser a pessoa mais fria que conheci nessa vida.
– Mais frio que você? — Finn deu um sorriso torto, repuxando o canto dos lábios de um jeito sensual e engraçado ao mesmo tempo. Me arrepiei. Sim, eu me arrepio fácil. Algum problema?
– Sou o deserto do Saara perto dele.
– Meu Deus! – arregalei os olhos
– Ele só me elogiou uma vez na vida, quando disse que queria ser empresário. E acho que disse isso justamente para agradá-lo. Nem quando fui aceito na UCLA e recebi mais duas cartas de admissão em boas faculdades, nem quando mudei a matriz para cá, nem quando me tornei um empresário de sucesso... Ele me deu um olhar de admiração.
– Nossa! Deve ser triste. — Afinal, eu não tinha pai, mas tinha uma mãe pra lá de orgulhosa, que viva gritando para todos os cantos que tinha uma filha médica.
– Acho que devia ter feito que nem a minha irmã. Rebelde sem causa que fez tudo o que queria, sem ligar para os conceitos antiquados dele.
– Mas você gosta do que faz?
– Frio e sem graça define muito bem o que acho. Mas também acho que ta tarde de mais pra mudar.
– Nunca é tarde de mais, Finn. — Voltei a olhar pro céu, distraída.
– O que tanto olha? – se sentou mais próximo de mim.
– As nuvens – sorri – Eu adoro ver o formato de nuvens! E em Nova York é tão difícil!
– Acho que ainda é uma criança de sete anos, Rach. Sem as tranças;
– Olha –apontei – Parece um cachorro.
– Na verdade... –disse olhando – tá mais pra um jacaré.
– Jacaré? – ri
– Ali é um gato. – entrou na brincadeira
– Hm... dois gatos, eu acho. Correndo atrás de um rolo de lã. — Foi a vez dele rir.
– E ali... parece um casal. Não é? – falei
– Brigando? –sugeriu
– Não. –balancei a cabeça – Acho que estão se beijando.
– É?
– Unrun. – o olhei
– Seria um aviso? – me olhou nos olhos
– De que? — sussurrei
– Disso.
Finn me segurou pela nuca. E eu, estupidamente, me derreti toda. Nós ficamos nos olhando por um tempo. Dos olhos pra boca, da boca pros olhos.
– Eu não... devia. – sussurrou
– Tem razão. –brinquei com seu cabelo
– Mas eu vou – avisou –Estou avisando para depois não dizer que não queria, que foi a força. – procurou a minha boca
Dei um sorriso, totalmente entregue, totalmente dele. Uma mão na nuca e algumas palavras doce e aqui estou eu, toda mole e cheia de charme! Faça-me o favor!
– Rach... – seus lábios resvalou os meus – Peça. Não quero correr o risco de outra marca roxa. — Eu mordi seu queixo, totalmente fora de mim. Vou me envergonhar disso mais tarde, eu sei, mas por enquanto, tudo o que passava na minha cabeça desde que o encontrei em seu apartamento era me beije. me faça sua. E qualquer outra incoerência desse tipo!
Por alguma razão achei que seria mais digno eu beijá-lo de uma vez do que dizer minha vontade em voz alta. E foi o que fiz. O beijei. Não era quatro de julho, mas vi fogos de artifício estourando no meu céu. E como vi! Antes que percebêssemos, eu já havia deitado por cima dele, sem o menor pudor! Ele riu, beijando meu pescoço, me arrepiando.
– Estamos no Central Park, Rach. –ele avisou num tom secreto, só nosso – Não brinque assim comigo. — Ri de volta, totalmente embriagada, drogada, alucinada. E perdida! Completa, irrevogável, definitivamente perdida! E olha, tenho que dizer, admitir para mim mesma que estava perdida não era lá tão fácil.
Foi fácil me perder, eu até tentei resistir, mas me jogar nos braços de Finn foi meio que inevitável, principalmente quando ele beijava tão bem... Só que se acaso eu precisasse me encontrar e achar o caminho de volta, ia ser um pouco mais complicado.
Nossa, como esses momentos pós-sexo faz você pensar na vida!
Pois é, pois é, aconteceu. Antes do esperado, eu diria. Para ser bem sincera nada disso era esperado. Eu não planejava me apaixonar por ninguém, afinal, eu tecnicamente não tenho tempo para isso. Muito menos por Finn! Há poucas semanas atrás não passava de um empresário prepotente e frio. Bem, agora eu descobri que de frio ele não tem nada.
Não vou dizer que foi tudo muito natural e que aconteceu como se nos conhecêssemos há anos. Muito pelo contrário tudo foi muito sobrenatural e dedicamos um bom tempo a nos conhecer. Mutuamente. Se é que vocês me entendem. Mas é melhor eu contar do inicio se não essa história vai ficar tão atordoada quanto eu estou.
Tudo começou quando chegamos ao apartamento dele. Ele vinha com o braço apoiado nos meus ombros, eu gostaria de dizer que foi por romantismo, por não agüentar ficar longe de mim, mas na verdade ele só estava cansado do esforço da caminhada e precisava se apoiar em mim para andar. Ele foi para a cama e eu fui para a cozinha.
Almoçamos vendo Dr House, dessa vez até Finn soltou umas risadas. Foi um episódio muito divertido. Mas quando acabou eu não tinha mais nada para dizer a não ser:
– Eu vou indo, volto mais tarde para sua janta.
– Rachel – ele me chamou quando eu mal tinha saído da cama.
– O quê? – eu voltei a me aproximar curiosa para saber o que ele queria.
– Você pode passar aquela pomada nas minhas costelas, mais uma vez? — Não sei bem porque, mas eu estava esperando algo mais... hm, convidativo. Se bem que ver Finn tirando a camisa e expondo seu corpo já esta convidativo o bastante. Peguei a pomada na gaveta e me ajoelhei ao pé da cama para passar o remédio nas costelas dele. Meu olhar estava fixo naquele ponto, mas eu sentia o olhar dele fixo em mim. Sem querer, deixei meus olhos escorregarem por toda área descoberta do corpo dele, passando uma e outra vez pelo peito, braços, abdômen... Dessa vez ele não segurou minha mão, nem tocou em mim como da outra vez, então, eu presumi que...
– Agora eu tenho que ir, mais tarde eu volto. — Só que outra vez, eu mal dei três passos até ele me chamar.
– Rach...
– O quê? — Um pouco desesperada talvez.
– Fica.
– Fico – respondi com um suspiro. Acho que foi de alívio.
Voltei a subir na cama, mas sem saber muito o que fazer portanto, só fiquei olhando para ele, que também estava olhando para mim. E de repente eu não tinha o que falar.
– Finn... – era só o que eu conseguia pensar e falar.
– O quê? – ele me perguntou enquanto colocava uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
– Nada – respondi sem conseguir conter um sorriso.
Eu estava nervosa, mas sobretudo, feliz. Aquela parecia ser nossa nova brincadeira. A brincadeira do “O quê” que poderia não fazer muito sentido para o resto da humanidade, mas para mim, e para ele, funcionava muito bem. Muito, muito bem! Ele estava a centímetros de mim, porém nossos não se tocavam. Exceto pela mão dele que passeava pelo meu rosto, suavemente me causando alguns arrepios. Seus olhos estavam brilhando e imaginei que os meus também estivessem. Os olhos dele queriam dizer algo e eu queria saber o que era. Então, novamente...
– O quê?
– Nada – ele respondeu momentos antes de beijar a ponta do meu nariz, me fazendo rir e depois a minha boca, me fazendo calar. Aquele beijo não era como os de antes. Não era nada do que eu estava acostumada. Era lento, languido e quase sensual, mas sem perder a ternura. Minha boca estava presa a dele e meus dedos emaranhados em seu cabelo. Mas com leves mordidinhas, as coisas iam mudando de figura. Parte do corpo dele estava sobre o meu e sentir seu peso em mim me dava sensações inusitadas, fora que as mãos... Elas dele passavam despretensiosamente (ou não) pelos meus braços, cintura, pernas... Até que, de repente, já não era o bastante. Foi aí tive uma resolução.
– O quê?? – ele perguntou confuso quando eu sem aviso prévio me desprendi do beijo e sentei na cama.
– Tudo – eu respondi levantando os braços, para que ele pudesse tirar minha blusa que, antes mesmo de eu perceber já estava no meio do caminho.
– É você quem manda – ele disse no meu ouvido quando se livrou da minha blusa. A voz dele estava rouca e minha risada também. Ele passou a beijar meu pescoço e eu a acariciar suas costas, claro, sempre tomando cuidado para não esbarrar nas costelas doloridas. Eu sentia as mãos dele por todo meu corpo, apertando nos lugares certos, me instigando a querer mais. Mas quando a mão dele chegou a um ponto no centro das minhas costas onde ficava o fecho do meu sutiã, eu prendi a respiração.
– Fica calma – ele me disse. E eu fiquei, logo depois de ele me dar um beijo. Acontecia que quanto menos roupas tínhamos, mais calor sentíamos. E isso podia ser um pouco contrário as leis da física, mas para mim fazia muito sentido. Afinal, tendo Finn colado a mim, com suas mãos me explorando e sua boca me beijando, simplesmente me incendiava.
E eu tampouco ficava para trás. Me perdi nele, querendo conhecer cada pedaço do seu corpo, querendo fazer dele parte de mim, pensando que queria ele dentro de mim. Bem, talvez um pouco mais que pensando...
Me sentei nas pernas dele, porque teria que ser assim. Caso contrário ele poderia se machucar. E eu não posso ser exatamente classificada como do tipo devassa, essa era a primeira vez que eu iria ficar por cima, mas de certo modo eu não estava com medo. Afinal, era Finn, já tinhamos feito isso, não havia porque temer.
– Nunca te vi tão linda – ele disse com um sorriso safado me olhando por inteiro. Eu poderia dizer o mesmo sobre ele. Poderia, mas não disse, pois naquele exato momento eu estava sendo invadida por um mundo de sensações. Eu estava sendo invadida por ele. Com as mãos firmes no meu quadril ele me guiava e eu me apoiava nele com a mão em seus ombros. De quando em quando eu me inclinava sobre ele, não resistindo em beijá-lo, meus seios roçavam sob o peito dele e ele soltava um gemido e a partir daí as coisas começaram a ficar mais urgentes. Algo estava acontecendo.
E quando aconteceu, mais uma vez eu vi fogos de artifício. E eu já sabia que não era 4 de julho, aquele era o efeito que Finn tinha em mim, me acendia e me fazia brilhar. Deitei ao lado dele arfando em busca de ar. Ele por sua vez virou de lado e me abraçou pela cintura, passando seu nariz na minha orelha.
– Rach... – ele falou ainda com a voz rouca.
– O quê? – sem conseguir conter um sorriso
– Acho que eu te amo.
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