Gypsy
9 Um Pouco Mais Perto.
Notas iniciais
Por mais que doa admitir, após a pequena visita ao apartamento do décimo terceiro eu estava muitíssimo tentada a me mudar. Afinal era um bom apartamento, tinha uma ótima localização e facilitaria muito minhas indas e vindas ao apartamento do Finn. Ele já era mobiliado e o preço estava bem acessível para mim. Não era como se eu tivesse muito o que trazer também, então era quase perfeito. O único problema era aceitar que, definitivamente, Finn se tornaria uma figurinha constante no meu dia a dia. Sem pensar muito no assunto, e receosa que o outro casal que olhava o local resolvesse se adiantar, dei o meu número para Jesse, o porteiro, entregar para o proprietário do lugar, pedindo para ele me ligar o mais rápido possível. Depois disso, me dirigi finalmente para meu futuro ex-apartamento para ter uma boa noite de sonho. E dessa vez, ela de fato foi cumprida. Teve até sonhos! Vejam só que avanço... Sonhei que tinham dado alta a Finn, que ele estava completamente curado. Então nós dois, ao receber essa noticia fazemos uma dancinha ridícula, típica dos sonhos, onde ficávamos de mãos dadas rodopiando e meio que flutuando por conta da falta de gravidade e então...
E então... O Toque do meu celular começou a tocar insistentemente. Eu não sabia o que significava isso mas tinha sido isso que me tirou do meu sono. Um tanto desnorteada me levantei e fui em direção ao barulho que só fazia aumentar.
Lógico que a essa altura e a julgar pela insistência eu já desconfiava quem era e ao atender o telefone, já tinha preparado meu mais tom acusatório para perguntar:
– Sabe que horas são?! — Claro, eu não sabia, mas desconfiava que era alguma bem inapropriada para ligar para alguém.
– Imagino que cinco da manhã – respondeu uma voz estridente que nada tinha a ver com quem eu estava pensando – mas é uma situação urgente. — Era Santana, a enfermeira contratada. Que nesse exato momento parecia estar louca da vida.
– O que houve? – perguntei.
– O senhor Hudson, está reclamando de dor.
– Ah, ele tende a reclamar de tudo – falei sonolenta.
– Mas com reclamar, eu quero dizer urrar de dor.
A partir daí não tentei mais lutar contra. Santana apesar de convencida e espaçosa era jovem e inexperiente, deveria estar assustada com os faniquitos de Finn. Mas devo admitir, eram mesmo urros. Quando cheguei ao corredor já podia ouvi-los. Ao entrar no apartamento a situação piorava alguns decibéis. E ao chegar no quarto...
– Rachel, me ajude pelo amor de Deus!
– Porque não pediu ajuda à sua enfermeira? — Falei irônica, enquanto me aproximava.
– Ela não soube me ajudar. — Ele disse desesperado.
– Hmmm... – murmurei quase triunfante, quase, porque uma parte de mim estava preocupada.
– Santana! – chamei e imediatamente ela apareceu à porta do quarto – Quando essa crise começou?
– Por volta das três da manhã, doutora. Ele dormia um sono muito inquieto onde se mexia muito.
– Ele não pode se mexer, menos ainda se mexer muito.- Eu disse sem paciência — Já tomou o anti-inflamatório?
– Bem, não está na lista – Santana falou insegura – mas de resto, todos os outros foram dados no horário certo.
– Que tipo de enfermeira é essa que você contratou? – perguntei a Finn meio indignada, meio perplexa.
– Uma enfermeira estagiaria. — Meu. Deus. Estávamos com problemas. E não estou falando por Santana ser estagiaria, porque até uma semana atrás eu também era. Mas o braço de Finn sim era preocupante.
– Seu braço está inchado – o informei.
– Eu já tinha notado – ele falou ao olhar para a monstruosidade que descansava sobre o travesseiro ao lado dele.
– E não fez nada para reverter?! Seu braço triplicou de tamanho, Finn.
– Eu não sabia o que fazer – agora ele parecia culpado.
– Aparentemente nem sua enfermeira. — Eu disse irritada. Tenho para mim que ele ia me dizer alguma resposta mal criada, mas foi interrompido pela dor. E os urros voltaram. Eu bem que podia sapatear em cima dele, afinal era isso que eu planejava fazer quando eu triunfasse. No entanto, algo me fez parar e prestar atenção no sofrimento dele. O profissionalismo, eu acho.
Podia ajudá-lo, tinha que ajudá-lo. Corri para a cozinha em busca de água, o que encontrei foi a maior bagunça e os restos, na realidade quase intactos da sopa de ontem.
– Santana! – chamei a menina que já estava adormecida no sofá.
– Humm – ela respondeu, tenho para mim que os murmúrios são sua especialidade.
– Porque Finn não comeu a sopa ontem?
– Ele não quis. Disse que era terrível, um pesadelo em forma de alimento. Me fez provar. Provar! Acredita nisso?! Tive que dar razão a ele. E não tive mais argumentos para convencê-lo de comer.
– Que tal: É isso que vai te fazer ficar curado? Acho que esse é medianamente bom – informei enquanto ligava o liquidificador e preparava uma vitamina.
Vou lhes dizer a verdade. Aquela menina me incomodava. Talvez já tenha dado para perceber, mas o descaso dela com Finn, o paciente, me irritava. Além disso, porque ele a contratou? Só porque ela tem uma carinha de anjo e um corpo de dar inveja? Sinceramente, isso me parece um tanto fútil, ainda mais para alguém que está de cama.
Podia discorrer ainda mais sobre esse assunto, mas ele não me interessa muito, vocês sabem, eu estou aqui exclusivamente para fazer Finn ficar curado. Não estou aqui para me envolver e sua vida pessoal. Por essas e outras, termino a vitamina, ignoro Santana e seus pedidos de desculpa e entro no quarto.
Seus gritos estão um pouco (só um pouco) mais baixos, acho que ele já se convenceu de que não vai conseguir me sensibilizar. O que é bom, porque eu não vou mesmo.
– Tome isso – ofereci a vitamina – e isso – coloquei o anti-inflamatório em sua mão.
– O que é isso? — Finn perguntou meio agoniado.
– Remédio.
– Não. Isso. — Ele falou apontando para copo cheio que o entregava.
– É vitamina. E você vai tomar. — tentei dizer o mais pragmática que pude, já que se dependesse da manha dele isso iria demorar muito.
– Não disse que não vou tomar, só queria saber do que se trata.
– Bem, se trata de coisas que vão ajudar na sua recuperação.
– Coisas pavorosas você quer dizer.
– Certamente, – respondi – mas beba tudo. Logo. — Recado dado. A próxima missão era lavar a louça da cozinha e...
– Espere! – pediu Finn e sob meu olhar incrédulo ele se explicou: — É melhor você ficar aqui, caso eu vomite, você sabe...
– A única coisa que eu sei é que se você vomitar vai ter que tomar tudo de novo. — Falei aquilo quase sorrindo.
– Mas alguém vai ter que estar aqui para conferir, não? – ele perguntou enquanto se arriscava em um primeiro gole da vitamina que entre outras coisas continha gema de ovo e uma pitada de óleo de fígado. Houve uma ânsia de vômito. E uma busca louca por um balde. O balde não foi encontrado, mas pelo menos, o vomito tampouco foi concretizado. Em frações de segundos eu estava ao pé da cama e Finn recuperando a respiração.
– É melhor você ficar – ele falou ofegante. — Limitei-me a assentir enquanto verificava sua temperatura passando a mão por sua testa. Por sorte estava estável.
– Também... – ele acrescentou – têm programas incríveis passando na televisão a essa hora. — As cinco para seis da manhã. Sim. Fingi que acreditei. — Último gole! – ele anunciou dez minutos depois.
– Dá para mais um gole – avisei examinando o que restava na caneca.
– Tenha dó e piedade! – ele protestou.
– É só mais um! Você já enfrentou bastante – protestei ao empurrar a caneca em sua boca. Ele fechou a boca como uma criança mal criada. O que me forçou a ficar de joelhos na cama e empurrar com mais empenho.
– Você é teimosa – ele resmungou ao, por fim, aceitar o último gole.
– E você desobediente. – respondi me encostando novamente nos confortáveis travesseiros da cabeceira – E prepotente.
– Sinal de que você já me conhece bem – ele rebateu me olhando de esguelha.
– Não conheço não! – neguei um tanto entusiasmada demais, devo admitir.
– Tudo bem, então não conhece – ele falou ainda olhando para mim e como eu também estava olhando para ele, pude notar que ele não dizia a verdade.
Sei que para que uma pessoa perceba que a outra está mentindo deve ter algum grau de conhecimento sobre ela. E talvez, meramente por conta do trabalho, eu o conheça. Um pouco.
– Você também é mentiroso! – acrescentei à minha lista de insultos, lhe lançando o olhar mais acusatório possível.
– De vez em quando – ele admitiu, já sorrindo de leve, sinal de que provavelmente as dores estavam diminuindo. Mas, pelo pouco que sei em seu olhar não havia nem um traço de culpa.
Ele continuava me olhando assim como eu também fazia dessa vez mais de perto. Podia ouvir o barulho da respiração dele. Eu provavelmente deveria me afastar, mas eu não estava aborrecida com isso. Isso era inédito. E se vamos continuar com eventos nunca antes mostrados... Talvez eu deva chegar um pouco mais perto só para...
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