Gypsy

10 Olha o Aviãozinho!


Notas iniciais
como gostei de ainda ter leitores mesmo depois de sumir, outro capítulo curtinho, só pra ser legal hahaha

Um pouco mais perto só para... para...

– Já são seis e quinze, estou morta de cansaço, será que posso ir embora? – perguntou Santana enfiando a cabeça pela fresta da porta. Sem bater é claro. Eu dei um pulo, me afastando completamente de Finn.

– Claro que pode ir, – falou Finn com a voz um tanto alterada, provocado pela vitamina, talvez... – seu horário de saída é as seis, já poderia ter ido.

– Obrigada, até amanhã então! — Ela bateu a porta ao sair, deixando-nos livres para continuar o que havíamos começado. Mas o momento já havia passado, eu eu continuei olhando fixamente para a TV, sem prestar a minima atenção ao que estava assistindo, só tentando processar o que poderia ter acontecido se a (maldita) Santana não tivesse entrado. Talvez tenha sido melhor... Afinal, eu já estive aqui, nessa situação, eu sei como acaba. Definitivamente não é algo que se encaixe na nossa relação médico-paciente.

– Olha só! Está na hora de Bob Esponja! – exclamou Finn, que parecia feliz.

– Não achei que um executivo como você via algo tão divertido como Bob Esponja. — Falei tentando tirar a tensão da minha voz.

– Só vi uma vez. Na casa da minha irmã no dia de ação de graças com o meu sobrinho, e de verdade, achei divertidíssimo. Não sei se foi porque meu sobrinho ria de todas as cenas ou se o desenho realmente valia a pena. Podemos tirar a prova disso agora. Pode ser?

– Por mim tudo bem! – respondi prontamente. Qualquer coisa que fizesse ele me deixar sozinha com meus pensamentos.
Mas Bob Esponja, Patrick e suas calças quadradas a parte, aquilo não estava nada a ver. Eu estive a ponto de beijar um sujeito que acabava de sofrer de uma ânsia de vômito. Que há pouco tinha tomado aquela pavorosa vitamina que de tão horrível que é nem se quer tem nome. E o pior de tudo... Esse homem é Finn Hudson.
Posso culpar a falta de sono adequado. Ou talvez a pressão que estou enfrentando por cuidar de um paciente rebelde, que inclusive já me levou pra cama, e trabalhar no hospital. Mas, no entanto, creio que a razão seja ainda mais profunda e pavorosa que isso. Sacudo a cabeça tentando me livrar desses pensamentos, afinal durante um episódio de Bob Esponja talvez não seja o momento adequado para de pensar nisso. Portanto, tento relaxar e me divertir com as aventuras marítimas dessa esponja de dentes separados.

Três episódios depois e muitas risadas, lembrei que era a hora do remédio de Finn. Fiz ele tomá-los e fui para a cozinha ver o que poderia ser feito para o almoço, já que Santana tinha estragado alimentos valiosos em sua canja e nem sequer havia lavado a louça. Não sei por que cargas d’água, Finn me chamava de quinze minutos em quinze. Pelos motivos mais banais, para as perguntas mais idiotas e sempre com a desculpa de não poder se mexer muito.

Mas minha teoria é que já que ele não podia trabalhar em seus papéis, decidira me infernizar. Quando finalmente consegui preparar seu almoço, já estava quase na hora de ir para o hospital e ainda precisava trocar de roupa. Porque caso vocês não se lembrem fui recrutada na calada da noite, e ainda estava com a roupa que tinha dormido, somente coberta por um casaco qualquer que catei na escuridão.

– Enquanto você come, vou no meu apartamento trocar de roupa pra ir para o hospital – comuniquei a Finn enquanto depositava a bandeja com a comida em seu colo.

– Mas eu não posso comer sozinho. – ele indagou — Com esse novo inchaço, só posso mexer um braço e como vou manejar o garfo e a faca? — Embora manhoso, ele tinha razão. Mas isso não impedia que eu ficasse um pouco estarrecida.

– Vou ter que te dar comida na boca?

– Não pense que estou feliz com isso – ele falou, emburrado.

– Trate de comer rápido e sem chiliques, porque eu não quero chegar atrasada. — Ele se limitou a abrir a boca para que eu lhe desse a primeira garfada da refeição. Dessa vez pelo menos ele não reclamou (tanto) e se comportou como um bom menino abrindo a boca bem grande cada vez que eu dizia:

– Olha o aviãozinho!

Onze horas em ponto a animada refeição acabou, e eu estava em cima da hora do meu trabalho. A segunda parte dele, quero dizer.

– Está bem alimentado? – perguntei, somente por desencargo de consciência.

– Bem e alimentado – ele me confirmou.

– Então eu tenho que ir, antes que Blaine se arrependa de ter me trazido para a equipe dele.

– Rachel! Não vá hoje – ele gritou quando eu já saia pela porta.

– Eu tenho que ir! — Eu disse de volta.

– Mas eu sou seu paciente! – ele protestou ofendido.Não acreditava que um homem daquele tamanho depois de ter recebido comida na boca estava agindo daquela maneira, mais ou menos parecia que ele tinha regredido.

– Você já me disse que está bem! Essa noite eu venho aqui mais cedo te dar os remédios e a janta, isto é, se sua enfermeira não estiver aqui desempenhando minha função.

– Não. Ela só vem amanhã – ele informou – mas eu não estou tão bem assim, para ser franco, meu braço dói um pouco...

– Esquerdo ou direito? — Perguntei com falsa preocupação.

– Direito... — Ele respondeu meio incerto.

– Mas o que está inchado é o esquerdo! — Eu disse com o tom de quem pega alguém no flagra.

– Tudo bem, você me pegou – ele assumiu a contragosto – mas por favor não vá, eu não quero ficar aqui sozinho sem fazer nada.

– Mas Finn eu... – quis contrariar

– Simplesmente diga que eu não estou bem, não vai ser uma mentira.
Que ousadia desse cara... Primeiro ele me contrata uma enfermeira um pouco mais útil que uma porta para ficar em meu lugar, depois me tira da cama no meio da noite, logo em seguida me ofende, me faz ver desenhos animado e depois me pede para ficar com ele? O que será que ele está pensando?! Gostaria de saber. E quanto a mim, tudo que eu posso lhes dizer é que...

– Alô, Blaine. Aqui é Rachel. Estou só ligando para avisar que não vai dar para eu ir aí hoje. Finn não está passando bem, houve uma complicação no seu braço esquerdo, tudo sobre controle, mas é melhor ficar sob observação. Tudo bem. Pode deixar. Vou cuidar dele direitinho, te aviso se qualquer coisa acontecer. Obrigada pela compreensão. Tchau!

Já que fui liberada do trabalho, me dei ao luxo de comer um bom almoço. Na companhia de Finn, claro, já que para ela estava se tornando impossível viver cinco minutos longe de alguém. Ou, no caso, longe de mim.

Almocei bife de hambúrguer e batata frita. Sim ele têm aquela maquina do George Foreman. E melhor, praticamente nova! Porque é claro que ele nunca faz a comida e sim pede que ela venha até ele. Deliciei-me com tudo aquilo sob os olhares invejosos dele e quando terminei me senti uma pessoa melhor. Ou no mínimo mais alimentada. Na televisão passava um filme chatíssimo. E pouco a pouco, involuntariamente eu me aconchegava mais nos macios travesseiros. Finn estava indo pelo mesmo caminho, só que muito mais desconfortável que eu, pois não podia se mexer com a mesma liberdade.

– Nada melhor do que uma cesta depois do almoço – ele declarou ao fechar os olhos.

– Concordo – eu falei enquanto caia em um dos sonos mais confortáveis do ano. E assim foi a segunda vez que eu passei a noite – que na realidade era tarde – na cama com Finn.