Gypsy

8 Décimo Terceiro.


Notas iniciais
vou tentar programar esse, vamos ver se dá certo hehe

POV Rachel

Apesar do atraso e de toda a tensão de mudar de supervisor, o dia de trabalho foi bem proveitoso. E quando eu trabalho, quero dizer trabalho de verdade, no duro. E eu que pensei que com a idéia de ficar só um plantão faria a pressão por ali baixar um pouco. Não poderia estar mais enganada! As coisas no hospital valeram por dois Finns ou três. Talvez eu esteja exagerando, afinal, um Finn já é uma grande unidade de medida, em matéria de trabalho. Mas não encarem isso como uma reclamação! Apesar de cuidar de Finn ser realmente algo maçante, o trabalho no hospital era muitíssimo gratificaste, mesmo com todo o cansaço físico, correr para lá e para cá, cuidar de novos casos, atender pacientes emergências e tudo isso, estava feliz com minhas tarefas da residência! Afinal, era aquilo que eu queria, e agora, mais do que nunca, tenho certeza disso.

Só hoje lidei com dois fenos fraturados, um cotovelo luxado, três costelas quebradas — em pessoas diferentes, pra sorte de todos. Cada hora que um novo caso aparecia eu sentia um misto de excitação e pânico. Para minha sorte, Blaine era muito mais compreensivo como orientador que Sue. Ao invés de berrar "Não está sendo eficiente o bastante, senhorita Berry!!" quando eu demonstrava algum sinal de insegurança, Blaine me ensinava o procedimento, observava com atenção e me corrigia caso eu estivesse errada. Não que eu errasse todo o tempo, como vocês sabem… Ninguém é perfeito!

Foi uma tarde de muito aprendizado, e aguardo ansiosamente pela seguinte. Que pra minha sorte — e não para da minha cama, que morre de saudades de mim — será amanhã. Mas por hoje, eu estava liberada, e uma hora antes do estipulado. Muita gentileza da parte de Blaine me liberar para cuidar de Finn, porque essa sim é uma tarefa que leva tempo. Passei todo o caminho de volta me debatendo entre minha cama e o apartamento de Finn. Minha cama ganhou o debate, é claro. Pelo menos no meu pensamento. Já na porta do prédio de Finn, eu ainda refletia sobre como seria bom ir para casa só para tomar um banho e relaxar um pouco… Mas, infelizmente, por causa do meu grande amigo Hudson, isso só aconteceria em, no mínimo, umas duas horas, já que daqui que eu alimenta-se, desse conta de que ele tomasse todos os remédios e ainda fizesse todo o trajeto até minha casa provavelmente já teria perdido todo o bônus de ter sido liberada mais cedo. O dever falou mais alto e eu terminei na portaria do prédio de Finn novamente.

– Boa noite senhorita Berry! — Sorri ao perceber que o porteiro lembrava meu nome e o cumprimentei de volta. Já estava passando quando ele me chamou de volta. Curiosa como só eu, voltei. — A senhorita me disse que vai passar um bom tempo tendo que vir aqui todos os dias, certo? — Ele perguntou.

– Sim, isso mesmo…

– Então… O dono do apartamento 1302 está alugando o apartamento, caso a senhora esteja interessada ele acabou de ligar passar aqui com um casal para olhar o lugar. Citei seu nome e ele disse que, caso esteja interessada, é só bater lá.

– Hm… Obrigada pela lembrança Jesse, verei o que posso fazer. — Subi o elevador com um sorriso no rosto. Esse porteiro definitivamente não era natural de Nova York, era muito cordial para tal. Estava pensando seriamente na proposta. Já fazia um tempo que estava bem insatisfeita com meu apartamento. Se o aluguel não fosse tão exorbitante, quem sabe? Claro que não tinha nada a ver com o fato de Finn morar nesse prédio, apesar de que agilizaria bastante as coisas com ele sendo meu paciente, era apenas uma questão de conforto. Decidindo deixar esse assunto para uma hora mais oportuna, bati na porta da cobertura. Decidi não usar a chave que eu tinha, não sabia como Finn estava se sentindo com aquela informação, não iria voltar a usá-la até saber se estava tudo bem. E eu só a possuía exclusivamente para fins médicos, não para ter livre acesso ao seu apartamento.

– Já vou! — Gritou uma voz feminina. Foram necessários apenas dois segundos para eu perceber que aquilo não era normal. Será que eu bati no apartamento errado? Ora, mas não era possível, tudo bem que eu estava zonza de cansaço, mas daí a maluca é um longo caminho. Só havia uma maneira de confirmar minha sanidade, abrir logo a porta de uma vez. Eu tinha a chave afinal, eu podia fazer isso! Logo quando abri encontre a dona da voz feminina vindo em minha direção.

– Quem é voce?! — ela perguntou alarmada.

– Quem é voce?! — eu perguntei mais alarmada ainda, olhando estupefata para a morena voluptuosa que estava na minha frente toda trajada de branco.

– Sou a enfermeira de Finn — ela declarou cheia de si.

– Vou ver como ele está — falei ao pensar que eu poderia não gostar nada do que encontraria ali, de que já não estava gostando nem um pouco.

– Espere! — ela ousou interromper meu caminho — O paciente não está recebendo visitas — anunciou com um sorriso falso.

– Acontece que eu não sou visita! Sou a médica dele — disse ao acelerar o passo para entrar no quarto dele e bater a porta, torcendo para que tivesse batido no nariz dela.

– Olá! — ele me cumprimentou calmamente enquanto lia mais um de seus irritantes papéis.

– Você contratou uma enfermeira!

– Pois é…

– Não foi uma pergunta! — exclamei indignada por ele ter o descaramento de confirmar nessa tranqüilidade toda.

– Também não foi uma resposta. — ele disse ao volta os olhos para seus documentos, não dando a mínima para a minha revolta. Comecei a andar pelo quarto. Aquilo era um insulto a mim, a minha capacidade como médica, como ele ousar fazer isso sem nem ao menos me consultar? Não que fosse uma questão de ego, mas envolver outra pessoa no tratamento de alguém era decisão da médica e não do paciente, e eu tinha muitas maneiras de argumentar isso, mas devido ao meu nervosismo com a situação chocante de encontrar outra mulher co-habitando o apartamento de Finn, não estava conseguindo colocar as idéias em ordem. Por esse motivo continuava andando de um lado para o outro em busca de alguma razão que deixasse Finn com sua cara no chão por sua irresponsabilidade. Por pura ironia, foi exatamente no chão que eu fui encontrar o argumento perfeito. Ao lado da cama dele, havia uma bandeja, com o conteúdo mais ou menos comido do provável almoço daquele dia.

– Você almoçou canja? — perguntei, quase deixando transparecer meu triunfo. — E a receita que eu deixei?

– Sim, Santana fez para mim — ele declarou orgulhoso, ignorando minha segunda pergunta — ela é muito anteciosa, preparou a melhor comida típica de doentes.

– Mas voce não é um doente típico, Finn. Ou por acaso acha que é muito comum um homem adulto se quebrar da maneira que aconteceu com você? — Ele não me respondeu, a não ser pelo muxoxo que emitiu ao voltar mais uma vez os olhos para seus papéis. — Que tipo de enfermeira é essa que começa a alimentação de um paciente sem buscar a orientação da médica encarregada?! Francamente, se você não confia na minha capacidade como médica, pelo menos, contrate uma profissional com competência suficiente para não te matar!

– Rachel, não foi bem isso que… — Não queria ouvir explicações daquele homem prepotente, o mal já estava feito e a fúria já estava instalada em meu interior. Portanto, antes mesmo que ele começasse com o discurso barato dele, saí ferozmente do quarto, com direito a porta batendo e tudo mais. Fui para a cozinha preparar o jantar do doente, fazendo questão de bater as panelas para demonstrar minha inconformação. Comecei a fazer a sopa enquanto a enfermeira do ano, Santana, nada fazia, além das unhas e assistir TV. Aparentemente ela não demorou a encontrar a principal atração daquela residência. No entanto, já que ela estava com tanto tempo ocioso no trabalho, achei interessante fazer alguns avisos.

– Santana é seu nome, não? — perguntei meramente para desencargo de consciência.

– Sim, Santana Lopez — confirmou sem me dar muito crédito.

– Pois bem, Santana Lopez, agora que você vai ser a enfermeira encarregada — disse com um som indignado na garganta, com muita vontade de deixar claro que aquilo não era minha vontade — Espero que cumpra com certos procedimentos. E colabora com a recuperação do paciente.

– Entedido — murmurou Santana, mais para a televisão que para mim.

– Então… Vamos começar pela alimentação, certo? Que é uma das partes mais importantes do tratamento. Você deverá servir a eles coisas ricas em cálcio, fibras e proteínas. Coisas que, por acaso, não têm em abundância em uma canja de galinha. Vou deixar uma receita dessa sopa para que você possa fazer. Na geladeira, há coisas como fígado, óleo de fígado e muitos outros itens que te possibilitam a variar a alimentação de tempos em tempos. Outra coisa muito importante é fazê-lo comer essas coisas, porque geralmente ele é um tanto arredio com elas…. Entendido? — Finalizei orgulhosa de mim mesma, por utilizar mais o meu tom profissional do que o sarcástico, apesar de ter escorregado uma vez ou outra.

– Hmmmm. — ela emitiu num murmúrio vago enquanto a barriga de algum ator gostoso aparecia na TV.

– Além disso, lembre-o de tomar os remédios no horário certo. Não deixe que ele se mexa muito e principalmente que ele fique vidrado no trabalho, como ele está agora. Ele tem que repousar, mesmo que ele não saiba como fazer. Está claro?

– Ahn.. — ela finalmente virou o olhar para mim — Sim.

– Muito bem, estamos entendidas então. — Pelo menos espero que estejamos, porque depois disso não obtive muitas respostas. Em contrapartida, o ator gostosão parecia ter bastante atenção. Depois disso comecei a ver as coisas pelo lado bom, porque já que eu não estava suportando ver a cara de Finn por muito tempo e tinha mus substitua contrada pelo mesmo para desempenhar esse trabalho chato para mim, eu poderia ir para casa relaxar e, principalmente, dormir. Entrei no quarto dele, onde para não variar, ele lia documentos, dessa vez no laptop que eu não sei de onde ele tirou. Mas isso não duraria muito…

– Hora do jantar! — comuniquei ao arrancar o laptop do seu colo sem aviso prévio.

– Tenho que terminar de ler esses memorandos! — ele protestou — São de Chicago e acabaram de chegar, não posso perder tempo!

– Chicago ainda estará no mesmo local depois do jantar. — falei ao plantar a bandeja com uma nutritiva soupa e o mesmo suco da noite anterior. — Coma tudo.

– Ah não… Essa lavagem de nova não. — ele resmungou.

– O que eu posso fazer? — Dei de ombros e saí do quarto, certa de que mandaria Santana verificar se ele comeria tudo. Os protestos dele continuaram, mas eu não dei ouvidos. Saí em direção ao meu apartamento, ao meu quarto e à minha bela noite de sono. Ao entrar no elevador, pronta para apertar o botão do térreo, lembrei-me do lembrete do porteiro. Já que minha visita a Finn havia se mostrando mais rápida do que eu esperava, resolvi olhar o lugar e apertei o botão do décimo terceiro andar com um sorriso no rosto.