Gypsy
14 Divinamente Perfeita.
– Você deveria ficar quieta, está passando mal. Eu poderia cuidar de você – O que deu nesse homem, meu Deus? Ah, não, já lembrei, é porque deram para ele. Homens... Tão depressíveis...
– Sou médica, caso tenha esquecido.
– Mas um médico sempre se consulta com outro médico.
– E desde quando você é medico?
– Só quero ajudar.
– Você já disse isso. — E saí do quarto. Esse Finn, educado e prestativo, estava era me cansando. Preferia quando ele era groso, mal educado, indiferente e prepotente, pelo menos com isso eu conseguia lidar. Agora esse Finn, nada nova-iorquino, estava me deixando zonza e perdida. Estava acostumada com essas facas e pedras, não flores e perfumes. E que perfume!
Adoro um cheiro do bom e velho homem, sem frescura, transpirando masculinidade – deixando claro que transpirar masculinidade não quer dizer ficar suado e fedendo, claro. E, droga, o que é que está pensando, Rachel? Era só o que faltava. Pensar asneiras desse tipo em relação a Finn. Aquela tequila realmente não me fez bem ontem...
Achei uma garrafa de água no armário e a enchi. Era a única coisa de que precisava. Muita água. Ainda bem que Blaime me liberou, no estado que estou teria feito estrago naquela emergência. E, tudo bem, Finn pode levar mérito nisso, mesmo que ele só tenha feito isso por pura infantilidade e medo de ficar sozinho. Eu digo que ele é um bebê dentro daquele corpo de homem com pose de auto-suficiente, não digo? Levei a bandeja para o quarto. Eu não tinha reparado no quanto ela era pesada até aquele momento.
– Caramba, Rachel, você está branca como papel. O que bebeu ontem? Absinto com 85% de álcool?
– Se tivesse 85% de álcool eu não estaria viva hoje!
– Bem, para ser sincero... Você não está com uma aparência de quem está muito viva... — Como se fizesse muita diferença estar muito ou pouco viva, claro. Bufei rolando os olhos.
–Não estou com a menor disposição de discutir com você. — Me sentei na cama e bebi minha água.
– Você recusou minha ajuda.
– Não preciso de nada, só de muita água. E paz. Agora come, você sabe como essa comida é intragável fria.
– É intragável de todo jeito.
– A culpa não é minha. Quem não preveniu foi você. — Nós ficamos em silêncio e eu mudei de canal, sem interesse. Eu passava tanto tempo na casa dele que já me sentia em casa. Eu poderia deixar a TV em paz, mas ele permaneceu calado. Então entendi aquilo como um consentimento. Enfim, achei algo que prestava, Dr. House.
Adorava suas respostas inteligentes, nada educadas, que ele dava. Consegui relaxar e até rir em alguns momentos. Só não consegui esquecer a dor de cabeça insuportável e das reviravoltas nada legais do meu estômago.
– Vou escovar dente.
– Com a verde?
– É a minha escova. — Fiz uma cara estranha.
– O que foi?
– Eu escovei com ela, lembra?
– Claro que lembro – se levantou – Mas o que tem? — Nada de mais, só acabei de lembrar que escovei minha boca com gosto de vômito com a escova de um cara que come todas essas coisas estranhas e nojentas. Sabe aquela história de não ter nenhum tipo de repulsa por ter escovado com a escova dele? Esquece!
Chegou atrasada, pedindo desculpa, esbaforida, sem ar. E também pedindo licença, se alojando no meu estômago, que deu um solavanco e devolveu para minha boca. Coloquei a mão, estupidamente, enquanto pulava da cama direto para o banheiro e coloquei tudo para fora. Tudo mesmo. Meu fígado, meu estômago, intestino... Só pâncreas que não por que ele já tinha ido embora na primeira vez. Sim, vascolejou tudo dentro de mim, se fizessem um raio-X em mim agora não me espantaria se achassem meu coração no lugar dos rins. E os rins perto da laringe.
Finn, dessa vez, não pôs a mão nas minhas costas, nem nada carinhoso do tipo, apenas abriu a gaveta do lavatório e tirou uma escova de dente. O que me deu vontade de perguntar porque ele disse que eu poderia escovar os dentes com a dele se tinha outras de reserva, mas não perguntei, estava sem força até para respirar. Isto porque não havia comido nada até aquele momento, imagina se tivesse tomado café!
– A coisa ta feia, hein? – deu um sorriso solidário.
– Seis doses de tequila e é assim que eu fico! Existe alguém mais fraca que eu para álcool?
– Seu organismo não está acostumado, só isso. — Me levantei, com a pouca dignidade que me restava e peguei a escova da mão dele.
– Foi por que eu disse que ia escovar os dentes com a mesma escova, né?
– Você não tem nojo? Fica dividindo sua escova com toda mulher que aparece em seu apartamento?
– Você foi a primeira. E não tenho nojo do você. — Parei de escovar os dentes e o olhei pelo espelho. Como assim ele não tem nojo de mim? Ele mal me conhece, pelo amor de Deus! Francamente, no momento até eu mesma estou com nojo de mim.
– Não faz sentido eu ter nojo de quem faz minha comida. Ou eu ficaria louco pensando que você deixou seu cabelo cair, espirrou, tossiu...
– Chega – grunhi, sentindo meu estômago revirar outra vez. Saí do banheiro e me joguei na cama. Não sei o que era pior: vomitar ou o que vinha depois disso. Sabe, a bambeza, o suor frio que não te deixa identificar se você está com frio ou calor...
– Quer um remédio para enjoo? – ele voltou.
– Remédio para enjoo costuma baixar a pressão. E a minha pressão já é relativamente baixa, então, se eu tomar vou literalmente apagar na sua cama e só acordar daqui a doze horas. — Ele assentiu e se deitou ao meu lado. Ficamos minutos em silêncio, ouvindo Dr. House em mais uma resposta mal educada, eu ri, sem me conter.
– Você gosta mesmo disso?
– Uhum. Ele é insuperável.
– Sério? Eu o acho tão... Prepotente.
– Olha quem fala... — Ele ergueu a sobrancelha.
– Você cisma que eu sou prepotente, não é?
– Ah, agora vai dizer que não é?
– Eu não sou.
– E eu sou a Katy Perry em pessoa – relei os olhos – Não cola, Finn. Aceite, você é insuportavelmente prepotente.
– Como o House? — Isso foi uma indireta? Porque acho que foi! E não que eu esteja me achando ou algo do tipo, mas eu havia acabado de dizer que adorava House e que ele era insuperável. Finn não é normal, só pode.
– Não, não se ache tanto – disse irônica.
– Você não perde a oportunidade, não é mesmo? — Dei um sorriso e voltei a ver meu seriado.
– Viu? É dessa Rachel que eu estava falando.
– Que Rachel? – o encarei – Essa com estômago revirado, estourando de dor de cabeça e pálida como papel?
– Não exatamente. Estava falando da Rachel que caiu em cima de mim ontem. — Eu senti meu rosto queimar, ai, como eu odeio ficar vermelha em horas inoportunas!
Finn aproximou seu rosto, tão próximo que nossas respirações se confundiam. Seu hálito de creme dental de menta varria meu rosto, calmo, enquanto ele olhava diretamente nos meus olhos. Tentei virar, me afastar, enquanto tinha tempo. Mas ele ergueu sua mão boba e segurou, carinhosamente, meu queixo. O dedo escorregou pelo meu rosto, tão calmo quanto possível, me fazendo arrepiar até o dedinho mindinho do pé. E aí... Nem com toda a força do mundo eu conseguia me afastar dele. Ele colocou meu cabelo atrás da orelha e deu um sorriso torto.
– Sabe... eu estava com vontade de fazer isso desde ontem. Sem nenhuma interrupção intempestiva dessa vez.
– Não... – tentei argumentar, mas o seu dedo indicador tocou meus lábios, me silenciando e ele balançou a cabeça.
– Você sabe que vai gostar. — Que filho da mãe convencido! A boca dele encostou na minha, mas eu mordi meus lábio para não abrir. Claro que não abriria! Por favor, ele era Finn Hudson, O Repugnante. Finn que há algumas horas estava deitado nessa mesma cama com a Morena Voluptuosa!
– Rachel – ele disse no intervalo entre um selinho e outro – eu vou te beijar. Eu tenho o dia inteiro, você não tem escapatória e nós dois sabemos disso. Porque não colabora? — Abrir a boca para argumentar. Ele se aproveitou disso, claro. Eu podia acusá-lo de estupro. Violação sem meu consentimento. E que fique bem claro: eu não queria. Finn segurou minha nuca e aprofundou o beijo.
Eu não lembrava mais que o cara beijava bem desse jeito! Diabo mesmo. Ele deveria ter um pacto, só pode. Aquilo era injusto. Muito injusto. Devia ser pecado, melhor, devia ser um crime um cara beijar bem assim.
– Rachel... – ele parou o beijo, mas não se afastou – Eu acho, melhor... eu SEI que você pode fazer melhor. — Cachorro desgraçado! Que direito ele acha que tem de ferir meu ego assim? Pois bem, era guerra que ele queria? Era guerra que ele iria ter! Puxei os cabelos dele e voltei a beijá-lo.
Minha língua brincou com a dele e ele parece ter gostado – um gemido rouco escapou da garganta dele – e me permitir morder seu lábio inferior, puxando-o. Ma antes que ele me atacasse novamente, meus dedos desceram por suas costas e alcançaram uma de suas costelas fraturadas, de propósito mesmo. Ou ele está achando que pode me atacar e me ofender daquele jeito e ficar numa boa, levar a melhor?
Ele não me conhecia, não me conhecia mesmo! Afinal de contas, eu morava sozinha em Nova York, tinha que saber me defender de homens tarados, psicopatas, que não podem ver um par de pernas bonitas que já ficam cheios de saliência para cima de nós, pobres mulheres. Não que eu precisasse de muitos golpes para derrubar um moribundo como Finn, claro. 1,90 de altura, 90 quilos e nocauteado por dois dedos de uma frágil garota de 1,57 e 53 quilos. Bem que falam que tamanho não é documento. Ele urrou de dor e ofegou, gemendo – dessa vez de dor mesmo.
– Porra, Rach! – era para ser um grito mas sua voz não saiu direito.
– Fui divinamente perfeita agora, não fui, Finn?
Fale com o autor