Gypsy
15 Um Casal Em Potencial.
Notas iniciais
Finn afundou na cama com as mãos na costela. Deu até uma peninha. Mas passou rápido, num estalar de dedos, como passe de mágica. Mágica de mulher ofendida, você sabe qual é.
– O analgésico está na gaveta, é só esticar a mão – me levantei.
– Aonde vai? – ele perguntou.
– Já te dei almoço só preciso voltar na janta. Você já tem idade suficiente, acho que pode ficar sozinho, não?
– Eu estou com dor! — Bebe chorão! Vai chamar a Morena Voluptuosa, aposto que ela vai vir correndo socorrer você.
– Você vai superar – disse, cínica.
– Eu vou ligar para o seu supervisor e te acusar de negligência médica – ele ameaçou.
– Aproveite e diga que você me beijou a força. Ele vai me dar razão.
– Isso é um absurdo! – ele falou ainda ofegante pela dor – Você me correspondeu! Eu não usei força alguma.
– Se parar de falar a dor vai diminuir – avisei, quase solidária – E é a sua palavra contra a minha. E, sabe, sou mulher, duas vezes menor que você e aparentemente frágil. E era boa atriz na escola. Vamos ver quem ganha essa, bebezão? – provoquei.
– Sua...
– O quê? – coloquei a mão na cintura.
– Verborrágica! Sofismável! – grunhiu, de dor ou de raiva, vai saber. Me virei e bati a porta em resposta.
Eu não faço ideia do que essas palavras querem dizer mas, vindo de quem vem, na situação que ele está, não precisa ser muito inteligente para saber que coisa boa não era! Chego em casa pensando que tudo vai melhorar. Isso ficou só no pensamento. Porque tudo pareceu piorar. De alguma forma, aquilo que eu estava sentindo agora era ainda pior do que as ânsias que tive ao longo do dia, eu estava sonsa.
E a culpa disso, era de Finn, mais especificamente dos beijos dele. Maldito cara! Até mesmo quando me faz sentir bem, me faz sentir mal. Porque ser tão gentil quando estou com raiva dele? Porque criticar meu beijo quando eu estou amando o dele? Sinto que vou entrar em parafuso a qualquer momento.
E me dêem um desconto. Sei que hoje eu não devo ter sido a melhor companhia do mundo para ele, mas tenho que admitir, eu estava sendo atacada pelo comichão do ciúme. Além disso, tinha a ressaca, e talvez uma possível TPM. Ah, hormônios! Aposto que até vocês estão contra mim hoje.
Sem ter muito o que fazer, fui tomar banho, depois escovei os dentes umas três vezes, dessa vez com uma escova minha de verdade, como deve ser. Eu estava tentando apagar o gosto de Finn da minha boca, mas a grande verdade é que aquele beijo não estava gravado ali e sim na minha cabeça e dali não seria tão fácil de tirar... Eu precisava me distrair.
E para isso liguei a televisão, ela tem sido minha melhor amiga nesses últimos tempos. Que sorte a minha, está passando meu programa favorito! Só que assim que coloco os olhos no Dr. House eu me lembro de Finn. Eu sei que os dois não se parecem. E até concordo que ambos possam ser prepotentes, mas de maneiras diferentes. Porém, é inevitável não lembrar dele perguntando se era tão prepotente como o House.
Bem, como todos podem ver, eu estou sendo uma companhia desagradável até para mim mesma. Só quem poderia me entender era alguém que tivesse passando pela mesma dificuldade que eu, ou pelo menos, parte dela. Esse alguém só poderia ser Quinn, som certeza ela também estava de ressaca. Então fui até o apartamento dela para compartilharmos esse mau momento juntas.
Só demorou dois segundos para eu perceber que minha teoria estava errada. Quinn atendeu a porta com um sorrisão no rosto como se nada a incomodasse, me convidou para entrar e ficou muito espantada quando eu disse que estava sentido os efeitos colaterais da bebedeira do dia anterior.
– Mas a gente não bebeu quase nada! – ela exclamou incrédula.
– Pode ser quase nada pra você... – respondi me afundando no sofá dela.
– Seu organismo não deve estar acostumado. — É, eu já ouvi essa hoje.
Ficamos conversando sobre a noite anterior, e ela me fez prometer sair com mais freqüência, assim eu iria adquirir resistência ao álcool e não iria sofrer mais de ressaca. Eu aceitei a proposta por que estou cansada de pensar em: trabalho, trabalho, trabalho. Que automaticamente me faz lembrar de: Finn, Finn, Finn. Coisa que quero esquecer.
Conversa vai conversa vem, dei algumas risadas, falamos de ver coisas sob outra perspectiva e como tudo tem seu lado bom. Aí eu comecei a pensar... Bem, talvez eu não deva tratar Finn tão mal, embora às vezes ele mereça, eu não tenho certeza se ele e Santana têm um caso... Até porque, uma pessoa que tem um caso não fica beijando outra pessoa por aí, não é? Começo a sentir um remorsinho, é possível que eu tenha me excedido nos maus tratos.
E como eu não posso voltar no tempo, o melhor que eu posso fazer é agradecer a Quinn pela conversa, ir para casa e pesquisar alguma coisa para o jantar do doente. Digo, alguma coisa que não seja tão ruim para o jantar de Finn.
Não vou dizer que foi fácil achar e preparar essa receita, mas com certeza valeu a pena. Até eu tenho coragem de comer essa comida, espero que ele goste. Já está quase na hora da janta dele, então levo a comida gostosa até o apartamento dele. Pretendo ser a melhor médica de todos os tempos, por isso vou ser solícita, atenciosa e gentil com as vontades do meu paciente. E se, por ventura, uma dessas vontades for me dar outro beijo, pode ser que dessa vez eu corresponda com o devido entusiasmo. Pode ser... Chego ao apartamento dele e está tudo estranhamente quieto. A porta do quarto dele está fechada e isso não é comum.
– Finn? – eu pergunto meio desconfiada, por um instante louco temo que ele tenha fugido ou algo do tipo.
– Estamos aqui! — Estamos é muita gente, fora isso, essa voz não era de Finn. Pensei que Santana estava de folga. Devo ter pensado errado, não iria ser a primeira vez no dia. E quando eu abri a porta, vi que ela estava trabalhando duro: com Finn sem camisa ela em cima dele enquanto ele soltava uns gemidos.
Bem, acho que a minha dúvida sobre a relação deles dois já foi respondida. Ou melhor, confirmada. Girei em meus calcanhares e fui para a cozinha, era melhor eu me concentrar no meu trabalho. E ele consistia em servir esse jantar, checar se os remédios foram tomados e nada mais. Só dez minutinhos dessa cena patética de romance enfermeira/paciente e eu poderia ir para casa me lamentar por ter me envolvido nessa confusão. Só mais um pouquinho e pelo menos por essa noite eu estaria livre disso.
Ou não.
– Doutora Rachel, que bom que chegou! Eu já estava quase indo te chamar, aconteceu um acidente! – me informou Santana saindo do quarto com os cabelos desalinhados e as bochechas rosadas.
Eu imaginei que ela deve ter quebrado três ou quatro ossos de Finn enquanto ela e ele estavam na cama, também, pudera, com toda aquela voluptuosidade...
– Ele se machucou – Santana recomeçou, vendo que eu não ia emitir nenhuma resposta – se machucou feio! Tem um roxo enorme na costela dele.
– Costela? – perguntei apavorada. Não podia ser por minha causa, não é? Eu só encostei o dedo ali... Santana indicou em suas próprias costelas onde o “acidente” tinha acontecido, era exatamente onde eu estava pensando. Mas ainda podia ser uma coincidência, não?
– Eu falei para ele tomar o remédio – tentei me justificar, para ninguém em especial.
– Você já sabia do acidente? – Santana perguntou – E você sabe como ele se machucou? Ele não quer me dizer por nada! Mas porque ele não contaria? Pensei que amantes contavam tudo um para o outro...
– Hm... Eu também não sei, melhor a gente perguntar para ele – e fui para o quarto de uma vez, pronta para ver o estrago que tinha causado. No quarto, Finn estava esparramado na cama, igualzinho eu tinha deixado ele horas antes, mas agora ele estava sem camisa e com uma mancha roxa no lado direito do corpo.
– Rachel, você está bem? – Finn perguntou quando desviou o olhar da TV para me encontrar ainda parada na entrada do quarto.
– Bem – respondi... Bem culpada, seria a resposta certa.
– Finn, é... Hm... Me desculpa – falei me aproximando dele para examinar a mancha melhor – eu não sabia que... — Mas na verdade, eu sabia sim. Claro que sabia, saber essas coisas fazia parte da minha profissão. Só tinha esquecido o quão delicado era o estado dele porque, mesmo nessas condições ele era capaz de me deixar tão brava. “Eu acho, sinceramente, que você pode fazer melhor”. Que ousadia a dele! Com certeza merecia uma lição de moral.
Só que eu também levei lição, e a minha era a seguinte: Beijar e/ou machucar pacientes não pega bem para uma médica. É antiético.
– Tudo bem – Finn respondeu também olhando para a mancha – Não está doendo tanto quanto parece. Além disso, acho que já estou me acostumando com você sempre me machucando.
– Não está certo, – reclamei enquanto remexia na gaveta do criado-mudo, onde eu tinha guardado todo e qualquer remédio que ele eventualmente pudesse precisar, algum dali tinha que me ajudar — não está certo você me perdoar assim tão fácil. O que eu fiz foi muito errado.
– O que eu fiz também não foi muito certo, não é? Isso de te beijar contra a sua vontade e tudo mais... — Ele está arrependido do que fez, concluí. E isso deveria me acalmar, pois seguindo esse raciocínio, não iam acontecer beijos de novo. Deveria, mas não acalmou. Ele estava arrependido, mas eu, estranhamente, não.
Bem, pensando bem, talvez estivesse, de ter aproveitado melhor o momento. Até porque, aquela seria a primeira e única vez e deveria ter sido mais bem aproveitada.
– Tem certeza que você está bem? – Finn perguntou mais uma vez – Você está meio pálida e calada também. Ainda está com ressaca?
– Deve ser a luz, porque eu já estou bem – falei, dando uma desculpa qualquer. Ainda procurava algo que pudesse me ajudar, então achei uma pomada que poderia ser minha salvação. Me ajoelhei ao lado da cama para ficar na altura do corpo dele. E antes de aplicar a pomada, expliquei todo o procedimento, como uma boa médica deve fazer.
– Escuta, vou passar essa pomada para ajudar a diminuir esse hematoma. Ela é gelada e pode arder um pouco, mas é para o seu próprio bem – expliquei no meu tom mais profissional.
– Você fala como se eu fosse um bebê – ele reclamou em seu tom mais amargo.
– Porque às vezes você parece um – eu disse ao mesmo tempo que com muito cuidado coloquei a primeira camada de pomada em suas costelas. Eu tinha evitado olhar para ele sem camisa até aquele exato momento. Mas agora, com ele preenchendo todo o meu campo de visão, era difícil não reparar.
Quem o vê assim, nunca diria que ele tem ossos fracos. Ele não parece ser fraco, nem um pouco, tem ombros largos, peito forte e até um leve tanquinho na barriga. Sei que ossos e músculos são coisas diferentes, mas o que eu quero dizer é que ele me parece bem saudável.
– Rachel – ele me chamou ao mesmo tempo em que eu senti um dedo passando de leve pela minha bochecha.
– Hum – respondi sem desviar a atenção da pomada que eu estava passando nele , fingindo estar muito concentrada nos meus deveres como se meus sentidos não estivessem todos voltados para sentir o toque dele no meu rosto.
– Eu não estou sentindo nada do que você me falou, na verdade, estou sentindo que estou sendo tocado por um anjo. — Eu também, pensei. E que bom que ficou só no pensamento.
– Finn, pára com isso – tentei fazer com que minha voz soasse o mais profissional possível, mas o suspiro que dei depois de dizer seu nome não ajudou muito. Também, já era tarde demais, a mão dele já estava na minha nuca e eu já me afogava nos olhos dele. Eles tinham uma cor tão bonita que...
– Hora da janta! – Santana exclamou entrando no quarto com uma bandeja na mão. Ela estava tão entretida com seu anuncio que pareceu não perceber o susto que eu levei e assim que ela entrou. Pela primeira vez fiquei feliz pela chegada de Santana, porque foi por pouco, muito pouco que eu esqueci minha resolução minutos atrás: Nada de beijos em pacientes.
Santana colocou a bandeja no colo dele e depois se dirigiu a mim.
– Acho melhor hoje alguém dar comida a ele, para evitar ficar mexendo o braço.
– Excelente ideia – respondi a ela com simpatia, dava para ver que ela estava melhorando. De repente notei que tanto ela quanto Finn estavam olhando para mim, esperando que eu tomasse alguma atitude. Provavelmente eu estava sobrando ali.
– Bem, eu já vou indo... – falei me levantando do chão.
– Pensei que você ia me dar a comida – Finn falou.
– Acho que Santana pode fazer isso.
– Santana está de folga – ele rebateu.
– Então ela está aqui só por diversão? – perguntei e me arrependi no momento seguinte, pois esse era o comichão do ciúme falando por mim.
– Ela está aqui porque eu estava com dor e você não estava com humor para cuidar de mim.
– E também não estou com humor para te dar comida. Portanto, Santana, por favor, você poderia fazer isso?
– Claro que sim, doutora – ela respondeu rapidamente, subindo na cama como se aquele fosse o lugar a qual pertencia. Engraçado que quando eu estava ali sentia a mesma coisa...
Melhor assim, com Santana lá, afinal, eles eram um casal – ou pelo menos, um casal em potencial. E eu era uma médica, uma doutora que não pode, não quer e não vai se envolver com seus pacientes.
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