Gypsy
7 Atrasos.
Notas iniciais
POV Finn
Acordei no dia seguinte dolorido e morto de fome. Aquela gororoba nojenta que Rachel havia feito pra mim não tinha matado nem metade da fome que eu tinha, e já era quase onze horas, eu estava faminto! Levantei e senti minha costela dar uma fisgada. Resmunguei alto, já que estava sozinho e minha médica super dedicada não tinha dado sinal de vida ainda. Levantei indo direto até o telefone na sala, pronto para pedir comida em algum restaurante vinte quatro horas. Ao parar ao lado do telefone, não pude deixar de notar que a folha que agora estava ali não tinha tantos números quanto costumava ter…
Puxei a folha em desespero e quase morri quando vi que nada dali era os números que costumavam ter antes. No lugar havia o telefone da Rachel, o telefone do hospital, dos bombeiros, polícia, ambulância e o da emergência do hospital. Depois disso tinha mais um nome de nomes que era provavelmente restaurantes, mas nenhum que eu já tivesse sequer ouvido falar. Por último tinha número indicado como fast food e as palavras "sanduíche natural" entre parênteses, seguindo por uma seta que mostrava um recado, provavelmente de Rachel "pra você não reclamar muito". Respirei fundo umas mil vezes e desisti de pedir comida por telefone, ainda devia ter alguma coisa que prestasse por ali pra tapear meu estômago até a bendita chegar.
Quase entrei em desespero quando revirei minha cozinha inteira e não encontrei nada do que estava acostumado a comer, só mais daquele suco verde de couve que Rachel havia feito e mais um monte de comida que me fizeram torcer o nariz só pela cor. Já bastante estressado corri até o telefone. Rachel havia deixado o número, azar dela, deveria ter saído sem deixar rastros como da última vez. Disquei o número dela uma primeira vez e o telefone chamou até cair. Sem desistir, liguei novamente. Dessa vez foram necessários apenas dois toques para ela atender.
– O que você quer, Finn? — Ela murmurou sonolenta.
– Você destruiu minha cozinha! — Eu acusei raivoso!
– Não me diga que eu deixei o gás ligado? — Pelo tom de voz percebi que ela estava bem acordada agora.
– Pior!
– Pior?! — Ela disse desesperada.
– Sim! Eu me levantei para comer alguma coisa e havia comida dentro da geladeira!
– Bem.. — Ela disse cautelosa. — Não é pra isso que geladeiras servem?
– É claro que sei pra que elas servem, Rachel!
– E porque você me acordou desse jeito?
– Geladeiras não servem para guardar aquele tipo de comida! — Eu gritei e, mesmo pelo telefone, ouvi ela soltar um ruído indignado. — Pelo menos não a minha!
– Na verdade sua geladeira não guardava comida. Agora guarda. — Ela disse calma, mas irônica, o que só me irritou ainda mais.
– Geladeiras nova iorquinas não guardam muitas coisas. O que tem na sua? — Falei me dirigindo até a minha geladeira e abrindo.
– Mais do que a sua tinha, posso garantir. E nenhum alimento fazendo aniversário, posso afirmar também.
– Na sua geladeira tem folhas? — perguntei sarcástico, enquanto observava um dos presentinhos que ela havia deixado para mim.
– Não.
– Fígado cru?
– Não.
– Óleo de fígado? — Falei lendo o rótulo de uma das coisas que havia por lá.
– Não.
– Uma jarra de suco de couve?
– Não.
– Está vendo?! Aposto que tem coca-cola na sua geladeira! — Ela ficou em silêncio e imaginei que ela estava dando de ombros, como sempre fazia. — E porque na minha não tem se a médica dona-do-discurso-saudável tem? Porque você jogou minha lista de restaurantes fora? Porque todas as minhas latas de café sumiram?
– Porque o doente é você e não eu.
– E posso saber o que eu vou comer no almoço? — Perguntei já me dando por vencido. Ela ficou em silêncio por quase um minuto completo e eu chequei se a linha tinha caído, mas estava tudo normal.
– Você disse almoço?
– É. O que eu vou comer no almoço! Você não quer que eu coma a mesma lavagem de ontem, não é?
– Você está dizendo que está perto da hora do almoço?
– Do que voce está falando? — Perguntei confuso com a falta de objetividade dela.
–Ah, não, droga. Que droga! — Ela gritou e eu me assustei. — Já são onze horas? Não posso acreditar que perdi a hora. Eu só fechei os olhos por dois minutinhos… — E a próxima coisa que eu ouvi foi o silêncio do outro lado da linha.
POV Rachel
Não conseguia acreditar na minha falta de sorte! Blaine havia sido claro comigo: Você está liberada para apenas dois plantões semanais, mas você precisar vir até aqui amanhã as doze resolver as coisas com a Sue ou nada feito! E agora eu conseguia me atrasar de forma magnifica, mas eu juro que quando Finn me ligou para mim parecia que eu havia dormido algo como cinco minutos! Eu estava tentando andar e escrever a bendita receita pra Finn, ele teria que se virar sozinho para esse almoço, eu recompensaria para ele depois e faria alguma coisa perfeita para o jantar. Por causa daquele atraso eu só conseguiria chegar menos atrasada se pegasse um táxi e agradeci mentalmente por ter um ponto bem na frente do prédio de Finn.
Em tempo recorde cheguei ao apartamento e o encontrei sentada na bancada da cozinha com cara de poucos amigos. Entrei correndo para o armário para checar se havia todos os ingredientes da receita e depois de tudo certo, coloquei a receita na frente do homem que me encarava, agora desconfiado.
– Aqui uma receita fácinha pra você fazer! Se fizer tudo direitinho juro que faço uma janta deliciosa pra você!
– Você tem a chave do meu apartamento? — Ele perguntou, ignorando tudo que eu havia acabado de dizer. Eu balancei a cabeça.
– Longa história, tempo curto. — Eu disse e já comecei a correr de novo.
– Aonde vai? — Ele perguntou curioso
– Trabalhar, é lógico! — Eu disse enquanto tentava tirar a chave da porta.
– Pensei que fosse seu único paciente. — Ah, o que faltava! Ele também é egoísta, até mesmo com a médica chata.
– Não seja tão prepotente. Você é sim meu paciente, mas isso não quer dizer que eu tenha que ficar vinte e quatro horas ao seu dispor. Afinal de contas, não sou sua babá! — Parafraseando suas palavras da noite anterior eu comecei a fechar a porta, pronta pra sair toda-toda, rumo a minha divertidíssima conversa com Sue. Mas algo me veio a cabeça e eu retornei rapidamente. — Ah, Finn! — Chamei e ele me olhou rapidamente. — Você tem uma conta para pagar na mercearia daqui de perto. — Fechei a porta rapidamente, mas não rápido o bastante para não ouvir os xingamentos de Finn. Mas isso não importa, o que importar é chegar no horário!
Com apenas dez minutos de atraso eu entrei correndo pela enfermaria. Puxa, até que não me atrasei tanto, a julgar pelo longo caminho que tive que percorrer até o hospital. Orgulhosa por mim e pelo trabalho tão bem feito mesmo com o tempo reduzido, corri para a sala onde esperava encontrar Blaine, colocando meu jaleco no caminho. Mas ao abrir a porta, dou de cara com Sue. Arregalo os olhos e entro cautelosamente pela sala, torcendo para ela simplesmente me ignorar, apesar de ter certeza que ela não faria isso.
– Doutor Anderson pode não ter notado, Rachel, mas eu notei. Onde estava?
– Resolvendo umas coisas. — Respondi simplesmente enquanto procurava um forma de fugir dali. Como se ouvindo as minhas preces, Blaine entrou na salinha, abrindo um enorme sorriso para mim.
– Rachel, você já está aqui! Me desculpe pelo atraso! — Atraso? Você não está atrasado meu filho, chegou exatamente na hora! — Sue já lhe contou as novidades? — Ele olhou para mim e para Sue e, julgando pelas nossas expressões, logo diminuiu o sorriso. — Suponho que não… Então, eu conversei com a Sue e nós decidimos que será melhor que eu seja o seu supervisor a partir de agora! Não é maravilhoso?!
– Eu acho ótimo, doutor Anderson. — Eu disse, me controlando para não pular nós braços de Blaine e chamar ele pra abrir um champanhe ali mesmo.
– Sim, tudo muito lindo. Mas pode ir tirando o cavalinho da chuva, Berry, nada de somente dois plantões semanais. Não preciso ser sua supervisora para definir isso. — E com essas palavras ela saiu da sala, me deixando sozinha com Blaine. Pela cara dele, vi que Sue estava falando sério. Não sabia se ficava feliz por me livrar de Finn ou se ficava triste por voltar ao ritmo louco da emergência.
– Então, adeus Finn, certo? — Disse para Blaine, que se aproximou de mim.
– Não, Rachel, voce continuará acompanhando o senhor Hudson! Mas terá que vim completar ao menos um turno na emergência todos os dias. Ainda é melhor que antes, não? — Vi que Blaine tentava de todas as formas me fazer ficar feliz por aquilo, ele realmente se importava comigo. Forcei um sorriso e concordei com ele. No fim havia ficado com as duas opções, mas apenas com o sentimento de tristeza. — Se você quiser podemos pedir para Finn retornar para o hospital por pelo menos uma semana, ficará tudo bem…
– Não! — Eu disse rápida e Blaine me olhou desconfiado. Por algum motivo eu queria continuar acompanhando Finn em seu apartamento. Todos sabemos o motivo: aquela televisão mágica dele! Claro que eu ainda tiraria muito proveito daquilo — Tudo bem, eu consigo conciliar, sem problemas.
Ainda com um tom desconfiado Blaine concordou e nós seguimos juntos para o meu primeiro dia de supervisão com o doutor Anderson.
Fale com o autor