Gypsy

25 Armário De Gazes.


Na manhã seguinte acordei com um barulho que estava se tornando muito característico do quarto de Finn: farfalhar de papel. Ah, não, de novo não. Fiquei olhando a maneira concentrada que ele encarava o papel. Como podia uma simples folha sugar uma pessoa assim? Ele nem percebeu que eu tinha acordado...

– Bom dia! – falei cortando sua atenção. Ou pelo menos tentei... — Finn! – aumentei o tom de voz, acrescentando um cutucão no ombro.

– Bom dia, meu amor! – ele diz todo entusiasmado como se fosse a primeira vez que eu o tivesse chamado, bem, na verdade para ele era mesmo a primeira – Dormiu bem?

– Dormi sim, – respondi deixando aquele primeiro lapso passar, melhor começar o dia em paz – sonhei com você.

Enquanto eu falo, ele está virado para seus papéis, juntando-os em montinhos. Logo os montinhos vão parar em cima da mesa de cabeceira e Finn vem parar em cima de mim.

– O quê é isso? – perguntei com a voz abafada, pois meu rosto já está enfiado no pescoço dele.

– Oras, eu não posso dar um bom dia apropriado para minha namorada? – ele se ergueu um pouco para me olhar nos olhos, se fazendo de indignado.

– Claro que pode – digo me pendurando novamente em seu pescoço – na verdade, deve.

Ele voltou a colocar todo o seu peso sobre mim e eu senti meu corpo se afundando mais um pouquinho no colchão. Essa é uma sensação ótima, portanto eu aperto mais meus braços em torno dele e ele faz o mesmo.

Permanecemos assim por algum tempo. Não saberia dizer o quanto pois estava mais preocupada em sentir o cheiro dele me invadindo, sua respiração batendo em meu ombro e aquele calorizinho que me dá toda vez que eu tenho Finn assim tão perto de mim. Não falávamos nada, até porque, não precisava. Tudo estava sendo dito através do jeito que ele brincava com o meu cabelo e eu passava a mão por suas costas.

Suas costas eram tão largas... e quase sem perceber escorreguei a mão por dentro da camisa dele para conferir isso mais de perto. Se ele tirasse a camisa eu poderia conferir de mais perto ainda, mas...

– Rach, Rach, eu sinto muito. Eu também queria, mas de verdade, eu tenho que terminar de revisar esses documentos o quanto antes. É pra ontem – ele se levantou e me deu um beijo demorado na testa antes de rolar para o seu lado e voltar para os papéis.

Tudo bem, digo comigo mesma. Tudo bem mesmo. Por um lado é até bom, porque caso a gente se enveredasse por esses caminhos eu iria chegar atrasada no trabalho. E eu não quero isso, não é verdade? Ainda mais agora que está tão próximo do final desse ciclo... Tenho que dar o melhor de mim.

E não falo só no trabalho. Com Finn também. Quero dizer, eu não estou sendo totalmente honesta com ele. Tem uma coisa que eu quero dizer há dias, desde que a gente voltou de viagem, mas ainda não encontrei o momento, nem a maneira certa de falar. Isto é, de falar que eu o amo.

E tem que ser o quanto antes, porque eu me sinto desonesta omitindo essa informação, porque não é como se eu amasse muita gente por aí, entende? Ok, eu sei que eu omito outras coisas, como por exemplo, meu ciúme visceral dele com Santana. E essa era uma outra coisa que eu podia contar para ele, não é mesmo? Quero dizer, ele foi bastante franco ao me dizer o que ele pensa de Sam. E não acabou o mundo, nem nada. Aliás, foi bom eu ficar sabendo disso, para então saber como agir.

Preciso começar a agir certo também. Mas resolvo começar de uma maneira mais amena, não tão impactante como trazer o assunto do amor logo de cara. Que tal sobre a atividade preferida dele? O trabalho.

Não é de agora que venho pensando nessa possibilidade e talvez seja a hora de colocá-la em prática. É possível que se eu me interessar pelo trabalho dele vou ter um super assunto incomum com ele e assim poderíamos ficar mais próximo novamente, como nos dias em que eu explicava a ele coisas sobre o tratamento que estava prestes a passar. Ou acaso não foi aqueles papos (e/ou discussões) profissionais que viabilizaram a aproximação que temos hoje? Eu tinha que dar uma chance ao trabalho dele, assim como ele deu para o meu. E foi isso que eu fiz.

– E esses documentos são importantes? – pergunto espiando por cima do ombro dele, tentando entender a gravidade daquelas letrinhas.

– Uhum – ele me respondeu.

– Ninguém pode fazer isso por você? É extremamente necessário que você leia tudo isso?

– Hm-uhn – eu não sabia muito bem o que aquilo queria dizer.

Não acho que quer dizer muita coisa. Não acho que ele queira dizer muita coisa nesse momento. E sinceramente, eu estava cansada de ficar me estressando por cada acesso de trabalho que ele tem. Se ele está ocupado agora, vamos tentar em outra hora, racionalizo. Não há porque guardar ressentimentos.

– Finn, eu já vou indo – anuncio – também tenho trabalho a fazer.
Dessa vez ele desvia o olhar para mim e alisa meus cabelos, me dá um longo beijo e me deseja um bom trabalho. Quando ele me pede para que assim que eu chegar do trabalho venha aqui falar com ele, eu não tenho dúvidas de que ele gosta de mim. A questão era: Ele gosta mais do trabalho ou de mim?

Mas eu não tenho tempo para ficar pensando nessas coisas, eu tinha mesmo que ir para o trabalho. Portanto fui até o meu apartamento, tomei um banho me arrumei e fui.

–x-

– Porque você não vai para sua hora de almoço mais cedo? – Blaine me sugeriu.

– Porque eu iria? – perguntei desconfiada.

– Porque você está há três minutos aí, parada, olhando para este armário.

– Eu estou procurando as gazes – trato de explicar rapidamente.

– Esse nem sequer é o armário das gazes.

– Desculpe, acho que estou um pouco distraída. Talvez uma hora de almoço adiantada venha bem a calhar.

– Assim espero – ele responde com um sorriso – você sabe que aqui não é um lugar para falta de atenção.

– Não vai acontecer de novo – digo antes de ir correndo em direção à cantina.

Mas antes de ir correndo em direção à cantina, vou correndo em direção ao meu armário, tenho que pegar uma coisa importante. Meu celular. Para ligar para Finn, é claro. Hora de mais uma tentativa de comunicação.

Por todas as vezes que perdi a paciência e vi que não levou a lugar nenhum, dessa vez tentei perseverar. Não funcionou uma hora, era só questão de tentar outra vez. Só de lembrar do abraço da manhã me deu vontade de tentar outra vez.

– E aí, terminou o trabalho? – perguntei animada assim que ele atendeu ao telefone, no sétimo toque, quando eu já estava quase desistindo.

– Quase lá.

– Quanto falta? – continuo a linha de interesse em seu trabalho, mesmo que esse não seja o assunto principal da conversa que eu pretendia ter.

– De trinta a quarenta folhas – ele disse, e ao fundo ouço farfalhar de papel, provavelmente ele está contando-as.

– E você acha isso pouco?!

– Em comparação ao que eu tinha hoje de manhã é bem pouco.

– Nossa, estou impressionada – digo com sinceridade – e foi só isso que você fez o dia todo?

– Tirando a chatice da fisioterapia, sim... Em falar nisso, quando eu vou poder voltar para o escritório? É imprescindível que eu volte logo.

– Esse é o tipo da coisa que você tem que perguntar a Sam.

– Esse é o tipo da coisa que eu não quero perguntar a Sam.

– Esse é o tipo da coisa que você vai ter que aprender a lidar – finalizo – assim como você aprendeu a lidar comigo.

– Ah Rach — ele diz com uma voz rouca, que é um dos meus tons preferidos – com você foi diferente, foi fácil. Eu aprendi a lidar muito bem... — Nem tanto, cheguei a pensar.

– Por falar em lidar... – eu começo.

– Por falar em lidar, eu tenho que voltar com essas páginas restantes – ele anuncia.

– Ah não, antes de você ir tenho que te perguntar uma coisa – digo num assalto de coragem, respirando fundo ao terminar a frase.

Já era hora de eu tocar nesse assunto. Eu precisava desfazer (ou confirmar) minhas suspeitas com relação a ele e Santana. Era muito difícil para mim, mulher de natureza insegura que sou, confessar tal insegurança pro cara que eu amo. Principalmente quando ele não sabe que eu o amo. Mais cedo ou mais tarde esse assunto viria à tona. Ele veio mais tarde, mas pelo menos veio.

– Finn, você está me escutando? – pergunto depois de um longo silêncio que foi preenchido com os meus pensamentos, mas não coma resposta de Finn.

– Hmm, sim, claro, claro. Estou escutando, pode falar. — Pois bem.

– O quê você acha de Santana? – pergunto apertando o telefone contra a orelha e fechando os olhos.

– Ah não Rachel... – ele fala soltando uma respiração sonora – Você de verdade quer começar esse assunto agora? Eu tenho trabalho para fazer...

– O quê te custa responder? Não vai ser mais do que uma ou duas frases, vai?

– E o quê te custa esperar? Não é uma pergunta de vida ou morte. E eu tenho coisas que precisam ser resolvidas com urgência.

– É importante para mim... – digo encolhendo os ombros e agradecendo por essa conversa está acontecendo por telefone.

– Eu só não estou conseguindo entender o quê você quer saber. Isto é, tudo o que eu acho dela é bem visível para todos, simpatia, paciência, beleza... Muito atenciosa e dona de uma grande personalidade.

Não ousei contradizer nada do que ele disse. Primeiro de tudo porque era verdade, segundo porque ele parecia estar nervoso, se o farfalhar de papel não me confundiu na definição do tom de voz dele.

– E você se relacionaria com ela? – por fim, pus para fora minha grande dúvida que vem me corroendo há semanas. Pena que em resposta recebi um silêncio. A não ser pelo farfalhar de papel. — Finn. Você. Ouviu. A. Minha. Pergunta?

– Hm... Sim, claro – ele me responde muito vago.

– Então o que eu falei?

– Você continua me perguntando sobre Santana, mesmo sabendo que eu estou tentando trabalhar e não concentrado em responder esse questionário.

– É ultima pergunta – digo – é sim ou não.

Ouço outra respiração através da ligação. Ele está irritado, mas não há como voltar atrás. Agora eu quero saber.

– Sim, Rachel – ele diz cheio de frieza – Está contente agora? Já posso voltar para o meu trabalho?

– À vontade – falo antes de apertar o botãozinho vermelho no celular.

Agora estou verdadeiramente confusa. Ele fez isso só para me irritar? Ou não tinha ouvido a pergunta e respondeu qualquer coisa? Pior de tudo: E se ele tivesse sendo sincero? Engraçado que eu sempre duvidei dos interesses dele com Santana e agora que eu tenho uma resposta concreta continuo duvidando. Quer dizer, seria engraçado se eu não estivesse chorando.