Guilty Pleasure

10 Capítulo 8 - The Greatest Pretenders


Notas iniciais
Voltei amoras :) Vou ser sucinta porque tenho muitos comentários lindos e gigantes para responder (já disse que amo vocês?) então... tem mais um capitulozinho fresquinho e quero deixar de presente para a Dan que fez uma recomendação muito amorzinho e que mesmo não gostando de ler fics que não estão finalizadas, deu uma chance para Guilty! Muito obrigada, espero que goste do presente! Boa leitura :) Ps.: para quem quer ver o preview do trailer de Guilty https://twitter.com/IngretDaiane/status/926882804377489409

You and me sitting here

Spinning gears

We're like a stolen car

Hand in mine feeling like this is right

But it's just not ours

The greatest pretenders

Forget to remember the lies

We're falling forever far from together tonight

The light at the tunnel is a runaway train

The stars that we wish on are only airplanes

The love that we're chasing is a heartbreak away

Cause we're picture perfect

In a broken frame

(Broken Frame – Alex and Sierra)

♥

Felicity Smoak

O que eu queria de Oliver?

Agora eu queria que ele me puxasse para si e colasse meu corpo no dele, queria que sua mão se colocasse em minha nuca modelando meu rosto junto ao dele fazendo nossas bocas se encontrarem e que a outra mão percorresse o meu corpo, tocando-me e causando-me arrepios pela espinha como apenas ele conseguia. Queria nossos lábios se tocando, nossas respirações se unindo e alimentando uma a outra, nossas línguas se acariciando enquanto nos entregávamos num beijo apaixonado.

Queria que nossas roupas desaparecessem.

Queria meu corpo se movendo junto com o dele, naquele ritmo que nós dois conhecíamos tão bem.

O que eu queria de Oliver era uma pergunta simples com uma resposta igualmente simples, mas com consequências devastadoras.

Tudo.

Eu queria tudo dele.

Tudo com ele.

Cada beijo, cada suspiro, cada toque. Eu queria seu ardor e seu amor, seu carinho suave e sua impetuosidade sexy, seu corpo possuindo o meu e seu abraço terno me confortando depois. E acima de tudo, o que eu mais queria de Oliver era que ele me quisesse, do jeito que eu sou, com minhas mentiras e segredos, mesmo que uma vez que Oliver os conhecesse ele jamais me perdoasse por eles.

Não importava como, quando ou onde.

Eu queria um nós.

Eu queria o que eu sabia que Oliver nunca me daria.

— Não vá para lá. – a mão de Oliver segurou a minha mais forte. Eu sequer havia notado que havia dado um passo para trás, instintivamente fugindo do que ele me fazia sentir, tentando me proteger porque no fim eu sabia aonde aqueles sentimentos me levariam. Ergui meu queixo forçando-me a encará-lo, ao menos para disfarçar o quanto tudo em mim buscava um refúgio para se proteger do que Oliver me fazia sentir. – Não vá para lá. – repetiu mais incisivo, seus olhos se entristecendo, sua tristeza tocando um lugar remoto do meu coração.

— Lá onde?

— Aquele lugar na sua mente que te faz pensar demais, o lugar onde você se esconde de mim – Como ele sabia desse meu lugar? — Não vá, fique aqui comigo. – seu aperto foi mais insistente, e veio acompanhado de um pequeno sorriso encorajador — E vamos consertar as coisas, desfazer os desentendimentos...

— Oliver, eu... – O que dizer a ele? Como consertar o que não pode ser consertado? Como explicar que havia algo entre nós que jamais poderia ser desfeito e muito menos consertado?

Meu coração palpitou dentro do peito desesperado e aflito. Dividido entre querer desabafar, querer se jogar com tudo no que Oliver me oferecia. Mas a outra metade, a que era feita de puro medo, havia aprendido com as duras lições da vida a ser mais cauteloso, a se proteger. E eu olhava para os olhos de Oliver, sentia o aperto firme e ao mesmo tempo carinhoso de sua mão, e ironicamente eu me sentia bem, me sentia protegida. E quando eu me perdi nos braços dele, quando eu permiti que meu corpo fosse dele, durante aqueles momentos não houve dor, não houve tristeza, havia apenas nós dois. E era bom, eu precisava disso. Eu seria forte o suficiente para manter meu coração fora da jogada? Para buscar alívio em Oliver sem nunca entregar nada de mim?

— Felicity? – ele me chamou novamente, sua mão começando a brincar com a minha, e apenas ouvir a forma doce que ele me chamava, me causava dor e ao mesmo tempo felicidade. Poderia ser mais contraditório?

Oliver esperava por uma resposta, eu sentia a ansiedade dele na pulsação acelerada onde sua pele tocava a minha, via a tensão em seu rosto que se controlava para não mostrar todas as emoções, porém falhava. E o mais surpreendente, vi em seus olhos algo que jamais esperei ver ali: Oliver estava com medo assim como eu. Mas diferente de mim eu encontrei determinação ali também, ele se viu diante de um impasse e fez uma escolha, ele escolheu arriscar. Ele pulou de um precipício sem saber o que havia embaixo.

E agora me convidava para pular também.

Eu poderia fazer o mesmo? Eu seria assim tão corajosa?

Afinal, o que eu tinha a perder?

Apenas meu coração.

Oliver havia dito que não iria exigir nada mais de mim, que não iria pedir por meus segredos ou exigir a verdade. Talvez fosse o suficiente...

— Talvez nós... – me vi adiantando a resposta, mesmo que ainda não tivesse certeza de qual era, mas mesmo que eu negasse a verdade, mesmo que eu me retraísse e fugisse, eu tinha certeza sobre o que eu queria de Oliver e essa tinha sido a pergunta dele. Dei um passo para ele, cobrindo a pequena distância e rompendo o seu espaço pessoal. Eu sentia o calor da sua proximidade fazendo meu próprio corpo esquentar em resposta, fazendo-me não desejar estar em qualquer lugar longe dele. Porque ele era a resposta, sempre foi — ... Eu quero...

— Você quer...? – ele deu um passo também, degustando das minhas palavras como se fossem um vinho raro e delicioso, seus olhos pareceram sorrir.

— Oh. Meu. Deus. — eu dei um passo para trás no instante em que reconheci a voz — Eu não queria interromper. – ela disse tentando desfazer o que sua interrupção havia causado, mas a essa altura eu já estava ciente do que aquilo parecia aos seus olhos. — Na verdade, por que não fingem que eu não estou aqui e apenas continuam? Eu vou dar meia volta agora e descer essas escadas...

— Thea. – Oliver ergueu o olhar para cima e respirou fundo antes de se virar para a irmã. – É importante?

— Nenhum pouco mais importante do que está acontecendo aqui. – ela olhou diretamente para as nossas mãos ainda unidas e sorriu abertamente. Num reflexo puxei a minha de volta para mim, recebendo um olhar questionador, não apenas de um, mais dos dois Queens.

— Eu acho que Felicity poderia usar um tempo com você. – Oliver acrescentou para a minha surpresa depois de assentir como se tivesse compreendido algo — Nós nos falamos depois. Você pode guardar a sua resposta para mais tarde. – eu não entendi seu sorriso ao se afastar, não entendi o olhar que falava mais do que palavras e não entendi o maldito beijo quente e demorado que ele deixou na minha bochecha e que fez minhas pernas fraquejarem, antes de nos dar as costas e ir em direção as escadas.

Meu olhar o seguiu por mais tempo do que deveria.

Que merda acabou de acontecer?

— Que merda acabou de acontecer, Felicity? – Thea fez a mesma pergunta que rondava minha mente.

— Não faço ideia. – eu ainda fitava o lugar onde Oliver esteve, esperando que ele voltasse e respondesse todas as minhas perguntas. Que me explicasse o porquê ele agia dessa forma, como se... Como se eu fosse importante para ele.

— Ah, faz sim! – Thea me arrastou pela mão levando-me para o seu quarto onde ela apenas abriu a porta num empurrão forte e então me soltou. Encarei sua postura ereta e seus braços cruzados, suas sobrancelhas erguidas e olhar penetrante no melhor estilo “não se atreva a mentir para mim”, que eu conhecia tão bem, afinal já havia recebido muitos desses olhares do seu irmão.

— Eu não sei mesmo! – joguei-me em sua cama e fechei meus olhos. Massageei minhas têmporas tentando me livrar da pontada de dor que antecipava uma enxaqueca, eu precisava organizar meus pensamentos e a bagunça emocional que eu era ou iria surtar em breve. Mas era impossível buscar concentração quando havia um batuque constante do pé impaciente de Thea batendo no assoalho do quarto ou o som dela bufando não aceitando a minha falta de resposta.

— Comigo não tem essa de não sei! Você pode começar a desembuchar, Felicity Smoak! Eu quero respostas, e eu as quero agora! – abri meus olhos, sentei na cama e encarei a Queen mais nova. Respostas. Era sempre isso que os dois Queens queriam de mim.

— Eu quero respostas também. – resmunguei as palavras, apenas para mim.

— Não me olhe com essa cara, eu tenho direito à elas! Eu cheguei e vocês dois estavam pertinho um do outro, um olhando para o outro e de mãos dadas e tudo! E se você realmente não souber o que está rolando, nós duas iremos destrinchar cada pequena conversa até que eu entenda exatamente o que está acontecendo. – meu estômago revirou com aquela possibilidade. Contar cada coisa que falamos para Thea? Ela era minha amiga e normalmente seria com ela que eu iria desabafar sobre qualquer coisa, mas a vida já não era a mesma de cinco anos atrás. Eu não era a mesma pessoa. E desabafar com ela iria incluir a parte do sexo quase selvagem na mesa do escritório dele? Ela deve ter visto alarme em meu rosto porque imediatamente se tornou menos intransigente, sentou-se ao meu lado na cama e voltou com a voz mais suave, mas seus olhos astutos não me enganavam. Afinal, ela era uma Queen, e eles sabem ser incrivelmente cabeças duras, determinados e charmosos quando querem algo — Eu sei que você não gosta de falar sobre essa... – Thea parou, sem saber como nomear. Bem até então estávamos de acordo, como nomear o que Oliver e eu tínhamos? — ... essa coisa com ninguém e principalmente comigo, sei que pode ser confuso porque ele é meu irmão e eu sou a sua melhor amiga. – ela sorriu me encorajando a relaxar — E talvez seja estranho falar sobre essa absurda atração sexual toda que permeia vocês dois e... Eca! É muito estranho falar sobre! Vamos apenas manter todos os detalhes sórdidos de fora. – eu ri, não esperava uma reação diferente de Thea quando se tratava de Oliver e eu, era estranho para ela, mas mesmo assim sua curiosidade era maior – Eu apenas quero que a minha amiga me diga o que está acontecendo e como ela está se sentindo para que eu possa tentar ajudá-la, me deixe fazer o que não pude fazer da outra vez.

Viu só? A quantidade perfeita de charme.

Sua mão apertou a minha, fazendo meu coração ceder um pouco. Eu não poderia mentir para Thea de novo, a primeira vez havia rachado a nossa amizade e levou certo tempo para que ela voltasse a confiar inteiramente em mim.

— Nós transamos. – minha boca foi mais rápida que meu cérebro — No escritório dele. Mais precisamente sobre a mesa, eu não sei como aconteceu, num momento eu estava o abraçando, apenas o agradecendo o no outro nós já estávamos... Eu não sei, eu apenas estava cansada de me controlar o tempo todo e abraçá-lo era bom, juntava partes de mim que eu nem sabia que estavam partidas, eu me deixei levar e o que veio depois foi completamente insano. – gemi me lembrando de como havíamos perdido todo o controle — Tão insano que eu até esqueci minha calcinha lá embaixo da mesa. – tapei minha boca tarde demais, e encarei Thea que parecia estar ainda processando as minhas palavras, talvez eu tenha fundido o cérebro dela com tanta informação.

— Woou! O que eu disse sobre os detalhes sórdidos? – eu ri nervosa e um pouco aliviada por não encontrar julgamento nela. — O que isso significa, Felicity? Não me entenda mal, eu vi você se encantar pelo meu irmão desde quando não era mais do que uma adolescente com espinhas, que ficava vermelha como um tomate apenas de ver Oliver olhando na sua direção. Eu vi a paixonite dar lugar ao interesse genuíno de uma mulher, vi você cair de amores por ele tão forte que eu temi pelo coração da minha amiga. E eu estava certa, porque eu vi também a sua dor, eu vi o preço que você pagou há cinco anos e o quanto de infelicidade isso trouxe para a sua vida quando ele te quebrou, Felicity. – Thea estava certa, não tinha sido fácil naquela época. Então por que eu estava cometendo o mesmo erro de novo? Por que éramos um erro, não éramos? — Mas acha que consegue? – ela perguntou, seus olhos se tornaram maiores, aquele azul cinzento se tornou vivo e ansioso, eu não gostava do via ali, havia tanta esperança – Acha que consegue deixar o passado no passado e apenas tentar dar ao Oliver o espaço na sua vida que sempre pertenceu a ele?

Coloquei meus braços ao redor de mim.

Havia muito subentendido em suas palavras. Mas não, não havia como apenas deixar o passado para trás. Não quando ele fazia parte do meu presente, quando moldou quem eu me tornei hoje. E quanto ao espaço de Oliver na minha vida, Thea estava certa, pertencia a ele e eu nunca poderia mudar isso, não importa quanta distância ou mentiras e segredos eu colocasse entre nós, mas isso não significava que Oliver precisava saber que tinha esse lugar.

— Thea, você está indo rápido demais. – seu rosto murchou, mas ela assentiu – É diferente agora, nós não somos mais os mesmo de anos atrás e já naquela época as coisas não terminaram bem. Você sabe que há coisas entre nós que... – parei, eu não iria falar sobre isso não quando Oliver poderia aparecer a qualquer momento e principalmente porque trazia um lado emocional de mim que eu tentava manter afastado enquanto estava perto de Oliver — Na verdade sequer há um nós, não sei porque estamos conversando sobre algo que não existe.

Oliver e eu formando um nós.

Aquilo era assustador e parte de mim lutava com todas as forças contra porque conhecia os riscos que trazia, enquanto a outra parte se deleitava com a ideia e a queria desesperadamente.

Ele fez de mim um poço de contradição.

— Você está ignorando a verdade para não ter que encará-la, sempre fez isso. – fiquei surpresa com sua franqueza crua de Thea — Eu sei que é complicado, sei que há muitas coisas que você esconde dele... – ali estava o julgamento, Thea jamais aceitou aquela minha decisão de manter Oliver fora da minha vida — Mas não percebe, Felicity? Não percebe que existe algo entre vocês e que esta talvez seja uma chance de consertar as coisas? Superar e esquecer?

Consertar? Superar? E esquecer?

Senti meus olhos arderem, as lágrimas se acumularam nos cantos e me ergui da cama rapidamente, fugindo do olhar de Thea. Havia coisas que eu não poderia consertar e simplesmente esquecer. Cinco anos, cinco anos de uma vida que foi completamente alterada.

— Consertar? – Me ergui da cama com a voz trêmula e agressiva. Havia um erro para ser consertado? As lágrimas quentes ameaçando caírem – Consertar o erro? Não é como se eu pudesse apenas usar um esparadrapo para juntar as partes de mim que Oliver quebrou. Superar e esquecer? Como em fingir que nada nunca aconteceu? Apagar as memórias dos últimos cinco anos, de como Oliver me chutou da sua cama e de...

— Eu não quis dizer... – Thea se ergueu também, seus olhos maiores me encaravam claramente assustados com o meu rompante. – Sabe que eu nunca... Não há um erro para ser consertado. – Ela tentou, embora tarde demais.

— O que eu percebo é que... – tomei uma longa e profunda respiração antes de explicar à Thea o que nem mesmo eu compreendia, mas disposta a deixar o meu lado emocional de fora — Há uma atração sexual mútua e isso é um fato, nós dois estamos convivendo diariamente e num momento de tensão nos deixamos levar, mas isso não tem que significar nada. – expliquei e Thea contorceu os lábios odiando minha resposta.

Eu sou uma mentirosa terrível.

— Você é uma mentirosa terrível. — ela acusou, sem desviar o olhar – Talvez não tenha que significar nada, mas significa. – devolveu naquele tom de quem diz que sabe do que esta falando. Thea era uma amiga horrível nesse momento, eu a odiava por simplesmente não concordar comigo. Longe disso, ela iria me pressionar, ela iria me forçar até meu limite até que eu finalmente parasse de mentir para mim mesma, ela não iria desistir enquanto não arrancasse algo de mim. Eu estava temerosa, porque tinha medo da verdade que ela iria desenterrar. — E você quer mais? Mais de Oliver? – não respondi, porque no fundo eu sabia que uma grande parte de mim desejava esquecer o passado e aceitar esse presente com Oliver. E apesar de minhas palavras talvez até mesmo consertar o que podia ser consertado, não superar e esquecer... Mas talvez perdoar. — Eu te conheço bem o suficiente para saber que o seu silêncio se equivale a um sim. – sentei-me novamente a cama e suspirei me sentindo derrotada. Thea veio para meu lado, seu braço se colocando ao redor de mim e puxando minha cabeça para o seu ombro enquanto uma das mãos acariciava meu cabelo — Vamos simplificar as coisas e nos atermos apenas aos fatos já que você quer deixar o coração fora do jogo. Vocês transaram, e pelo que eu vi de Oliver a pouco, ele não parece disposto a deixar isso ser uma transa de uma noite só. Ele quer mais de você, ele quer um nós, ficou óbvio pela forma como ele te olhou, que ele segurava a sua mão para ele há mais.

— Como assim? – a encarei tentando não demonstrar emoções – Foi apenas sexo.

— Felicity, Ollie, não é assim. – ergui uma das sobrancelhas – Certo, ele é um homem e nesses últimos anos eu sei que houve algumas mulheres pulando em sua cama, mas nenhuma com importância, nenhuma a qual ele tenha olhado da forma que ele olhou para você, ou se dignado a segurar a mão. Essas sim foram apenas sexo. – tentei não deixar suas palavras subirem a minha cabeça – E sim ele namorou Laurel por anos e até mesmo pensou em se casar com ela. Mesmo ela sendo uma vaca completa e o relacionamento deles mais frio do que o iceberg que afundou o titanic, isso só mostra o quanto Oliver é comprometido quando quer ser.

— Ele não me pareceu comprometido quando colocou um par de chifres nela. – deixei um pouco da amargura sair, eu sempre me sentia estranha quando o assunto era Laurel, nós duas mal nos conhecíamos, mas mesmo assim eu sempre a vi como aquela que sempre teve o coração de Oliver. Por causa dela que ele nunca tinha sido meu.

Que ironia.

Agora ele não era de nenhuma das duas.

— Foi você. – Thea quebrou meu momentâneo devaneio.

— Eu o quê?

— Você que fez Oliver trair a Laurel. — ergui uma das sobrancelhas, me sentindo indignada.

— Eu não o seduzi e o obriguei a fazer nada que ele não quisesse. – senti minhas bochechas arderem — Por que diabos estamos falando sobre isso, Thea?

— Porque é importante. – ela sorriu — Oliver sempre foi o modelo de filho, irmão e namorado perfeito. Ele nunca se atrasava, não tirava notas baixas ou brigava na escola, era sempre honesto. Mas ele também não se divertia muito, nunca fugiu de casa no meio da noite, não ficava bêbado numa festa qualquer ou bateu com o carro dos pais. Não até você. – ela sorriu — Depois de você, eu vi meu irmão aparecer bêbado uma noite aqui em casa, perder dias de trabalho e se atrasar para uma audiência, ele se tornou um péssimo namorado e nunca atendia as ligações de Laurel.

— Então agora eu desperto nas pessoas a pior parte delas? – emburrei.

— Não, Felicity não vê o que aconteceu? Você despertou Oliver. Você fez o meu irmão pela primeira vez na vida ser impulsivo e se jogar em algo porque ele quis, sem se importar se ele tinha uma noiva, se você era jovem demais para ele, se parecia certo ou errado. – suspirei, eu sabia o que Thea estava tentando fazer. – Ele agiu de acordo com os desejos dele.

— E então ele se lembrou que eu era um erro, voltando para Laurel no dia seguinte. – retruquei, controlando a amargura.

— Ele voltou? – ela perguntou com um sorriso mínimo – Porque o que eu me lembro foi de um Oliver muito confuso, ele sequer aparecia aqui em casa e a única noite que o fez ele estava bêbado demais, ele foi uma merda no trabalho que até mesmo o irresponsável do Tommy ficou preocupado. Ele desapareceu e evitou todo mundo, inclusive a noiva. Quando ele finalmente voltou a si, foi sincero com Laurel, disse que a havia traído e rompeu o noivado quando percebeu que eles não dariam certo. – eu sabia dessa parte, mas o termino aconteceu mais de um mês depois de nós termos dormido juntos, e eu já havia me mudado de Starling. Naquela época eu não pensei que eu fosse a razão do término. Porque se fosse por mim, por que Oliver não me procurou? Por que ele não veio até mim?

Eu me deixei fantasiar naquela época quando Thea me deu a notícia, e apesar da dor daquela primeira rejeição, eu me permiti cultivar um pouco de esperança, me permiti acreditar que ainda havia uma chance.

Esperança é um sentimento perigoso.

Ela te faz sentir o gosto da felicidade antecipada por algo que pode vir a acontecer, é como um sonho possível que fica ali sempre a espreita no seu coração. Isso apenas tornou a desilusão maior quando eu percebi que o sonho nunca se realizaria, que Oliver nunca viria por mim. Que apesar da nossa primeira vez juntos ter significado o mundo para mim, ter tocado meu corpo e coração de tantas formas diferentes, para Oliver Queen não tinha passado de um erro.

Um erro que ele nunca iria repetir de novo.

Quase sorri ao pensar o quanto o Oliver de cinco anos atrás estava errado ao declarar aquilo. Quase, porque a mera lembrança da esperança desfeita havia roubado meu sorriso de mim.

— Meu ponto, Felicity é que meu irmão sabe como levar relações, ou pelo menos ele apreendeu a distinguir o que cada uma significa para ele. – voltei para Thea prestando atenção em suas palavras, por mais que eu não fosse admitir eu estava curiosa para saber sobre o Oliver de agora. – Ele finalmente enxergou o quanto o relacionamento com Laurel era vazio, e como os que vieram depois também foram. Se você fosse uma das mulheres com as quais ele apenas dormiu, ele não lhe daria aquele olhar, ele não falaria com você com a voz suave e com um sorriso, e definitivamente não deixaria um beijo demorado em sua bochecha antes de partir, muito menos faria isso na minha frente. Isso tem que significar algo. – a mão de Thea encontrou a minha e a apertou, e eu vi novamente aquele sorrisinho cheio de esperanças nos lábios dela.

Esperança é perigoso.

— Podemos apenas não falar sobre isso agora? – implorei. Analisar minha relação com Oliver era exaustivo incluía revisitar antigas feridas e confrontar sentimentos – bons e ruins – que se negavam a ir embora, eu já vinha fazendo isso há um tempo e no momento eu sentia apenas que eu precisava dar um tempo antes de explodir.

— Tudo bem. – Thea cedeu, relutante. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ela iria dar um jeito de voltar nisso, mas era bom ter um alívio por hora.

— Onde está Roy? – perguntei, sabendo que esse era o truque para fazer Thea esquecer de Oliver e eu por um tempo. Ela abriu um sorriso enorme. Eu estava certa.

— Depois do ataque de ciúmes sem o menor propósito do meu irmão ele foi embora. – ela riu – Ele é um covarde adorável, ele disse que depois pegava a camisa com você, mas eu acho que vou ficar com ela para mim. – ela beliscou a manga buscando o tecido para si.

— É toda sua. – falei observando o olhar brilhante dela com certa inveja — Você está apaixonada.

— Sim. – respondeu sem dúvidas, fazendo algo dentro de mim se remexer. Como Thea conseguia admitir tão abertamente?

— Por que não conta logo para o seu irmão?

— Oh, até parece! Se eu contar que conheci Roy no trabalho comunitário ele já vai surtar por ele ter ficha na polícia, sem contar que, bem você sabe. – franzi o cenho sem entender enquanto ela apontava para mim – Tem o lance de que Roy estava com você na festa em que...

— Yeah, Oliver o vê como um projeto de delinquente juvenil. – completei, já ciente do pouco conceito que Oliver tinha de Roy Harper simplesmente por ele estar comigo naquela infame festa. Homens conseguem ser tão cegos às vezes.

— Isso me lembra, tenho algo sério para falar com você. – me atentei, erguendo os ombros e juntando as pernas sobre a cama enquanto esperava por Thea — É sobre Oliver. — não segurei o gemido de desânimo.

— Thea, eu pensei que deixaríamos essa conversa para depois. – Ou para nunca.

— Não é sobre você. – fiquei mais aliviada — Quero dizer, envolve você, mas não do jeito que você imagina. – um pouco do alívio foi embora — É sobre o juiz Slade Wilson também. – Bastou ela dizer o nome e todo o meu alívio desapareceu e todo o meu corpo se tencionou, se envolvia aquele homem não podia ser bom.

— Ok, continue.

— Eu deveria ter te contado antes, mas tudo anda acontecendo tão rápido, e eu não queria preocupa-la... – raramente eu via Thea evitando meu olhar, e isso me preocupou.

— Thea, desembucha.

— Você sabe que ele foi o juiz que, bem o meu juiz. – explicou, ajeitando as pernas cruzadas sobre a cama e ficando de frente para mim.

— O que te colocou para fazer trabalhos comunitários? – franzi o cenho, eu sabia a história geral que preencheu as manchetes dos jornais sensacionalistas da cidade alguns anos atrás. Thea havia pegado o carro de Oliver e batido com ele no muro do prédio da prefeitura, ela não havia se machucado ou machucado alguém e não teria sido muito importante se ela não estivesse drogada naquela época. Eu tentava não a julgar, tinha sido logo após a morte dos pais dela e eu não estava por aqui para ajudá-la, Oliver não sabia lidar com uma adolescente e ela apenas... Se perdeu. – Por que eu sinto que isso não combina com ele? Eu quero dizer, o homem parece implacável ele não iria deixar você escapar apenas com apenas um trabalho comunitário.

— Você está certa. Ele fez de tudo para me colocar atrás das grades naquela época principalmente quando eu dei por depoimento o nome do meu traficante e a coisa ficou feia e Slade teve que ser afastado do meu caso.

— Deixe-me adivinhar, seu traficante era o filho dele? – Deduzi, e Thea assentiu.

— É claro que ele conseguiu limpar as coisas para o filho e eu saí como a grande mentirosa da história, e mesmo Oliver tentando de tudo no fim eu acabei pegando trabalho comunitário enquanto o filho dele continuou normalmente com a vida. Sei também que Oliver tentou junto com a polícia de Starling provar que Slade é um juiz corrupto, mas que não conseguiram, sei que Slade marcou Oliver depois disso, meu irmão não me conta, mas eu tenho meus métodos para descobrir.

— Está me dizendo que é pessoal?

— Estou lhe dizendo que já era pessoal antes com Slade, Oliver tem esse senso de justiça implacável às vezes e ele não consegue apenas deixar para lá. – concordei, eu havia notado isso também — E agora, com você no meio da história... E com o filho dele em coma no hospital. – Thea apertou a minha mão — Eu nunca tinha visto o meu irmão tão determinado a vencer, não é apenas sobre justiça dessa vez. Eu acho que é por você, eu acho que Oliver está sendo movido pelos fortes sentimentos que tem por você, e isso me preocupa.

— Não! – Eu vetei de pronto. Não iria deixar Thea alimentar aquela esperança.

— Sim! – Maldita Queen cabeça-dura! – Você sabe que estou certa, percebe e sente que há algo nele, minta para si mesma o quanto quiser, mas você não é tão boa mentirosa quanto pensa, Felicity.

— E o que eu devo fazer, Thea? – joguei as mãos para o alto desistindo de me conter.

— Conte a ele a verdade. – soltou, como se fosse óbvio e o mais simples a fazer.

— A verdade? – eu quase ri, eram tantas mentiras que eu precisaria fazer uma lista para saber por onde começar – Sobre a noite em que atirei em Joe Wilson? Sobre como eu me sinto? Eu nem mesmo entendo o que eu sinto por ele. – me defendi. – Eu tenho sentimentos, bons e ruins coexistindo e brigando entre si, eu nem sempre tenho controle deles. Às vezes tudo o que eu quero é socar seu rosto e tirar de lá aquele sorriso presunçoso dele e outras eu apenas quero beijá-lo até me faltar ar! Não se pode contar a verdade quando nem mesmo você sabe qual ela é.

— Você sabe que não é esta a verdade a que me refiro. – O tom das palavras de Thea era diferente, sério e com uma pontada de tristeza que eu conhecia bem. Meu coração parou por um momento, eu até senti meu sangue ir mais devagar, e apertei forte minhas mãos em punhos fazendo minhas unhas apertarem a carne da palma.

— Fale baixo. – pedi, olhando em direção a porta do quarto que estava aberta temendo encontrar aqueles olhos azuis que tanto me atormentavam ali.

— Ainda acha certo manter isso em segredo? Depois de cinco anos? Ainda acha certo Ollie não saber? Vocês estão começando algo que talvez tenha um futuro...

— Não estamos começando nada! – eu gritei, deixando meus nervos assumirem o controle e me colocando de pé, pronta para sair do quarto e fugir daquela maldita conversa.

— Felicity! – Thea bateu o pé. – Você não pode fugir para sempre.

Odiei que ela estivesse certa.

— Sim, talvez seja errado ele ainda não saber. – Assumi me mantendo de costas, eu sabia que era errado. Mas eu não queria que ele soubesse, havia uma grande diferença. — E você me fez uma promessa, você disse que não contaria. – a lembrei, virando e a encarando nos olhos dessa vez.

— E você me prometeu que um dia iria contar. – seu tom era suave, mas não disfarçava a acusação e a mágoa — Já se passaram anos.

— Um dia ele irá saber, mas esse dia não pode ser hoje ou amanhã. – eu rezava para que esse dia jamais chegasse — Não com nós dois ainda confusos, não com esse processo criminal pairando sobre a minha cabeça. Nós precisamos de mais tempo. – e eu precisava de mais coragem para fazê-lo e principalmente para lidar com as consequências — Pode imaginar a reação dele? – odiei não conseguir disfarçar a fragilidade em minha voz — Ele iria me odiar, Thea.

Para a minha surpresa, Thea me deu um sorriso mínimo.

— Eu acho que te odiar é humanamente impossível para Oliver.

— Eu não quero arriscar agora, entende? – eu quase implorei para que ela entendesse. Thea não iria me trair e revelar meus segredos ao irmão, mas eu precisava do apoio dela.

— Sim. – ela suspirou, dizendo-me com o olhar que ainda não concordava com a minha escolha — Mas odeio que você fez de mim uma mentirosa nessa história também.

— Estamos quites, Thea. – Dei de ombros, sentando novamente na cama, sentindo o peso de todas as mentiras sobre meus ombros. Encarei a parede a minha frente desejando limpar a minha mente de tudo, e deixa-la tão branca e vazia quanto aquela parede.

— É. Acho que estamos. – Thea concordou num suspiro audível.

Senti o colchão afundar e olhei para trás notando que ela havia se deitado nele. Fiz o mesmo deitando-me ao seu lado e encarando o teto dessa vez. Ficamos assim por um longo tempo, pensamentos perdidos e não divididos, mas era óbvio que nós duas tínhamos coisas importantes para colocarmos em perspectiva.

Thea virou-se na cama apoiando um dos cotovelos no colchão e a cabeça sobre a palma da mão, ela me encarou com aqueles olhos grandes, eu girei ficando de frente para ela, sabendo que ela tinha algo a me dizer e que suas palavras seriam importantes.

— Ei, quer ir ao quarto do Oliver ver se ele guardou sua calcinha por lá?

Sorri, mesmo que meu coração estivesse despedaçado por causa da nossa conversa, mesmo que eu soubesse que mais cedo ou mais tarde cada mentira, cada segredo teria que cair.

Era bom poder fingir que a vida era leve.

Por enquanto.

♥

Oliver Queen

Eu balançava o copo de whisky na minha mão, mas não o levava a boca. Eu queria manter minha mente limpa e sã enquanto pensava nas decisões que tomei naquele dia, o que era irônico uma vez que estava sentado no bar de um hotel e tinha uma bebida na minha mão. De certa forma ter a bebida ali ao meu alcance servia como um teste. Eu poderia bebê-la, eu poderia deixar que ela apagasse lembranças e poderia até mesmo culpá-la por minha falta de bom julgamento. Ou eu poderia assumir a responsabilidade pelas minhas decisões, era um teste para o quão certo eu estava da decisão que havia tomado e também de que não haveria fuga ou uma desculpa.

Por isso eu seguia apenas balançando o líquido âmbar enquanto pensava na minha última decisão.

Foi melhor dar um tempo a ela.

Eu não queria ficar rondando Felicity como um cachorrinho carente esperando que ela me desse uma resposta. Por mais que eu me sentisse como um cachorrinho carente esperando por sua resposta. Foi melhor eu dar um tempo a ela. Deixá-la com minha irmã para as duas conversarem. Eu não sabia o quanto Thea conhecia da nossa história, eu deduzia que muito mais do que eu gostaria, mas ela era a sua melhor amiga, Felicity não tinha mais ninguém em Starling, se recusava a falar com os pais e estava lidando com muitas coisas sozinha.

Seria bom ter alguém com quem conversar.

Era isso o que eu me dizia.

Mas a verdade era que achei melhor me afastar, porque eu não conseguia me controlar enquanto estava perto dela, eu não conseguia lhe dar o tempo e espaço de que ela precisava. Porque quando eu não estava com ela, minha mente ficava pensando em maneiras de se aproximar, procurando motivos e desculpas. Eu queria tocá-la, beijá-la ou que fosse apenas conversar com ela.

Eu queria que tudo ao meu redor estivesse cheio da sua presença.

E aqui estava eu no bar de um hotel enquanto Felicity estava na minha casa, ao alcance das minhas mãos que tinham ideias não muito nobres. Mas eu precisava ficar longe dela, porque eu a queria tanto que me assustava, mais do que isso, eu notei que toda a intensidade que partilhávamos a assustava também.

Eu via o fogo nos olhos dela correspondendo aos meus, eu via a vontade dela de deixar que este fogo nos consumisse.

Mas havia receio.

E medo.

Muito medo. E esse sentimento estava lá por minha culpa, porque eu a fiz ser assim perto de mim.

Há cinco anos eu me encantei por uma garota doce e inocente.

Há cinco anos eu quebrei algo nessa garota.

Eu tirei sua inocência.

E fiz sua doçura se amargar.

Eu não poderia culpá-la se ela me dissesse não.

Ela tinha bons motivos para fazê-lo e talvez um tempo longe de mim a fizesse pensar nesses motivos com bastante cuidado.

Que caralho eu estava pensando quando resolvi dar um tempo a ela? Ela poderia estar nesse momento fazendo uma lista de prós e contras e os contras ganhariam certamente! Ela podia estar decidindo me evitar ao máximo, podia estar fazendo suas malas agora e fugindo do ultimato que eu lhe dei. Levei o copo a boca, sentindo o gosto amargo tocar meus lábios, eu ia me dar por vencido. Que diferença faria afinal? Desisti de beber e voltei com o copo para o balcão quando senti um par de mãos em meu ombro o apertando.

— Como sabiam onde eu estava? – virei o rosto para Tommy que já arrastava uma das banquetas e fazia sinal para o barman trazer o mesmo para ele.

— Implantamos um rastreador de GPS em você enquanto dormia – Diggle respondeu sorrindo divertido, se sentando ao meu outro lado.

— Você sempre acaba num lugar com bebidas depois que ela acaba com você. – Tommy explicou dando de ombros — Não sobrou nenhuma no escritório da última vez... Acho melhor você não beber isso aí não, amigo. – ele disse, já pegando o meu copo e o virando sua garganta. – Viemos aqui cuidar de você, e não deixá-lo se embebedar faz parte.

— Então vai beber por mim?

— Farei esse sacrifício. – ele piscou.

— Como me encontraram? – perguntei direto a Dig, confiando que este amigo sabia a hora de parar de brincar.

— Nós vimos seu carro na porta e resolvemos parar para saber se tudo estava bem com você. – Dig finalmente me explicou, dando de ombros. Eu não acreditei nem por um momento na justificativa, mas deixei para lá.

— Viemos bancar as babás — Tommy acrescentou recebendo um olhar repressivo de Diggle, mas ele não se intimidou. Tommy nunca se intimidava. — Dig falou algo sobre como seria péssimo para a imagem do escritório se você caísse de bêbado por aqui. Este é um hotel chique com muitos clientes ricos em potencial, muitos maridos querendo se separar para ficar com as amantes, e muitas mulheres com potencial para serem assassinas quando descobrem que seus maridos tem amantes. – revirei meus olhos, mas a vontade de rir foi maior e Tommy pareceu ainda mais estimulado ao ver essa reação em mim — Vê? Emprego para todos nós. Divórcio. – apontou para si mesmo – Defesa criminal. – seu dedo agora me cutucava – E para Dig, afinal alguém precisa cuidar dos impostos sobre a herança e partilha dos bens com tanta gente morrendo e se separando.

— Você certamente pensou em tudo. – concedi o falso elogio.

— Eu sou um gênio não reconhecido. – Dig gargalhou com gosto.

Balancei minha cabeça e ri juntamente com os dois. Eu sabia que apesar de toda aquela história de zelar pela imagem do escritório, eles estavam aqui por mim. Eu não havia notado o padrão antes, mas meus amigos sim. Felicity me afetava mais do que eu admitia, até mesmo os últimos anos em que ela esteve longe de mim, mesmo quando eu pensei que ela era apenas uma lembrança de um momento em que perdi meu controle, ainda assim ela esteve em mim.

Ela esteve em mim em cada mulher que levei para a cama e afastei no dia seguinte. Eu dizia que eu não queria iludi-las a tentar um lugar na minha vida, mas já naquela época eu ignorava a verdade.

Esse lugar que eu me negava a dar a qualquer uma, já havia sido há muito tempo reivindicado.

Eu sequer notara.

Ela esteve em cada copo de bebida que virei, apenas para esquecer a paixão que encontrei em seu corpo e jamais senti novamente com outra.

Ela esteve em todos os momentos dedicados obsessivamente ao meu trabalho, porque eu não queria pensar no erro que cometi ao levá-la para a minha cama aquela primeira vez, não queria pensar nas lágrimas que coloquei em seus belos olhos. Eu tentei de todas as formas apagar seu cheiro, a sensação da pele macia dela escorregando e roçando na minha. E a imagem do seu rosto tomado por puro deleite quando eu finalmente a tomei para mim, todas as noites essa imagem se repetia antes de eu dormir e até mesmo em meus sonhos eu a via, tentando-me. A bebida funcionava muita das vezes como uma anestesia, me fazia esquecer a dor nos olhos dela quando eu disse que éramos um erro, mas também levava as nossas lembranças.

Por mais que eu amasse as lembranças com ela, eu odiava a parte das lágrimas e da dor que causei.

Então eu preferia ficar sem nada.

Porque não era justo eu me esquecer de como eu tinha sido um canalha com ela na primeira vez, e ainda manter as partes boas para mim.

Eu costumava pensar que Felicity tinha sido minha perda de controle, que eu deveria ter sido mais forte antes de ceder aquele maldito desejo que eu tinha por ela. Mas agora eu me questionava se, na verdade a parte que me fazia ceder à Felicity, não era a parte de mim que deveria estar no controle o tempo todo?

E se fosse assim, o único erro em toda essa história não havia sido mandá-la embora da forma rude que o fiz. Mas sim, não ter sido honesto comigo mesmo e com ela. Eu não estou dizendo que deveria ter declarado meu amor a ela, até porque eu não sabia o que sentia naquela época exceto que a queria desesperadamente – o mesmo se aplicava para o agora. Mas eu deveria ao menos ter sido honesto com nós dois ao invés de magoá-la e afastá-la porque eu era incapaz de estar perto dela sem querê-la.

Eu estava tentando fazer diferente dessa vez.

Dar-lhe espaço e tempo.

— O que acha, Ollie? – Tommy empurrou meus ombros com os seus, fazendo-me encarar seus olhos questionadores. Merda, ele havia me perguntado algo e esperava por uma resposta.

— Parece uma boa ideia. – optei por uma resposta vaga para não me comprometer.

— Eu te disse que ele não estava prestando atenção. – Dig sorriu convencido e o observei esticar a mão para Tommy – Honre sua palavra e pague sua dívida, Merlyn.

— Obrigado, Ollie. – ele respondeu emburrado e depositando uma nota de cinquenta na palma da mão de Dig — Eu deveria saber que sua mente estava ocupada demais sonhando com a sua loira e a calcinha que ela deixou para trás no seu escritório. Está com ela no seu bolso agora? Renda preta, muito sexy – ele provocou, fazendo-me emburrar também, eu não gostava que ele tivesse visto a calcinha de Felicity.

— Não comece. — o desgraçado apenas riu – E nunca mais fale sobre isso. – acrescentei mais baixo olhando de esguelha para Dig, tentando identificar se ele havia entendido o comentário. Respirei mais aliviado ao perceber que ele levava a sua bebida a boca como se nada estivesse acontecendo.

— Oh, por favor, Ollie! Você realmente acha que Diggle não viu? Analisador e metódico do jeito que é? Ele foi o primeiro a notar a calcinha ali jogada debaixo da mesa, apenas é discreto demais para falar algo na sua cara e bonzinho demais para atormentá-lo com isso. – olhei para o meu amigo que arqueou ligeiramente uma das sobrancelhas disfarçando um sorrisinho que tinha escondido atrás do copo. Diabos! – E obviamente não combina com toda a postura zen dele, então o papel de falar a verdade sem vergonha alguma e ter o prazer de te irritar é todo meu. O que me lembra... Você devolveu a calcinha? – perguntou, saboreando ter aquele poder sobre mim.

Mas ainda assim foi inevitável o sorriso sem vergonha que tomou conta dos meus lábios ao me lembrar da bendita calcinha.

— Eu não acho que ele devolveu. – Dig opinou, lendo a minha expressão.

— Oh, guardou como lembrança? – Tommy pareceu estar no céu com essa possibilidade, claro, era mais munição para o desgraçado — Que orgulho de você amigo, não sabia que era do tipo sentimental.

— Eu sabia.

— Você sabe tudo, Dig. — Concedeu — O que acha? Está em alguma das gavetas dele? Talvez em uma caixinha com todas as lembranças dela?

— Eu odeio vocês dois. – Comentei olhando a parede a frente, não queria que eles percebessem que sim, eu havia guardado a calcinha em uma das minhas gavetas no meio das minhas roupas. Eu gostava de ter algo de Felicity misturado nas minhas coisas. Mesmo eu me esforçando para mascarar a verdade, ainda assim eles sorriram, cientes que eu não os odiava. Eu mesmo sorri, o que era idiota considerando que os dois falavam da calcinha da Felicity.

— Então, agora que estamos falando disso abertamente onde vocês transaram? Alimente minha curiosidade... Foi no sofá? No chão? Na mesa? Contra a parede? Ou todas as opções anteriores? – Diggle gargalhou diante da falta de pudor de Tommy, mas a minha reação foi bem diferente. Era normal falar sobre sexo com os amigos, por vezes nós nos juntávamos em uma noite em um bar e conversávamos sobre isso. É natural para os homens e principalmente para Tommy que adorava falar sobre suas aventuras sexuais. Diggle era mais contido, afinal era um homem casado e com filhos, mas sempre tinha algo a acrescentar. Eu por minha vez, não me fazia de rogado. Houve mulheres em minha cama, e sim, eu compartilhava das lembranças com meus amigos.

Mas com Felicity era diferente.

Eu não poderia falar sobre isso. Era íntimo demais e eu queria guardar cada momento apenas para mim porque era... Único.

Era apenas nosso.

— Existem certos limites, Merlyn. – não o encarei ao dizer isso. Olhei para o novo copo de bebida a minha frente que o garçom trouxe, cujo gelo já havia derretido e deixado a coloração ainda mais clara.

— Limites para sexo? Nunca! – ele exclamou como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

— Limites sobre Felicity. — expliquei ganhando um olhar dos meus dois amigos, o de Diggle vinha acompanhado de um sorriso orgulhoso o qual eu não queria analisar agora enquanto o de Tommy era de pura indignação — Não vamos falar sobre ela. – determinei colocando um ponto final na história.

— Ah, vocês dois ainda não se acertaram. – Tommy começou como se estivesse compreendendo parte do problema — Eu não entendo o porquê. – eu suspirei porque para Tommy traçar um limite era o mesmo que traçar uma linha de chegada, ele iria ultrapassar e eu não estava disposto a entrar naquela de falar sobre meus sentimentos por Felicity, eu não havia bebido naquela noite e nada me impelia a abrir meu coração — Eu quero dizer, vocês tem uma história é claro, você tirou a virgindade dela e a garota ficou na sua pele, tanto que você desmanchou um relacionamento de dez anos por causa dela – mesmo não querendo conversar sobre, eu não conseguia não prestar atenção em suas palavras — O que eu não estou recriminando, Laurel não era a mulher para você. Ainda mais agora que assisto em primeira mão o que Felicity faz contigo. – havia um sorriso inteiro em seu rosto, eu sentia vontade de quebrar um a um dos seus dentes brancos — É como assistir uma novela diante dos olhos.

— Eu não sabia que você gostava de novelas. – impliquei tentando mudar de assunto.

— Eu não gosto, mas a questão aqui é se você gosta de Felicity. – retomou o controle.

— Tommy, ela é minha cliente. – falei, tentando novamente colocar algum limite e fugir do assunto.

— E daí? – ele revidou — Precisa parar de se limitar por causa disso! Você quer ficar com ela, então fique, ora! Para quê diabos segurar seus desejos por causa de convenções moralistas? Quem se importa se ela é sua cliente ou sei lá sua funcionária!? Se você a quer não deve se restringir porque um pedaço de papel lhe diz isso...

Peguei algo pessoal ali.

— Isso tem a ver com Sara? – vi a abertura e usei como munição para mudar de assunto.

— Que absurdo, de onde tirou essa ideia? – Tommy pareceu nervoso — Isso não tem nada a ver com Sara. – troquei um olhar com Dig ao notar o quanto ele estava na defensiva.

— Definitivamente tem a ver com Sara. – Diggle concordou. E eu adorei a mudança do sorrisinho presunçoso para a careta emburrada no rosto de Tommy.

— Sara é apenas a nossa estagiária, eu gosto de irritá-la principalmente porque ela é jovem e tem noções ridículas sobre o amor, mas ela não significa nada para mim. – Ele virou quase todo o líquido de seu copo após falar.

— Bom saber disso, Tommy. – eu segurei o riso enquanto Tommy cuspia parte da bebida.

— Sara?! – ele pareceu atordoado ao virar-se e encontra-la ali. Onde estava o meu amigo eloquente e que jamais era surpreendido por uma mulher?

— Não precisa ficar incomodado, você também não significa nada para mim, Tommy – Ela sorriu ao dizê-lo e se meu amigo de infância tivesse levado um soco no estômago não teria doido tanto quanto aquele sorriso dela.

— O que faz aqui? – Ele tentou tomar o controle se erguendo do banco, e a olhando de cima.

— Eu não sabia que devia satisfação da minha vida à você.

— Eu sou seu chefe. – ele se impôs, fazendo-a erguer uma das sobrancelhas incrédula que ele realmente tinha usado aquela cartada.

— Apenas no escritório, e nem mesmo lá eu o deixo me dizer o que fazer. – Atrevida. Eu via a faísca entre os dois, e por mais que relacionamentos dentro do mesmo ambiente de trabalho fossem condenáveis, eu estava gostando de ver o que Sara causava em Tommy, ele precisava de alguém assim na vida dele. Que dificultasse as coisas para ele. — Mas eu vou te contar dessa vez, só porque eu sou uma pessoa maravilhosa, e também porque vai ser um bônus ver a sua cara, quando perceber que eu estou tão perto de vencer a nossa aposta. – seu tom foi exageradamente charmoso, Tommy notou também ficando imediatamente tenso.

— O que você fez? – Sara sorriu e eu desejei ter pipoca apenas para assistir ao espetáculo.

— Tommy tem razão é como assistir à novela. – cochichei para Dig.

— É, ou uma série da HBO no seu caso com essas calcinhas perdidas... – comentou me provocando.

— Eu trouxe Kara e Mon-el para um jantar íntimo. – Sara se empertigou e ergueu o queixo ao dizê-lo, mas a reação de Tommy não foi a que ela esperava. – Eles estão logo ali. – indicou com a mão a parte central direcionada ao restaurante do hotel onde casais se jantavam à luz de velas.

— Seu plano é oferecer um ménage? – ele riu, parecendo mais relaxado e divertido.

— Não, seu idiota, eu não vou me juntar a eles. – ela explicou revirando os olhos – Embora com o seu emocional inexistente, eu entenda porque você acredita que apenas sexo possa resolver as coisas entre um casal.

— Não resolve, mas torna tudo mais agradável. Então se o ménage está fora do cardápio, o que está nele?

— Romance! – respondeu com um ar simplório — Eu vou apenas ficar no bar, observando de longe, eles vão se acertar sozinhos. – ela sorriu convencida de que estava certa, suas duas mãos indo até a gravata de Tommy e a alinhando, distraindo meu amigo por alguns momentos. Eu pensei em suas palavras, e no quanto elas se aplicavam a Felicity e eu, talvez fosse disso o que precisávamos para nos acertarmos... — É o que acontece quando duas pessoas se amam. — completou.

Amor.

Apenas a ideia já me deixou nervoso, melhor eu não pensar em nada disso por agora.

— Veremos. – Tommy disse sem muita convicção.

— Veremos. — ela riu, soltando-lhe a gravata. O olhar de Tommy desceu até onde as mãos de Sara estiveram a pouco, parecendo decepcionado por não estarem mais lá — E a propósito, a conta do jantar é sua. Eu disse à eles que é cortesia do advogado. — Ela piscou e sorriu, jogou seus cabelos por sobre os ombros e saiu rebolando para a outra extremidade do bar, ficando bem longe dele.

O olhar de Tommy não deixou de segui-la nem por um momento, ele estava um pouco raivoso no princípio, como um touro bravo para o qual haviam sacudido uma toalha na frente, mas havia um brilho que se sobrepunha a raiva, era contente e ao mesmo tempo quase predatório.

— Eu estou curioso, o que vocês apostaram? – Dig se adiantou, chamando a atenção de Tommy para nós dois, já que ele parecia ter se esquecido que estava acompanhado e seus olhos apenas seguiam Sara até o outro lado do bar onde ela se sentou sozinha.

— Qualquer coisa que o outro quiser... – ele respondeu seu rosto se tornando faceiro.

— Isso é muito vago. – comentei.

— Mas as possibilidades são ilimitadas e eu gosto muito disso. – Peguei as segundas intenções no seu tom, mesmo que ele tenha tentado disfarçar com um sorriso de menino inocente.

— E o que você quer dela? – Dig fez a pergunta certeira.

— Mais do que uma aposta pode me dar. – ele entregou antes que pudesse notar, mas então tentou consertar — Eu vou provavelmente pedir para que ela faça algo embaraçoso, ou que acabe completamente com os ideais românticos dela. Provavelmente os dois. – Ele disse, pegando o meu copo que era o único cheio e virando todo de uma vez. – ainda estou a procura da ideia perfeita.

Eu não era o único que bebia por causa de uma mulher.

— Peça Sara para ir num encontro com você, ela provavelmente vai desistir dos homens depois da péssima experiência e aposto que vai ser embaraçoso também. – Dig sugeriu em tom brincalhão.

— Está na pauta. – Tommy se permitiu uma olhada na direção de Sara, e vi um sorriso que para a minha surpresa não era malicioso, ao contrário parecia intenso e afetuoso. Não fiz nenhum comentário, se eu dissesse que ele estava quase sendo fisgado por Sara, era capaz de ele fugir do anzol.

E seria mais divertido vê-lo ser fisgado.

— Ei, aquela morena oferecendo uma bebida a Sara não é a juíza da sua Felicity? – Dig comentou, fazendo Tommy se entortar todo na cadeira para observar a cena.

— Nyssa Al Guh. — acrescentei — É sim e ela gosta de loiras. Não tirou os olhos de Felicity, e praticamente deu em cima dela na minha frente. – contei, me lembrando com um sorriso de como Felicity tinha achado que a juíza tinha ficado interessada em mim, quando na verdade tinha sido nela. – Poderia dar certo, acho que Sara gosta de morenas...

— O-O qu-quê disse? – Tommy imediatamente se virou para mim gaguejando.

— Que Sara gosta de morenas, eu me lembro de uma garota que ela namorou na época em que eu estava com Laurel, fazia bem o tipo de Nyssa, meio exótica e...

— Sara é gay? – Tommy praticamente gritou, tanto que recebemos alguns olhares estranhos das pessoas ao redor.

— Sara é bissexual. – respondi vendo o semblante de Tommy ficar mais pálido ao olhar para Nyssa que sorria para Sara — Não precisa fazer essa cara, ela gosta tanto de homens quanto mulheres, não é nada demais.

— É sim! É apenas o maldito dobro da concorrência! – ele resmungou mais para si mesmo, bebendo mais um pouco e novamente olhando para Nyssa que agora se sentava ao lado de Sara.

— Eu pensei que não estivesse interessado. – Joguei as palavras dele volta para ele, fazendo-o me olhar com raiva.

— Eu. Não. Estou.

Sim, ele estava.

— Por mais que eu adore me divertir com a fracassada vida amorosa de vocês dois, eu tenho uma esposa amável e duas crianças adoráveis ansiosas para que eu chegue em casa. – Dig se ergueu, deixando uma nota de dinheiro no balcão para pagar a sua parte.

— Vamos brindar a sua vida perfeita. – Ergui meu copo vazio, Tommy havia acabado com ele novamente.

— Sou um advogado de divórcios, não acho a vida de casado perfeita. – Tommy resmungou, se negando a erguer seu copo e fazer aquele brinde.

— Um dia você vai. – Dig disse naquele tom sábio que apenas ele possuía — Até lá, um conselho. Para os dois.

— Eu estava até estranhando não termos recebido nenhum até agora. – eu partilhava do sentimento com Tommy.

— Oliver, dê Felicity espaço se ela precisar, a história de vocês já é tumultuada demais. – assenti, eu estava tentando fazer essa maldita coisa de dar espaço, só não esperava que fosse tão difícil controlar a vontade de estar com ela a todo o momento — Você se expôs, disse o que queria. Mas o resto precisa vir dela, espere que ela tome a decisão, que ela venha até você ou não. Há certos sentimentos que precisam seguir seu próprio curso. – franzi o cenho, como o desgraçado sabia que eu havia dito à ela o que queria? Era como um maldito vidente lendo a minha mente. – E quanto a você, Tommy.

— Sim, sensei qual o seu sábio conselho. – debochou, embora parecesse amargo.

Diggle pareceu pensativo por um momento.

— Apenas não seja você.

— Ouch. Essa doeu. – fez-se de ofendido.

— Você mereceu. – acrescentei.

— Apenas porque não vejo porque de casar e ter filhos é algo bom quando eu posso ter todas as mulheres que eu quiser sem me prender a nenhuma. – resmungou.

— Porque vai chegar o dia você vai querer apenas uma, Tommy – explicou – E nesse dia, você vai estar ferrado. – Dig se foi, deixando as palavras no ar.

Tommy levou um copo a boca e eu o acompanhei, bebendo pela primeira vez naquela noite. Eu estava assustado porque eu havia descoberto o quanto eu já estava ferrado.

Eu queria apenas uma.

***

Quando voltei para casa já era tarde e tudo estava no maior silêncio, fiz meu caminho até meu quarto com passadas leves e sem acender muitas luzes. Não era minha intenção ficar tanto tempo fora, mas eu acabei me enrolando com Tommy que bebera muito e eu precisei levá-lo para o seu apartamento.

Pela primeira vez eu me mantive lúcido enquanto pensava em Felicity. Eu notei rápido a diferença, dessa vez eu não queria mais esquecer ela, eu não queria a anestesia contra os sentimentos que ela despertava em mim. Ao contrário, eu queria sua lembrança firme e forte, fazendo parte de mim, eu queria cada um dos sentimentos confusos que enterrei por tanto tempo e agora eu queria descobrir o que eram. Eu finalmente havia parado de lutar contra e estava disposto a lutar a favor, mesmo que eu não soubesse aonde isso me levaria.

Eu apenas queria ir com ela aonde quer que fosse.

Eu queria apenas ela.

Descobrir o que eu sentia com ela.

A verdade era assustadora, mas também libertadora.

— Oliver! – a exclamação surpresa fez meu coração acelerar e um pequeno sorriso aparecer em meus lábios, ao encontrá-la ali. Naquele corredor parecendo impaciente e pensativa andando de um lado para o outro. Eu sorri não apenas porque o lugar evocava lembranças, mas porque ela parecia estar esperando por mim.

— Oi – cumprimentei, parando e me encostando de lado na parede colocando minhas mãos seguramente dentro dos meus bolsos. Espaço. Eu precisava dar à ela espaço. — Parece que de alguma forma nossos caminhos sempre se cruzam nesse corredor. – Eu disse que daria espaço, mas não que jogaria limpo.

— Oi — ela parecia nervosa, não nervosa com medo como eu já a havia visto antes, mas nervosa adorável quase como ela costumava ficar quando era mais nova. Gostei disso, gostei de ver que nem tudo havia se modificado. – Então... aqui estamos nós novamente, nesse mesmo corredor.

— As mesmas paredes, mas não as mesmas pessoas. – comentei, ainda mantendo minhas mãos seguramente dentro dos meus bolsos embora elas quisessem sair e tocar, me atrevi apenas a dar um passo vacilante na direção de Felicity.

— Nós mudamos muito. – Ela comentou mordendo o lábio inferior também dando um passo na minha direção. Dig disse que eu deveria espaço, mas não que não deveria deixá-la se aproximar, há uma diferença.

— Sim, mas há partes de nós que nunca poderemos mudar. – eu entendia isso agora, eu nunca conseguiria mudar o que ela me causava, ou o que eu queria dela. Estava em mim, tão enraizado que tinha sido tolice pensar que eu poderia controlar os sentimentos.

— Oliver... – mais um passo, e agora estávamos há um palmo de distância. Essa coisa de espaço era difícil.

— Felicity, eu não farei novamente a pergunta. – me adiantei tentando manter o tom suave, disposto a insistir na ideia de ser alguém melhor para ela, eu já havia fodido demais com a vida dela no passado. Nada mais justo do que eu deixar que dessa vez a decisão viesse dela. — Eu vou lhe dar tempo e espaço se é isso o que precisa para decidir. – concedi sorrindo, mesmo que tudo em mim dissesse para que eu tomasse em meus braços o que estava ali ao meu alcance — Eu não vou pressioná-la. – isso seria difícil — Procure-me quando tiver certeza do que quer de mim, porque uma vez que tiver, não vou deixá-la ir. – declarei, olhando no fundo daqueles olhos que me escondiam tanto.

— Ok. – disse vacilante ainda mordendo o lábio, essa não era a resposta que eu queria, mas eu a aceitava.

— Boa noite, Felicity. – Não resisti a um último movimento. Eu poderia lhe dar todo o maldito espaço e tempo depois, eu precisava dela perto e precisava dela agora, apenas por poucos segundos. Eu planejei ser delicado e suave, apenas planejei, porque meus planos e Felicity sempre foram uma infeliz combinação, ela sempre fizera todos eles caírem por terra.

Me inclinei em sua direção e pressionei meus lábios nos dela arfando apenas de sentir a maciez, meu corpo inteiro criou vontade própria e se impôs ao dela, minhas mãos deixaram meus bolsos e a apertaram firme trazendo-a para mim onde era seu lugar, e minha boca, oh minha boca estava pronta para tomar tudo da dela, seu gosto, seu ar, seus suspiros de prazer. Felicity se desfez em meus braços pronta para me dar sua rendição por atos e não palavras, nunca por palavras. Eu sabia que havia um limite tênue, que uma vez ultrapassado nenhum de nós conseguiria mais parar. Por isso me forcei a parar antes que me deixasse levar, enquanto ainda tinha controle o suficiente para fazê-lo, eu não queria acabar na cama com Felicity sem antes deixarmos tudo às claras.

Olhei para ela uma última vez perdendo-me naqueles olhos que nada me contavam, toquei-lhe a face suavemente deixando o polegar sentir a maciez dos lábios que a pouco provei, e então me afastei, me virei lhe dando as costas, fugindo do seu olhar tentador, lhe dando as costas e indo para o meu quarto enquanto ainda era forte.

Repetindo mentalmente o que eu deveria dar a ela: tempo e espaço.

Quando minha mão tocou a maçaneta, senti outra mão sobre ela. Uma pequena e feminina, cujo toque suave fazia meu corpo inteiro se deleitar querendo sentir esse toque em todas as partes de mim.

Lá se vai o espaço.

— Eu quero você. – ela soprou baixo as palavras às minhas costas.

Me virei para ela, ainda não acreditando no que havia escutado. Eu estava sonhando?

— O que disse? — perguntei, meu coração parou enquanto aguardava pela resposta dela.

— Eu quero você, eu sempre quero você, Oliver.

E lá se foi o maldito do tempo.

Notas finais
Bem, bem, bem... Foi um bom capítulo? Espero que tenham gostado, mesmo não tendo tanto olicity assim, no próximo eu prometo que... Vou ali responder os comentários, estou me sentindo com vontade de dar spoilers hoje! Até mais! ANTES QUE EU ME ESQUEÇA AMÉM O OTP CASOU (SPOILER) AGORA SÓ FALTA COMER A SOBREMESA.