Guilty Pleasure
5 Capítulo 4 - Don't be Scared
Notas iniciais
When did we lose our way?
Easier to let it go
So many can't tell anybody
Harder to let you know
Call me when you've made up your mind but you won't
Caught up in the way that you played my heart
Only love could ever hit this hard
Oh, don't be scared about it
Don't forget it was real
Do you remember the way it made you feel?
Do you remember the things it let you feel?
How do I make you stay,
When it's easier to let you go?
(Do You Remember — Jarryd James)
♥
Oliver Queen
Esperei Felicity deixar a sala com Thea e encarei a pasta a minha frente sem conter a ansiedade. Eu não apenas queria as respostas, eu precisava delas.
Eu tentei dizer a mim mesmo que só a estava investigando porque precisava disso para fazer meu trabalho com competência. Mas no fundo eu sabia que ia além, eu estava curioso, eu precisava disso apenas para mim e nada mais. Durante aqueles cinco anos Felicity foi uma presença constante em meus pensamentos, eu me disciplinei para não pensar tanto nela, eu tentei minimizar o que tivemos, mas de um jeito ou de outro eu sempre me vi na borda, sempre querendo ir até ela, fazer algum contato, ou apenas me desculpar por ter agido como um babaca com ela depois de dormirmos juntos. Mas eu sempre acabava me convencendo de que era melhor apenas deixar isso no passado, e que Felicity não merecia minha interferência em sua vida.
Um me desculpe não apagaria o passado ou abriria novas portas para o futuro. Ela ainda era muito jovem para mim, e tinha seu próprio caminho a seguir, eu não poderia simplesmente bater a sua porta e dizer que havia chutado Laurel da minha vida e que agora havia espaço na minha cama para ela.
Eu nunca contei a ninguém, mas eu quase o fiz.
Foi um momento de fraqueza.
Tinha sido logo depois de desmanchar o noivado com Laurel.
Felicity estava impregnada demais em mim, eu não conseguia dormir ou fazer meu trabalho direito. Eu tentei fingir que era a culpa por ter traído Laurel e por isso contei a verdade à minha noiva, acreditando que a vida poderia voltar ao seu normal patético. Mas isso não aconteceu. A minha mente ficava apenas voltando aquela noite, no sorriso nos lábios dela, na expressão de deleite em seu rosto em cada toque meu, em como nos encaixamos tão perfeitamente enquanto fazíamos amor. Eu sabia que ser o primeiro homem da vida dela traria algum um impacto, mas eu nunca esperei que eu sofreria do impacto do que era provar o sabor de Felicity Smoak.
Ela tocou algo dentro de mim.
E toda vez que eu fechava os meus olhos era o rosto dela que eu via, primeiro o sorriso apaixonado que iluminava o rosto dela e a deixava tão apelativamente tentadora, mas depois vinha aquela única lágrima, num rosto pálido e triste.
Eu estava desesperado, não sabia mais o que fazer para parar de pensar em Felicity. Então eu apenas desisti de lutar contra. Peguei algumas informações no computador de Thea, li alguns de seus e-mails e descobri em qual faculdade ela estava. Era tarde da noite, peguei o meu carro e dirigi a madrugada inteira, meus pensamentos apenas inundados de Felicity, meu corpo e coração se sentindo ansiosos para vê-la novamente. Eu parei meu carro em frente ao M.I.T. quando ainda amanhecia.
Eu tinha um par de horas até ela chegar, então fiquei ali sentado impaciente observando o conjunto de tijolos que formavam o prédio por um tempo, deixando que o fato de que estava tão perto dela aos poucos fosse me acalmando.
Os alunos começaram a chegar e eu me vi buscando ansioso por seus cabelos loiros em meio a multidão. Eu pensei tê-la visto conversando com um rapaz de cabelos afro, mas não tinha certeza. Observei mais atentamente o garoto falar algo que a fez rir, e então eu soube. Eu deveria me aproximar e dizer tudo o que estava preso dentro de mim. Me desculpar e mesmo que não fosse válido, tentar me explicar enquanto pedia por mais uma chance, mas não fiz nada disso. Eu já estava mais lúcido, eu já tivera o tempo necessário para pensar na loucura que estava fazendo e então entrei dentro do carro e dei meia volta, sem olhar para trás.
Prometendo a mim mesmo que deixaria Felicity viver a vida dela, sem que eu interferisse novamente.
Agora, prestes a descobrir o que aconteceu a ela nesses cinco anos, eu me perguntava se as coisas teriam sido diferentes, se eu tivesse tido a coragem de descer do carro e ir até ela e pedir por uma conversa.
Eu teria dito aquele me desculpe que estava engasgado dentro de mim.
Talvez depois disso houvesse uma chance de nós dois termos dado certo.
Meneei a cabeça varrendo aquele pensamento.
Não valia a pena viver com a mente no passado, em suposições de como poderia ter sido. Eu fiz uma escolha quando entrei no carro e voltei para Starling, e tinha sido a certa.
Voltei a me concentrar no arquivo sobre ela.
Felicity tinha sido uma excelente aluna, primeira da classe em todas as matérias. Mas o segundo semestre dela foi um desastre, bem como o terceiro. Ela matou algumas aulas e até mesmo repetiu algumas matérias. O que não fazia o menor sentido considerando o quão boa aluna ela era. Eu procurei nas páginas razões para aquilo, e li algo sobre os pais dela que talvez explicasse um pouco, e eu quase compreendia o porquê dela não querer a ajuda deles agora... Mas ainda me vi questionado se tinha sido isso que a fizera quase perder a bolsa na faculdade. Talvez ela tivesse se envolvido com algo mais perigoso, cogitei. Eu sabia o quão fácil era acesso as drogas para um jovem na faculdade, ainda mais alguém como ela, longe dos pais, passando por um momento difícil sozinha. De todo modo, depois daqueles meses não houve nada menos do que perfeição. Notas perfeitas, ela ganhou prêmios e competições...
Depois que se formara ela recebeu uma oferta de emprego e se mudara para Coast City e começou a trabalhar na Palmer Technologies.
Em cinco anos ela nunca colocara os pés em Starling outra vez.
Ela parecia ter construído uma boa vida longe daqui. Então por que alguém, com uma vida aparentemente perfeita tinha tantos segredos? Por que ela viera para cá? Foi em uma festa com o tal de Roy e atirou em alguém?
Teria sido apenas um infeliz acaso?
Nada fazia sentido.
Mas isso já estava se tornando um hábito para mim quando se tratava de Felicity, nada sobre ela fazia sentido para mim. Eu me esforçava para ver além de suas camadas, eu até mesmo cheguei ao absurdo de pedir por uma investigação em uma agência governamental apenas para entender um pouco mais daquela mulher. Mas nada adiantava, eu ainda a sentia distante de mim, quase impossível de ser alcançada.
As coisas não haviam mudado tanto em cinco anos, afinal Felicity continuava a ser inalcançável para mim, só que dessa vez não era porque ela era aquela garota doce cujo sorriso vinha fácil quando conversava comigo, a melhor amiga da minha irmã que tanto me fascinava e que eu achava extremamente sexy, mas que eu sabia não deveria me atrever a querer.
A tentação a qual eu não podia ceder e sobre a qual criei uma barreira.
Uma barreira que desmoronou no instante em que os lábios dela tocaram os meus pela primeira vez.
Mas dessa vez foi Felicity que ergueu a barreira entre nós. Era ela quem dava um passo para trás sempre que eu me aproximava, quem recuava e desviava o olhar. E isso me levava ao inferno, não apenas porque eu odiava não ter controle disso. Mas porque agora era ela quem dava as cartas do jogo, enquanto eu sequer sabia o que jogávamos.
Joguei meu corpo para trás na poltrona, me afastando daquela maldita pasta que não tinha as respostas que eu buscava e bufei irritado me erguendo de uma única vez. Nem percebi que meus passos me levavam para o canto do escritório em direção ao pequeno gabinete com bebidas, e me servia de uma quantidade generosa de whisky.
Esse era um hábito que eu precisava controlar, beber sempre que minha mente ficava cheia de Felicity. Era simples antes, varrer a memória dela, ou até mesmo ignorar aquela sensação de aperto no peito sempre que eu pensava nela.
Como era o ditado?
O que os olhos não veem o coração não sente?
Ri enquanto sentia o líquido descer por minha garganta. Impossível não sentir já que ela estava presente em todas as malditas horas do meu dia, inundando cada lugar com sua presença. Me irritando, me levando ao limite, de todas as formas possíveis.
Bati o copo com mais força do que pretendia ao terminar a bebida, já me preparando para o segundo copo.
— Whisky as duas da tarde? Ela deve ter sido uma verdadeira vaca. — Eu nem precisei me virar para saber quem era, só havia uma pessoa sempre entrando na minha sala sem bater — Não diga que é Laurel a razão da bebedeira? — não controlei a careta ao ouvir o nome, e observei Tommy se esparramar em um dos sofás.
— Claro que não.
— Menos mal. A melhor decisão da sua vida foi não ter se casado com ela. — Meu amigo tinha um sorriso amplo no rosto ao dizer isso — Provavelmente agora você estaria miseravelmente infeliz enquanto eu cuidava do seu divórcio, ao qual ela não iria facilitar, ainda mais levando em conta aquela traição sua pouco antes do casamento.
— Boa tarde para você também, Tommy. — forcei um sorriso para meu amigo, tomando o cuidado de ir até minha mesa e fechar a pasta com os dados de Felicity antes de ir até ele. Eu poderia lidar com Dig sabendo um pouco mais da minha relação com Felicity, ele sabia ser irritante sobre o assunto, mas era discreto o suficiente.
Tommy conheceu Felicity antes, ele sabia que ela era a melhor amiga da minha irmã, e por vezes eu o peguei dando uma olhando nenhum pouco inocente na direção dela, principalmente quando ela e Thea resolviam passar as tardes na piscina. Eu fui resoluto ao dizer ao meu melhor amigo que Felicity era um limite que ele não deveria cruzar.
Eu me fiz de protetor, quando na verdade tinha sido um grande hipócrita sobre isso.
Eu deveria ter seguido meu próprio conselho.
Se ele sequer sonhasse que eu havia dormido com Felicity, que tinha sido ela a mulher misteriosa que me fez terminar meu relacionamento de anos com Laurel. Eu estava perdido. Primeiro iria me parabenizar e depois ele não me daria uma folga.
Ele seria um verdadeiro pé no meu saco.
E seria pior quando ele descobrisse que eu era advogado dela.
— O que quer? — fui mais ríspido do que deveria, meus pensamentos liderando o meu humor e acabei ganhando um arquear de sobrancelhas de Tommy com essa estranha reação.
— Wooou, quem quer que seja a mulher que conseguiu te deixar nesse péssimo humor, eu não quero conhecê-la. — jogou a isca, me observando.
— Não há mulher alguma. — Não era uma mentira completa.
— Oh, então talvez seja essa a razão do mau humor. — ele riu, mais humorado dessa vez — Devo agendar uma noite? Alguns drinks no Verdant, quinze minutos de conversa fiada com uma garota peituda, você solta o sobrenome “Queen” sem querer e voilà, todas as portas se abrem... Ou melhor, todas as pernas se abrem! Você tem sexo garantido pela noite e o pequeno Oliver pode voltar a ser feliz outra vez.
Revirei meus olhos para Tommy.
— Você sempre acha que sexo com uma mulher peituda é a resposta para todas as perguntas?
— Claro que não! — defendeu-se ofendido — Às vezes a mulher nem precisa ser tão farta na frente, só saber fazer tudo direitinho e me deixar satisfeito. — Ele piscou para mim e eu apenas sorri por educação. Tommy era o tipo de cara que jamais se prendia a uma mulher, ele não acreditava em casamentos e talvez fosse por isso que ele lidava com todos os divórcios no escritório — Não me diga que está ficando todo sentimental depois de todos esses anos? Eu pensei que depois de Laurel eu finalmente teria meu melhor amigo só para mim, seriam apenas festas e mulheres nuas...
Não segurei a gargalhada.
Depois do fim do noivado, Tommy simplesmente transformou o que deveria ter sido minha despedida de solteiro, numa festa de volta a vida dos solteiros. Havia até mesmo uma faixa com esses dizeres.
Tommy poderia não ser o melhor me dando conselhos de vida, o papel de Yoda ficava para Dig, enquanto ele sempre seria o amigo com boas intenções, mas que sempre acabava me colocando em confusões.
— Um dia, você será fisgado e vai dar adeus a vida de promiscuidade — comentei com um sorriso imaginando o desespero que seria para Tommy se apaixonar.
— Isso nunca vai acontecer. — foi resoluto.
— Se está dizendo... — dei de ombros — Afinal, você me enrolou e não me disse o que quer. — Tommy se remexeu no assento, seu sorriso diminuindo um pouco enquanto ele ajeitava a gravata.
— Eu vou precisar de Sara por toda essa semana, se incomoda se eu usá-la como minha estagiária exclusiva? — seu tom inocente e o sorriso polido não me enganaram.
— Thomas Merlyn, não durma com ela! — avisei num tom duro — Ela é irmã da Laurel o pai é capitão da polícia, tem ideia da confusão que isso nos colocaria? Ela é uma boa estagiária e tem futuro, e eu não quero...
— Quem falou em dormir com ela? Eu não vou dormir com a estagiária, Ollie! — negou rápido demais para o meu gosto e desviou o olhar de mim.
— Não pode me culpar, depois de você ter dormido com a sua assistente! E sabe o quanto aquilo custou para o escritório.
— Sara não é Helena. — respondeu de mal humor, mas sendo enfático — As duas não poderiam ser mais diferentes, Helena foi uma aproveitadora e Sara é apenas uma garota normal que não se impressiona com o tamanho da conta bancária de alguém. — a defendeu com certa admiração, me fazendo questionar se ele já teria tentado impressioná-la com o tamanho da sua conta bancária.
Tommy não tinha jeito.
— Se precisa de um estagiário em tempo integral pode usar Sin ou Alex, os dois são tão bons quanto Sara. — Tommy não estava sendo cem por cento sincero comigo, então optei por uma abordagem menos direta.
— Sin me dá medo e Alex é um bundão. — resmungou.
— Mas os dois são inteligentes e devem servir. — me ergui do sofá como se desse aquele assunto por encerrado e Tommy me seguiu derrotado.
— Ok, você me pegou. Tem que ser Sara.
— Por quê? — Cruzei os braços o fitando com interesse.
— Primeiro, vamos deixar claro que Sara não faz meu tipo. — fiz uma cara de descrente. — Ela preenche o requisito de gostosa, mas é inteligente demais. E Sara me irrita! — Ele soltou e franzi o cenho ao escutar aquela resposta inesperada — Ela realmente me estressa, Ollie! É uma romântica incurável, que acredita no amor e ela sempre fica tentando me convencer a tentar uma reconciliação entre os casais, como se eu fosse uma espécie de psicólogo ou terapeuta sentimental e não um advogado que faz dinheiro com divórcios. Eu quero mostrar a ela que está errada, que as pessoas não se casam porque encontraram o amor da vida delas, mas sim porque o sexo é espetacular ou porque há dinheiro envolvido na história, e quando um dos dois acaba eles me procuram.
— Deixe-me ver se entendi — parei me encostando a minha mesa enquanto olhava para Tommy com seriedade — você quer usar os nossos clientes, aqueles que não apenas nos pagam para resolvermos os problemas deles, mas também depositam a confiança deles em nós, esses clientes que estão passando por um momento delicado na vida e você quer usar esse momento deles para acabar com as concepções românticas de uma garota?
— Ufa! Que bom que estamos entendidos! Eu pensei que seria mais difícil te fazer entender. — Ele pareceu aliviado.
— Tommy! Eu não preciso te dizer que usar os clientes dessa forma é antiético. — adverti, mesmo sabendo que era um caso perdido.
— Eu não vou usá-los! É apenas uma experiência com um fundo puramente didático. — sorriu daquele jeito maroto, e eu apenas suspirei sabendo que não poderia mais pará-lo.
— Tommy...
— Okay, talvez a gente tenha feito uma aposta, Sara disse que apostava que era capaz de fazer esse casal que me procurou ontem Kara e Mon El desistirem do divórcio em uma semana, e eu disse que seria impossível e que eles assinariam os papeis em uma semana. Ela simplesmente cruzou os braços e empinou o nariz me encarando daquele jeito petulante dela que me... — peguei algo no semblante dele, um pequeno sorriso que escapou enquanto falava de Sara, mas Tommy se recompôs — Enfim, você sabe como eu sou com apostas.
— Tommy, apenas não leve as coisas muito longe. — avisei.
— Você me conhece, Ollie. — ele deu de ombros — É apenas uma aposta.
Tommy me deu um sorriso, mas não um sorriso qualquer.
Não era apenas uma aposta.
Tinha sido bom ocupar meus pensamentos com algo que não fosse Felicity, mas no instante em que Tommy deixou a sala, minha mente voltou ávida a pensar nela. Voltei a minha mesa e comecei a passar página por página a procura de algo relevante. Pedi minha secretária que trouxesse meu almoço, enquanto eu seguia analisando aquele maldito relatório. Eu tinha certeza que Dig ria de mim em algum lugar, eu o infernizei para usar dos seus contatos com a esposa e no final não tinha sido de grande ajuda. Até que encarei uma das últimas páginas, não deveria ser nada demais, informações sobre o endereço atual, o trabalho dela, os amigos... Mas algo me atingiu e eu prendi a respiração.
Ela não morava sozinha.
Aquilo sim era algo inesperado. Li o nome masculino, imediatamente desgostando dele, achando um nome prepotente demais. Minha postura se tornou mais rígida, e apertei a pasta com mais força amassando um pouco as folhas.
Então havia alguém na vida dela.
Não qualquer alguém.
Um homem.
Namorado, talvez até mesmo um noivo. Certamente não era marido, Felicity usava o mesmo sobrenome e não havia uma aliança no dedo dela, mas era alguém com quem ela dividia uma casa e provavelmente uma vida.
Alguém que a tinha durante as noites e acordava ao lado dela todas as manhãs. Fechei as mãos em punhos e rangi meus dentes controlando o estranho tremor de raiva que percorreu o meu corpo, tentando evitar a lembrança da única vez em que dormi com ela em meus braços, mas não tive suas manhãs. Exceto em meus sonhos, em meus sonhos eu a via acordar ao meu lado da cama.
O quão linda ela pareceu naquela única vez que dormimos juntos? Um sorriso incontrolável se esparramou por meus lábios quando me lembrei da sensação quente do corpo nu dela junto ao meu, do jeito e encantador que ela se aconchegou em mim. Em meus sonhos eu não a deixava sozinha na cama, eu apenas a admirava enquanto se espreguiçava e acordava e um lindo sorriso se espalhava pelo seu rosto ao abrir seus olhos e me ver ao seu lado abraçando tão carinhosamente o seu corpo.
Eu não tive seu abraço quando ela acordou, porque eu não estava mais na cama junto a ela.
Mas eu tive, por um milésimo de segundo, um vislumbre do seu sorriso.
Aquele era um sorriso lindo.
E eu tirei aquele sorriso dela.
Meneei a cabeça espantando aquele pensamento, e o jogando para longe. Eu deveria me ater ao presente e não ao passado, por mais que eu odiasse as atuais circunstâncias. Principalmente porque havia uma pergunta irritante em minha mente, uma pergunta que me deixava muito mais transtornado do que eu deveria.
Se ela tinha alguém em sua vida, por que esse alguém não estava com ela agora? Lhe dando apoio? Se aproveitando de todas as malditas noites e manhãs que tinha como direito?
— Mas que inferno! Por que eu me importo? — Soquei a mesa me erguendo enquanto fazia a pergunta a mim mesmo, e me surpreendi em como a minha voz soou cheia de irritação e até mesmo um pouco possessiva.
Eu sabia o nome do que estava sentindo, mas ainda era orgulhoso demais para aceitar.
Ela não era minha para que eu me sentisse assim.
Eu não queria que ela fosse minha.
Mentiroso. Você a quer, não quer?
Não respondi a mim mesmo.
Eu era um covarde.
Peguei a pasta e a fechei, deixando apenas o nome dela escrito ali em letras garrafais zombando de mim, da minha incapacidade de obter qualquer coisa de Felicity. Tinha sido tolo da minha parte acreditar que um simples arquivo me daria todas as respostas sobre Felicity, ela era mais complicada do que isso. No final das contas, eu tinha apenas ganhado novas perguntas.
Eu sabia que o modo como estávamos levando as coisas não era o melhor, era como nadar contra a corrente. Eu dava braçadas fortes e às vezes eu achava que estava chegando a algum lugar, mas então, bastava uma pequena onda para me jogar de volta a praia.
Muito esforço para nenhum resultado.
Eu precisava conversar com ela, realmente conversar. Ganhar a confiança dela e fazê-la se abrir comigo, e mesmo assim nada me garantia de que ela me daria alguma verdade.
Mas eu precisava tentar novamente.
Peguei meu celular olhando para as horas e franzi o cenho coçando o queixo. Felicity já deveria ter voltado do almoço com Thea. Por que ela gostava tanto de me testar?
Antes que eu pudesse ligar e exigir que ela voltasse o celular começou a tocar em minhas mãos.
— Capitão Lance. — atendi, determinado a ser rápido — Eu não esperava seu retorno tão cedo. É sobre a perícia?
— Slade sabe. — ele respondeu de uma única vez, num sussurro tão baixo que deduzi que havia alguém próximo a ele.
— O quê? — senti meu coração parar por um segundo.
— Ele conseguiu informações com um dos meus policiais, eu sinto muito Oliver, eu não imaginei que Malone pudesse ser tão burro assim e abrir o bico. — explicou num tom de desculpas.
— Tudo bem, eu vou apenas lidar com isso. — desliguei sem nem ao menos agradecer a Lance ou me despedir, mas naquele momento eu tinha problemas maiores para lidar. Eu esperava ganhar um pouco mais de tempo, para me organizar antes de ter que lidar com mais esse problema. Mas se Slade já sabia sobre Felicity, ele logo estaria fazendo um movimento e se eu não agisse logo, a cada minuto que passava a probabilidade de Felicity se encrencar ainda mais, ficava maior.
Tentei ligar para ela, mas logo no segundo toque a chamada foi enviada a caixa postal. E assim ocorreu sucessivamente com cada ligação minha. Eu pude até mesmo visualizar o sorriso de satisfação no rosto dela ao recusar a chamada.
Merda.
Ela estava me evitando de propósito, eu precisava encontrá-la antes que Slade fizesse algo. Vesti meu paletó, peguei as chaves do carro e saí em disparada pelo escritório.
— Oliver, eu estava falando com Dig e nós precisamos de uma reunião urgente sobre... — Tommy me parou no corredor. Resisti ao impulso sobre mandar ao inferno qualquer reunião, minha mente estava em outro lugar no momento.
— Não agora, Tommy.
— Mas...
— Não. — neguei mais incisivo sem sequer olhar para o meu amigo, enquanto saía passos apressados pela porta.
— Onde é o incêndio? — o escutei perguntar a Dig que estava ao seu lado.
— Eu aposto que tem uma garota loira envolvida nele. — Dig alfinetou.
— A mesma que o fez beber as duas da tarde? — Tommy sondou, curioso demais — Ela deve ser quente...
Ele estava certo, eu estava indo apagar um incêndio e era pouco provável que eu não me queimasse.
***
♥
Felicity Smoak
Murphy criou uma lei que diz que se algo tiver de dar errado simplesmente dará e ainda será da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. É a ideia de que pãozinho sempre cairá com o lado da manteiga virado para baixo. Eu nunca gostei muito desse tal de Murphy, para mim ele era apenas um pragmático cujas leis nunca tiveram nenhum fundo científico e que comia muito pão.
Mas não é que o filho da mãe tinha razão?
Tudo estava apenas se tornando pior e pior.
— Você colocou uma bala no coração dele duas noites atrás, e acredito que eu mereço algumas respostas. Não acha?
Eu encarava o homem a minha frente, cada músculo do seu rosto tencionado numa carranca assustadora feita de puro ódio. Eu poderia entendê-lo. Ele era o pai cujo filho estava a beira da morte, não importava se seu filho era um verme asqueroso que não valia nada, no fim ele ainda era o filho dele. E ele tinha o direito a sentir raiva da pessoa que havia o colocado em coma em um hospital. Mas havia algo mais nesse homem, um ar ameaçador que ativava meus instintos de autopreservação.
— Me responda! — Rugiu mais agressivo. Dei um passo para trás batendo as costas contra o meu carro, fugindo não apenas da brutalidade das palavras, mas principalmente fugindo daqueles olhos escuros que pareciam tão ameaçadores.
— Você é o Juiz Wilson. — consegui dizer, e algo passou pelos olhos dele nesse momento. Instantaneamente o homem se acalmou, um sorriso desprovido de qualquer emoção surgiu nos olhos dele.
— Está bem informada sobre mim, Senhorita Smoak. — a voz fria flutuou entre nós me causando arrepios — Infelizmente eu não posso dizer o mesmo. Quem é você? Por que saiu de Coast City e voltou para Starling? E por que atirou no meu filho?
Me encolhi contra o metal da lataria do carro, eu não tinha as respostas para aquelas perguntas, então o que eu deveria fazer? Me desculpar talvez?
Oliver passou horas comigo naquela manhã me preparando para ser escrutinada perante a um júri popular, mas não me preparou para lidar com a fúria de um homem que me via como a culpada por quase matar seu filho. Eu não tive muito tempo para pensar, mas a saída óbvia daquela situação pareceu ser correr na direção oposta, entrar no hotel e me trancar dentro do quarto.
Eu nunca disse que tomava as melhores decisões quando estava sobre pressão.
Eu mal tive chance de dar um passo para o lado quando senti o agarre opressor me segurar pelo braço num aperto firme. Engoli em seco, enquanto meu coração disparava ao fitar os olhos escuros novamente se estreitarem para mim, o ligeiro arquear em um lado dos lábios daquele homem como se expressasse satisfação vitoriosa. Ele sabia que eu estava encurralada.
— Que tal conversarmos num lugar mais privado? Onde poderá responder minhas perguntas com mais calma? — disse num tom macio que não escondia que aquela não era realmente uma pergunta. Eu tentei puxar meu braço inutilmente do seu aperto, mas sem sucesso.
— Que tal se você... — Eu não terminei a minha resposta nada educada, porque nesse momento um carro dera uma freada brusca e parara de qualquer jeito na calçada em frente a nós dois. E se não bastasse o susto do carro, a surpresa maior foi ver Oliver saindo dele bufando de raiva e vindo até nós.
— Eu suponho que um juiz tão importante quanto o senhor sabe que esse não é o modo de tratar uma cidadã americana. Eu sugiro que a solte, não vai querer chamar uma atenção indesejada, vai Slade? — Eu achava que Oliver Queen já tinha sido frio e duro comigo? Eu tive sorte. Nem de longe eu tinha sido alvo do seu pior. A forma ofensiva como ele se dirigiu ao Slade, mas com certa classe para esconder o que eu deduzia ser o mais profundo desprezo que tinha por ele.
— Ora se não é Oliver Queen. — Slade sorriu ao dizer o nome.
— Entre no carro, Felicity. — O fitei com surpresa, não apenas por notar como o tom de voz dele havia mudado drasticamente de frio para algo doce e ao mesmo tempo paciente, e milhares de perguntas apareceram em minha mente: como ele me achara? Ou melhor como ele sabia que eu estava em apuros?
— Oliver...?
— Entre no maldito carro. — Repetiu novamente só que mais imperativo dessa vez, e lá se foi a paciência dele comigo! Eu não fiquei e revidei como normalmente faria, apenas olhei para Slade ali e seus olhos negros e pela primeira vez eu me vi ansiosa para obedecer uma ordem de Oliver e corri para o carro.
— Por que será que não é uma surpresa vê-lo aqui? — percebi que Slade tentava soar como se estivesse no controle, tentando ser intimidante — Está sempre se metendo onde não deve, garoto. — Observei pelo retrovisor a forma altiva com que Slade caminhou até Oliver, um sorriso cortês pendendo nos lábios quando ele colocou uma das mãos em seu ombro. — A essa altura eu pensei que já tinha aprendido quais lutas não é capaz de vencer.
Oliver deu um riso sem emoção, sem parecer se intimidar.
Era estranho observar os dois conversando, as palavras pareciam significar mais do que diziam e havia também aquela falsa cordialidade na linguagem corporal de ambos, como se estivessem se contendo quando na verdade queria socar a cara um do outro.
Pela forma como Oliver apertava uma das mãos em punho, eu tinha certeza de que ele não se controlava tão bem quanto gostaria.
— Talvez eu goste de lutar. — o jeito que Oliver disse aquela única frase, determinado e sem dúvidas de que seria capaz de vencer meio que me deixou orgulhosa.
— Gosto do seu jeito, garoto. É limpo, mas ofensivo e incrivelmente esperançoso. Não me entenda mal, há certa honra na persistência, mas um homem que não sabe a hora de parar, que não conhece seu próprio limite está fadado a sempre perder. — Ele deu dois tapinhas sobre o ombro de Oliver e então se afastou dando as costas. — É o seu funeral, já sabe como isso vai terminar. — ele parou no meio do caminho lançando novamente um olhar a Oliver que permanecia parado na calçada o encarando, com as mãos fechadas em punhos não mais disfarçando a chama de ódio em seus olhos. — Mas dessa vez eu não serei compassivo, eu mesmo cavarei sua a cova e me certificarei de que é do tamanho certo. Quanto a sua pequena protegida, eu não acho que precisarei fazer muito algo me diz que a garota provavelmente cavou a própria cova e vai se enterrar sozinha.
***
Eu me sentia culpada.
Desde o momento em que Oliver entrara no veículo batendo a porta e dera partida no carro, ele não dissera nada para mim. Ele apenas seguira encarando a avenida a sua frente, a atenção exageradamente presa no trânsito calmo, uma clara desculpa para evitar me encarar.
Isso era muito pior.
Eu poderia lidar com o Oliver que faria um sermão sobre a confusão que eu quase me metera. Poderia lidar com os avisos que se seguiriam após isso, sobre como era importante eu seguir o que ele me dizia, e principalmente sobre atender o meu maldito celular ao invés de recusar as chamadas dele, e no final, tudo culminaria em uma promessa minha de que levaria essa situação a sério e que cooperaria com o meu advogado que estava apenas tentando me ajudar.
Mas eu não sabia lidar com esse Oliver silencioso e que escondia seus pensamentos apenas para si ao invés de me recriminar, isso não era comum e essa mudança me deixou alerta para algo preocupante.
— Você está reconsiderando? — rompi o silêncio. A pergunta soou alta e a voz mais desestabilizada do que eu gostaria, revelando aquela parte de mim que estava com medo.
— O quê? — Oliver pareceu confuso, mas se controlou para manter os olhos na rua.
— Reconsiderando ser meu advogado, — expliquei num suspiro — eu quero dizer que depois das ameaças de Slade eu não o culparia se resolvesse não me defender... — Oliver desviou o olhar da rua para mim, havia uma emoção indistinta nele, mas não pude encarar de volta e tentar desvendá-la porque nesse momento o meu celular começou a tocar e novamente o semblante dele se fechou.
— Atenda — Oliver ordenou naquele tom de voz vazio, os olhos novamente presos na rua e não mais em mim — Por um momento eu pensei que o tivesse perdido, mas é bom saber que ainda o tem. — A acidez era perceptível — Vamos, Felicity, atenda ao maldito telefone. — resmungou ainda mal humorado — Não vai querer deixar a pessoa na outra linha preocupada com você, pensando o que pode ter acontecido para você não atender ou pior, rejeitar as ligações numa atitude infantil. — alfinetou claramente magoado diante da comprovação que eu deliberadamente tinha rejeitando as ligações dele.
Eu senti meu rosto arder em vergonha, Oliver estava certo, tinha sido infantil recusar as chamadas dele, só porque eu não estava com saco para ele naquela hora.
— Estou com Oliver, eu te ligo depois, Thea. — eu disse de uma só vez, desligando a ligação em seguida e colocando o celular no silencioso.
Thea ficaria puta comigo.
— Deveria ter sido mais educada com Thea. — finalmente uma recriminação direta, eu quase me senti melhor ao escutá-la. O fato dele ainda estar disposto a dar uma de senhor certinho para cima de mim significava que ele ainda seria meu advogado, certo? — Principalmente porque ela ficou preocupada quando eu liguei para ela tentando localizar você e seu celular com propensão a rejeitar as minhas ligações.
— Eu vou me desculpar com ela depois. — murmurei fingindo consertar o cinto e evitando encarar o rosto de Oliver.
— Apenas com ela? — Oliver perguntou de um jeito incisivo, seu olhar vindo para mim e permanecendo ali assim que paramos em um sinal vermelho.
Mordi o lábio inferior, segurando o “me desculpe”, ele estava certo, eu devia isso a ele, mas eu tinha orgulho demais dentro de mim, então apenas sorri desviando o olhar para a janela, vendo pelo reflexo o momento em que ele meneou a cabeça e resmungou um “tão teimosa” para si mesmo.
— Eu pensei que estávamos voltando para o escritório. — comentei ao notar que fazíamos um caminho diferente.
— Para eu passar as próximas horas tentando inutilmente tirar algo de você? — Oliver pareceu diferente ao dizer aquilo, e não tinha certeza se era algo bom. — Não, não vale a pena.
— Você está bravo. — constatei.
— É claro que estou bravo! Você recusou as minhas chamadas e por causa disso Slade Wilson te encurralou. Sabe o quão pior poderia ter sido esse encontro se eu não tivesse chegado naquele momento?
— Você quer dizer que ele teria sido violento? — perguntei, me lembrando do aperto opressor dele em meu braço, quando tentei lhe dar as costas. — Eu devo esperar que ele faça algo se o encontrar novamente? — tentei mascarar aquela pequena pontada de medo.
— Não exatamente. — respondeu num tom mais suave, como se tentasse abrandar o medo em mim — Slade é um juiz no final das contas, ele tem uma imagem a zelar e nunca faria algo que o prejudicasse. Mas ele tem métodos sutis e eficazes de prejudicar você, sem que sequer note. Ele é bom em adulterar provas, em manipular pessoas e situações, ele pode desestabilizar todo um processo, apenas se quiser. E você atirou no filho dele, isso é pessoal, ele está mais do que motivado a estragar tudo da pior maneira possível.
— Então é por isso que você está bravo, ele pode atrapalhar o caso. — Conclui, me sentindo estranha ao perceber que Oliver se preocupava com o caso e não comigo.
— Eu estou bravo com você, porque você parece não notar a seriedade disso! E também porque... — ele parou abruptamente, forçando-se a encarar a avenida a frente — Eu estou bravo com você, mas estou tentando não ficar. — ponderou erguendo os olhos rapidamente para mim — Por mais que você goste de testar a minha paciência.
— Deve ser uma merda que eu tenha o dom de te deixar assim.
— É. — sua confirmação veio enigmática e enfática, como se houvesse algo além daquela simples palavra que eu não conseguia compreender, mas também não tentei extrair nada dele.
Apenas me encostei a janela do carro e olhei para fora observando os prédios passarem e sem saber exatamente para onde Oliver me levava. Mas eu estava cansada de discutir com ele, cansada de guardar as coisas apenas para mim enquanto selecionava o que deveria dizer a ele.
Mentir e esconder coisas era tão exaustivo que ficar calada às vezes era uma benção.
— Onde estamos? — perguntei, ao perceber que Oliver havia parado o carro numa parte da cidade que eu não conhecia.
— Na baía de Starling. — ele disse, e eu apenas fitei boquiaberta a minha frente a extensão azul do oceano fundindo-se ao céu claro daquela tarde, os barcos sofisticados ancorados no cais. — Deixe-me te ajudar.
Eu estava tão distraída que nem notei que Oliver havia descido, dado a volta no carro e agora estava ali, me ajudando a desatar o cinto de segurança e a descer. Segurei um sorriso. Oliver Queen poderia estar bravo comigo, mas isso não o impedia de ser gentil.
— Obrigada. — agradeci ignorando o tremor que percorreu o meu corpo quando a pele dele tocou a minha por milésimos de segundos.
Corpo estúpido, que não consegue controlar a própria reação!
— Eu te apresento a Suíça. — Oliver disse indicando com o braço um dos barcos ancorados a nossa frente.
— Eu pensei que o barco se chamasse Queen’s Gambit — Olhei para ele confusa.
Aquele era o barco da família dele. Eu nunca tinha ido lá, Thea sentia enjoos ao navegar então uma vez que ela não ia jamais houve motivos para eu ser convidada a dar um passeio sem ela, mas me lembrava bem dela ter dito o nome do barco algumas vezes.
— Sim, meu pai o batizou como Queen’s Gambit, mas estou dizendo que para nós dois pode ser um território neutro, um lugar aonde não precisamos discutir ou brigar, ou ficar bravos um com o outro, apenas conversarmos como duas pessoas normais ou ficar em silêncio também, se preferir. — aos poucos a compreensão me atingia. Oliver queria dar um tempo na nossa dinâmica confusa. — Na Suíça não há julgamentos e você não é obrigada a nada.
Segurei meu sorriso, não querendo demonstrar como eu me sentia com aquela súbita mudança na abordagem de Oliver. Nós caminhamos até o barco, Oliver me ajudou a embarcar e quando finalmente estava lá eu não consegui mais segurar meu deslumbramento.
— Pode me chamar de capitã Smoak. — eu disse quando entramos na cabine e imediatamente capturei um chapéu de capitão branco e azul que havia ali, o colocando sobre a minha cabeça. Também não resisti ao impulso de segurar o leme com minhas mãos, me sentindo como o próprio Jack Sparrow em os piratas do caribe. — Vamos navegar? — perguntei sem esconder a minha animação e isso pareceu surpreender Oliver.
— Você gostaria de passear no barco? — olhei para ele me sentindo incomodada com o fato de que Oliver tinha colocado óculos escuros que me impediam de ver os seus olhos.
— Eu gosto da ideia de passear num barco. — expliquei.
— Então nunca andou de barco. — confirmei com a cabeça — Você vai gostar. — ele disse se posicionando e apertando alguns dos botões do painel a minha frente que se iluminou fazendo o barco começar a se movimentar.
— Me diga que sabe o que está fazendo, eu não quero acabar perdida em uma ilha remota e desabitada. — Ganhei um riso genuíno de Oliver ao dizer isso, e senti algo dentro de mim formigar com aquela reação. Eu sabia que não deveria deixar toda essa coisa de Suíça me convencer, mas era difícil quando Oliver parecia tão diferente e solto, me fazia querer dar um tempo também e finalmente voltar a respirar.
— Não se preocupe, você está com um verdadeiro capitão. E isso aqui é meu — ele disse capturando o chapéu da minha cabeça e colocando sobre a própria. Sorri ao perceber o quão bonito e charmoso Oliver Queen ainda era. Eu poderia ter tido minha cota de mágoa e dor relacionada a ele, e talvez aquele ferimento jamais cicatrizasse dentro de mim, mas isso não mudava o fato de que ele mexia com os hormônios de qualquer mulher. — Meu pai me deu quando fiz doze anos, junto com uma lição de pilotagem. — prendi a respiração ao ver que Oliver se colocara atrás de mim, e embora houvesse uma distância segura entre nossos corpos, as mãos grandes dele estavam no leme, junto as minhas enquanto ele conduzia o barco — Desde pequeno eu costumava navegar com meu pai, ele me ensinou tudo o que sei. Ele aprendeu com o meu avô, era uma daquelas coisas passada de pai para filho, e um dia, eu vou fazer o mesmo com os meus — estremeci enquanto ganhávamos mais velocidade e culpei ao vento por isso, mesmo sabendo que não era. — Ele tentou ensinar Thea também, mas minha irmã ficava enjoada só de pisar em um barco.
— Eu sei. — comentei me forçando a sair de dentro dos braços dele e me afastar. Limites. Forcei a palavra em minha mente. — Eu sempre ficava em casa com Thea quando vocês saíam de barco, ela sempre ficava irritada por ser deixada de fora.
— Acho que já nos afastamos bem da praia, vem, vamos dar uma olhada na vista. — Ele não ofereceu a mão, talvez ciente de que não era uma boa ideia essa coisa de toques entre nós dois.
Eu não havia notado que estávamos tão longe da terra. A cidade de Starling parecia pequena e tão distante, me apoiei na grade e apenas observei me sentindo bem mais leve por não estar mais lá. Coisas demais aconteceram naquela cidade, coisas que eu desejava esquecer, mas agora que havia voltado pareciam estar sempre a borda, qualquer mínimo detalhe, uma palavra, um lugar despertando lembranças que deveriam permanecer trancadas a sete chaves. Virei o meu rosto para a direção contrária, fitando o oceano azul e vazio, calmo completamente oposto a cidade que deixamos para trás. Era impossível não sentir uma estranha sensação de liberdade ao estar em alto mar.
Como se aqui, no meio do nada eu pudesse ser quem eu quisesse.
Fazer o que eu quisesse.
Talvez fosse mesmo a Suíça.
— Com que frequência faz isso agora? — perguntei a Oliver, que estava parado a uma distância de um passo largo de mim, também debruçado no balaústre do barco, e embora parecesse observar absorto demais na mesma vista que eu, os malditos óculos escuros me fazia questionar se era isso mesmo que ele encarava com tanta atenção.
— Todas as segundas e terceiras sextas-feiras de cada mês, geralmente no final da tarde. Gosto de navegar ao pôr do sol. — explicou, ficando de lado para o balaústre e de frente para mim. Odiei que meu próprio corpo tenha girado ficando de frente para o dele, sem que eu sequer percebesse. Como se eu tivesse uma resposta automática do meu corpo sempre que o de Oliver se movimentava. — Se eu tenho alguma audiência ou reunião nesse dia então eu adio o passeio para o dia seguinte, mas nunca deixo de vir, é um bom lugar e sempre me ajuda a dar uma nova perspectiva — explicou com um pequeno sorriso — Vê? Eu também tenho meus momentos para tirar uma folga e relaxar, não sou sempre o advogado carrasco que você gosta de irritar.
Sorri, não apenas por causa da resposta bem humorada dele, mas porque Oliver retirou os óculos os pendurando na gola da camisa, e finalmente eu pude encarar os seus olhos tão azuis quanto o oceano abaixo de nós.
— Toda a segunda e terceira sexta do mês? — Oliver assentiu e eu gargalhei enquanto ele me encarava sem compreender onde estava a graça — Oliver ninguém normal programa o tempo em que vai precisar de uma folga para relaxar! Você apenas a toma quando precisa.
— Tem razão. — ele dividiu um sorriso comigo — Mas já é uma evolução para mim.
— Imagino que seja mesmo para os padrões do Dr. Certinho que vive pelo trabalho — provoquei o sentindo chegar mais perto de mim e imediatamente fiquei alerta, me forçando a não relaxar demais na presença dele — Você me trouxe aqui por outra razão não foi? — perguntei a queima roupa, tentando mudar o clima entre nós.
— Sim.
Ele não disse mais nada, além de me dar um sorriso cálido me deixando mais tensa. Onde estava o Oliver direto e sem paciência que sempre tentava arrancar as respostas que tanto queria de mim? Eu não tinha certeza se gostava dessa mudança, principalmente porque eu estava reagindo a esta mudança.
— É para falar sobre o juiz Slade Wilson e como ele prometeu cavar uma cova e jogar a nós dois dentro dela? — Tentei.
— Não.
— Não vamos treinar as perguntas e respostas que devo dar no dia da minha audiência?
— Também não.
— Hum... — estreitei meus olhos para Oliver, tinha que haver uma razão para estarmos aqui ao invés do seu escritório — Então você só pode estar tentando me distrair com essa vista para me fazer responder suas perguntas. — Ele apenas me deu um sorriso de menino, havia algo ali, escondido bem a vista. Eu poderia apenas analisar Oliver um pouco melhor, pressioná-lo um pouco mais e eu descobriria o que ele realmente estava querendo me trazendo aqui, mas de repente eu percebi que não queria conhecer seus motivos.
Me inclinei mais sobre a grade observando a extensão azul de um mar sem fim, a forma como o sol do final da tarde se aproximava da borda do céu, refletindo sua luz e calor nas águas escuras, quase como se fosse tocá-las. Não havia barulho de vozes e trânsito, ou qualquer agitação. Apenas as pequenas ondas batendo no barco, andorinhas voando no horizonte.
Fechei meus olhos por apenas um momento aproveitando a brisa leve, me concentrando nos sons suaves e cheiros, na ausência de problemas, na ausência de tudo. Eu apenas queria permanecer aqui e aproveitar a estranha paz ainda que ela fosse momentânea.
— É bonito, não é? — eu pensei que qualquer som ou algo que me ligasse a realidade pudesse romper aquele momento de paz, mas estranhamente a voz de Oliver parecia combinar perfeitamente.
— É sim. — confirmei — E é longe de tudo, quase me sinto como se...
— Como se nada pudesse te atingir enquanto está aqui? Como se pudesse fechar os olhos e esquecer tudo e todos, e esquecer até mesmo quem você é? — Ele completou e eu o mirei, sendo ciente novamente de quão perto ele estava de mim. Como ele poderia saber exatamente como eu me sentia?
— É.
Eu senti a atmosfera ao nosso redor mudar. A forma como as batidas do meu coração soavam altas e erráticas, ou como de repente toda e qualquer preocupação desapareceu momentaneamente da minha mente quando os olhos de Oliver estavam em mim, quando eu recebi seu sorriso sem acusações.
Era bom.
Mas eu sabia que Murphy estava certo.
Em algum momento tudo daria errado e da pior maneira possível, mas eu estava contente em fingir e até mesmo aproveitar, ainda que por pouco tempo, esse pequeno instante em que tudo parecia certo.
***
♥
Oliver Queen
Eu não conseguia não a olhar.
Era vergonhoso a forma como eu estava sempre indo até ela, querendo tocá-la de alguma forma, como o meu corpo simplesmente parecia consciente e reagia a qualquer movimento dela, ou minha mente tentava ler em seu semblante o que se passava em seus pensamentos. Como agora quando ela respirou profundamente e me encarou, parecendo se esforçar para tomar coragem para algo.
Eu estava contando que essa ideia de Suíça fosse amenizar as coisas entre nós, mas não esperava que eu fosse reagir de modo tão diferente a ela.
— Comece a perguntar, Oliver, aproveite o efeito que essa vista linda tem em mim. — ela disse evitando me encarar, olhando para longe no horizonte.
— Você se afastou dos seus pais por que seu pai está preso? — o rosto dela veio lívido na minha direção, os lábios entreabertos em óbvia surpresa, minha pergunta não era o que ela esperava. E honestamente, não era nem mesmo o que eu esperava. Eu deveria aproveitar a pequena concessão dela e questioná-la sobre o caso, mas eu estava muito mais curioso a respeito de Felicity do que qualquer outra coisa.
E eu tinha tantas perguntas depois de ter lido o arquivo que Diggle me entregara.
E, além disso, eu pateticamente ainda acreditava que conhecê-la, saber o que a fez mudar tanto, era o primeiro passo para entender o que realmente havia acontecido e o porquê de tantas mentiras.
— Como você...? — ela não terminou.
— Um pouco de pesquisa. — dei de ombros como se não fosse nada demais, revelar que eu havia requisitado uma pesquisa completa sobre ela em uma agência do governo não parecia a melhor forma de começar — Não precisa responder se a pergunta te deixar desconfortável.
— Não, a pergunta não me deixa desconfortável. — não tinha sido difícil pegar a mentira, todo o corpo dela enrijeceu e seus olhos desviaram dos meus, os lábios se apertando em uma clara reação de descontentamento. Ela se apoiou na grade e deu um longo suspiro antes de começar a falar, dessa vez olhando para mim. — Eu já tinha discutido com meus pais por outro motivo, nosso relacionamento já estava abalado e logo em seguida meu pai nos informou que havia cometido um grande rombo no banco onde trabalhava e que nós deveríamos deixar Starling antes que todos descobrissem, minha vida estava uma confusão naquele momento e eu não queria fugir com minha família e abrir mão da bolsa que consegui para estudar no M.I.T., eu queria algo estável então me agarrei a única coisa que parecia certa na minha vida. — concordei compreendendo o ponto — Eles foram sem mim enquanto eu fui estudar, e dois meses depois os federais o pegaram. A prisão dele serviu apenas para colocar uma barreira física entre nós, a emocional já estava criada. — explicou fugindo dos meus olhos e passando a encarar água. — E se isso não der certo, provavelmente vai ter mais uma. — franzi o cenho — eu quero dizer, eu usando um macacão laranja atrás das grades da prisão.
— Isso não é engraçado. — resmunguei, não gostando da imagem mental que era Felicity presa.
— Desculpe. — disse rapidamente — mas você costumava rir das minhas piadas. — Sorri, me lembrando daquela época, Felicity ainda adolescente vindo até mim e contando alguma piada idiota.
— Quando você era uma garota engraçada com duas trancinhas querendo a minha atenção. — comentei me sentindo estranho ao pensar no passado — Suas piadas de toc toc eram terríveis.
— Você me enganou! Me fez acreditar que eu era boa nisso... — reclamou, parecendo verdadeiramente ofendida.
— Você era engraçada, suas piadas não.
— Oh, bom saber que você ria de mim, e não do que eu dizia!
— Eu não ria de você, Felicity. — uma das sobrancelhas dela se ergueu em incredulidade então eu tentei me explicar melhor — Apenas havia algo em você, eu não sei explicar o que era, mas esse algo mais era o que sempre me fazia sorrir em resposta a você.
Ela quase sorriu, mas então guardou o seu sorriso, e para a minha completa frustração ela desviou o olhar de mim mais uma vez, encarando o mar. Mesmo aqui, mesmo eu tentando fazer alguma das defesas dela ruírem, ela ainda se segurava.
— Muita coisa mudou desde então, Oliver. — Havia uma tristeza tocante naquelas palavras.
— Não precisava ter mudado. — me adiantei, sentindo que estava pisando em um terreno minado, mas o qual eu não podia simplesmente recuar, eu precisava acionar a mina e rezar para ser capaz de desarmá-la antes da explosão.
— Mas mudou. — ela bateu o pé e virou para mim me encarando de um jeito determinado. — Você pode me trazer ao seu barco sofisticado, pode ser todo gentil quando no fundo eu sei que você sente vontade de me sacudir e me obrigar a fazer as coisas do seu jeito. — as palavras de Felicity saíam calmas e ponderadas de seus lábios, mas eu conseguia notar o fundo de agressividade nelas, ou como aquilo era um ataque direto e deliberado. Mas eu notei também, que todo seu pequeno rompante era apenas mais um mecanismo de defesa, eu estava perto demais e isso a incomodava. — Você pode usar todo o seu charme, mas isso não vai de repente mudar as coisas entre nós, ou me fazer abrir para você e te dar todas as respostas para ganhar meu maldito caso, talvez eu sequer tenha essas respostas. — pisquei, assim que ela terminou o pequeno discurso agressivo, ela ainda não tinha entendido o que eu queria dela.
— Isso não é sobre o caso, é sobre você, Felicity. — expliquei num impulso colocando ambas as minhas mãos ao nos braços dela. Felicity me encarou atônita. — Eu estou tentando entender você, por mim, por nós, porque só assim eu vou poder realmente te ajudar.
Ela piscou em surpresa, enfim entendendo.
— Não faça isso, Oliver. — ela pediu, algo reluziu no fundo dos olhos dela. Medo, talvez? — Não tente me entender, eu não sou como as mulheres que você conhece, você não pode me ajudar sendo gentil e doce, você talvez nem possa me ajudar sendo o advogado carrasco que é. Mas tudo bem para mim. — ela forçou um sorriso que não comprei. — Eu acho que é melhor voltarmos ao plano original, aquele em você me ajuda a não ir para a prisão e apenas isso.
— Eu não acho.
— Oliver... — ela disse meu nome num tom condescendente que me irritou.
— Não. — neguei — Você é como um quebra cabeças com peças faltando. Como eu faço para montar um maldito quebra cabeça sem ter todas as peças? — soltei num suspiro, deixando meus braços caírem ao redor do meu corpo num misto de frustração e rendição. Ela não via o quanto aquilo era difícil para mim? Ter tantas perguntas sobre ela, mas nenhuma resposta? Querer fazer algo por ela, ajudá-la, mas ela não me permitia nem chegar perto? Eu a tinha magoado tanto assim?
— Não monte. — ela falou calmamente e deu um passo à frente me deixando alerta por ser ela a romper a distância entre nós. Felicity era quem se afastava, tê-la vindo em minha direção não era apenas incomum, era perigoso. — Parte da diversão é encaixar as peças erradas, ou até mesmo deixar espaços vazios. Nem tudo precisa ser certo ou errado, preto no branco. Nem toda peça tem seu lugar exato, Oliver. Às vezes uma peça sequer tem um lugar.
Havia uma tristeza quase poética em suas palavras, como se ela fosse a tal peça sem um lugar. Me senti impelido a dizer que não, que ela tinha um lugar. Um lugar que sempre pertenceu a ela, e que durante todo esse tempo, parecia estar a espera dela.
Só que mais uma vez eu não disse nada.
Porque não era assim entre nós.
Nós não falávamos, nunca. Talvez fosse essa a grande barreira entre nós. Nós dois realmente nunca falamos sobre aquela noite, ou sobre o que aconteceu depois, ou sobre como nos sentíamos. Sim, nós brigávamos e discutíamos muito, mas o que tinha importância, as coisas que se escondiam por trás de todas as nossas discussões? Nós apenas as empurrávamos e inutilmente fingíamos que nada estava errado.
E cada vez que fazíamos isso, eu sentia que aquela bola cheia de coisas não ditas entre nós aumentava.
Um dia ela estouraria.
Olhei para Felicity, realmente olhei para ela.
E ela apenas sorriu, aquele maldito sorriso doce, mas que ainda assim havia algo de triste. Por que todos os sorrisos dela eram tristes? Eu queria a resposta, mas ela não me daria, então apenas permiti que seu sorriso me desarmasse mais uma vez, me fazendo esquecer o que estava em minha mente e me concentrando apenas nela.
Tentei conter meu sorriso em resposta ao dela, mas foi impossível, ela trazia algo em mim que eu simplesmente não conseguia evitar, tinha sido sempre assim, eu não conseguia resistir a ela. E então eu percebi que apesar de todas as mentiras que ela me contava, apesar de agora ela ser essa mulher que eu era incapaz de compreender, ou de toda a confusão que ela trazia para minha vida.
Ainda era ela.
Naquele sorriso doce e triste eu ainda via uma peça do quebra cabeça que montava Felicity. A menina mulher que com um único sorriso teve o poder de balançar o meu mundo uma vez, e estava prestes a fazer o mesmo novamente.
E o pior.
Eu queria a confusão dela.
A desordem.
O caos.
Eu queria até mesmo aquela peça singular do quebra-cabeças que parecia não se encaixar em nenhum lugar.
Eu queria tudo.
Com ela.
Eu dei mais um passo decidido, rompendo a distância já pequena, mal lhe dando tempo para reagir, ela prendeu a respiração, mas não recuou. Pareceu uma eternidade o tempo em que gastei a observando, notando os resquícios da luz dourada do sol que a essa hora beijava o mar refletindo em seu cabelo claro, ou como a brisa não tão suave o jogava para o lado fazendo-o balançar e bater suavemente em seu rosto. Ergui uma das mãos, colocando-a suavemente em seu rosto o acariciando delicadamente, senti uma das mãos dela se apoiar em meu peito. Bastou um toque e eu me senti inundando por ela.
Um toque e eu já nem me lembrava do porquê deveria estar bravo com ela, ou porque o que estava prestes a fazer não resolveria nada, apenas tornaria tudo mais confuso.
Meu coração bateu mais rápido, sabendo que o que aconteceria a seguir seria inevitável.
Eu olhei nos olhos dela, que eram sempre tão cautelosos, tão teimosos em esconder segredos de mim.
E eu vi.
Não seus segredos.
Eu vi, nos olhos dela tudo o que eu sempre quis. Meu coração falhou uma batida, e então cobri os lábios dela com os meus, movimentando-os lentamente, nossas bocas unidas. Um suspiro de satisfação deixou seus lábios, assim que coloquei uma das mãos ao redor da cintura dela, puxando o seu corpo para o meu, apertando cada parte dela em mim. Sentindo o quanto parecíamos nos encaixar perfeitamente. Nossas línguas se provavam agora com certa sofreguidão e desespero, como se tivessem esperado tempo demais para se reencontrarem, e agora quisessem simplesmente tomar tudo uma da outra enquanto ainda havia chance. Eu estava surpreso, tempo ao final, não havia apagado aquela conexão entre nós, não havia modificado o quanto eu queria e precisava dela.
Há cinco anos eu tomei uma decisão por nós, eu decidi que não era certo existir nós naquela época. E para minha frustração, tão pouco era certo agora.
Me lembrei do nome no arquivo dela. O homem com quem ela morava.
Suavizei o beijo calmamente.
Eu não sei o tempo que demorei naquele beijo, mas sei que apenas quando meus lábios relutantemente deixaram os dela, quando tudo o que havia era resquícios de seu gosto doce, foi quando meu coração voltou a bater novamente, e de uma maneira completamente nova. Eu senti tantas coisas naquele curto espaço de tempo em que a tive em meus braços, que para mim, o nosso beijo deve ter durado uma eternidade.
Talvez o infinito coubesse dentro de uma batida de coração.
Segurei meu sorriso fitando o rosto de Felicity. Seus olhos não escondiam as emoções que ela sentia e isso me fez me sentir ainda pior. Ela também quisera aquele beijo, mas por mais delicioso que tenha sido, beijá-la ainda era um erro.
— É hora de voltar. — murmurei sem olhar para ela, mas Felicity pareceu compreender e se afastou.
Era hora de deixar a Suíça.
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