Guilty Pleasure
6 Capítulo 5 - Down
Notas iniciais
I'm not ready to let go
Cause then I'd never know
What I could be missing.
But I'm missing way too much
So when do I give up
What I've been wishing for?
I shot for the sky
I'm stuck on the ground
So why do I try?
I know I'm gonna fall down
I thought I could fly
So why did I drown?
I'll never know why
It’s coming down, down, down
(Down — Jason Walker)
♥
Felicity Smoak
Eu olhava para o teto.
Não havia nada interessante no teto daquele quarto de hotel barato, nem mesmo uma maldita aranha para me distrair, por isso me limitei a seguir a linha de algumas pequenas rachaduras até que chegassem a parede e encontrassem a janela. Depois notei que a lâmpada começava a diminuir a intensidade e resolvi contar de quanto eu quanto tempo isso acontecia. Pensei no que faria depois... Me deitar na banheira do banheiro e contar quantas gotas pingavam do chuveiro a cada minuto?
Sim, eu estava tentando me distrair com qualquer coisa para não ter que lidar com meus problemas.
Venha para o escritório.
Bufei ao olhar novamente para a mensagem no meu celular contendo a vontade de jogá-lo contra a parede. Nenhum “bom dia, dormiu bem, Felicity?” ou “precisamos conversar sobre aquele beijo”. Tudo o que Oliver Queen havia se dignado a fazer tinha sido me dar uma ordem, como se eu fosse uma adolescente desobediente, como se nada tivesse acontecido no dia de ontem. A quem eu queria enganar? Para Oliver nada tinha acontecido no dia de ontem, para ele era fácil simplesmente jogar aquela lembrança para o fundo da mente, e seguir em frente com sua vida perfeita. Girei na cama fitando o relógio sobre o criado mudo que marcava nove da manhã. Eu ainda não estava atrasada o suficiente para deixá-lo irritado, então eu me dei mais alguns minutos encarando o teto e evitando pensar na pressão dos lábios dele sobre os meus. Se ele podia fingir que nada aconteceu, eu também poderia.
Mas eu não era boa como Oliver em restringir meus sentimentos.
Aonde você está?
A segunda mensagem piscou na tela do meu celular me fazendo sufocar um grito de frustração contra o travesseiro. Eu estava tentando não pensar nele, eu precisava de apenas alguns minutos de paz, onde eu fingiria que Oliver não existia. Por que ele não me ajudava? Já não bastava todas as lembranças e sentimentos que eu enterrei dentro de mim, e que simplesmente afloraram ainda mais fortes depois daquele beijo? O que mais aquele bastardo queria de mim? Já era vergonhoso demais admitir que mesmo depois de cinco anos ele ainda tinha o poder de me render com apenas um beijo. Seria pedir demais um momento livre de Oliver Queen? Um momento para eu tentar voltar a ser a Felicity que me esforcei para ser, e não aquela menina ingênua? Eu queria evitar ao máximo aquele encontro, na verdade eu precisava evitá-lo, porque eu não sabia o que fazer ou como agir perto dele depois de ontem.
No dia anterior Oliver me levara para passear no barco dele, ele foi gentil, foi terno, ele foi tudo o que a adolescente dentro de mim sempre sonhou que ele fosse.
E então, para deixar tudo mais perfeito, ele me beijou me trazendo de volta a vida outra vez. Seu beijo me despertou, seu beijo trouxe luz para a escuridão e calor para a frieza que há muito havia tomado conta de mim.
Seu beijo me fez sentir outra vez.
Me fez sentir tudo.
Tudo o que eu não queria mais sentir.
Levei as mãos para os lábios, tocando-os de leve.
Se eu fechasse meus olhos eu poderia reviver aquele momento. Eu dei o primeiro passo, eu estava me sentindo vulnerável por causa da confusão em que me meti, eu queria encontrar algum conforto, eu abaixei a guarda. Fui eu quem se aproximou ainda que um pouco hesitante, ainda que temerosa e ao mesmo tempo desafiante, mas a decisão de me beijar tinha sido dele. Ele rompera a distância. Ele colara seus lábios sobre os meus. Ele tomara tudo de mim.
Mais uma vez.
Como um beijo pode me abalar tanto?
Por que era assim apenas com ele? Por que apenas Oliver Queen tinha o poder de me desfazer, de me fazer deleitar em felicidade em um segundo e no outro me jogar dentro de um poço de confusão com um simples beijo?
Eu poderia mentir para todos na minha vida, mas eu precisava ser sempre honesta comigo mesma. Oliver ainda mexia comigo, para o bem e para o mal, eu não conseguiria me livrar de todas as coisas que ele me fazia sentir.
E beijá-lo tinha provado isso.
Quando os lábios dele se afastaram dos meus, tudo o que eu queria fazer era me inclinar mais para ele, segurar seu corpo junto ao meu e voltar a beijá-lo e nunca mais parar. Mas eu precisei apenas olhar uma vez em seus olhos e ver o mesmo olhar que havia ali cinco anos atrás. O olhar de quem é culpado, de quem cometeu um erro e se arrependia.
O clima ficou pesado depois que deixamos o barco, talvez porque houvesse mundos de sentimentos reprimidos entre nós, ou porque nenhum dos dois queria falar sobre isso. Como se houvesse algum acordo silencioso entre nós, que aquele beijo devesse ser deixado na Suíça.
Eu tentei.
Eu tentei esquecer.
Eu vi o quanto Oliver pareceu distante e pensativo enquanto fazíamos o caminho de volta. Eu vi o que me beijar fazia com ele, então achei melhor reprimir meus sentimentos, eu não iria mostrar algum se Oliver estava tão disposto a provar que pelo menos os dele não existiam.
Mas mentir, fingir e reprimir coisas estava se tornando cada vez mais difícil, e eu temia que eu algum momento eu explodisse, jogando para fora tudo aquilo que eu guardava apenas para mim.
Não seria nada bonito.
Meu celular vibrou em minhas mãos, e eu suspirei já sabendo que seria Oliver reclamando do meu atraso mais uma vez, desbloqueei a tela e quase o deixei cair quando li a nova mensagem.
Se não chegar em cinco minutos eu irei te buscar.
Eu ouvi a voz dele ecoar dentro da minha cabeça reproduzir com perfeição as palavras da mensagem em um tom autoritário e exigente. Me ergui da cama em um pulo diante daquela perspectiva, eu não queria ver Oliver, mas se eu iria vê-lo, pelo menos queria estar no controle de mim mesma, e fazer isso nos meus termos. Eu não poderia tê-lo aqui quando tudo o que havia em mim era confusão.
Era hora de reprimir sentimentos e voltar a mentir mais um pouco.
***
— Por que demorou tanto? — Oliver não ergueu a cabeça para mim quando eu entrei na sala. Manteve-se concentrado em alguns documentos que estavam sobre a mesa, ele podia fingir o quanto quisesse que estava ocupado, mas eu sabia que a verdade era que ele estava me evitando. Eu não sabia se era por causa do beijo ou o meu atraso intencional, mas eu não importava com a razão o importante era que ele estava irritado comigo. Bom. Seria mais fácil lidar com ele assim.
Me joguei com um jeito displicente no sofá que havia ali, porque era o ponto mais longe possível de Oliver, suspirei aborrecida ao olhar para ele e ainda ver a sua tentativa óbvia de me ignorar. Até quando ficaríamos nesse joguinho?
— Eu não queria te ver. — Oliver travou, seus dedos soltando os papeis que caíram sobre a mesa, seu rosto encarando o meu ficando tão branco quanto o papel que a poucos segundos tinha nas mãos. Provavelmente surpreso com a honestidade brutal de minhas palavras, eu fiquei feliz por algo finalmente abalar todo aquele aparente controle. Eu já estava cansada disso, de segurar meus sentimentos, de analisar cada frase antes de dizê-la temendo a interpretação de Oliver. Inferno, ele havia me beijado e depois me afastado e agido como se nada tivesse acontecido. Eu tinha toda a porra do direito de ficar puta com ele.
Oliver se ergueu, alisando a gravata e andando a passos lentos e controlados até mim, todo o seu corpo grande e másculo parando a minha frente.
— Isso aqui não é sobre o que você quer, é sobre o que você precisa.
Seu jeito incisivo, o semblante controlado e o olhar penetrante, me dizendo que Oliver não era alguém a quem desobedecer. Mas aquela atitude inabalável não me convencia mais, eu sabia que havia uma pessoa por trás dela, eu sabia que Oliver era humano e não um robô e assim como todos nós, era capaz de perder o controle as vezes. Ele já o fizera comigo.
Eu sei que era hipocrisia da minha parte, mas eu queria honestidade vinda dele e não aquele distanciamento e falta de sentimentos.
Se ele mostrasse que era humano também, como ele havia me mostrado no barco, talvez fosse mais fácil lidar com ele e não me sentir tão incomodada diante desta versão de Oliver.
— Em outras palavras, vamos fingir que nada aconteceu e voltar ao habitual onde Oliver me massacra e eu tento não me importar, dizendo a mim mesma que ele está apenas fazendo o seu trabalho. — eu comentei sarcasticamente, sem pensar muito no que dizia até que algo me atingiu. Eu tinha sido tão burra, como depois de tantos anos eu continuava a ser burra assim? Ele estava fazendo o seu trabalho. — Me levar ao barco e me beijar foi parte do trabalho também? Você estava querendo me deixar vulnerável e talvez arrancar algumas respostas? — acusei me erguendo do sofá e ficando perigosamente perto dele. Eu tinha sido usada, como não notei isso antes?
— Felicity... — Havia um brilho diferente nos olhos dele. Eu via a ofensa estampada no seu rosto, algo quebrou em seu olhar como se ele não acreditasse no que via em mim. — Eu...
— Não. — O interrompi erguendo a mão e colocando aquela barreira entre nós antes que tivesse que lidar com suas desculpas. — Você tem toda razão, você é meu advogado e está apenas fazendo o seu trabalho.
Dei um sorriso polido e me afastei, andando um pouco pela sala de Oliver, senti seu olhar me seguindo e tentei ignorá-lo fingindo apreciar a decoração. Parei em frente a mesa dele, me apoiando no encosto da poltrona que ele usava diariamente, ignorei o fato de que até mesmo ali eu sentia o cheiro de Oliver, e me concentrei em me manter atrás da poltrona como se a usasse como um escudo entre nós dois.
— Sim, eu sou seu advogado e tudo o que quero é te ajudar.
Como eu esperava, eu precisava parar de tentar ver algo mais nas ações de Oliver, no final ele apenas estava tentando fazer o seu trabalho. Segurei o suspiro de resignação, coloquei um sorriso no rosto e me forcei a olhar para ele, tentando parecer o mais controlada que conseguia.
— Então Dr. Queen, por que me queria em sua sala tão cedo?
— Felicity... — Não, não e não! Por que ele precisava dizer meu nome nesse tom tão carregado de sentimentos? Por que me olhar como se tivesse tanto a dizer? Ele não percebia o que isso fazia comigo? — Eu não estava tentando te deixar vulnerável e me aproveitar de você... Eu realmente... — senti meu corpo se arrepiar, meu coração bater descompassado ansioso por ouvir a sua explicação, esperançoso de que pudesse haver algo ali.
Não!
Eu não vou ser tola novamente.
— Não importa. — Meu lado racional venceu, e eu o cortei com um sorriso forçado.
Eu era a rainha da incoerência, eu queria que Oliver mostrasse que realmente tinha sentimentos, que não era o senhor perfeição, mas quando ele começava a se mostrar demais, isso me apavorava porque eu sabia que não conseguiria lidar com essa parte dele sem me deixar envolver.
— Nada disso importa, vamos apenas focar em você impedindo que eu seja presa. — pedi, minhas mãos apertando com força o encosto da cadeira.
Oliver andou até mim, seus olhos me fitando como se compreendessem o que nem mesmo eu era capaz de compreender. Sua postura estava menos que perfeita, tinha até mesmo um ar derrotado, como se soubesse que conversar comigo era um caso perdido.
Ele apoiou as mãos espalmadas do outro lado da mesa e olhou diretamente para mim, eu sabia que mais uma vez ele tentava me ler, encontrar a verdade que eu estava tão empenhada em esconder.
— O resultado da sua perícia saiu e nós precisamos ter uma conversa séria sobre isso... Eu imagino que já saiba o porquê. — Mordi o lábio inferior, eu sabia que não demoraria para alguma merda aparecer. Por mais ensaiada que a minha história fosse, tinha sido tudo muito corrido eu não tinha tido muito tempo antes de fugir daquela festa, então não seria surpresa se algo contradissesse a minha história. — Sente-se. — Oliver ordenou, ele mesmo fazendo isso e puxando para si os papeis que ele observava mais cedo quando eu cheguei.
Me sentei na cadeira, ciente de que aquela era a cadeira que Oliver se sentava todos os dias, que estava impregnada com o cheiro e o toque dele. A cadeira de onde ele costumava julgar tudo e todos, olhei para Oliver que me olhava de volta, esperando que eu dissesse algo.
— Você tem mais perguntas. — ele assentiu.
— Eu tenho muitas perguntas e não quero mais mentiras. Mas eu também sei que você não vai me dar a verdade. — Ele deu de ombros, sabendo que aquela era uma discussão perdida. — Eu acho que chegamos a um impasse, porque eu não sei mais o que estamos fazendo, ou se vamos chegar em algum lugar desse jeito. Eu entendo, você não confia em mim e talvez eu precise ganhar a sua confiança para ter direito as respostas, mas infelizmente você vai ser acusada de um crime em questões de dias, e a justiça não pode esperar até que eu ganhe sua confiança para te dar uma defesa mais plausível. — Havia um toque de mágoa escondido por trás de todo o profissionalismo de Oliver — Então eu preciso que me diga o que vai querer fazer, Felicity, porque no momento eu estou com minhas mãos atadas.
Tentei esconder meu nervosismo, desde o começo eu fingi que sabia onde estava me metendo e que poderia lidar com a ideia de ser presa, porém eu me via cada vez mais perdida dentro daquele labirinto de mentiras, eu não queria ficar lá e sair dele parecia cada vez mais impossível.
A não ser que eu começasse a contar a verdade.
Não.
Eu não podia, eu precisava manter a minha história.
— Eu posso escutar seu cérebro pensando, você está dividida entre me contar a verdade, ou pensando qual mentira seria mais fácil de me fazer engolir. — perdi a concentração por um momento, como Oliver fazia isso? O encarei, sua postura estava um pouco mais displicente, o corpo jogado na poltrona e um maldito sorriso pretencioso pendia naqueles lábios perfeitos e macios que beijavam tão bem.
Merda.
Tenha o mínimo de foco, Felicity! Essa não é a hora de encarar a boca dele como se você quisesse que ela estivesse colada na sua!
— Ótimo, você lê mentes agora? — Eu estava me irritando com ele novamente, em grande parte porque eu não conseguia parar de pensar nele, por isso era mais fácil atacar Oliver do que lidar com a controvérsia de sentimentos que ele me fazia sentir. — Leia a minha nesse momento! — Sorri, pensando em “vá para o inferno, Oliver Queen seu advogado prepotente com lábios malditamente beijáveis”.
Para minha surpresa, Oliver deu um pequeno sorriso de volta e meneou a cabeça.
— Você não devia pensar isso do seu advogado. — Ele repreendeu num tom leve e eu pisquei surpresa, momentaneamente achando que ele realmente o tinha feito. Eu sabia que Oliver não estava realmente lendo a minha mente, mas ele estava certo. Eu não deveria ficar pensando nele, principalmente no quanto os lábios dele eram beijáveis. — Que tal se eu facilitar para você? Eu te farei algumas perguntas de acordo com as inconsistências da perícia e você me responde da melhor forma possível? Assim poderemos trabalhar nas suas mentiras. — propôs parecendo conciliatório, embora eu tenha visto o lábio torcer em desagrado quando ele disse a palavra mentira.
— Vai dar uma de advogado carrasco para cima de mim de novo? — eu me lembrava bem de como tinha sido da outra vez, Oliver era implacável, ele tendia a dissecar tudo o que eu dizia. Eu precisei tomar aspirinas com a dor de cabeça que tive depois de tantas perguntas.
— É claro.
— Ok. Pode mandar. — suspirei, me ajeitando de um modo mais confortável na poltrona dele.
— Você disse que agiu em legítima defesa, que Joe Wilson apontou uma arma para você, e quando você tentou fugir ele a puxou pela blusa jogando-a no chão, você só conseguiu se livrar dele ao pegar a arma e atirar. — eu assenti ligeiramente entediada com toda a historinha que eu havia inventado, mas Oliver rangeu os dentes e se ergueu da poltrona, ambas as mãos se apoiando com força sobre a mesa, seu corpo grande se projetando mais para frente invadindo meu espaço pessoal, seu rosto parecendo mais frio e intimidante — Se agiu em legítima defesa, por que as suas digitais são as únicas na arma? Talvez a arma fosse sua, talvez Joe nunca tenha te ameaçado com ela... — Eu pude sentir o sangue fugindo do meu rosto a medida que Oliver continuava. — ... Talvez você tenha ido a tal festa apenas para matá-lo...
— Não! Eu sequer o conhecia, talvez ele estivesse usando luvas ou um lenço...? — Oliver fechou os olhos e se afastou de mim, murmurando um xingamento. Pelo jeito que as mãos dele se fecharam fortemente em punho, as veias em suas mãos e braços se estufando, eu sabia que tinha dado a resposta errada.
Ele tomou uma respiração funda, se controlando antes de olhar para mim novamente.
— Você nunca mais vai responder uma pergunta direta com esse tom de indagação e incerteza, você precisa ter certeza do que está dizendo ou então ninguém mais irá acreditar em você, não deixe que as perguntas te desestruturem, tente manter sempre a calma. — ele aconselhou, o tom mais compreensivo e tão diferente do Oliver carrasco de tribunal.
— Certo, eu não vou errar novamente. — Fiz uma anotação mental e continuei confiante — Ele estava usando luvas.
— Errado, ele não usava luvas, Felicity. — Oliver falou pausadamente ostentando um ar confiante que me irritou mais ainda — Isso consta no relatório da polícia, é um fato que nenhuma mentira pode alterar, e se tentar fazê-lo só vai contestar a credibilidade da sua história. Viu só como é fácil pegá-la em alguma mentira?
— Espere um pouco, você me enganou! — devolvi ultrajada, eu havia repassado todo o meu depoimento mentalmente e analisando com a pergunta feita por Oliver, notei que havia algo ali — Eu nunca disse que ele havia apontado a arma para mim! Eu disse que ele tinha uma arma e que eu a peguei quando ele caiu em cima de mim!
— Melhor. — Não chegou a ser um elogio — Mas essa deveria ser a sua primeira resposta ao invés de pensar em uma segunda mentira, num tribunal com o júri observando cada movimento seu, analisando cada resposta e um promotor disposto a arrancar uma condenação a qualquer custo, você não terá uma segunda chance. — esclareceu com seriedade.
— Eu ficarei mais atenta. — garanti e ele apenas assentiu.
— Agora pode me explicar por que sua roupa tem tão poucos resquícios de pólvora?
Abri a boca e a fechei em seguida forçando o meu cérebro a trabalhar mais rápido do que o de Oliver, se eu continuasse a travar em perguntas como essa eu não duraria muito num tribunal.
— Eu usava um casaco, eu o tirei e joguei no meio da estrada quando vinha para a sua casa. — respondi e Oliver me encarou como se eu fosse louca.
— Então você simplesmente se livrou das evidências? — dei de ombros, minha resposta provocando uma carranca de desagrado em Oliver — Isso não vai dar certo. — Oliver levou uma de suas mãos aos cabelos num movimento puxando alguns fios — Sua habilidade de mentir está ficando pior. — Me senti ofendida, aquela nem era uma mentira! Pelo menos não uma mentira completa... — Eu não vou conseguir desse jeito, se eu ao menos soubesse o que aconteceu de verdade eu poderia... — Oliver me deu as costas e continuou a resmungar consigo mesmo. Sua atitude fez o sangue ferver mais rápido dentro das minhas veias puxando o inferno para fora de mim. Ele estava sempre querendo essa maldita verdade. Por que Oliver se importava tanto com ela? Por que estava tão disposto a fazer tudo por ela?
— Você disse que queria saber o que eu queria fazer, e bem, é isso! É pegar ou largar, essas são as minhas respostas para as suas perguntas idiotas, e são elas que eu irei dar a qualquer outra pessoa que me pergunte. — Me ergui da poltrona e Oliver virou-se para mim me encarando de volta, alarmado com meu rompante inesperado. Eu estava sentindo toda a pressão daquele dia que mal havia começado se acumular, eu estava sentindo as coisas que eu segurava dentro de mim chegando mais uma vez até a superfície, eu apenas precisava colocá-las para fora antes que fosse sufocada. — Me desculpe se não é a melhor defesa para você, ou se ou fico nervosa e caio em uma pegadinha tola, ou ainda se eu não estou conseguindo mentir direito! — esbravejei jogando as mãos para o alto — Talvez você deva me beijar de novo ou me levar para dar uma volta no seu barco chique, tentar me amaciar para conseguir a sua tão preciosa verdade! Não é assim que você age para conseguir o que quer, Oliver? Brincando com o coração da garota que um dia você chutou, achando que talvez assim ela caía na sua lábia outra vez.
Um silêncio mordaz se instaurou entre nós quando eu percebi que havia ido longe demais, só havia o som da minha respiração ofegante cortando o ar e do meu coração acelerado. Eu sabia que apesar de fingir que não estava abalada com o beijo, eu tinha revelado a Oliver muito mais do que deveria, porém eu me sentia muito melhor depois de tirar isso do meu peito.
— Você está chateada com o beijo. — Oliver quebrou o silêncio com palavras calmas, contrastando com meu rompante. Nós poderíamos ser mais diferentes?
— É claro que estou! — Revelei.
Como eu não estaria? Ele me beijara e agora a cada pensamento meu se concentrava nisso, e quando eu estava perto de Oliver isso apenas piorava porque mesmo não devendo, mesmo indo contra todo o meu orgulho eu queria beijá-lo outra vez.
Eu ainda era uma idiota.
Eu ainda me permitia ser atingida por cada pequeno ato dele, cinco anos deveriam ter me tornado imune a ele ou pelo menos mais esperta, mas não, aqui estava eu ainda querendo ter mais do que eu poderia. E para me coroar com o título de rainha das idiotas, Oliver Queen nem se importara com aquele beijo. Eu via toda a história se repetindo outra vez.
Os passos de Oliver o trouxeram para mais perto de mim. Ele caminhava lentamente e havia certa hesitação nele, como se não soubesse exatamente como agir ao meu redor. Quando ele estava parado a minha frente, seus olhos, que um dia eu achei tão doces e gentis se prenderam nos meus, eu via algo mais ali, mas me esforcei para ignorar.
Eu não daria esse poder a ele novamente.
Oliver abriu a boca, eu sabia que sairia alguma desculpa dali. Eu não as queria, um me desculpe apenas colocaria um Band-Aid sobre a ferida, e acalmaria qualquer culpa que Oliver pudesse sentir, mas para mim não mudaria nada, a minha ferida ainda permaneceria ali.
Sempre permaneceria ali.
— Com licença, Dr. Queen? — uma jovem loira abriu a porta de repente, o rosto com sardas e olhos azuis me eram ligeiramente familiar — Desculpe interromper, mas sua secretária não veio hoje, e meu pai está aqui a sua espera, ele disse que é urgente.
— Peça a ele um minuto, Sara, isso aqui também é urgente.
Revirei os olhos ao escutar a resposta de Oliver e me sentei novamente, não havia nada de urgente entre nós. Concentrei no rosto da garota que fechava a porta. Sara. A irmã de Laurel. Costumávamos dividir algumas aulas na escola e éramos boas amigas, eu gostava de conversar com ela porque Sara sempre me contava sobre as brigas de Oliver e Laurel, ou como ela achava o relacionamento dos dois tão frio. Eu gostava de ouvir as histórias, porque assim eu poderia fantasiar e me iludir com o dia em que Oliver Queen finalmente estaria livre para mim.
Eu era uma adolescente muito tola.
— Felicity... — sua voz me chamou, minha mente apagou qualquer pensamento tolo se concentrando unicamente no som da voz dele chamando meu nome.
Eu não havia notado que Oliver se sentara novamente na cadeira a minha frente, as mãos sobre a mesa, apertando uma as outras, os olhos parecendo ansiosos. Eu não achava que isso era possível, não diante de toda a postura inabalável que Oliver sempre ostentava, mas ele estava nervoso. Isso ficou ainda mais claro quando ele limpou a garganta antes de falar comigo e embora a voz fosse controlada, eu notava alguns nuances onde ela parecia quebrar.
— Sim?
— Ontem quando eu a levei ao barco eu não estava a manipulando ou tentando deixá-la vulnerável, eu fui honesto quando eu disse que ali era como a Suíça para nós, mas eu não estava tentando ganhar nada com isso, eu só queria um lugar onde você pudesse tirar alguns minutos e respirar, um lugar onde se sentisse bem, o barco me faz sentir assim, eu apenas pensei que com tudo o que está acontecendo na sua vida seria bom dividir esse lugar com você. — A resposta simplória mexeu comigo mais do que eu gostava de admitir — Eu acho que nós dois estamos sempre com a guarda levantada um com o outro, como agora. E isso não é bom, não para o caso e definitivamente não para nós dois. Eu sei que posso ser incisivo por querer tanto a verdade de você, mas isso é porque eu quero a sua confiança e eu não sei como ganhá-la. Mas sendo honesto, eu não me importo com a verdade em si, eu me importo com você, com o que tantas mentiras podem causar a você. — Prendi o ar assimilando suas palavras. Oliver se importava comigo? — E sobre o beijo eu lamento, eu me responsabilizo por isso, foi minha culpa, eu não deveria ter te beijado conhecendo o nosso histórico, — ele me deu um pequeno sorriso envergonhado — mas eu apenas vi, escondida atrás de tantas mentiras e um muro de ressentimentos, a garota que você costumava ser, e mais uma vez eu não consegui me conter, eu apenas precisava beijá-la, eu precisava trazer essa garota de volta para mim. — De volta para ele? Como se Oliver em algum momento a tivesse perdido e ainda a quisesse de volta? — Eu sinto muito se ultrapassei esse limite.
Fitei seus olhos tão azuis quanto o mar, seus sentimentos ondulando na superfície daquele azul como ondas grandes e poderosas. Eu queria chegar até elas, mas eu também sabia que embora fossem magníficas, as ondas eram traiçoeiras. Um passo em direção a elas e eu me afogaria naquele mar de ilusões mais uma vez.
Oliver se ergueu da poltrona ao perceber que eu não iria lhe dizer nada, e caminhou para a porta, fechando-a atrás de si.
O que acabou de acontecer?
Oliver Queen dissera que não conseguiu se conter? E que precisava me beijar? Por que ele queria me trazer de volta para ele?
Ele disse que não se importava com as mentiras, mas sim comigo.
O que isso significava?
E principalmente onde isso nos colocava?
***
Eu fiquei alguns segundos ainda sem respirar, apenas encarando a porta, esperando que Oliver voltasse, esperando que ele me explicasse tudo o que estava pensando e sentindo. Mas ao mesmo tempo, eu estava contente por ter aquela porta entre nós, eu precisava do meu tempo.
Nunca tinha sido fácil entre mim e Oliver, e não apenas porque eu tinha passado boa parte da minha adolescência apaixonada por ele, e permiti encher meu coração de esperanças quando dormimos juntos naquela primeira vez. Havia muito mais entre nós, mágoas, segredos, e sentimentos mal resolvidos. Mas quando ele falava do modo como falara a pouco, quando parecia realmente se importar, eu via a menina dentro de mim amolecer, eu me via desejando abaixar a guarda e entregar a ele a verdade — todas elas — por piores que elas fossem.
Eu joguei meu corpo mais para trás naquela poltrona e fechei os meus olhos analisando cada possível reação de Oliver quando eu lhe contasse tudo. Nenhum dos cenários era bom, e me faziam questionar se ele ainda seria meu advogado depois disso.
Eu achava que não.
Mas eu realmente não conhecia Oliver, como eu poderia prever as suas reações? Me inclinei para frente apoiando meus braços sobre a mesa e analisando o lugar, esperando que algo na sala dele me revelasse mais sobre esse Oliver, me desse pistas de quem ele era para que eu pudesse decidir até que ponto eu poderia confiar nele.
Comecei a olhar a mesa, não havia nada muito pessoal ali, uma foto dele com Thea e os pais que eu sabia ter sido tirada no aniversário dela de dezesseis anos e isso me despertou algumas lembranças tensas, então movi meus olhos para a outra. Ela era mais antiga com Oliver ainda menino com o pai no Queen’s Gambit. Essa última me fez sorrir ao mesmo tempo em que senti uma ardência conhecida nos meus olhos, eu pisquei várias vezes afastando as pequenas lágrimas. Oliver estava com suas mãos no leme e usava o quepe de marinheiro que eu encontrara no barco, enquanto seu pai estava posicionado atrás dele, suas mãos sobre as do filho o ensinando a velejar. Abaixei o porta-retratos evitando o que ela me fazia sentir e me concentrei na outra que estava ali.
Ela estava vazia, e seu vazio me revelava muito mais de Oliver do que os outros porta-retratos. Por que alguém manteria uma moldura vazia? Era quase como se ele esperasse por alguém que pudesse preenchê-la.
Me perguntei se algum dia a foto de Laurel esteve ali, eles namoraram por tantos anos, quase se casaram, talvez aquele lugar tivesse pertencido a ela, talvez Oliver ainda a quisesse. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu estava errada.
Aquele porta-retratos vazio parecia refletir muito mais do que uma simples ausência de foto, mas um vazio na própria vida de Oliver, como se ele buscasse por algo que ainda não encontrara.
Ou algo que perdera.
Meus dedos tocaram com suavidade o frio metal da moldura, enquanto meus olhos se fixavam no espaço em branco onde deveria haver uma foto, entendendo bem aquele sentimento de vazio. Oliver e eu não éramos tão diferentes, ele perdera os pais e só restara Thea, os meus ainda estavam vivos, mas meu pai estava preso e eu nunca o visitei. E depois daquela briga horrível com a minha mãe, eu simplesmente me afastei. Eu me senti mais próxima de Oliver olhando para um porta-retratos vazio do que estando com ele na mesma sala.
Eu deveria contar.
Não era certo continuar a mentir e a esconder coisas.
Soltei o porta-retratos e respirei fundo acumulando a coragem necessária para quando Oliver voltasse eu contar tudo a ele. Meus pés balançavam em baixo da mesa e minhas mãos estavam impacientes e eu não conseguia mantê-las quietas enquanto esperava, eu estava nervosa e precisa focar em algo que me distraísse. Decidi que não havia problemas em fuçar um pouco mais da vida de Oliver, afinal ele me deixara sozinha em sua sala, não devia ter nada a esconder.
Comecei puxando a gaveta a minha frente, eu não esperava encontrar nada além de material de escritório, mas não. Havia uma pasta preta com meu nome no centro em letras garrafais, me surpreendi com a grossura dela. Abri encarando meus dados e minha foto na primeira página, eu sabia que era errado ler os documentos dos outros, mas tinha meu nome ali e aquilo era sobre mim, eu tinha todo o direito de ler.
Meu corpo todo endureceu a medida que fui lendo aquele dossiê. Sim, aquilo não era um arquivo do meu caso e sim um arquivo sobre mim!
— Mas que desgraçado, mentiroso! — xinguei, me erguendo da cadeira me sentindo revoltada com tudo o que tinha lido, e eu sequer havia terminado — Sendo todo condescendente e dizendo que não se preocupava com a verdade, mas se preocupava comigo! Até parece! — a medida que eu passava mais páginas a raiva foi desaparecendo. Não porque não houvesse nada demais naquele arquivo, porque havia. A minha vida inteira estava ali, esmiuçada em detalhes, desde as minhas notas escolares ao meu saldo bancário. O nome da prisão onde meu pai estava e onde minha mãe morava, meu endereço, meu local de trabalho e o até mesmo o nome e informações da pessoa que morava comigo.
Eu estava aqui cogitando contar tudo a ele, abrir meu maldito coração e eu descubro que o filho da mãe simplesmente mandara investigar a minha vida! Eu me sentia raivosa, violada, até que um sentimento mais frio começou a se apossar de mim: medo. E eu tive medo de que Oliver descobrisse aquele segredo que eu havia enterrado tão fundo dentro de mim mesma.
Aquele segredo que mudava tudo.
***
Oliver Queen
Felicity não falara nada ou esboçara uma emoção.
Eu havia revelado mais de mim do que deveria, revelado o porquê eu a beijei. Eu disse a mim mesmo várias vezes depois de deixá-la no hotel dela e voltar para a casa que a história de nós dois era fodida demais para eu tentar lidar ao mesmo tempo em que lidava com o caso dela. E havia as mentiras. Ela seguia mentindo, mais uma vez e outra, e mais outra. Não importa o quanto de mim eu estivesse disposto a dar, havia uma parte de Felicity — feita tão somente de segredos — que eu jamais conseguia alcançar. Eu não podia perder o foco agora e permitir que todas as coisas que ela me fazia sentir me impedissem de ser o melhor advogado para ela. Eu precisava me conter, colocar aquelas emoções e sensações em pausa enquanto lidava com tudo, com sorte, quando eu impedisse que ela fosse condenada, eu teria aquela conversa com ela.
Uma conversa que já está atrasada em cinco anos.
Mais algum tempo não mudaria muita coisa.
Me esforcei para deixar a confusão de sentimento atrás da porta que eu fechei, e me concentrei na pessoa que me esperava na antessala. Lance se ergueu de uma vez, pelo o olhar no rosto dele eu sabia que algo não estava certo, eu sabia desde o momento que Sara avisou que ele estava aqui.
Ele nunca vinha ao meu escritório.
— Lance. — cumprimentei — A que devo a visita?
— Você sabe tão bem quanto eu que eu não deveria estar aqui, para todos os efeitos eu apenas vim deixar a minha filha no trabalho — assenti, Quentin e eu éramos bons colegas, mas quando uma investigação dele colidia com algum cliente meu, era sempre melhor nos mantermos afastados e evitar qualquer possível conflito ou toda o caso poderia vir por água abaixo — Nós temos um problema e eu achei que era melhor e mais seguro falar sobre isso pessoalmente. — Ele sentou-se novamente, as mãos coçando o cabelo já ralo, mostrando-me o quanto ele estava nervoso.
— É sobre o caso de Felicity?
— Sim. — Me sentei numa das cadeiras, minha mente me preparando para o que viria agora.
— Você recebeu o resultado da perícia dela e como sabe também fizemos uma no filho do Slade. — assenti concordando. — Eu imagino que pelo resultado você já deve estar preparando alguma defesa — concordei mais uma vez, embora eu ainda não tivesse uma defesa muito clara — Eu acho que você não é o único. Slade está agindo.
— Eu sei, ele encurralou Felicity ontem. — Lance não esboçou reação, ele já esperava por isso.
— Isso é ainda mais grave, eu não sei como, mas ele conseguiu mexer uns pauzinhos na delegacia também — me sentei mais ereto — Nós encontramos uma quantidade grande de drogas com o filho dele, provavelmente ele deve ter ido a festa para traficar, eu pensei que finalmente poderíamos ter aquela condenação que tentamos há anos. Estava sendo cauteloso e mantendo a investigação restringida ao mínimo de pessoas possíveis, assim o pegaríamos de surpresa. — Aquele era um adicional, pintar o filho do juiz como um traficante poderia ajudar a Felicity com o júri, e além disso me traria uma certa satisfação finalmente saber que o playboyzinho que costumava sair de todas as encrencas graças a influência do pai seria visto como ele realmente era.
— Isso é bom. — Me atrevi a sentir um certo alívio.
— Eu sei que você vê os benefícios. Mas não se empolgue, infelizmente um dos meus policiais “sem querer” alterou algumas provas e elas terão de ser removidas do caso, o que significa que eu não tenho mais caso. Coincidentemente foi o mesmo policial que passou o depoimento de Felicity para o Slade, Billy Malone. Eu suspeito que ele trabalha para Slade, eu tentei afastá-lo da força policial, mas não consegui, ele também está no caso da sua cliente.
— Então está me dizendo que além de não ter mais um caso contra Joe Wilson, ainda tem alguém dentro da delegacia que trabalha para o Slade e que provavelmente vai tentar armar alguma coisa para nós? — tentei não demonstrar o quanto eu estava preocupado, a última vez que Slade se intrometeu num caso meu, me causou a maior dor de cabeça e eu tive sorte de conseguir um acordo com a promotoria.
— Sim, por isso vim pessoalmente, eu não queria arriscar que alguém lá de dentro soubesse que estou falando com você. — Lance se ergueu, pronto para partir, eu ainda estava sentado remoendo mais aquele problema que ele trouxera para mim.
— As coisas não podiam ficar mais fodidas. — desabafei.
Como se o universo estivesse me testando e provando que sim, as coisas poderiam ficar muito piores eu vejo Felicity abrindo a porta em um rompante e vindo até mim, seus olhos crispando em pura fúria. Me ergui de uma única vez quando escutei sua voz gritando comigo.
— Você! — senti seu dedo em riste bater em meu peito enquanto a acusação seguia no mesmo tom — Seu mentiroso! Cafajeste sem escrúpulos! — não reagi, assustado com sua reação. Eu pensei que havia conciliado as coisas entre nós quando a deixei, ela não parecia furiosa comigo. — Eu não acredito que teve a cara de pau de fazer isso comigo e depois ficar agindo como se fosse o senhor perfeição! Oh, eu me importo com você e não com a verdade.
— Eu acho que é melhor eu ir, nós... Deixa pra lá. — Lance balançou a cabeça e simplesmente saiu rapidamente dando a mim e Felicity privacidade para continuar aquela briga estranha.
— O que eu fiz dessa vez? — tentei me manter calmo, colocando ambas as mãos ao redor dos ombros dela, meus olhos buscando na confusão dos olhos dela algo que explicasse sua atitude, mas tudo o que encontrei ali foi raiva.
— Não se faça de desentendido. — Ela ergueu a pasta com o nome dela na frente. Eu sabia que pasta era aquela, e inferno! Eu sabia que Felicity tinha todo o direito de ficar zangada com isso.
— Merda, você não deveria ter mexido nas minhas coisas.
— E você não deveria ter investigado a minha vida! — Reclamou tirando as minhas mãos que estavam em seus ombros e se afastando de mim — Eu poderia processá-lo por isso! Eu posso não ser uma advogada, mas eu sei muito bem que isso é invasão de privacidade. — Eu teria sorrido com o comentário dela se eu não soubesse que ela estava com a razão — Você investigou a minha vida, Oliver! Você tem fotos e dados meus, coisas privadas! Você não tinha o direito de fazer isso! É a minha vida, minha história, meu...
— Felicity, eu... — me aproximei, sabendo que pela forma que ela estava abalada não havia maneiras de um me desculpe consertar aquilo.
— Oh, não comece. — desprezou antes mesmo que eu começasse.
— O que está acontecendo aqui? Eu estou escutando os gritos da minha sala. — Diggle chegou de repente e olhou de mim para Felicity e seu semblante se tornou mais compreensivo.
— Dr. Diggle, me diga como se chama o crime quando a pessoa rouba dados pessoais das outras? — Felicity perguntou ao meu amigo, ostentando a pasta contra o seu peito. Dig olhou-me de canto como se dissesse que eu estava numa enrascada.
— Tecnicamente eu não roubei nada. — me defendi. Felicity revirou os olhos impaciente. — Não roubei. Os dados foram fornecidos por uma agência governamental. — ela riu incrédula — Pode olhar o timbre das folhas.
Ela o fez e vi seu semblante se tornar mais sério.
— Como você tem acesso a isso?
— A esposa do Dig, Lyla, trabalha em uma agência secreta do governo, conseguimos todos os dados dos clientes com ela. — Dei de ombros, eu havia aumentado um pouco a verdade. Eu só pedia pela ajuda do Diggle quando eu acreditava que meus clientes não estavam sendo inteiramente honestos comigo.
— Você percebe que acabou de contar que minha esposa é agente secreta? — Diggle resmungou e me fuzilou com o olhar. — E que era suposto que continuasse a ser secreta?
— Eu não acredito nisso! — ela acreditava, apenas ainda estava chocada demais.
— Não se preocupe, Felicity, — vi Dig se aproximar, mas ela não recuou dele como recuou de mim. Dig poderia ser mais alto e forte do que eu, ele tinha tudo para parecer uma daquelas pessoas intimidantes, mas não, ele era uma daquelas pessoas raras que eram sempre agradáveis e cujo a voz parecia espalhar calma e paz por onde ele estava. — Eu só repassei o que era estritamente necessário ao caso de Oliver. — Eu não sabia disso. Então Dig havia filtrado a informação? O que mais havia da vida dela que eu não sabia? — Qualquer informação pessoal sobre a sua vida particular foi mantida assim. — ele garantiu dando-lhe um olhar confiável e significativo, colocando uma das mãos sobre o ombro dela.
— Obrigada. — Percebi o alívio que aquela palavra trazia. A mudança em Felicity foi imediata, o corpo não estava mais tão tenso e ela respirou profundamente como se não houvesse nenhum peso em suas costas.
— De nada. — Ele sorriu para ela e Felicity sorriu de volta — Eu vou indo, espero que vocês dois se acertem.
Eu estava encostado na mesa da minha secretária, mãos dentro dos bolsos enquanto fitava Felicity. Eu estava curioso pelas partes que Diggle havia deixado de fora naquele dossiê, mas eu tinha aprendido a lição e dessa vez eu queria que Felicity confiasse em mim, que desejasse me contar sobre sua vida e até mesmo os seus segredos.
— Eu acho que agora que tudo está resolvido nós podemos...
— Resolvido? — eu não esperava pela raiva em sua voz, ela parecia muito mais calma depois que Diggle explicou tudo. — O inferno que está tudo resolvido, Oliver! Eu não o quero mais como meu advogado, vou tentar minha sorte com um defensor público ou algo assim. — esbravejou — Aproveite todas as informações que tem da minha vida, não deve ser uma leitura muito interessante. — Ela bateu com força a pasta sobre a mesa e me lançou um olhar desafiante antes de me dar as costas.
— Felicity... — minha mão encontrou a curva do braço dela antes que eu soubesse o que eu estava fazendo. Apenas havia aquele sentimento em mim. Eu não queria que ela fosse embora e se afastasse de mim, eu precisava que ela permanecesse, eu queria ajudá-la.
— Eu não deveria sequer ter batido a sua porta aquela noite. — Havia brilho de lágrimas em seus olhos, que me pegou desprevenido. Eu não entendia o que elas faziam ali. Não podia ser apenas aborrecimento porque eu a investiguei, era algo mais e eu não sabia exatamente o que era, mas eu tinha certeza de que era minha culpa. As lágrimas dela sempre eram minha culpa. — Eu ligo para acertar seus honorários ou qualquer outra coisa. — Disse friamente retirando o braço do meu aperto e saindo a passos firmes pela porta.
Eu fiquei parado por um longo tempo apenas observando-a partir, observando sua silhueta desaparecer no elevador.
Eu me lembrei da última vez que ela foi embora.
Naquela noite eu disse a ela para ir quando tudo o que eu queria era que ela ficasse enrolada em meus braços durante toda a noite. Eu a deixei ir e disse a mim mesmo que era o certo a fazer, mas e agora? Onde ficava o certo e o errado? E no que isso influenciava no que eu queria?
Eu não tinha a resposta.
A verdade é que não existia uma.
Desci as escadas com pressa, não tive paciência para esperar pelo elevador. Quando cheguei ao saguão do prédio, ainda ofegante e me recuperando do breve exercício físico me deparei com uma situação desesperadora. Felicity ainda estava lá, cercada por uma horda de repórteres, flashes de câmera piscavam a todo momento, microfones estavam apontados em sua direção e tantas perguntas eram feitas ao mesmo tempo que era difícil entendê-las, mas eu conseguia ver com perfeição o desespero estampado no rosto dela.
— Felicity Smoak? — um dos jornalistas perguntou se projetando a frente dela e impedindo que tentasse sair — É verdade que atirou a sangue frio no filho do Juiz Slade Wilson?
— O quê? — seus olhos se arregalaram diante da pergunta.
— Também é verdade que estava drogada nessa noite? — veio a pergunta do outro que estava atrás dela.
— É claro que não estava! — ela afirmou enfaticamente e vi o jornalista dar um sorriso. Inferno! Eles iriam soterrá-la viva se eu não fizesse algo.
— A senhorita Smoak não tem nada a declarar. — Me aproximei por trás enlaçando-a pela cintura e puxando-a para mim — Vem comigo. — sussurrei em seu ouvido, girando nossos corpos e colocando a minha mão na base da cintura dela enquanto a direcionava de volta para dentro do prédio. Mas não sem antes fazer uma pequena ameaça aos jornalistas que estavam ali e nos seguiam. — Isso aqui é propriedade privada, eu sugiro que deem meia volta ou chamarei a polícia. — Dei as costas.
— Dr. Queen, o que pode dizer a respeito do seu relacionamento com a senhorita Smoak? — escutei a voz conhecida, e uma vontade pungente de vomitar se espalhou sobre mim. Rangi os dentes, eu a tinha visto ali, mas como sempre fiz o possível para ignorar a presença dela.
— Ela é a minha cliente, senhorita Williams. — respondi friamente antes de me virar novamente.
— Não acha que o fato de você estar tendo um romance com a sua cliente pode influenciar no caso? Minhas fontes dizem que você e Felicity saíram ontem para um passeio romântico de barco ao pôr do sol — apertei os dentes, como ela descobrira sobre aquilo? — Não é absurdo ter esses encontros quando há um homem em coma no hospital? Um homem que a sua cliente colocou lá? — ela perguntou com um sorriso satisfeito nos lábios, eu sabia que não poderia fugir dessa pergunta.
— Como eu disse, ela é minha cliente.
— Não configura conflito de interesses? Ter um caso com a cliente? E se ela for presa? Você fará visitas conjugais? — a provocação não foi sutil.
— Ela é inocente então não há porque preocupar a sua cabecinha, Susan. — cuspi irritado e andei o mais rápido que consegui levando Felicity comigo para a segurança do elevador e longe de todos aqueles abutres.
Felicity soltou um longo suspiro de alívio assim que as portas se fecharam, eu não acho que ela tenha percebido, mas seu corpo se inclinou para o meu, sua cabeça descansando em meu ombro procurando por apoio. Eu apenas intensifiquei o aperto em sua cintura puxando-a para um abraço, lembrando-a de que eu estava ali com ela, e que não teria que lidar com tudo aquilo sozinha.
Felicity se permitiu ser abraçada, mas não por muito tempo. Ela se afastou de mim e se recompôs, tentando se fazer de forte, fingindo que não precisava do abraço de ninguém.
Eu poderia ficar chateado por vê-la fingir, mas eu não fiquei.
Porque aquela não era uma mentira para mim, era uma mentira que Felicity contava a si mesma.
— O que foi isso? — ela perguntou, tentando amenizar o clima entre nós, mudando o foco. A essa altura eu já estava começando a entender Felicity, o modo como ela tentava se afastar de mim de toda a forma, nem mesmo ela sabia como lidar com a confusão de sentimentos entre nós, por isso ela levantava a barreira.
— O seu caso se tornou público, os jornalistas não te deixarão em paz depois disso. — eu expliquei. — Eles vão te seguir e te abordar a todo o momento. — expliquei cansado, eu tive alguns casos em que a impressa caiu matando em cima, nunca era bom, eles sempre tendiam a influenciar o júri.
— Eu percebi isso, mas eu estava falando sobre a mulher que te encurralou. Ela parecia em busca de sangue.
— Susan Williams é uma ratazana sem escrúpulos. — Deixei o ódio sair de mim.
— Isso foi meio forte, até mesmo para você, soou um pouco raivoso demais... — Felicity me inspecionou — Então estou deduzindo que você dormiu com ela.
— O quê? — a encarei meu rosto ardendo em vergonha, e Felicity apenas sorriu saindo do elevador que acabara de abrir as portas. Eu a segui de volta para antessala do meu escritório. — Como você...? Eu quero dizer, por que você acha isso?
— É a única razão que eu vejo pra você odiar alguém com tanta força. — Franzi o cenho com sua resposta, havia algo mais ali que não identifiquei.
— Ela dormiu comigo para conseguir algumas informações. — admiti entredentes, não gostava de admitir que tinha sido usado e enganado do modo mais estúpido e velho que existia.
— E ela conseguiu? — evitei o olhar de Felicity, era estranho conversar com ela sobre as mulheres com quem eu transei, sem contar que parte de mim estava envergonhado por ter sido tão burro. Eu estava numa fase difícil, tentando esquecê-la e aceitando qualquer mulher para isso. — Pela sua cara eu diria que sim. — Como ela conseguia me ler com tanta facilidade? Eu sequer estava olhando para ela! — Pelo menos o sexo foi bom? — não segurei a careta com a pergunta dela — Hum... Ruim assim? Então, ela roubou informações suas e ainda te deu sexo ruim?! Não é à toa que você a chama de ratazana sem escrúpulos, a mulher sequer sabe fazer o serviço direito...
Eu ri, um riso baixo e um pouco contido, mas verdadeiro. Era incrível como Felicity tinha um dom de deixar as coisas mais leves, de aliviar a tensão e me fazer sentir muito melhor. Pena que não podia ser sempre assim.
— Precisamos falar sobre o aconteceu lá embaixo. — Comecei mais sério, e Felicity assentiu se sentando no sofá.
— Os jornalistas. Como eles descobriram? — perguntou. Eu tinha certeza que tinha o dedo de Slade naquilo, mas eu não gostaria de assustar Felicity, ela já estava assustada.
— Eu tenho uma suspeita. — Optei um meio termo entre a verdade e a mentira, andei até a janela observando a rua e segurando um xingamento quando fechei as persianas.
— Eles ainda estão lá?
— Estão. — confirmei.
— Isso é uma merda, como eu vou sair daqui?
Sair daqui era o menor dos problemas dela, e impressa não a deixaria em paz. Uma vez no rastro dela eles não iriam apenas infernizar a sua vida, eles iriam manipular a verdade e distorcer tudo transformando aquele caso para o mais vendável possível. Eles a jogariam num meio de um mar revoltoso e a assistiriam se afogar.
Ela não sobreviveria uma semana naquele jogo.
Que merda! Ela não sobreviveria sequer um dia.
— Felicity? — chamei seu nome num tom urgente e ela ergueu o rosto para mim me encarando, eu estava de pé a sua frente, com minhas mãos nos bolsos e minha posição não combinava com o que eu queria pedir a ela. Abaixei-me a sua frente nivelando nossos rostos — Eu sei que está irritada comigo, e eu sei que eu não tenho o direito de te pedir isso, mas, por favor, me deixe ser seu advogado.
— Por quê? — respirei fundo, eu queria um sim, mas não seria Felicity se ela o desse tão fácil.
— As coisas vão ficar feias a partir de agora, vai ser como game of Thrones lá fora, todos querendo arrancar a sua cabeça em praça pública. — A analogia pareceu quase arrancar um sorriso dela.
— Então eu sou uma Stark e eles são os Lannisters?
— Sim, mas você não precisa enfrentar isso sozinha. — expliquei.
— Então você vai ser minha Brienne? — ela perguntou me deixando confuso.
— Me desculpe, eu não cheguei tão longe na série. — Ganhei um ligeiro sorriso de condescendência — Mas o ponto é que você não vai conseguir lidar com isso sozinha, e eu não posso simplesmente ficar sentado e assistir o que vai acontecer a você sem fazer nada! Eu apenas não posso! — perdi o controle por um momento apenas em pensar em Felicity sendo usada por aqueles abutres — Eu sei que você não confia em mim, eu sei que fiz merda, ok? Várias vezes e eu sei também que há muita coisa entre nós, coisas que precisaremos acertar cedo ou tarde para que eu mereça a sua confiança, mas precisa confiar em mim quando eu digo que eu serei o melhor advogado que você pode ter. — o olhar de Felicity se demorou em mim analisando a veracidade das minhas palavras, colocando na balança se valia a pena confiar em mim outra vez, eu vi o momento em que seu semblante se tornou mais decidido e a dúvida desapareceu, mas antes que pudesse me dar uma resposta nós fomos interrompidos.
— Me desculpe interromper, mas vocês precisam ligar a tv, agora. — Dig apareceu à porta com o semblante sério. Imediatamente me ergui do chão pegando o controle da tv e o ligando. Meu corpo inteiro se colocou em alerta enquanto uma imagem conhecida aparecia no noticiário.
— ... Ninguém está acima da lei, essa garota tentou matar o meu filho e por causa dela ele está no hospital, em coma. — Slade Wilson estava lá sendo entrevistado pela ratazana da Susan, com seu terno de corte impecável e uma expressão de pai desolado no rosto — Ela é uma assassina, e ela deveria estar presa e não solta por aí se divertindo depois do que fez. Isso não é justiça, justiça é sobre pagar pelos seus crimes. Eu já conversei com a promotoria e o juiz encarregado do caso e eles me garantiram que um mandado de prisão está para ser expedido em breve. Felicity Smoak não ficará livre.
Os olhos de Felicity sequer piscaram enquanto ela olhava para tv onde Slade seguia prestando o papel de pai desolado, suas mãos estavam cravadas com força ao redor dos próprios braços e eu temi que ela estivesse se machucando.
— Ele é um ator muito melhor do que eu. — Eu sabia que Felicity não estava fazendo graça, assim como eu, ela havia notado a capacidade de Slade de manipular e convencer toda a opinião pública, a fazê-los sentir compaixão do pobre pai e a criar um ódio a garota que colocara seu filho no hospital. — Eu acho que preciso de você como meu advogado, Oliver. — Me senti mais aliviado ao escutá-la dizer isso, mas também me senti com medo. Não porque seria uma grande responsabilidade, mas porque Felicity estava me dando sua confiança e eu esperava ser digno dela.
— Eu estou com você, eu não vou permitir que nada de lhe ruim aconteça. — Eu peguei algo em seu olhar, algo que me dizia que por mais belas e confiáveis que fossem minhas palavras, Felicity ainda não acreditava em mim.
— Você não pode garantir isso. — Aquele lado dela que se esforçava para ser forte e cético se manifestou, mas eu já sabia o que aquele lado dela encobria. Medo.
— Você tem razão eu não posso. — Me sentei ao seu lado, e num movimento incerto peguei a mão dela segurando-a na minha. O toque deveria lhe trazer conforto e aumentar a confiança entre nós, mas era impossível ficar alheio a todas as sensações que um único toque despertava. Me esforcei para me focar no agora, no que Felicity precisava de mim. — Mas eu posso garantir que estarei sempre com você, cuidando de você a todo o momento, lutando por você. — repeti com mais força e convicção. — Enquanto estiver comigo, eu serei seu escudo e eu não a deixarei cair. É uma promessa.
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