Guilty Pleasure
26 Capítulo 24 - Have a Little Faith
Notas iniciais
When the road gets dark
And you can no longer see
Just let my love throw spark
And have a little faith in me
And when the tears you cry
Are all you can believe
Just give these lovin' arms and try
And have a little faith in me
Have a little faith in me
Have a little faith in me
Have a little faith in me
Have a little faith in me
When your secret heart
Cannot speak so easily
Come here darling from whisper start
To have a little faith in me
(Have a little faith in me – Olivia Penalva)
♥
Oliver Queen
Eu nunca fui um mau perdedor.
Sempre aceitei que na vida raramente podemos ter tudo, vencer todas as batalhas, e está tudo bem perder às vezes, isto nos torna mais fortes, constrói o caráter, como diria meu pai. Mas sentar e esperar não ia de acordo com a minha personalidade, não conseguia simplesmente ficar inerte e dependente dos resultados das ações de outros.
Felicity estava presa.
E não havia nada que eu pudesse fazer neste momento para tirá-la de lá.
Meus pensamentos oscilavam entre a nossa última conversa um pouco antes dela ser algemada e levada para a penitenciária e todos os motivos que eu tinha para ficar preocupado, por mais que eu soubesse – e que Felicity já tivesse me provado – o quanto era forte e capaz de lidar com o que lhe esperava, ainda assim era impossível não pensar nela, sozinha, em um lugar como aquele.
Pelo menos eu tomei todas as precauções.
Me assegurei de que ela ficaria em uma cela apenas para ela na penitenciária feminina de Starling. Também solicitei a Lance um guarda confiável para ficar de olho em Felicity e impedir qualquer pessoa mal-intencionada de se aproximar. Tentei cobrir todos os lados, não queria dar margem para Slade tentar algo novamente.
Mas seria o bastante?
Valia a pena arriscar tanto? Nós precisávamos ter ido tão longe?
Meu olhar caiu para a pequena caixa sobre a mesa, e um sorriso cauteloso surgiu em meu rosto. Seu presente. A caixa era simplória de cor marfim, mas as fitas de cetim azuis e amarelas que se emaranhavam num intricado laço, eram um toque especial e delicado e traziam vida para algo tão comum e sem graça. Bem a cara de Felicity, ela tinha o dom de transformar o banal em incrível.
Eu deveria abri-lo. Suspirei. Eu havia me dito isso várias vezes ao logo daquela noite, mas eu sempre dava um jeitinho de contornar meus pensamentos levando-os para longe do que estava guardado ali.
Eu estava sendo um covarde.
— Do que tem medo, Oliver? – perguntei a mim mesmo, mas não ousei responder.
Prendi os dedos ao redor do cetim azul e o puxei, a fita se esticou desfazendo uma parte do laço, segurei a outra ponta, mas antes de puxar senti uma pontada de dor. Meu estúpido medo se manifestava de formas físicas, agora?
Puxei meus dedos e os pressionei fortemente sobre os olhos e têmporas, tentando não apenas afastar o latejar constante daquela dor de cabeça que começou no instante em que me despedi de Felicity, mas também tentando retirar dali uma nova ideia enquanto confrontava minhas últimas decisões. Eu tinha mesmo tomado a decisão certa? Dei o meu melhor?
Não havia respostas para isto.
Não ainda.
Para meu mais completo horror, eu teria que esperar.
Esfreguei meus olhos com mais força quando a luz brilhante me atingiu, fazendo-os arderem, praguejei contra a intromissão. Estava contente com o ambiente escuro e lúgubre apenas parcamente iluminado pela luz fraca do monitor do computador. Tudo perfeitamente em conformidade com o meu humor.
— Já amanheceu. – minha irmã disse enquanto puxava todas as persianas e abria as janelas. Excelente, agora além da luz do sol, eu tinha ar puro e o som de pássaros cantando do lado de fora. Por que a vida amava zombar de mim? — E não acho que seja saudável trabalhar no escuro.
Seu cenho franziu enquanto olhava para mim.
Me senti desconfortável sob seu olhar analítico. Parecia o meu próprio quando buscava respostas mais profundas em meus clientes. Thea podia não ser uma advogada, mas certamente compartilhávamos o gene desconfiado da família e a irritante capacidade de cavar até descobrir o que está errado. Em outras palavras, eu precisava pisar em ovos ao redor da minha irmã.
Ela me deu uma última olhada antes de me dar as costas e caminhar até a porta, cometi o terrível erro de relaxar empurrando minhas costas contra a poltrona e soltando um suspiro de alívio acreditando estar livre da inquisição. Erro de principiante. Minha próxima visão foi Thea voltando com um sorriso doce, e uma xícara de algo fumegante na mão.
— Raisa não veio hoje, então eu fiz o café. Você quer um pouco? — Thea perguntou, assenti de forma automática, afinal era café e eu não havia dormido aquela noite.
Então percebi. Espere. Thea Queen. Fazendo café?
Parei a xícara na metade do caminho.
— É palatável? — Murmurei fazendo com que ela me lançasse um olhar exasperado — Ok. Desculpe!
— Eu deveria ter colocado sal no seu. — Reclamou enquanto eu levava a xícara a boca em forma de desculpa, bastou um gole para fazer com que eu não pudesse conter minha língua.
— Não tenho certeza se não tem nesse. — murmurei.
Thea fez um biquinho.
— O que conta é minha boa intenção. — refutou — Você deveria pelo menos dizer um obrigado.
— Obrigado, Thea, mas a partir de hoje a cozinha está fora dos limites para você. É um caso de segurança pública. – Thea deu um riso fraco, que fingi acompanhar, e obviamente não consegui, apesar da tentativa de aliviar o clima pesado, ainda era muito cedo para risos.
Esfreguei minha testa, tentando retirar o pensamento dali.
— Estranho... – Thea deixou a palavra no ar enquanto rodeava vagarosamente minha mesa, suas mãos deslizando suavemente pelo mogno lustroso, um vinco entre os olhos me dizia que ela estava analisando algo.
— O que é estranho? – apertei a xícara em volta dos meus dedos, tomando um tempo para apreciar o calor que aquecia minhas mãos frias. Pelo menos para isso o café intragável de Thea servia, ser um excelente aquecedor em tempos em que meu coração estava frio.
— Eu esperava te encontrar miserável. – Acusou – Com vários livros espalhados pela mesa, cabelos desgrenhados de tanto que você os puxou tentando arrancar uma ideia astuta da sua cabeça, ainda usando a mesma roupa de ontem. Uma garrafa de whiskey pela metade... – Enrijeci a menção da bebida, Deus sabe o quanto eu precisava de uma. Olhei em direção ao armário onde sempre havia uma garrafa pronta para estes momentos, mas que agora ostentavam apenas um vazio. Me distraí lembrando do motivo para aquela ausência, e quase não percebi que Thea deu a volta chegando atrás de mim — ...E definitivamente não esperava encontrar o computador ligado, com apenas a página inicial do google aberta e sem nenhuma pesquisa digitada.
Seus olhos escrutinavam os meus, eu quase podia ouvi-la se indagando "Oliver trabalhou em alguma coisa?"
Havia mais do que perguntas ali, preocupação e desconfiança também eram visíveis em seu olhar afiado.
— Me desculpe desapontá-la por não estar completamente destruído. – Ergui-me da poltrona, mais para evitar o olhar de Thea do que por ter algo para fazer. Caminhei em direção a janela, mãos dentro dos bolsos escondendo a agitação, cabeça erguida e olhos longes fingindo apreciar a vista daquela estupidamente bela manhã.
Segurei um suspiro.
— Eu não estou desapontada, estou surpresa e confusa. – Escutei seus passos se aproximando e fechei meus olhos. Eu conseguiria esconder a verdade de Thea? Seria certo esconder? Thea a amava também, mas... – Eu tinha uma vaga ideia do que esperar. Ou o seu lado obsessivo e completamente focado em conseguir uma maneira de tirar Felicity de lá assumiria o controle e moveria céus e terra até conseguir... Ou o seria o autodestruidor. – Sua mão pousou cautelosamente sobre meu ombro e sua voz baixou um tom, tornando-se suave. Percebi nuances de genuína preocupação ali — Esse é você, sempre que acontece algo com Felicity e ela está presa, condenada por um crime que não cometeu. Por que está tão composto e estranhamente distante? Por que não está morrendo de preocupação?
— Eu estou! – me virei para Thea, completamente exasperado, deixando que ela visse aquela parte de mim que estava lutando contra o medo de que algo desse errado. – Satisfeita?
Ela sorriu tristemente, se encostou ao meu lado a janela, seu braço se enroscando no meu enquanto a cabeça tombava em meu ombro, e estranhamente parte daquela tensão que havia em mim se esvaiu. Minha irmã nem sempre demonstrava seu afeto através de abraços e gestos de carinho, ela era uma pessoa que mostrava seus sentimentos através de seus atos, como sua falha tentativa de fazer café. Era seu jeito de dizer que se preocupava e que tentaria tornar as coisas melhores.
— Sabe, Ollie, quando mamãe e papai morreram eu te odiei um pouco. – torci o pescoço tão rapidamente em sua direção, que o ouvi estalar. Eu não esperava por uma mudança tão brusca de assunto, e certamente não esperava por sua confissão injusta e traiçoeira. — Eu sempre pensei em você sendo um insensível e controlador. — abri a boca para contestar, mas Thea foi mais rápida — Não me entenda mal, eu sempre te amei, mas nossos pais morreram e você estava sendo prático, e... Estupidamente o filho e irmão perfeito, oferecendo abraços e apoio incondicional, tentando consertar tudo. – Era assim que Thea me via? Um robô controlador e sem coração? — Eu não queria consertar as coisas, eu queria destruí-las, queria que tudo a minha volta estivesse quebrado e tão fodido quanto eu estava, e eu meio que consegui isso. – Ergueu seu rosto para mim, um pequeno pedido de desculpa em seu sorriso sem vida. Frágil não era uma palavra que eu comumente usaria para descrever Thea, ela era mais como um furação de sentimentos e emoções varrendo tudo ao seu redor, sempre que passava, mas naquele momento, tudo o que eu queria era abraçar minha irmã e dizer que tudo ficaria bem — E eu lamento ter tornado as coisas tão difíceis para você.
— Thea, você não...
— Eu quero dizer, que tudo bem se você me odiar um pouco também. – me interrompeu nervosamente, seus olhos encarando os próprios pés – Eu arruinei sua chance de ter um final feliz com Felicity, afinal. – Sua voz soou trêmula. – Acho que seria o justo.
Justo?
O justo seria nenhum de nós estar na posição de perder quem amamos
— Não seja boba, Thea. – retirei a mão do bolso e apertei a da minha irmã – Você sabe ser um pesadelo às vezes, mas nada nesse mundo me faria odiá-la. E você não me fez perder a chance de um final feliz com Felicity, você colocou Felicity na minha vida. Me deu a oportunidade de lutar por quem me faz feliz. – dei-lhe um pequeno empurrão — E por isso, eu serei eternamente grato.
— Você é tão piegas, Ollie! – E bastou ouvi-la me chamar por meu apelido para saber que estávamos bem. Ou quase.
— Thea? – senti a voz arranhar a garganta.
— Sim?
— Você ainda acha que eu sou um robô sem coração? – Thea mordeu os lábios, e me lançou um olhar de quem pede desculpas.
— Hoje eu percebo que as pessoas lidam com a dor de maneiras diferentes. – começou — Você não era insensível naquela época, apenas escondeu melhor a sua dor para o bem dos outros, naquele caso para o bem de uma pirralha inconsequente e bem desbocada. – piscou para mim — Pelo menos até Felicity chegar e bagunçar todas as suas emoções.
— Ela fez isso, não fez? – Sorri. De tantas maneiras diferentes Felicity abriu meus olhos e coração, e os mudou, de uma forma que eu nem sequer pensava ser possível.
— É irmãozinho, a garota balançou o seu mundo. – Compartilhou do meu sorriso, e bem assim eu soube que não tinha sido apenas meu mundo que foi tocado e modificado por ela, pelo seu amor.
— Nós iremos pegá-la de volta, gosto de como ela deixou meu mundo e não vou abrir mão disso. – Me senti ainda mais determinado do que antes — É uma promessa. — Thea assentiu e se afastou de mim, os passos seguindo as linhas do piso de madeira enquanto circulava pelo cômodo.
— Então... — começou cautelosa — Já finalizou sua “apelação”, agravo em execução penal, habeas corpus ou sei lá qual o recurso processual que seja cabível nesse caso? Talvez um mandado de segurança... Quais os casos em que podemos interpor um mandado de segurança? Eu os acho tão legais... – murmurou mais para si do que para mim.
— Quando se tornou uma especialista em direito criminal? – Franzi o cenho para ela. Eu amava minha irmã, mas ela nunca demonstrou qualquer inclinação ou vontade de estudar direito. Verdade seja dita, Thea nunca demonstrou vontade de estudar.
— Você fala demais, e às vezes eu escuto. E às vezes eu fico entediada e leio um ou outro livro que você deixa pela casa – Meu queixo caiu. — Eu sou uma garota muito inteligente. – Jogou os cabelos por sobre o ombro e abriu um sorriso brincalhão.
— Alguma chance da minha irmãzinha trabalhar comigo? – Já comecei a planejar, Thea poderia cursar faculdade pela manhã e estagiar no escritório a tarde, eu a levaria para algumas audiências e...
— Urgh! – rejeitou prontamente torcendo os lábios para a minha ideia e arruinando todos os meus planos precoces. – E usar saia lápis e terninhos horrorosos? Eu prefiro aproveitar meu cérebro incrível e minha noção de moda sem igual para algo mais útil.
— Okay, mais útil do que impedir pessoas inocentes de serem presas? — desafiei.
— Sim. – falou alongando a palavra e piscando os olhos inocentemente como quem diz que tem seus próprios planos.
— O que está aprontando? — inspecionei, já temeroso.
— Você saberá quando chegar a hora — Apertei os lábios, e desencostei da janela caminhando até Thea, que a essa altura estava do outro lado do escritório, ainda seguindo as linhas do piso — Eu juro que não é nada ilegal. — Ela elevou a mão, no típico gesto de escoteiro. Estreitei ainda mais meus olhos, Thea matou todas as reuniões das escoteiras. — Eu tenho quase certeza de que não é ilegal. — corrigiu.
— Thea... — deixei o aviso no ar, o que ela ignorou com facilidade.
— Então? Estamos prontos para buscar minha cunhada? — praticamente saltitou em minha direção, olhos grandes e cheios de expectativas — Devo chamar Donna? Ela já acabou com todos os lenços de papel que Ronnie tinha, está começando a chorar nas camisas dele e borrar tudo com rímel. E Ronnie é outro, finge de forte, e diz que o nariz vermelho e olhos lacrimejando é o começo de uma gripe. Além disso, Curtis ligou, e também Sara... Será que eu devia fazer uma festa de boas-vindas? Ou talvez...
— Thea, desacelere. – Tive que interrompê-la, colocar ambas as mãos em seus ombros para que ela parasse e prestasse atenção. — Apenas não faça planos, ok? — Trabalhei em esconder meu mau humor.
— Eu pensei que você já soubesse como tirá-la de lá. — a desconfiança voltou para seu tom, logo em seguida transformando-se em acusação. — Você disse que iriamos tirá-la de lá, Oliver.
— Bem, eu não disse quando. — Dei-lhe as costas, mas Thea irritantemente insistiu aparecendo a minha frente, com braços cruzados e olhar duro. — É complicado, apenas não insista. — usei meu tom de quem encerra o assunto. Eu podia ver aquela parte teimosa de Thea querendo insistir, mas nós dois sabíamos ser cabeças duras, confiei que ela entenderia que esta era uma batalha inútil.
— Ok, não irei insistir, por enquanto. — frisou a ressalva — Então, pelo menos me diga que horas iremos ver Felicity? — ergui uma sobrancelha para seu tom assertivo. — Bem, prisioneiros podem receber visitas e eu quero ver minha amiga.
Contornei Thea me sentando a frente do computador, fingindo digitar alguma coisa.
— O horário de visitas dela está cheio. — informei sem olhá-la.
— Diabos, Ollie! — ambas as mãos bateram sobre a mesa, num gesto frustrado e raivoso. — O que você não está me contando?
— Não se preocupe, Thea. Felicity está bem. — Lutei para passar verdade apesar das minhas próprias dúvidas — Tudo está sob controle.
Minha irmã se afastou da mesa, vi mágoa em seu olhar e sua postura se tornou mais dura.
— Parece que sou tão boa fazendo café, quanto você é contando mentiras.
Suspirei.
— Desculpe. — pedi com sinceridade, eu poderia lhe dar isso mesmo que não pudesse lhe dar mais. — Apenas confie em mim, Thea. — pedi — Eu sei o que estou fazendo.
Assim espero.
Thea assentiu ainda contrariada, e caminhou em direção a porta.
— Eu irei avisar Donna e aos outros que você ainda está trabalhando no caso. — me concedeu — Mas na próxima vez que eu vier, eu vou exigir saber o que está acontecendo.
Concordei.
Na próxima vez a porta estaria trancada a chave.
***
Esperei bons dez minutos depois que Thea saiu, e me levantei para trancar a porta. Por mais que eu quisesse, eu não conseguiria ser um babaca caso Donna viesse procurar respostas sobre a situação da filha ou até mesmo se Thea voltasse, mas eu odiava esconder coisas e mentir, não combinava com a minha natureza. E dizer a todos que tudo o que podíamos fazer por enquanto era esperar, sem dar maiores informações, parecia uma tentativa ridícula de elevar as esperanças de todos.
Estupidamente, neste momento trancar a porta me dava um pouco de controle. Era egoísta? Sim. Mas eu não estava pronto para adicionar as preocupações de todos às minhas.
Eu sei que todos sentiam falta dela, que estavam nervosos e preocupados. Eu sei que todos contavam comigo para fazer algo. Mas agora? Se eu contasse o que realmente estava prestes a acontecer com Felicity eu apenas os deixaria mais tensos do que eu.
Não. Era melhor esperar pelo momento certo.
Não era?
O que Felicity faria?
Seu nome trouxe um suspiro aos meus lábios e um peso sobre meus ombros. Deixei-me encostar à mesa, apoiando um pouco do meu peso nela. As mãos pressionadas com força contra a madeira rígida, e em contra ponto havia algo delicado fazendo cócegas em meus dedos.
Encarei o cetim azul com ódio.
Felicity certamente não seria covarde, não teria medo de um simples presente. Bem..., mas eu sabia que não era assim tão simples. Quais foram suas exatas palavras ao me entregá-lo? “Me dê a sua palavra de que somente irá abrir quando o julgamento chegar ao fim.” Por mais que Felicity tenha me dito que este não era um presente de despedida, não me parecia de outra forma.
Ela me dera algo para guardar de lembrança.
Eu não queria suas lembranças.
Eu a queria aqui, comigo e longe do perigo.
Eu estava frustrado e com raiva, mas ainda assim desfiz com cuidado e reverência a última fita de cetim do seu presente. Meus dedos tremeram ao levantar a tampa. Ali, no centro da caixa havia um pequeno cartão amarelo sobre um papel seda que escondia algo mais. Peguei o cartão em minhas mãos primeiro, engolindo em seco ao ver a letra cursiva e bem desenhada de Felicity.
“Algo para sua moldura vazia, acho que mesmo sem saber você guardou este espaço para nós”
Sorri, apesar do coração apertado.
Coloquei cuidadosamente o cartão de lado, e retirei o papel de seda que escondia o verdadeiro presente.
Não havia exatamente um presente ali.
Havia um outro papel meio dobrado e um pouco desgastado nas bordas — Não, não um papel realmente, percebi a textura mais espessa ao tocá-lo e lisa, porém mais grossa do que um papel convencional. Novamente me deparei com a letra de Felicity, diferente do cartão, as palavras estavam mais inconsistentes e até mesmo com a tinta azul um pouco borrada, como se algumas pequenas lágrimas tivessem caídos fazendo a tinta escorrer. Me senti apreensivo antes mesmo de ler o que estava escrito porque sabia que tinha sido escrito de coração. Minhas mãos tremiam e a pequena folha parecia pesar cem quilos. Pisquei os olhos rapidamente ao perceber que a umidade se acumulava neles, e me impedia de ler.
Limpei meus olhos com o dorso da mão, e me forcei a ler, mesmo sentindo a coragem fraquejar.
“Oliver,
Mesmo nos momentos mais tristes, esses foram os instantes mais doces que vivi.
Eu tive meu tempo com Jonas, e sinto muito que tudo o que possa oferecer a você sejam pequenas lembranças. Espero que poder vê-lo, mesmo que por uma fotografia o faça lembrar de que mesmo as coisas mais efêmeras da vida, podem durar para sempre.
Assim é o amor.
Podemos vivê-lo por apenas um dia.
Ou por anos.
Não importa.
Ele sempre estará lá.”
Virei o papel, que agora eu sabia ser o verso de uma fotografia, com mais rapidez do que deveria, mal me dando tempo de assimilar o que suas palavras realmente significavam. Mas pelo ritmo acelerado e ansioso das batidas do meu coração, ele já sabia o que era.
Jonas.
Nosso filho.
Não existem palavras para descrever o quão profundamente fui atingido. Eu não estava preparado para o que estava guardado ali, e ainda que houvesse um aviso, eu ainda seria atingido da mesma forma.
Havia uma Felicity mais jovem na foto. Linda. Não apesar, mas por causa da tez cansada e dos cabelos emaranhados no topo da cabeça que caiam desordenadamente sobre sua testa, ou ainda dos olhos inchados e com olheiras. Seu rosto estava inclinado para o pequeno pacotinho enrolado em uma manta azul em seus braços, o nariz tocando-lhe a testa e eu quase podia sentir que ela inspirava seu cheiro, guardando-o na memória, um sorriso pleno de quem estava experimentando o melhor momento da sua vida, completava aquela imagem tão linda.
Jonas, por sua vez, era a perfeição.
Tudo nele era belo e fascinante, e eu estava completamente absorvido por todos os pequenos detalhes que conseguia pegar. Seu cabelo era pouco e tão claro que mal se podia ver. As bochechas eram fofas e rosadas, a boca era mais cheia do que a minha, então decidi que esta parte ele havia herdado da mãe. Fiquei eufórico ao perceber que o formato das sobrancelhas era o mesmo que o meu e a ponte do nariz também era bem parecida. Desejei poder ver seus olhos, mas como estavam fechados brinquei de imaginar uma combinação dos meus e de Felicity.
Após os minutos – ou talvez tenham sido horas – Sinceramente, eu não sei e sequer me importo em tentar precisar o tempo. Tudo o que sei é que após meu deslumbramento inicial veio a dor. Cruel e latejante. Bem naquele lugar do meu peito em que estava vazio.
Vazio pelo amor do meu filho.
O amor que eu jamais teria.
Caí ao chão e ali permaneci, abraçando aquela foto contra meu peito, desejando poder ter de volta aquela parte da minha vida que nunca tive a chance de viver.
Quando voltei a mim, puxei a foto, alisando-a temendo tê-la amassado em minha ânsia de querer tomar um pouquinho do amor que havia naquela imagem. Foi quando eu percebi que já era tarde.
A foto já estava amassada, mas não por mim.
Felicity.
Eu consegui enxergar em cada linha, ruga ou mancha de lágrimas, cada vez em que ela a segurou com carinho contra seu coração, como eu mesmo tinha feito, tentando resgatar aquele momento único de amor. Mas uma história diferente também era contada através das pequenas fissuras nas bordas, da linha marcada ao meio em uma dobra perfeita escondendo a fotografia. A compreendi. Compartilhei do seus sentimentos ambíguos. Porque mesmo nos momentos doces, essa imagem também trazia uma lembrança amarga.
Não era justo.
Mas era lindo.
Abracei meu filho e a mulher que eu amava mais uma vez.
E eu nunca estive tão feliz e tão triste em toda a minha vida.
♥
Felicity Smoak
Meus olhos moveram-se para o relógio no exato momento em que o ponteiro dos minutos alcançou o número doze.
Vinte e duas horas e trinta e dois minutos.
Esse era o tempo quase exato em que eu estava sem ter contato com algum ser humano. Friso ser humano, porque até o momento, todas as pessoas que passaram por mim mais se assemelhavam a robôs perfeitamente programados do que pessoas reais. Por exemplo, o guarda que estava parado a porta com olhos de peixe morto e respiração quase imperceptível. Ele não falou. Não me olhou. Ele sequer respondeu uma das minhas muitas perguntas enquanto me acompanhava da minha cela até o estreito corredor, me dizendo para sentar na cadeira em frente ao telefone com apenas um olhar.
Na minha mente seu primeiro nome era Bob, e não oficial Stones. Ele tinha uma esposa adorável, filhos gêmeos e três cachorros. Bob era um cara amável, e doce apesar do seu tamanho e postura rígida. Ele era um robô apenas no trabalho, e um ser humano decente longe daqui.
Eu preferia fingir isto a acreditar que o mundo estava resumido a pessoas que se importam e pessoas sem coração. Embora eu já tenha tido muitas provas de que infelizmente eu estava errada.
Minha última conversa com Oliver me confirmara isso.
Algumas pessoas simplesmente são más.
Ajeitei-me na cadeira, os dedos nervosos tamborilando sobre a mesa estreita, fazendo as algemas tilintarem enquanto eu esperava pelo meu visitante. Fechei meus olhos e respirei fundo, lembrando-me da última vez em que estive com Oliver, pouco antes dos oficiais me trazerem para a penitenciária. Após minha condenação ele passara quase duas horas me explicando o seu plano louco, e eu quis beijá-lo por ser tão inteligente e ao mesmo tempo quis estapeá-lo por me deixar no escuro até o último momento.
No fim, eu apenas ouvi pacientemente qual seria a minha participação nele. E agora que minha parte havia chegado, eu não conseguia afastar a sensação de nervosismo e de raiva pelo que eu estava prestes a enfrentar.
Concentrei-me nas coisas boas e pensei em Oliver, na sensação de seus braços fortes ao redor do meu corpo, e de como naquele instante me senti inteira e forte, o mundo já não desabava ao meu redor e ainda que o fizesse, eu era capaz de reerguer os destroços. Tentei replicar a sensação, retomar o controle de mim mesma. Lembrei-me de suas últimas palavras em meu ouvido antes que eu fosse levada para longe de seus braços, elas não foram uma declaração de amor – não precisávamos disso. Mas sem dúvida tinha sido uma declaração. “Você é forte, amor. Se tem alguém que consegue passar por isso é você, não duvide. Tenha fé.”
Fé.
Uma palavrinha tão pequena, e ainda assim tão poderosa.
Ergui o rosto para além do vidro que me separava da pessoa que entrava na sala, mantive a cabeça erguida e o encarando, tentando manter a expressão neutra. Respire fundo procurando um pouco daquela tal de fé dentro de mim. Esperei que meu visitante se sentasse a minha frente e pegasse o telefone, e então fiz o mesmo.
— Está atrasado, Sr. Wilson. — eu lhe disse, meus olhos encarando seus orbes escuros e frios, eu já não os temia tanto. Se havia algo que eu sentia por esse homem, e sobrepunha-se a qualquer outro sentimento, era o mais puro desprezo pelo ser humano vil que ele se revelou ser.
— Eu sinto muito. — retrucou com falsa cordialidade — Sua chamada veio em cima da hora, e eu diria bem inesperada, senhorita Smoak. — Me inspecionou com cuidado e sorri. Gostava de tê-lo pego de surpresa. De mostrar que nem tudo estava sob seu régio controle. — Principalmente quando eu já acabei com você.
— Se já acabou, então por que veio assim que o chamei? – segui enrolando os dedos no fio do telefone e lancei meu melhor sorriso Monalisa. Vi seu maxilar endurecer, ele não gostava de sentir-se refém dos outros.
Bom.
Era assim que eu o queria.
— Curiosidade? O prazer de chutar um cachorro ferido? — Elucidou com descaso, mas Slade não me enganava, ele estava aqui porque achava que eu era uma ponta solta.
E de certa forma estava certo.
— Eu não estou ferida. – Sorri. E isso pareceu confundi-lo. — Então digamos que é apenas curiosidade... O que eu poderia saber para atraí-lo aqui? — me aproximei do vidro, se Oliver estivesse aqui eu ouviria um sermão sobre meu flerte com o perigo, mas neste momento eu já não me importava. — Tem escondido muitos segredos sujos, vossa Excelência?
Eu pude ouvir pela ligação seus dentes rangerem.
— Eu sugiro que pare com os joguinhos, senhorita Smoak. Essa tentativa pífia de me confundir não funciona. — seu tom se tornou mais ameaçador, os olhos escuros lembravam-me o de um lobo feroz, prestes a atacar qualquer um que se aproximasse, independente se era um inimigo ou não. — Eu estou com o poder aqui. Lembre-se que eu sou a ratoeira e você é o ratinho indefeso e faminto, basta um movimento meu, e eu destruo você, e a todos com quem se importa. — sua mão tocou o vidro que nos separava com uma fúria contida e premeditada, e num vacilo me vi afastando para trás, ele sorriu. Satisfeito por assustar sua presa. — Por que me chamou aqui, garota? – questionou impaciente.
Me recompus.
Não iria deixá-lo me intimidar.
— Você gosta de se vangloriar. – Minha voz estava firme e calma — Acha que venceu. Eu te chamei aqui para dizer que não venceu. Você pode achar que é o mestre controlando as marionetes, mas não é. – Ele ergueu uma das sobrancelhas, claramente se divertindo com minhas palavras – Eu acho que você é só mais uma marionete que se enrolou nas próprias cordas.
Slade relaxou com minhas palavras.
— Não vejo o ponto deste teatro. – suspirou, parecendo levemente entediado — Eu consegui o que queria no final, vingança pela morte do meu filho. Você está atrás das grades, enfrentando uma sentença de pouco mais de três décadas de prisão – o canto dos seus lábios se ergueu no que deveria ser um sorriso, mas não havia qualquer emoção sincera ali — Ou tem a ilusão de que seu namorado vai conseguir salvá-la? Talvez ele consiga reduzir a sentença em alguns poucos anos, mas não a tempo de viverem esse trágico romance – Sua risada era rouca e parecia em perfeito acordo com sua postura de descaso, mas se havia algo que Oliver me ensinou era a olhar além do que as pessoas nos mostravam.
A casca de Slade era perfeita e distinta, aparentemente sem nenhum arranhão na superfície.
Ele exalava confiança, e esse era o problema. Seu sentimento de superioridade e o orgulho da vitória o faziam cego para as próprias falhas. No leve tremor no canto dos seus olhos, na veia saltada e pulsante em seu pescoço e no jeito agressivo que agarrava o telefone como se pudesse destruí-lo apenas com a mão, eu via aquela pequena pontada de medo. A insegurança que ele tão prontamente escondia atrás da sua arrogância — Oliver pode interpor recursos, mas isso irá apenas protelar o inevitável... – deixou no ar — A culpada pela morte do meu filho está presa, e permanecerá assim.
Mesmo que houvesse uma parede de vidro entre nós, quando Slade bateu o punho fechado sobre a mesa, eu senti a minha própria estremecer. Eu já conhecia seu lado violento e vingativo, mesmo que comumente ele mantivesse escondido atrás dos ternos caros e da postura inabalável de um juiz ilustre e bem quisto, eu sabia que aquele homem era capaz das maiores atrocidades, sem sentir qualquer tipo de culpa.
E também sabia que estava cutucando um vespeiro.
Ainda assim eu forcei.
Afinal, o que mais eu poderia perder?
— Tem certeza? – Refutei, apreciando ver a surpresa em seu rosto.
— Eu acho que você ainda não compreendeu a sua situação, menina. – frisou o “menina” com escárnio, claramente numa tentativa de me inferiorizar – Ou será que é tão ingênua que ainda tem fé que seu namoradinho irá encontrar um modo de tirá-la daqui? Ainda que ele tente, eu tenho outros meios de vencer. Há muitas pessoas sob o meu poder, e tantas outras ansiosas para me agradar... – sorriu satisfeito consigo mesmo — Acidentes acontecem o tempo todo dentro de uma penitenciária, e fora dela também... – Slade se calou deixando apenas a estática da linha telefônica entre nós. Acredito que a intenção era dar um fundo dramático a suas palavras. Eu precisava admitir, o homem tinha uma queda por drama e era bom nisso, tudo o que lhe faltava era um bigode para enrolar entre os dedos e um tapa olho, e voilà teríamos um vilão perfeito para uma série de tv decadente. — ...Eu ouvi que você sofreu um acidente há um tempo, estou certo? Caiu do barco do seu namorado e se afogou... Também, um barco antigo daqueles... Tudo pode acontecer. — Ele acrescentou. E engoli em seco, escondendo o real medo das suas ameaças. Eu era humana afinal, eu poderia estar jogando com Slade, mas nunca conseguiria ser tão fria como ele e me importar tão pouco com as pessoas que amo.
Ele podia até ser um jogador melhor.
Podia até mesmo, ter ganhado todas as rodadas até agora.
Mas no momento, eu tinha as melhores cartas.
E este era o fim.
— Oh, eu compreendi muito bem a minha situação, eu posso reconhecer que tem poder de cumprir suas ameaças se isso alimenta o seu ego frágil e megalomaníaco – o cortei com uma certa impaciência — Eu só estou dizendo que no final, você não conseguiu o que tanto queria.
— Não? – se recostou na cadeira, balançando de um lado para o outro. – Então, esclareça-me. – Disse de um modo tão condescendente que me irritou.
— Eu não matei seu filho, Slade. – Falei com todas as letras, e ele sequer piscou diante da declaração.
— O que espera? Que eu faça um acordo com você? Apenas porque me diz que é inocente? – sua risada veio alta e encorpada, e tive que afastar o telefone do ouvido. — É mais ingênua do que parece.
— Oh, não! Eu jamais seria estúpida a ponto de fazer um acordo com o diabo. – Slade gargalhou um pouco mais, dessa vez se aproximando do vidro.
— Você tem garras, eu aprecio isso. – eu estava longe de querer apreciação dele. — Mas eu não vejo o ponto desta conversa, você não conseguirá nada de mim.
Ele fechou um dos botões do paletó e se endireitou na cadeira, o telefone se afastando do ouvido enquanto ele dava indícios de que iria partir.
— Me diga Slade, você chorou quando seu filho morreu? – perguntei, e atraí de imediato sua atenção. Meu sangue começou a correr mais rápido deixando minha respiração desigual, eu não conseguiria levar isso muito mais longe. — Deve ter sido difícil esperar todos os médicos e enfermeiros estarem distantes o suficiente para que você pudesse se esgueirar pelo quarto e desligar os aparelhos que o mantinham vivo... – apertei meus olhos afastando a cena que meu cérebro teimava a imaginar.
Como um pai poderia ter tamanha frieza para isto?
— Você não é ninguém. – ele se ergueu encurvando as costas, com o rosto se projetando na minha direção, o nariz comprido tocava o vidro que nos separava, a respiração espaçada deixando-o embaçado, mas não o suficiente para que eu não visse a carranca ameaçadora em seus lábios. — E ninguém acreditaria em você! – rosnou — Eu sou apenas um pobre pai em luto, que teve seu filho arrancado dos braços. – Se endireitou com rapidez, como se aquela pequena explosão jamais tivesse acontecido e fosse apenas fruto da minha imaginação.
E simples assim, eu soube que era real.
Depois do julgamento, quando minha sentença de culpa foi proferida, Oliver solicitou um momento a sós comigo antes que eu fosse levada para a prisão. Eu ainda estava em choque, assustada com o que me esperava, triste pela vida que almejava tanto viver e que naquele momento não passava de um sonho distante, que era difícil assimilar as palavras de Oliver.
Era difícil compreender porque sua postura era comedida e suas mãos permaneciam em seus bolsos ao invés de estarem em mim, em um abraço de despedida e promessas de que tudo ficaria bem, de que ele daria um jeito. Era estranho não o ver revoltado com o resultado, e procurando meios e saídas para mudá-lo. E principalmente era completamente atípico para Oliver Queen que ele não parecesse nenhum pouco surpreso com o resultado do julgamento.
Era quase como se ele já soubesse.
Apenas quando consegui me acalmar o suficiente e perceber todos esses indícios de que algo estava muito errado, é que finalmente escutei o que Oliver me dizia.
Ele começou com um “me desculpe”.
E eu me afastei, ainda sem compreendê-lo.
E então me disse que já sabia que não havia modos de vencer este julgamento, e que a propósito, nós precisávamos perder e por isso insistiu tanto para que Tommy tomasse seu lugar ao invés de tentarmos ganhar algum tempo tentando reverter o joguete de Susan para retirar de Oliver o direito de advogar. Ele me contou que o júri já estava comprado, e que ainda que desse o melhor de si, nada adiantaria. Tão pouco mostrar que o júri estava corrompido era uma saída. Seria apenas um adiamento, e precisávamos dar um fim logo nisso, precisávamos pegar Slade quando estivesse mais confiante, quando conhecíamos seu plano.
A arrogância era sua cegueira.
E Oliver sabia disso.
Por isso, paralelamente a minha defesa Oliver também trabalhou em suas investigações. Ele me contou que sua ideia inicial era encontrar algo com o qual pudesse barganhar com Slade ou que pelo menos o tirasse do caminho para que eu pudesse ter um julgamento justo, mas o que encontrou foi muito maior.
Foi por acaso.
Caitlin Snow minha antiga médica e atual namorada de Ronnie (palavras dele, não dela) fez a maior parte do trabalho investigativo, e entregou à Oliver todas as provas que precisávamos. Havia sido por isso que Oliver desapareceu durante o meu julgamento, ele estava com ela analisando os relatórios médicos, autópsias...
Caitlin estava de plantão no dia em que o filho de Slade faleceu. Havia circunstâncias estranhas sobre sua morte, e os médicos estavam sendo muito cautelosos sobre o que diziam. Quase temerosos.
Bem, eles tinham um motivo muito bom para isso.
Quando Oliver me contou que tínhamos provas de que Slade havia desligado os aparelhos do próprio filho, eu achei que ele estivesse enganado. Como uma mãe que já havia perdido um filho, eu não conseguia sequer imaginar que alguém no mundo pudesse cometer tal atrocidade.
Era de uma crueldade sem tamanho.
— Um pobre pai que se beneficiou da mídia para pinta-lo assim. — minha voz saiu pesada e um pouco trêmula. Eu não imaginava que seria possível eu me compadecer com Grant Wilson, o bastardo que atacou minha melhor amiga e quase destruiu sua vida, mas eu era. Nenhuma pessoa no mundo, por pior que fosse, merecia ter um pai como Slade, talvez Grant fosse apenas um reflexo do próprio pai...– Como pode fazê-lo? Por que você o matou? Você não tem uma gota de amor nisto que chama de coração?
— Amor? — ele riu da palavra — É tudo o que vocês jovens tolos veem. A vida vai muito além de sentimentos que apenas o tornam fraco, as vezes é preciso abdicar de coisas pequenas e que estão no caminho para se alcançar a grandeza e... — Slade parou, seus olhos varrendo com desconfiança os arredores. Primeiro, ele analisou os dois guardas, parecendo calcular a distância que estavam de nós e se podiam escutar nossa conversa. Depois olhou para o telefone em sua mão, e seus lábios se tornaram nada além de um linha dura — Mas sim, senhorita Smoak, eu amava meu filho e sempre lamentarei sua partida tão precoce. Eu nunca a perdoarei pelo o que fez.
Sorri.
— Não estou gravando a nossa conversa, se é esta a sua preocupação. — devolvi com humor, apreciando ver Slade tenso – Sequer preciso, as imagens das câmeras do hospital no momento em que você desligava os aparelhos do seu filho já são toda a prova que a promotoria precisa para acusá-lo de assassinato.
— Está blefando. — Tudo em Slade refletia incredulidade, sua superioridade autoconsciente o impedia de aceitar que alguém pudesse ser mais esperto do que ele.
Deixei o sorriso convencido que vinha segurando se espalhar livremente pelos meus lábios, preenchendo meu rosto com o que eu apenas supunha ser a mais perfeita expressão de vitória. Ergui ambas as mãos, livres das algemas e balancei num pequeno aceno.
— Parece que eu sou a ratoeira e você o ratinho indefeso e faminto, Slade.
— Isso é impossível. — Slade balançou a cabeça incrédulo, soltou o telefone e jogou a cadeira para trás cambaleando enquanto tentava assimilar a virada no jogo.
Vi o momento em que ele olhou o policial solitário na porta que dava para saída, sequer mediu as forças com o brutamontes, Slade apenas estufou o peito e caminhou com tanta pressa e fúria que poderia atravessar a parede de concreto se aquele caminho estivesse bloqueado.
O covarde iria fugir.
Deixei meu lugar, pronta para o ato final.
Poucos segundos depois sua mão tocou a maçaneta da porta, abrindo-a.
Eu gostaria de ter uma câmera para filmar aquele momento único. O rosto lívido de Slade ao encontrar a comitiva que o esperava atrás daquela porta: Oliver e eu, mais meia dúzia de policiais, além do detetive Lance e sua filha, a promotora Laurel com um mandado de prisão nas mãos. Oliver deu um passo à frente, forçando Slade a recuar e voltar para dentro da sala.
— Eu sou um juiz e tenho minhas prerrogativas. — Declarou com toda a altivez e arrogância de sempre. — Não encostarão um dedo em mim sem um mandado!
— Aqui está o seu precioso mandado, sr. Wilson. — Laurel empurrou o papel contra o seu peito. – Você pode lê-lo no caminho para a sua cela enquanto todos os dedos estão sobre você.
Era estranho ver um homem como aquele cercado.
Slade Wilson havia me intimidado e ameaçado de todas as maneiras possíveis, e até mesmo atentado contra a minha vida um par de vezes. Aquele era um homem que eu havia aprendido a temer, não apenas por sua óbvia tendência a sociopatia, mas porque aquele era um homem acostumado ao poder. A mover todos os pauzinhos necessários para que a realidade se moldasse aos seus desejos sórdidos.
Mas não dessa vez.
Dessa vez sua posição não o salvaria.
Oliver se aproximou dele, enquanto Lance o algemava e lia seus direitos, Laurel estava bem ao seu lado e assentiu para mim com um pequeno e desconcertante sorriso. Me lembrei de fazer uma anotação mental de agradecer à ex do meu namorado. Uau. Como a vida dá voltas, não?
— Você quer saber como? — Oliver perguntou olhando diretamente em seu rosto, mas Slade não o respondeu, seguiu olhando para mim que estava alguns passos atrás de Oliver — Eu deveria agradecê-lo, na verdade. — Havia uma frieza crua nos lábios de Oliver quando ele sorriu. Quase como se ainda estivesse cauteloso em aceitar que havia pego Slade. — Sua soberba te impediu de enxergar o óbvio.
— Nada disso faz sentido! — Slade finalmente falou — Eu garanti que tudo estivesse... — Ele calou-se, não querendo se comprometer, deduzi.
— Eu acho que você jogou dinheiro fora pagando o júri, Slade. — Oliver disse rindo. sem qualquer humor real. Me preocupei com ele, eu sabia que Oliver precisava desse embate final, mas ainda assim... — No fim, o julgamento foi só um teatro para pegar você. Logo após, a juíza Nyssa anulou a sentença e a promotoria fez um acordo comigo quando descobriu pelos registros do hospital que Grant Wilson estava se recuperando bem e estava muito vivo até você matá-lo. Felicity poderia até ser acusada de tentativa de assassinato, mas Laurel aceitou a legitima defesa. — Slade estranhamente ainda se segurava. Eu esperava por fúria ou até mesmo algum sarcasmo e promessas de vingança, mas não havia nada disso. — Me diga, valeu a pena? Eu sei que seu filho te dava problemas e ameaçava a sua fachada de juiz incólume, mas ainda assim? Matá-lo apenas por um pouco de publicidade, valeu a pena?
O rosto de Slade permanecia impassível e controlado.
— Garoto, isso ainda não acabou! Você não faz ideia de com quem está lidando. — sibilou por entre os dentes. Oliver respirou fundo, notei seus punhos cerrados segurando a raiva, mas quando falou sua voz soou calma e até mesmo um pouco suave.
— Sim, acabou. — afirmou convicto — Estou cansado de você e das suas ameaças. — completou dando-lhe as costas e caminhando até mim, parando a minha frente, quase como um escudo. — Levem-no.
Os policiais passaram por nós escoltando um Slade Wilson altivo e com um ar desdenhoso, e não pude conter o frio que percorreu minha espinha quando seu olhar gélido e cheio de promessas obscuras cravou no meu.
Mas não tive essa imagem a minha frente por muito tempo, logo o calor da mão de Oliver em meu rosto espantou o frio, substituindo por um caloroso sentimento de alívio.
Sorri, ainda que timidamente.
As últimas vinte e quatro horas tinham sido um turbilhão de emoções, em sua maioria ruins. Eu ainda não tinha me habituado a ideia de que podia relaxar e simplesmente sorrir.
— Acabou, meu amor. — Oliver puxou meu corpo para o seu e me abraçou com força. Não percebi o instante em que meu coração explodiu, ou em que as lágrimas desceram quentes pelo rosto, e comecei a simplesmente rir sentindo o gosto salgado em meus lábios. Eu não me importava, eu apenas precisava rir. Rir de alívio. Rir de felicidade. Rir porque eu simplesmente podia. — Finalmente acabou. – Oliver dizia, seu riso acompanhava o meu enquanto ele rodopiava comigo em seus braços no meio do salão de visitas da penitenciária, e beijava todas as partes do meu rosto.
Se a nossa história de amor fosse um filme romântico, este seria um péssimo cenário para o final. Mas eu não poderia me importar menos, porque apesar da aparente sensação de “final feliz”, eu sabia que este era apenas o começo.
♥
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