Guilty Pleasure
27 Capítulo 25 - On my knees
Notas iniciais
And I'll fall on my knees
Tell me how's the way to be?
Tell me how's the way to go?
Tell me all that I should know
And I'll fall on my knees
Tell me how's the way to go?
Tell me how's the way to be?
To evoke some empathy
Danger will follow me now
Everywhere I go
Angels will call on me
And take me to my home
Well this tired mind
Just wants to be led home
(Everywhere I Go — Sleeping at Last)
♥
Felicity Smoak
Três longos meses.
Este foi o tempo necessário para colocar minha vida nos trilhos novamente. Ou pelo menos quase. Durante este período tive que retornar à minha antiga posição na Palmer tech, coordenar com Ray minha transferência, cumprir meus deveres de madrinha e casar Curtis numa linda cerimônia à beira-mar, ter um tempo de qualidade mãe e filha com Donna, encontrar um apartamento em Starling, organizar toda a minha mudança em caixas etiquetadas para que nada se perdesse, e ainda encontrar algum tempo para Oliver, mesmo que estes se resumissem a alguns poucos finais de semana no meu minúsculo apartamento em Coast City.
A distância foi um ponto ruim para o nosso relacionamento inicialmente, mas ao mesmo tempo necessária. Eu havia me habituado a estar sempre com Oliver e de certa forma, até mesmo fazer dele o meu centro de gravidade. Eu pude me afastar um pouco de toda aquela confusão com o julgamento e Slade, e me concentrar na minha vida e em mim mesma, em ser apenas Felicity Smoak, coisa que eu não fazia há um bom tempo.
Agora minhas preocupações se resumiam a me preparar para o próximo passo da minha vida.
Sempre que eu pensava nisso meus pés formigavam e o estômago revirava em um misto de ansiedade e medo.
Tudo o que eu tinha agora eram possibilidades.
Infinitas.
Tantas que eu nem sequer sabia por onde começar.
Eu demorei um tempo para entender que o primeiro passo não era tão importante quanto a direção escolhida, e quanto a isso não havia dúvidas em meu coração.
Suspirei profundamente deixando que todo o meu corpo sentisse a sensação boa que era saber qual o meu caminho. Deslizei as mãos pela balaústra de ferro da sacada da sala e me despedi da linda vista da noite limpa e estrelada de Starling City, que tinha o dom de me fazer sonhar.
Encarei meus pés descalços e sorri.
— Acho que preciso de sapatos para meus próximos passos. – disse a mim mesma, o sorriso sonhador ainda preso em meus lábios.
Voltei para dentro do apartamento, mas deixei a porta aberta permitindo que a bela noite entrasse junto comigo. Retirei o xale verde que usava para me proteger do frio lá fora, aqui dentro estava quente e aconchegante, em parte graças ao calor da lareira que estava acesa e em parte porque eu estava no meu lar. Eu não precisava mais dele, por isso o joguei sobre uma das muitas caixas de papelão espalhadas pela sala. Gemi ao olhar para a bagunça. Sim, eu havia organizado todas as caixas de mudança em ordem alfabética, por prioridade e separado o que era frágil, mas em algum momento entre trazer as minhas coisas e as coisas de Oliver para o nosso apartamento, tudo havia se misturado e se desorganizado e formado essa bagunça caótica.
Dei de ombros, tentando ver o lado bom.
Pelo menos era a nossa bagunça.
— Oliver, você viu uma caixa escrito “sapatos”? – Gritei para Oliver que estava se trocando no quarto, ele poderia checar as caixas que estavam lá enquanto eu procurava na sala de estar.
— Está ao lado da caixa marcada com roupas íntimas, querida! – Ele gritou de volta me fazendo rir.
— Boa tentativa! – Eu tinha escondido todas as minhas calcinhas, já que Oliver tinha o dom de fazê-las desaparecer sempre que estava por perto.
Alguns hábitos nunca mudam.
Comecei desfazendo as caixas próximas a tevê, para meu desânimo encontrei apenas almofadas... Se esta ainda era a caixa da letra A, a letra S estava... olhei com desânimo ao redor da sala, para as dúzias de caixa espalhadas. Será que Oliver se importaria se eu fosse à festa descalço?
Sentei de uma vez no sofá, devo ter esbarrado sem querer no controle remoto, uma vez que a televisão ligou espalhando uma voz grave e conhecida pelo cômodo, a mesma voz que tirou meu sono por um tempo longo demais.
Num impulso inconsciente me levantei me aproximando da imagem, os punhos cerrados, o coração galopando em ódio ao escutar palavras calmas e vazias de sentimentos. Mesmo acuado a máscara daquele homem jamais caía.
— Filho da p... – Cortei minha frase ao sentir um braço rodeando minha cintura. Em um quase abraço Oliver pegou o controle que estava em minha mão e desligou a TV impedindo-me de continuar assistindo ao noticiário, afastando a imagem de Slade Wilson de meus olhos e o palavrão de minha boca.
— Acabou, amor. Não permita que ninguém atrapalhe nossa comemoração hoje, nós lutamos por isso e merecemos. – Eu sabia disso, mas as vezes eu era pega por aquela sensação de medo. Eu já estive feliz assim em outro momento, e tão rapidamente a felicidade foi roubada de mim... — Achei seus sapatos. – A voz doce e morna em meu ouvido era um contraste perfeito para aquela outra voz suja, que tinha o poder de fazer meu sangue gelar — E algo mais. – O pequeno sorriso sugestivo naquelas palavras me quebrou, fez todo aquele medo bobo ir embora e me concentrei no agora.
Nós vencemos. Nosso amor venceu. Me virei dentro dos braços do homem que eu amava, e que era meu, sem me preocupar de que haveriam vírgulas ou pontos finais em nossa história, tudo o que eu via eram reticências.
— Obrigada. – Respondi me aninhando em seu corpo, eu não sei se Oliver percebeu, mas meu agradecimento foi muito além de agradecê-lo por desligar a tevê. Ergui os olhos para seu rosto e sorri, porque podia sorrir, porque meu mundo era cheio de coisas boas que me faziam sorrir. Todos os dias. – E o que é o algo mais?
Seus dedos passaram uma mecha de meu cabelo para trás, seu sorriso se tornando maior, a emoção chegando aos seus olhos e transbordando por eles.
— Amor. – A resposta era simplória, mas o significado complexo demais para ser explicado. Coloquei-me nas pontas dos pés, minha boca pressionando a de Oliver com delicadeza. Não era para ser um beijo longo e quente, era para ser apenas um agradecimento por todo o amor que ele trouxe de volta a minha vida.
Mas bem, eu estava beijando Oliver e eu nunca conseguia parar num beijo simples. Quando dei por mim, já estava esparramada no sofá sob seu corpo firme. Mãos já se ocupavam em tocar e apertar.
— Vamos nos atrasar. – Murmurei quando seus beijos deixaram minha boca e se espalharam pelo meu pescoço. A boca quente e molhada subiu até minha orelha, arrepiando minha pele em uma deliciosa tortura. Eu quase esqueci de que deveria parar Oliver.
Até que ele mesmo parou.
Seu corpo ainda estava sobre o meu, necessitado. E apesar da tensão sexual palpável que sempre havia entre nós, quando seus olhos estavam a poucos centímetros dos meus, não era luxúria que havia ali.
Era algo muito mais cálido e estranhamente sério.
— Os outros podem esperar por nós. – falou com leve desinteresse — Mas eu não. Eu não quero nunca mais estar na posição de esperar por você, Felicity... Na verdade, eu consigo pensar em uma exceção. Um dia esperarei por você, mas não muito. Se seus passos forem lentos demais, te encontrarei na metade do caminho... – aqueles doces olhos faiscaram com uma emoção diferente.
— Do que está falando? – Oliver sorriu. Um daqueles belos e completos sorrisos, que tinham o poder de me fazer sorrir de volta, sem sequer saber o porquê.
— Eu passei cinco anos preso em uma vida cheia de arrependimentos por que deixei você ir, e agora que eu a tenho, verdadeiramente e completamente, eu não irei me afastar. – Ergui a mão, meus dedos tracejando as pequenas linhas de expressão nas bochechas de Oliver, eu reconhecia aquele resquício de dor, mesmo que não houvesse nada além de felicidade em sua vida.
Deixei-o ir.
Não havia mais lugar para lembranças tristes ou arrependimentos.
— Apenas você poderia transformar um momento de pegação no sofá em palavras doces. — Ri contra seus lábios — Eu te amo também, e eu não estou indo para lugar nenhum, não sem você.
***
O Gambit estava lindo.
Varais de luzes amareladas decoravam o barco, como se pequenas estrelas tivessem caído do céu bem no meio do mar escuro para se juntarem a nossa comemoração. Parei por alguns instantes para admirar a imagem do barco, imponente sobre as águas. Um “uau” deslumbrado escapou de meus lábios, e um sorriso satisfeito fez morada nos de Oliver.
Ele havia me dito que seria uma pequena reunião com nossos amigos e familiares, algo pequeno para celebrar esse recomeço. Eu havia imaginado que nos encontraríamos em um barzinho descontraído ou um restaurante, caso estivessem no clima de algo mais formal. Imaginei até mesmo, uma última reunião na Mansão Queen antes de Thea finalizar o seu projeto de transformar o lugar em um abrigo. Mas nem de longe eu esperaria por algo assim, tão grandioso.
— Uma reuniãozinha, hein?! – provoquei com um leve empurrão de ombros.
— Apenas para amigos íntimos e família, eu prometo. — Apertou mais firme a minha mão para me acalmar – Eu não poderia deixar a nossa Suíça de fora de uma comemoração tão especial.
— Eu entendo que você gosta de ser simbólico, mas realmente não precisava de tanto. Só vamos brindar a prisão de Slade e fechar esse capítulo.
— E iniciar um novo. – Acrescentou, um pouco afoito. — Ainda odeia surpresas? – seu tom foi cauteloso e mais agudo, testando o terreno antes e me deixando levemente apreensiva sobre o que mais poderia me esperar além de champanhe e uma boa conversa com nossos amigos.
— Meio que estou aprendendo a gostar. – Apertei seus dedos entre os meus.
Essencialmente eu ainda não gostava de surpresas, mas vindo de Oliver todas se provaram maravilhosas. Já era tempo de deixar esse pessimismo para trás, e começar a deixar meu coração no comando.
Oliver sorriu aliviado e inclinou o corpo para o meu, a boca morna deslizando pela pele da bochecha, seus dedos afastaram meus cabelos para que ela pudesse chegar até meu ouvido onde ele soprou as palavras que fizeram meu corpo todo se agitar em antecipação.
— Bom ouvir isso, porque elas ainda não acabaram.
— Oliver... – girei o corpo em direção a sua voz, procurando em seus olhos divertidos alguma dica do que me esperava. Não havia nada ali além de amor. E isso bastava para mim.
— Vamos. — Oliver apertou minha mão, me ajudando a subir a escada. E perdi o folego mais uma vez. Se de longe parecia que as estrelas haviam caído ao mar, no do Gambit eu me sentia dentro de uma vibrante super nova.
Entre as conversas animadas e o som do que parecia ser um quarteto de cordas ao fundo tocando um doce melodia, eu ainda conseguia distinguir os sons das pequenas ondas que batiam no Gambit e o faziam balançar levemente se juntando ao momento e dançando ao som da música.
Eu entendi porque Oliver queria fazer uma comemoração aqui.
Era o nosso lugar.
A Suíça.
Começou como um lugar para desabafar nossos medos e frustrações, para jogar a torrente de mágoas e acusações que mantínhamos presas, um no outro. Para fugir dos julgamentos, para acalmar o coração, ou simplesmente para desabar. Aos poucos se tornou o lugar onde não precisávamos controlar nossas emoções e esconder o que sentíamos.
Um lugar para dois corações culpados redescobrirem o amor que sempre esteve dentro deles.
Presenciou nosso primeiro beijo depois de cinco anos. Nossa aceitação, ainda que relutante de que havia muito mais além da superfície do que permitíamos dar um ao outro.
Nem todos os momentos aqui foram felizes.
Houve dor.
Houve medo e muita mágoa.
E momentos em que eu mesma pensei em desistir.
Mas também houve amor para reconstruir cada pedacinho quebrado de nossos corações. Amor para se ancorar nos momentos de dor. Amor para vencer o medo e limpar nossos olhos nublados pela mágoa. Amor para me lembrar do porquê valia a pena continuar.
A Suíça era um pedaço importante da nossa história, e estaria sempre ali, para nos lembrar de que tudo o que passamos, cada momento de dor, cada dúvida, cada provação tinha sido necessária para o nosso crescimento. E estes momentos — bons e ruins -, os sentimentos aqui compartilhados, ninguém poderia tirar de nós.
— Obrigada. – Encostei a cabeça no ombro de Oliver, pela primeira vez em muito tempo, sentindo o alívio de estar em paz.
— Não por isso, amor. – Um beijo doce estalou em minha testa, seguido de um raspar agudo de garganta.
— Estou há pelo menos dez minutos observando vocês dois de beijinhos e abraços, vocês não se cansam? – A voz brincalhona da Queen mais jovem interrompeu nosso momento romântico, normalmente eu ficaria envergonhada por termos sido pegos em um momento um pouco mais íntimo, não mais, não havia vergonha em amar.
— Nunca. – Oliver e eu respondemos em uníssono e rimos.
— Eu odeio ser a pessoa que os retira desse sonho idílico onde só há vocês dois no mundo, mas essa é uma festa e todos estão esperando por vocês. – minha amiga batia um dos saltos nervosamente, e anotava algo em uma prancheta. Ver Thea Queen séria e compenetrada em algo era incomum — Já estão vinte e oito minutos atrasados.
— Quem é você? A cerimonialista da festa? – Ri, mas para minha surpresa Oliver não acompanhou minha risada, parecendo um pouco culpado.
— Óbvio. – Thea jogou os cabelos perfeitamente ondulados num penteado elegante por sobre os ombros. – Ou você achou que meu irmão seria capaz de fazer tudo isso sozinho? – se gabou – Não vejo a hora de vocês se casarem! – bateu palminhas animadas, e quando dei por mim já tinha seu braço enroscado no meu enquanto me arrastava pelo Gambit — Ollie prometeu que eu poderia organizar todas as festas de momentos importantes. Irei fazer um calendário para encaixar os aniversários e datas festivas, mas precisarei que me avisem com antecedência de pelo menos três meses caso queiram fazer algo fora do calendário. — Tagarelava sem fim. – Noivados e casamentos claramente pedem por uma antecedência maior para o planejamento então eu preciso ser a primeira a saber.
— Você não pode estar falando sério – Thea parou e ergueu as sobrancelhas daquele jeito desafiador que apenas um Queen conseguia, impossível não me sentir intimidada.
— Vocês precisavam me pagar de alguma forma depois de me deixarem apavorada com a sua prisão, ao invés de me contarem que estava tudo orquestrado e que existia um plano brilhante para te tirar de lá e prender Slade. – falou tudo com um sorriso diabólico — Este é o preço. E ainda acho que peguei leve com vocês.
— Oh, Deus! – arregalei meus olhos para Oliver implorando para que ele negasse as palavras de Thea, mas meu namorado parecia apenas culpado.
— Me desculpe. — disse — Minha irmã é uma coisinha manipuladora, mas nós a amamos, certo? – Olhei para minha melhor amiga, seu sorriso era verdadeiro e eu sabia que tudo o que ela queria é que fossemos felizes, mas eu também sabia que ela era um verdadeiro furacão e nos enlouqueceria a cada segundo.
— Na maior parte do tempo. – concedi entre dentes.
— É o suficiente. – Thea deu de ombros e abriu um sorriso ainda maior – Eu ainda preferia a minha primeira oferta feita a Ollie, mas ele foi enfático no não. – Oliver abaixou a cabeça evitando o meu olhar — A de darem meu nome à minha futura sobrinha, imagina “Thea Dearden Queen II” – Pronunciou com reverência e seus olhos brilharam perigosamente. – Na verdade ainda não desisti dessa ideia, então é melhor não aprontarem comigo!
***
Os aplausos me pegaram de surpresa.
Os gritos e assobios de Tommy, entretanto me fizeram rir e relaxar um pouco.
Mas a música, que mudou no exato momento em que chegamos, me surpreendeu novamente. A melodia era doce, e seus versos falavam sobre como era importante nos momentos difíceis na vida ter fé no amor, acreditar que ele é capaz de curar e se permitir abaixar as armaduras envoltas do coração, deixar que ele seja tocado e modificado. Sim, eu sei que era piegas, mas ainda assim, impossível não sentir a nossa história em cada palavra daquela canção, não permitir que a harmonia tocasse meu coração trazendo aquele calor ameno que me fazia me sentir realizada. Institivamente inclinei meu corpo para o de Oliver, e fechei meus olhos apenas agradecendo por esta história — a nossa história, mesmo depois de tantos caminhos errados, tantos tropeços em becos sem saídas, ainda assim fomos capazes de nos encontrar.
De curar um ao outro.
— Só faltaram os fogos de artifício. – falei em seu ouvido.
— Deixamos isso para o gran finale, é claro. – Thea me cortou com o tom sério e profissional, tão diferente da Thea que eu estava acostumada. E aliás, como diabos ela tinha me escutado? — Eu tinha planos de soltar borboletas, mas sei que você é contra a crueldade com animais, e ficaria melhor durante o dia, de qualquer forma. – Deu de ombros, mas seguiu tagarelando — Pensei em vagalumes, suas luzes são lindinhas, porém ainda são insetos e ninguém quer insetos sobrevoando a comida...
— Ela está falando sério? – falei mais baixo dessa vez, aproveitando que Thea estava distraída em criticar um garçom que servia o vinho tinto na taça de vinho branco.
— Thea sempre fala sério quando o assunto é festa, amor. Melhor se acostumar – Oliver foi resoluto — Ou podemos fugir... – Acrescentou ao ver meu rosto em pânico.
— Gosto dessa ideia... Você tem um jet-ski de fuga em algum lugar do Gambit? – brinquei, mas logo me arrependi quando o dedo indicador de Thea apareceu na minha frente.
— Se vocês dois fugirem para se casarem em Vegas, eu irei matá-los com minhas próprias mãos, antes que possam aproveitar a Lua de mel. – Quem falou em casamento? Olhei para Oliver que apenas deu de ombros, mas prontamente desviou o olhar. — Agora sorriam, eu contratei alguns fotógrafos, e não quero vocês com caras assustadas no álbum de família. – Nos empurrou para frente, e quase fiquei cega com todos os flashes. Quantos fotógrafos haviam ali?
— Meu Deus! Thea organizou uma festinha ou a pré festa do Emmy? – Eu estava tonta com tantas luzes. Agradeci a Oliver assim que puxou uma cadeira para mim a mesa, no canto mais escuro.
— Eu me senti a própria Madona quando cheguei! – Minha mãe que estava sentada ao meu lado comentou, animada. – Esbanjei nas poses, não vejo a hora de Thea me mandar as fotos, estou precisando atualizar minhas redes sociais.
Sorri para minha mãe e seu comentário fútil. Fazia tanto tempo desde que pudemos nos preocupar com banalidades assim, havia sempre algo mais urgente que se sobrepunha aos pequenos prazeres da vida.
Sara agora elogiava o vestido azul brilhante da minha mãe e ambas trocavam figurinhas sobre suas lojas favoritas. Então Lance chegou, deixando um beijo em cada uma das “suas meninas” palavras dele. Era estranho pensar que minha mãe era praticamente madrasta de Sara, uma vez que ela estava morando com o senhor Lance.
Oh, Deus! Eu tenho um padrasto.
Como se lesse meu pensamento, Laurel, do outro lado da mesa me lançou um sorriso sem graça, e a coisa toda me atingiu: Eu me tornei meia irmã da ex do meu namorado.
Yep, a vida tem um senso de humor horrível!
— O que está fazendo você surtar? — Oliver chegou de mansinho, sua mão se colocando sobre a minha que batucava incessantemente.
— Como sabe que estou surtando? — perguntei, um pouco na defensiva, mas aceitando o seu toque com propriedades calmantes.
— Seus olhos ficaram estáticos e sua boca se abriu num “O” perfeito. — seus dedos tocaram graciosamente meus lábios, e um sorriso involuntário se formou no dele. — É meio fofo!
Revirei meus olhos, e tentei esconder o sorriso.
— Eu acabei de perceber que Laurel e Sara são meio que minhas meias-irmãs agora que minha mãe e Lance estão oficialmente juntos. – Eu apreciava o fato de minha mãe morar na mesma cidade que eu, mas o resto... — É estranho eu ser meia irmã da sua ex? – verbalizei meu pequeno tormento.
— Não mais estranho do que futuramente eu acabar me tornando cunhado de Tommy. – Oliver fez uma careta engraçada — Dá para imaginar como serão os almoços em família com Tommy Merlyn neles?
— Eu ouvi meu gracioso nome? – O próprio havia saído do seu lugar, e agora tinha suas mãos sobre nossos ombros, a cabeça entre nós como se nos contasse seu próximo plano mirabolante.
— Sim, falávamos sobre pessoas insuportáveis. – Tommy abriu um grande sorriso.
— Eu te amo também, Oliver. – Homens são estranhos. Revirei meus olhos. – E te amo mais agora que se sentaram à nossa mesa, e os garçons podem começar a servir a bebida de verdade ao invés dos drinks de mulherzinha! – Todos riram, principalmente porque só existia uma mesa enorme e todos estávamos nela, e porque Tommy era o único com um drink desses na mão.
— Eles já estão servindo há muito tempo, querido, é você quem pede especificamente pelas bebidas com guarda-chuva e frutas cortadas em padrões fofos. — Sara o respondeu com um sorriso condescendente. – Por que não se senta e para de incomodar os anfitriões? Eu consigo uma taça de champanhe, sem frufru e você poderá se sentar na mesa dos adultos novamente. – subornou.
— Mas elas são bonitinhas. – Tommy fez biquinho, sugando ruidosamente a bebida azul pelo canudinho, e em resposta Sara apenas revirou os olhos para o namorado parecendo impaciente.
— Já conseguiram terminar a mudança? A última vez que conversamos você disse que havia tantas caixas que mal conseguia chegar até a cozinha sem tropeçar em uma. — Mudou de assunto, ignorando Tommy que havia voltado e se sentado ao seu lado.
— Estamos longe disso. – Suspirei ao me lembrar da bagunça que estava em nosso apartamento — Quando penso que acabei com uma caixa, descubro mais três! Acho que Oliver tem mais roupas e sapatos do que eu...
— Que difamação! — se defendeu, mas manteve o tom brincalhão.
— Não deve ser mentira, o homem tem um tipo de terno diferente para cada tipo de audiência, e eu nem vou falar da obsessão dele com gravatas! — um sorriso brincava nos lábios de Diggle — Aproveite essas pequenas férias dele, quando Oliver voltar a trabalhar você vai descobrir um lado do seu namorado que ainda não conhece, Felicity.
— Onde está sua esposa, Dig? Estou sentindo falta de Lyla para colocar as rédeas em você. – vociferou Oliver.
— Astuto, uma das melhores defesas é o ataque. Fui eu quem te ensinou isso. – rebateu.
— E agora, estou usando contra você. – ambos sorriram e ergueram simbolicamente suas taças um para o outro.
— Lyla ficou em casa com as crianças, a pequena Sara se queixou de dor na barriga, e preferimos observar caso tenhamos que levá-la ao hospital. – respondeu a pergunta anterior.
— Espero que ela fique bem. – roguei – Oliver e eu entenderemos se precisar ir, filhos são sempre prioridade.
— Obrigado. – agradeceu — Mas não se preocupe demais, quando eu saí ela já parecia melhor e brincava com sua boneca, que curiosamente se chama Felicity. – semicerrou os olhos na minha direção.
— Culpada! – Lembrei-me daquela noite, meses atrás em que Oliver e eu ficamos de babá dos gêmeos. Eu havia afastado o pensamento tantas e tantas vezes, por puro medo de admitir que queria mais noites como aquela.
Com risadas.
Bonecas e fantasias de super-heróis.
Com Oliver.
E crianças.
Nossas crianças, desta vez, ousei admitir.
Esperei pela pontada de dor, mas ela não veio. Esperei pela culpa, pelas lágrimas ou qualquer indicativo de que aquele pensamento era errado, e que eu ousasse pensar nisto já era uma traição horrenda. Mas não havia nada ali além de uma pequena fagulha de empolgação. Sim, meu coração jamais seria o mesmo depois da perda de Jonas, a dor nunca iria embora e tampouco o amor que eu sentia por ele. Mas diferente de antes quando a mera ideia de seguir em frente machucava e enchia-me de culpa, meu coração compreendeu que era grande o suficiente para aceitar mais amor.
Meu coração estava pronto.
Estaria o de Oliver pronto também?
Meus olhos se moveram para seu rosto, observando-o enquanto falava com Diggle e Lance. Havia um peso sobre seus olhos agora que deixava sua tez mais carregada, e eu sei que sempre estaria ali, porque eu carregava este mesmo peso. Um pouco mais leve agora, desde que o dividi com Oliver.
Mas também havia coisas boas, como as rugas de sorrisos que se aprofundavam cada dia um pouco mais e o brilho sonhador em seus olhos.
Oliver sempre foi um homem austero, ou pelo menos se esforçava para parecer assim, com seus ternos escuros e olhar firme e intransigente capaz de desequilibrar qualquer um no tribunal ou fora dele. Mas ele não era mais assim, ou talvez nunca tenha sido, não realmente, pelo menos não para mim.
Eu via o homem além da postura rígida do advogado carrasco. Que se esforçava para que tudo se encaixasse perfeitamente em sua planilha moral de certo e errado. E esse homem tinha um coração enorme, era corajoso e bom.
Esse homem era o amor da minha vida.
E tudo o que eu queria era fazê-lo absurdamente feliz.
Oliver me pegou o observando, suas sobrancelhas se uniram, seus olhos eram claros em sua pergunta “está tudo bem?”.
— Eu tenho uma pergunta ao casal! — Tommy ergueu a mão animadamente, e agradeci por sua interrupção, ainda não era o momento de dividir aquele pensamento. Esta era uma festa, eu tinha todo o tempo do mundo para conversas mais sérias com Oliver depois.
— Talvez seja hora de cortar o álcool dele, Sara. — Oliver acrescentou.
— Estou trabalhando nisso... – resmungou.
— Começa regrando o meu álcool, e quando percebo já tenho correntes em mim, uma casa no subúrbio e um par de filhos gêmeos. – Tommy tagarelou — Eu me tornaria, Diggle e estranhamente eu não sou totalmente contra a ideia, querida. — Estalou um beijo na bochecha rosada de Sara.
— Yep. — Sara puxou a taça de sua mão — E este é o fim das bebidas bonitinhas para você, ou daqui a pouco estará recitando poemas e pedindo minha mão em casamento.
— Está aí, você pode me pedir em casamento como prêmio pela aposta. – Tommy pareceu exultante com sua lógica — Eu não poderia negar, querida!
— Pelo amor de Deus, Tommy! Isso já tem meses, não vai esquecer essa estúpida aposta nunca?
— Não. — negou — É doentio o que você faz comigo! Me mantem no cabresto sem saber quando ou onde vai exercer todo o poder sobre mim. – reclamou. — Vamos, me cobre logo e me livre desse tormento antes que eu padeça em agonia.
— Como eu posso estar com alguém tão malditamente irritante? – Sara tinha os dedos ambas as têmporas, qualquer um podia ver que ela estava chegando à um limite.
— Porque eu tenho um lindo sorriso. – Sorriu ainda mais abertamente para comprovar o fato — Você me ama tanto quanto eu amo essas bebidas com sombrinhas. — O rosto de Sara se tornou vermelho, mas não de vergonha. — Por que está sem palavras?
— Ok, Thomas Merlyn, você pediu por isso. – Sara se levantou bruscamente, a cadeira arrastou ruidosamente sobre o chão de metal esbarrando no garçom que quase derrubou a bandeja, mas ela parecia simplesmente não perceber. Jogou o guardanapo sobre a mesa. — Aqui está o prêmio que quero pela maldita aposta que venci: Eu quero que você admita que me ama, com todas as palavras. Sem piadinhas. Sem entrelinhas. Sem risinhos. Uma declaração de amor verdadeira, eu quero ver você seu coração na frente de todos os seus amigos. – Todos ficaram em silêncio, até mesmo os músicos que num timing perfeito pararam de tocar. Tommy permanecia atônito. Não havia mais respostas espertas ou brincadeiras que ele pudesse fazer. — Quem está sem palavras agora?
— Sara eu... – engasgou. – Eu...
— Eu vou pegar uma bebida, parece que preciso delas mais do que você! — Laurel se ergueu também e seguiu a irmã, Lance foi logo em seguida, mas não antes de encarar o genro com um olhar ameaçador.
— O que acabou de acontecer? — Tommy perguntou, ainda tentando processar o ocorrido.
— Você acabou de magoar sua namorada sendo um grande idiota. — Dig o respondeu, dando um tampinha não muito amigável nas suas costas.
Tommy olhou para cada um de nós, tentando processar o que havia acontecido. Aquele brilho maroto desapareceu de seu rosto, sua tez expressou preocupação e seriedade quando a ficha finalmente caiu.
— Sara, espere! — Tommy saiu em disparada em direção à ela, tropeçando e derrubando garçons pelo caminho.
— Eles vão ficar bem? Deveríamos fazer alguma coisa? – Voltei minha pergunta para Oliver que recostou um pouco mais sob a cadeira e assumiu um ar pensativo.
— Eu sei que parece que Tommy não leva as coisas a sério, mas ele é verdadeiramente louco por Sara desde a primeira vez que a viu. Eu nunca o vi tão envolvido com alguém, sempre encontrando desculpas esfarrapadas para estar com ela, irritando-a apenas para obter alguma reação... – contextualizou — Não é a maneira mais saudável ou certa, mas quem sou eu para julgá-lo? Nem todos sabem lidar com o amor. – Havia uma leve vergonha no rosto de Oliver, resquícios de um julgamento que ele impunha sobre si mesmo. Brinquei com sua mão, e sorri indulgente para ele.
— Não há porque ser tão severo consigo mesmo, amor. – ele suspirou, amenizando aquele ar severo e voltando a ser apenas meu Oliver — Amar é complicado, lidar com sentimentos ainda mais. Fazemos o melhor que podemos, e é o que importa.
— Você sempre está certa. – pousou um pequeno beijo em minha têmpora. – Eu acho que Tommy ainda não entendeu completamente seus sentimentos. — voltou a explicar — Eu o conheço há tempo demais para saber que na maior parte do tempo ele encobre seus sentimentos com brincadeiras, não porque não é maduro o suficiente para lidar com eles, mas porque tem medo. Medo de se permitir ser vulnerável ao amor. – assenti, parecia perfeitamente plausível — Eu sei que não parece, mas Tommy está tentando. Ele tem alguns problemas com relacionamentos sérios, algo haver com o péssimo exemplo que teve em casa, então ele se sabota. Provavelmente por isso ele é um advogado especializado em divórcios. Talvez lhe falte um pouco de fé.
Me vi pensando em como há sempre mais por debaixo da superfície. As coisas nunca são preto no branco.
Pessoas são tão cheias de camadas e mais camadas de sentimentos. Cada camada escondendo uma emoção diferente, um trauma que pode parecer pequeno aos olhos de outros, mas que trazem dores reais para quem os viveu. É tão mais simples esconder tudo por detrás de um sorriso, ignorar os sentimentos e emoções ruins, não porque é mais fácil mentir para si mesmo, mas porque temos medo de mostrar isso ao outro e ele não ser capaz de nos compreender.
Nós nunca conhecemos uma pessoa realmente, não seu íntimo.
— Por isso amar as vezes é tão complicado. Permitir ser vulnerável diante de alguém, expor seu eu de verdade, medos, sonhos, sentimentos... Expor até mesmo as partes feias e confiar que a outra pessoa irá lhe acolher ao invés de fugir. É um processo longo. — Concordei, Oliver e eu havíamos evoluído muito em nosso relacionamento, mas ainda havia muito mais pela frente.
— Espero que Tommy não se sabote com Sara, ela gosta dele de verdade. – Oliver assentiu.
— Eu também espero, ou terei que mandar meu sócio embora. – coçou a cabeça.
— Não pode estar falando sério! Ele é seu melhor amigo!
— E Sara é uma ótima estagiária! Tommy precisa aprender que ser burro e deixar o amor escapar tão facilmente tem consequências. – Deu de ombros, fingindo não se importar muito. — Que tal pararmos de falar de outro casal e aproveitarmos a distração para fugirmos um pouco? – Olhei para os lados, as pessoas estavam pelo barco a procura de Sara, Enquanto Diggle aconselhava um Tommy que parecia miserável sentado em um canto escuro.
— Mas acabamos de chegar e está acontecendo uma crise! Nós deveríamos ajudar nossos amigos. – pontuei.
— Eles ficarão bem, me deixe ser egoísta por apenas alguns minutos. Há algo que eu quero muito te mostrar. – Suas palavras saíram anormalmente atropeladas, seu pé batia ao chão, e suas mãos estavam inquietas. Tão atípico para Oliver.
— O que está aprontando, Queen? – semicerrei os olhos.
— Apenas me dê a sua mão, Smoak. – Sorri, e sem questionar lhe entreguei mais do que minha mão, meu coração.
***
Enquanto o convés do Gambit estava iluminado, o corredor estreito que levava até a cabine do piloto estava escuro. Segurei firme em Oliver, mesmo já conhecendo cada corredor, cada sala do Gambit como se fosse minha própria casa, deixei que me guiasse.
— Vocês mal chegaram e você já está tentando sequestrar Felicity, Oliver? – Dei um pulo com Thea que acendera as luzes, e apareceu parada a em frente a porta da cabine com os braços cruzados e uma expressão séria no rosto.
— Deus! Você nos assustou, Thea! – reclamei.
— Que bom! Vocês percebem que o conceito de festa confraternização é para confraternizar com todos e não apenas vocês dois? – Oliver e eu rimos feito dois adolescentes pegos pela diretora da escola ao tentar cabular as aulas. Thea por sua vez não riu.
— Bem, nós pensamos que...
— Pensaram que como todos estão preocupados com Sara e Tommy, poderiam escapar para uma sessão de amassos! Acha que eu não percebi que a cabine de comando está trancada? – cortou nossa explicação sem paciência — Não se preocupem, já resolvi tudo com os dois e a festa seguirá perfeita! Tommy prometeu se comportar, e está nesse momento olhando para Sara com sua melhor expressão de cachorro arrependido. Eles irão se acertar logo, não antes de Sara fazê-lo rastejar um pouco se for esperta. – explicou rapidamente — Enquanto a vocês dois, — semicerrou seus olhos cheios de suspeita para nós — Se querem um tempo a sós, se casem e escolham uma ilha deserta para passar a lua de mel, porque hoje vocês dois são meus!
— Acho que fomos sequestrados. – Oliver brincou.
— Eu deveria chamar a polícia? – o acompanhei.
— Engraçadinhos. – Thea revirou os olhos com um leve mau humor — Se querem tanto passear, eu farei um tour com vocês.
— Definitivamente fomos sequestrados, e ela está prestes a começar a sessão de tortura! – Oliver sussurrou em meu ouvido, tentei disfarçar a risada com uma tosse ao receber o olhar zangado de Thea, mas não tive muito sucesso. Para nossa sorte (ou não) Thea estava no modo empolgada demais para mostrar todos os detalhes aos seus reféns, para se importar se estávamos ali de bom grado ou não.
— Vocês precisam ver o bolo! – Thea nos arrastou de volta para a festa tagarelando sobre cada detalhe, até chegarmos à mesa do bolo. Honestamente não sei como eu não o tinha visto antes.
O “bolo” tinha cinco andares.
Branco com intricados arabescos da mesma cor bordados. Pequenos girassóis e margaridas salpicadas de dourado subiam por seu contorno, como uma hera subindo pelas paredes de um castelo, trazendo simplicidade e vivacidade. No topo, um arranjo lindo das flores e folhas formavam um pequeno buquê. Era lindo e delicado, e a nossa cara, apesar do tamanho exagerado.
— Deus! Vocês Queens não sabem fazer nada pequeno? — Observei.
— Você sabe que não, meu amor. – Os lábios de Oliver tocaram minhas bochechas que ficaram quentes pelo duplo sentido.
— Eca! Informação demais. – Thea levou ambas as mãos aos ouvidos e fez uma careta infantil de nojo – Eu vou levar Felicity comigo e mostrar um pouco mais da decoração, enquanto isso irmãozinho, você pode usar suas chaves e ir para cabine mover essa montanha de metal sobre essas águas fundas.
— Mandona! – Oliver reclamou – Vejo você daqui a pouco. – Seus lábios tocaram os meus rapidamente, foi involuntário, mas suspirei assim que o vi se afastar.
— Não fique com essa cara, Oliver está indo para a cabine e não para o outro lado do mundo. – Thea amenizou — Vamos nos divertir um pouco antes que meu irmão volte e tente te monopolizar outra vez, ou eu faleça porque vomitei toda a bile.
— Eu havia me esquecido que você enjoa em barcos. – segui Thea pela festa, mesmo parecendo que ela se afastava dela — Deveria ter insistido com Oliver para que fizesse a reunião em terra firme.
— E deixar de fazer uma festa impecável? – retrucou – Jamais! Há sacrifícios que valem a pena para se atingir a perfeição. Além disso, Ollie foi muito enfático sobre o quanto esse lugar é importante para vocês dois, eu não poderia ignorar isto essa noite. – paramos no parapeito observando as ondas do mar dobrando-se contra o Gambit que fazia seu caminho entre elas — Eu provavelmente terei que fazer o casamento aqui... – Wooah... Casamento? Quem falou em casamento? — Talvez uma cerimônia ao pôr do sol na praia e a recepção no Gambit, as madrinhas usando vestidos em rosa envelhecido, os filhos de Diggle podem levar as alianças e...
— Thea, nós ainda não estamos falando de casamento! – a interrompi antes que escolhesse meu vestido de noiva e planejasse até meus votos.
— Vocês já moram juntos, podiam simplesmente oficializar tudo logo e me tirar da tortura. – Me encarou com seus olhos grandes e um leve biquinho nos lábios. – Por favor, Felicity!
— Você sempre consegue tudo fazendo essa carinha de cachorro sem dono?
— Sim! — exclamou com um grande sorriso — Me diga, vocês pelo menos fizeram alguns planos? Me dê algo para que eu possa trabalhar! Querem um casamento tradicional na igreja ou ao ar livre? Qual o estilo de vestido você sonha?
— Eu estou feliz, Thea! – a parei — Feliz como nunca pensei que fosse ser possível ser, eu não quero me perder em planos ao invés de aproveitar o que Oliver e eu temos. Talvez Oliver me peça em casamento hoje, talvez daqui cinco anos, ou talvez a gente viaje para Vegas e eu volte de lá com uma aliança no dedo. Talvez a gente descubra que casamento é apenas uma formalidade e não precisamos disso para provar o nosso amor. – dei de ombros — Eu não quero realmente pensar sobre isso, porque no final tudo o que importa é que estou com Oliver, e as coisas irão acontecer ou não acontecer no seu devido tempo.
— Eu vou dizer de novo: Vegas só acontecerá por cima do meu cadáver. – Foi enfática, e honestamente? Um pouco assustadora.
— E você, Thea? Roy te faz feliz? – contornei a situação, jogando a bola para ela.
— Aquele moleque idiota? É o responsável por todos os meus suspiros ainda mais idiotas. – Suspirou de um jeito realmente idiota e apaixonado. — Tem sido um desafio, de um jeito bom, sabe? Eu sempre tive Oliver cuidando da minha bagunça, mas agora eu sou realmente dona do meu nariz, eu tenho um trabalho e moro de aluguel com meu namorado num apartamento minúsculo, mesmo que eu tenha dinheiro o suficiente na minha conta bancária para comprar o prédio inteiro.
— Isso é bom, você está amadurecendo e tomando as rédeas da própria vida.
— Sim. – seu tom era orgulhoso — E lavando a minha própria roupa. – exibiu as unhas curtas e sem esmaltes com uma felicidade diferente — Quem diria? Depois de tantos erros, eu nunca pensei que isto seria possível.
— Nós duas encontramos o nosso caminho, Thea. – a abracei. – E é isso o que importa.
— É, eu sei. – ela secou uma lágrima — Uau. Eu critiquei Oliver por te monopolizar, e aqui estou eu, te monopolizando!
— Melhores amigas são para isso. – Dei de ombros — Mas acho que agora já é hora de você parar de se preocupar com a minha felicidade, e olhar um pouco mais para a sua. Que está logo ali, te observando de longe. – Roy estava escorado, com um pequeno sorriso e olhando para Thea. – Vá. – comandei.
— Te vejo na hora dos fogos, daqui há exatos quarenta e dois minutos, não se atrase! — disse, antes de sair correndo em direção ao namorado.
Fiquei ali, com os braços apoiados na balaústra, sentindo a maresia bater contra meu rosto, observando a majestosa lua cheia. Um corpo quente me trouxe para si, mãos fortes e grandes deslizaram pela extensão dos meus braços espantando o frio e trazendo calor.
— Será que agora posso sequestrar minha namorada? – a voz era rouca e baixa ao meu ouvido e Oliver terminou sua frase com uma pequena risada, mas o tom levemente divertido não escondia que havia algo além.
Me virei dentro do seu abraço.
— De acordo com sua irmã, você pode por quarenta e dois minutos.
— Acho que é o suficiente. – Ele parecia sério.
— Você parece nervoso. – Percebi ao observá-lo mais de perto, a tez estava tensa e a respiração errática. Levei uma das minhas mãos ao seu rosto e seu semblante suavizou um pouco – Você tem parecido nervoso desde que chegamos aqui. Há algo errado?
— Não há nada errado, mas há algo que preciso fazer e preciso de você. – soou misterioso. Sua mão se colocou sobre a minha, senti sua pulsação acelerada e a pele fria.
— Oliver. – avisei.
— Felicity. – Devolveu no mesmo tom – Confie em mim.
Suspirei.
Era tão fácil para Oliver me desarmar.
— Sempre.
E dessa vez fizemos nosso caminho até a cabine da nossa Suíça sem nenhuma interrupção.
***
— Uau! – Não contive a admiração assim que entramos na cabine do Gambit.
O cheiro dos girassóis misturava-se ao frescor salgado da maresia criando um perfume singular, a luminosidade era parca, mas aconchegante, graças as diversas lamparinas acesas que tremeluziam junto ao leve balanço do barco, desenhando sombras de nós dois nas paredes.
— E eu pensando que as surpresas haviam acabado. – virei-me para Oliver, para agradecê-lo — Oh. – Me vi incapaz de encontrar as palavras.
— Elas apenas começaram, amor. – Oliver estava ali, em meio a luz bruxuleante e girassóis, sob um dos joelhos. Sobre a mão uma delicada caixinha de couro preto estava aberta, eu mal conseguia ver o anel que repousava ali, meus olhos estavam embaçados por causa das lágrimas acumuladas.
— Oh, meu Deus! – Minha mente estava vazia, meu coração descompassado e cheios de tantos sentimentos dominava todos os meus sentidos — O que eu faço?
— Primeiro respire. – Oliver respondeu calmamente, mas com um sorriso vacilante no rosto. Oh, eu estava matando o pobre homem!
— Certo. – respirei profundamente várias vezes soltando o ar pela boca, mas a calma não veio.
— Agora segure a minha mão. – continuou a ditar.
— Ok. – minha mão trêmula encontrou a de Oliver, quente e firme. Como um navio sem rumo em meio a tempestade que encontra um porto seguro para ancorar. Aos poucos meu pobre coração descompassado encontrou a sintonia perfeita para bater.
— Melhor? – perguntou.
— Sim.
— Felicity Megan Smoak. – meu coração acelerou mais uma vez, mas mantive minha mão junto a dele, meus olhos nos seus, acalmando-me — Antes de te conhecer, eu tinha um plano. Eu sabia quem eu queria ser. – respirei tentando controlar as lágrimas tolas, que agora desciam livremente pelas bochechas – E então você apareceu na minha vida, meus olhos se abriram para você e apenas você. Eu me via constantemente seguindo-a com o olhar, fugindo das outras pessoas e sempre esbarrando em você. Meu coração que só conhecia um ritmo para bater, descobriu novas formas de bater, novos sentimentos e emoções. Eu nunca tinha verdadeiramente se apaixonado antes, era incrível, mas o desconhecido pode ser assustador. E eu era um tolo arrogante que achava que sabia o que era o certo, eu permiti que minha mente sobrepusesse aos meus sentimentos. Eu fechei meus olhos e calei meu coração. Voltei minha mente para meu plano. Eu pensava que se o seguisse perfeitamente, eu teria uma vida perfeita. Eu estava tão errado, amor. E eu a perdi, porque não quis reconhecer que estava errado. – Cada palavra sua era dita de coração, eu às sentia, desde à alegria à tristeza.
— Oliver...
— Deixe-me terminar, amor. – pediu solenemente — Eu sei que a vida não tem sido exatamente bela para nós, mas eu prometo a você, Felicity, aonde quer que esta vida nos leve, meus olhos nunca deixarão de segui-la e nunca mais calarei meu coração. Eu estarei ao seu lado, em cada momento, seja bom ou ruim. Eu renuncio a todos os meus planos, e coloco meu futuro em suas mãos. Porque eu sou seu, e hoje eu peço para que seja minha. Seja minha esposa, Felicity.
Sorri e chorei ao mesmo tempo.
Ajoelhei-me ao chão aproximando-me dele. Precisei respirar algumas vezes profundamente. Depois de tudo o que passamos eu já conhecia a profundidade dos sentimentos de Oliver por mim, ele nunca parou de demonstrá-los ou verbaliza-los. Mas suas belas palavras me trouxeram um conhecimento novo. Eu finalmente compreendi sua mudança, do Oliver calado e taciturno para este Oliver, que não mais guardava seus sentimentos.
O amor nos transforma.
Cada pequena parte de nós é alterada, quando este sentimento se instala. Não percebemos inicialmente, as mudanças são pequenas e gradativas. Mas um dia, você estará no seu lugar favorito, com a sua pessoa favorita. E ele estará de joelhos, te pedindo para você ser dele, mesmo que de todas as formas possíveis, você já seja. Mas nada disso importa porque tudo o que você consegue pensar é em como o amor te trouxe para este momento perfeito, com esta pessoa que é perfeita para você.
E tudo faz sentido.
Mesmo as coisas ruins.
Mesmos as brigas bobas por uma calcinha furtada.
Tudo valeu a pena por causa deste único momento.
— Eu te amo, Oliver. – Finalmente consegui falar. Soei rouca e afobada, e funguei um pouco por causa das lágrimas. — Desde a primeira vez que o vi, parecendo tão inalcançável e importante em um terno azul marinho. Eu o amei mesmo quando não devia, mesmo quando não queria. Mesmo quando você quebrou meu coração. Eu o amei. – havia lágrimas nos olhos de Oliver e nos meus. — E mesmo tentando ignorar este sentimento, mesmo quando eu o enterrei bem fundo e me neguei a aceitar que ele estava lá. Você o trouxe de volta ainda mais força, querido. — toquei-lhe o rosto, acariciando com carinho — Cada parte do meu coração te ama, Oliver.
— Isso foi um sim? – meu riso saiu embargado pelas lágrimas.
— Sim, Oliver Jonas Queen. – Falei com todas as letras, porque aparentemente Oliver precisava ouvi-las — Eu aceito me casar com você.
— Aceita?
— Sim. – repeti.
— Sim? – perguntou novamente, mas dessa vez havia apenas um riso feliz em sua voz.
E então nos beijamos.
Um beijo com sabor salgado das lágrimas, mas que parecia ínfimo perto do gosto de pura felicidade que explodia em nós dois. Eu não sei dizer se fui eu quem se jogou sobre Oliver, ou se foi ele quem me puxou para seus braços. Apenas sei que no fim, estávamos ambos no chão, meu corpo enroscado no dele enquanto rolávamos sobre pétalas de girassóis.
— É um girassol. – Exclamei depois que finalmente encontramos uma posição confortável. Oliver deitado de costas, meu corpo de lado com a cabeça sobre seu peitoral, e uma das pernas sobre suas coxas. Ergui minha mão para cima e observei melhor o anel incomum que reluzia sob a luz quente das lamparinas. Meu sorriso se tornou ainda maior, mas não maior que o de Oliver.
— Eu não poderia imaginar nada diferente em sua mão – deixou um beijo dentro da parte interna do pulso. – Eu deixei o design louco quando descrevi nos mínimos detalhes exatamente o que queria, e para quando queria. Ele tentou me empurrar solitários convencionais, mas não eram perfeitos. – Eu conseguia imaginar perfeitamente Oliver levando para a joalheria uma lista com todos os detalhes, descrições e medidas do que queria. — Queria que fosse especial, queria que toda vez que você olhasse para esse anel, lembrasse de que eu estarei ao seu lado, limpando as nuvens escuras e trazendo raios de sol para sua vida.
— Quem diria que Oliver Queen seria tão romântico e poético? – minha mão brincou com a sua. O peitoral de Oliver subiu e desceu e seu suspiro espalhou-se em meus cabelos.
— Eu tinha planejado te pedir em casamento na praia durante o pôr do sol, com o Gambit de fundo. – comentou despretensiosamente — Mas demoramos um pouco mais do que eu planejava, então tive que improvisar tudo aqui na cabine.
— Oliver? – Ergui o tronco para olhá-lo melhor — Você planejou uma festa de noivado sem me consultar?
— Estou te consultando agora. – piscou os olhos inocentemente.
— Oliver! – cutuquei seu peitoral. – Todos já, sabiam?
— Não, embora Thea tenha desconfiado ao me ver pesquisar algumas pedras para o anel. Isto— beijou meu dedo onde estava o anel – É apenas para nós dois, amor, ninguém precisa saber ainda. – Relaxei um pouco — Eu apenas queria estar em nosso lugar favorito quando eu a pedisse em casamento. O fato de ter champanhe, um bolo de cinco andares e todos os nossos familiares e amigos íntimos é apenas um bônus.
Oliver me distraiu com beijos, e isso foi o suficiente para afastar, momentaneamente que fora da nossa cabine, nossa festa de noivado estava acontecendo.
***
Eu tinha muitas pétalas de girassóis em meu cabelo.
Thea não deixou de apontar o fato, assim que retornamos. Além de evidenciar que estávamos três minutos atrasados e que isso bagunçou todo o seu cronograma. Quanto mais Thea amadurecia, mais agregava traços da personalidade de Oliver à sua. Deus me ajude! Eu mal conseguia lidar com um Queen controlador, imagine dois!
Inventei uma desculpa e arrastei Oliver até minha mãe, na esperança que o deslumbramento de Donna com ele me desse alguma paz.
Ledo engano.
— Tem pétalas de girassóis em todo o seu cabelo. – Apontou assim que me viu. – Como foram parar aí? – Perguntou com uma leve risada enquanto distraidamente retirava algumas. Desviei do olhar cumplice de Oliver para que ele não nos deletasse, mas isso não impediu de sentir meu rosto quente e do enorme sorriso surgir em meus lábios com a mera lembrança de como foram parar lá.
— Me enrosquei em um arranjo. – Me apressei na desculpa, e imediatamente seus olhos tornaram-se analíticos.
Minha mãe nos olhou cuidadosamente por exatos cinco segundo antes de emitir o gritinho animado que quase perfurou meus tímpanos.
— Oh meu Deus! – Ela pulava e batia palmas — Vocês finalmente estão noivos! Eu estou tão feliz por vocês dois... – Fomos esmagados por seu abraço apertado.
— Mãe! A gente não está.... – Tentei assim que seu aperto permitiu que eu falasse, mas Donna apenas ergueu uma das sobrancelhas me desafiando a mentir. – Como você poderia saber? – Me rendi. – Nos viu por dez segundos.
— Eu soube em cinco, querida. – afagou meu rosto – Seu sorriso era pura luz e Oliver está com a postura orgulhosa, como se tivesse ganhado o maior prêmio da loteria. O que de fato ganhou, não é querido?! – piscou para ele.
— Sim. – Oliver beijou meus cabelos. – Eu prometo que irei fazê-la feliz. – Revirei meus olhos para toda a sua doçura, se continuássemos assim até o final da festa todos saberiam da mudança em nosso status de relacionamento.
— Mãe, a gente ainda não quer...
— Entendo não quererem contar nada agora, mas eu vou querer ver o anel mais tarde, quando você parar de escondê-lo dentro do decote do vestido. – Oliver riu ruidosamente.
— Eu disse que era um péssimo lugar para escondê-lo, amor.
— Apenas me diga, é tão lindo quanto o esboço que você desenhou, Oliver? – fiquei atônita.
— Minha mãe sabia? – perguntei incrédula, como diabos, Donna Smoak conseguiu esconder um segredo daqueles? A mulher tinha menos controle na língua do que eu! Revisitei mentalmente todas as nossas conversas, mas ela nunca tinha dado nenhuma pista.
— Eu precisava da benção dela. – Oliver minimizou, desviando o olhar parecendo encabulado. — Eu não disse quando o pedido aconteceria.
— Você não está contando a história toda, Oliver. – Donna rechaçou e senti o corpo de Oliver mais rígido ao lado do meu, parecendo acanhado — Você sabe que Oliver entrou em contato comigo, ele achava importante que conversássemos, que colocássemos tudo em pratos limpos. Disse-me que você precisava se acertar com o seu passado para que pudesse finalmente pensar num futuro. – Era estranho pensar naquela Felicity, tão desiludida na vida, tão propensa a acreditar que tudo daria errado que sequer lutava com tudo de si. – Quando eu o questionei o porquê estava fazendo tudo aquilo, ele ficou mudo por um tempo e então finalmente me disse que queria que seu coração fosse inteiro novamente, que apenas quando ele conseguisse juntar todos os pedacinhos quebrados, poderia pedir você para ser dele. – meu coração, que não pensava ser possível, se apaixonou um pouco mais por Oliver ao ouvir aquilo. – Eu não aceitei imediatamente, eu tinha minhas desconfianças. Mas depois que nós duas nos acertamos, Oliver veio novamente falar comigo. Frente a frente, ele pediu que eu o perdoasse por tê-la ferido no passado, e perguntou se eu lhe daria minha benção para, quando o momento fosse certo, ele a pedisse em casamento.
— Mas isso já tem meses, nem sabíamos se eu ficaria livre e nós dois ainda não estávamos juntos há tanto tempo. Era tudo tão confuso e incerto. – Encarei Oliver ainda surpresa.
— Mas eu já sabia que queria você na minha vida, como minha esposa. – disse com simplicidade — Se eu for honesto comigo mesmo, no momento em que te vi na minha porta, coberta de sangue e mentindo para mim, eu já sabia que não a deixaria ir embora da minha vida outra vez.
— Não é fofo? Eu quero tanto abraçar vocês de novo. – E assim ela fez. Eu amava isto em minha mãe. Ela não se escondia. Ela dizia o que queria, e simplesmente fazia sem perder tempo com questionamentos. Talvez sua espontaneidade a tenha colocado em apuros algumas vezes, mas só tínhamos uma vida para viver, não fazia sentido nos privarmos do que queríamos. — Vocês merecem toda a felicidade do mundo, meus bebês!
— Obrigada, mãe. – agradeci e me senti tão bem ao vê-la feliz por nós. Okay, talvez não fosse uma ideia tão ruim que todos soubessem que estávamos noivos...
— Me avisem quando contarem à Thea, estou ansiosa para começarmos os planejamentos! – Novamente deu pulinhos animados.
— Oh, Deus me ajude com Thea! Ela não...
Não fui capaz de terminar a frase.
Tão pouco fui capaz de dizer o que veio primeiro: o som de um estouro ou o Gambit se inclinando fazendo com que caíssemos e deslizássemos pela proa. A única coisa que tenho certeza, é que os braços de Oliver se colocaram protetoramente ao redor do meu corpo antes que este atingisse o chão.
— O que foi isso? – perguntei, ainda atordoada. Meus olhos buscavam algum sentido na imagem de caos ao nosso redor, tentando compreender o que estava acontecendo. O Gambit havia recuperado o eixo, embora ainda estivesse pendendo um pouco para a direita. As mesas e cadeiras estavam todas amontoadas em um lado do barco e algumas caíram ao mar, o bolo jazia espatifado no chão assim como os estilhaços de taças e garrafas quebradas. Numa olhada rápida vi que minha mãe segurava na grade de segurança e Lance já avançava entre a bagunça para chegar até ela.
— Algo está errado. – Oliver estava tenso, mas ainda assim me ajudou a levantar e nos juntamos aos outros, nos protegendo na parte coberta do barco em que havia menos dano. — Preciso que todos peguem os coletes enquanto eu tento estabilizar o barco, vou tentar chegar à costa, não estamos tão distantes. – começou a comandar – Lance, por favor entre em contato com a guarda costeira e avise o que está acontecendo. Roy e Thea ajudem a distribuir os coletes, Diggle pode...
O segundo estouro veio ainda mais forte virando o barco novamente para o lado oposto e dessa vez ele não voltou a se estabilizar. Fui jogada contra uma parede com força, um zumbido agudo penetrava em meus ouvidos e a fumaça escura e densa preenchia todo o lugar, nublando a visibilidade e tornando a respiração difícil.
Engatinhei pelo chão entre os escombros chamando por Oliver entre uma tosse e outra.
— Sara! – Escutei o grito desesperado de Tommy e o segui até o convés. Parei em pânico observando atônita o caos. Ali a fumaça se dispersava um pouco dando uma visão maior do estrago feito. Fuligem cinza caía do céu sobre os destroços do que um dia foi a nossa festa de noivado secreto. Uma parte do Gambit havia se partido e afundava diante dos meus olhos.
— Você viu a Sara? – Tommy agarrou meus braços, seu olhar era pura agonia e as lágrimas caíram assim que balancei minha cabeça em negativo — Ela estava aqui nesse momento, e então... – Seus olhos migraram em direção a parte destruída do Gambit. — Eu acho que ela caiu.
— Tommy, não pense o pior. – tentei consolá-lo — Nós vamos achá-la.
— Não, não vamos porque ela estava bem ali e caiu. Eu a vi. – Seu olhar estava fixo naquela direção — Eu nem me desculpei por ser um idiota, eu sequer disse que a amo! E eu preciso dizer que a amo...
— Tommy... – eu não sabia o que dizer.
— Eu vou dizer que a amo! – Seus olhos ganharam um lampejo de luz. Seu semblante permanecia estranho, eu nunca tinha visto Tommy Merlyn daquela forma, nem mesmo em seus raros momentos de seriedade, ele nunca tinha parecido tão determinado.
— Oh, meu Deus! — Gritei assim que o vi correr e se jogar ao mar — Alguém ajude! Socorro!
— Felicity! — Senti um alívio imediato quando os braços de Oliver me acalentaram — Você está bem? – suas mãos tocavam meu rosto com gentileza, os olhos minuciosos analisavam cada parte de mim — Machucada em algum lugar?
— Eu estou bem, Oliver. – Apressei em acalmá-lo — Mas Tommy não, ele pulou no mar porque acha que Sara está lá. – Oliver lançou seus olhos preocupados para o mar escuro e revolto onde era impossível enxergar qualquer coisa ou pessoa.
— Felicity, preciso que vá com Diggle! – pediu com a voz calma, mesmo que tudo em seu rosto e sua postura fosse o contrário disso. – Ele vai manter você e os outros em segurança, eu vou tentar levar o Gambit para mais perto da costa.
— Não. – bati o pé. – Isso é insano, o Gambit está afundando e você quer tentar salvá-lo?
— O Gambit não está afundando, Felicity. – Seus olhos tornaram-se mais escuros – Estão afundando o Gambit.
Uma simples troca na ordem das palavras que mudava tudo.
— Slade? – perguntei com um nó na garganta, e Oliver apenas assentiu — Mais um motivo para eu ficar com você. – enrolei meus braços ao redor do seu corpo.
— Não temos tempo para isso, amor. – suas mãos se colocaram ao redor do meu rosto com doçura e havia tanta aflição em sua voz e suplica em seus olhos que quase cedi — Por favor, por favor. Vá com Diggle. – Pediu.
— Eu faria qualquer coisa por você, amor. – Oliver soltou a respiração, quase aliviado. – Exceto isto. Eu não sou capaz de deixar você.
— Felicity... – Meu coração doeu ao escutar novamente a sua suplica.
— Eu não estou deixando você! Eu não estou indo para lugar nenhum, não sem você. – protestei com veemência — Nós estaremos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e... Nas festas e nos desastres de barco. – Ri nervosamente. – Eu aceitei ser sua esposa, Oliver. – Ergui meu anelar e coloquei o anel que estupidamente escondi, bem ali. – Você não vai se livrar de mim tão fácil.
Oliver fechou os olhos fortemente e assentiu, mesmo que seu semblante fosse pura dor.
— Confia em mim?
— Com a minha vida. – Oliver torceu o nariz para minha escolha de palavras.
— Segure firme em mim, Felicity.
E eu segurei enquanto ambos caminhávamos em direção ao caos ao invés de fugir dele, com a certeza de que não importava qual seria o nosso fim, estaríamos juntos.
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