Guilty Pleasure
25 Capítulo 23 - Losing Hope
Notas iniciais
Sometimes I'm beaten
Sometimes I'm broke
'Cause sometimes this city
Is nothing but smoke
Is there a secret?
Is there a code?
Can we make it better?
'Cause I'm losing hope
Tell me how to be in this world
Tell me how to breathe in and feel no hurt
Tell me how 'cause I believe in something
I believe in us
(Us – James Bay)
♥
Felicity Smoak
Eu amava a clareza em seus olhos, não importava o quanto os meus estivessem temerosos e cheios de dúvidas, eu sempre era capaz de encontrar segurança nos dele. Eles eram como uma visão da nossa Suíça em uma manhã clara. Nada além de um céu azul brilhante e o mar extenso e calmo a minha frente, eles me ofereciam todas as respostas para qualquer pergunta do meu coração.
Mas neste momento?
Não havia claridade.
Havia apenas um escuro e profundo azul petróleo de uma noite sem estrelas, e um mar revoltado engolindo todas as respostas.
— Oliver? – Repeti o seu nome pelo o que deveria ser a quinta vez, mas ele permanecia perdido em algum lugar, longe demais em sua própria mente para que eu pudesse alcança-lo.
Meu coração estava pesado, minha mente conjecturando como, em poucos segundos, Slade havia conseguido transtorná-lo desse jeito. Ergui a mão tocando-lhe o rosto, sua inércia, os olhos fixos e desfocados e a pele fria me preocuparam. Afundei meus dedos na aspereza dos fios da barba, empregando mais força do que em uma carícia normal. Esperando que meu toque pudesse aquecê-lo, acordá-lo daquele transe e trazê-lo de volta para mim.
— Aonde quer que você esteja, eu preciso de você aqui, meu amor. – Falei com precisão. Esperei alguns longos segundos ainda buscando em seus olhos algum resquício do meu Oliver. Até que finalmente sua mão, fria e um pouco tremente se colocou sobre a minha, o olhar desceu cálido para o meu, amenizando um pouco as sombras que manchavam o azul límpido e engoliam o homem que eu tanto amava.
— Me desculpe. – A voz veio rouca e vacilante. Perdi seus olhos, quando os mesmos se agitaram ansiosos analisando tudo a volta de nós. Assimilando com desconfiança a silhueta do juiz, parado a poucos passos de nós, parecendo entretido em alguma conversa que parecia corriqueira, mas que pelo torcer desconfiado dos lábios de Oliver e a pequena veia em sua têmpora esquerda que parecia ainda mais proeminente, não havia nada bom. — Vem. – Oliver abaixou nossas mãos, unindo-as com aquela naturalidade que ainda me surpreendia, seguindo a direção oposta à que Slade tinha ido.
Caminhando para longe do tribunal.
— Mas o júri... – Pontuei.
— Temos tempo. – Sua resposta mecânica me deixou em dúvida, apertei sua mão mais forte e tentei frear o medo que esperava apenas por um descuido meu para tomar o controle. Oliver correspondeu tarde demais ao meu aperto, eu já sabia que algo não estava certo.
Ele ainda não estava completamente aqui comigo.
Apesar dos nossos passos apressados que eu não fazia ideia para onde nos levariam, ergui meus olhos para seu rosto, tentando lê-lo. Oliver disse que tínhamos tempo.
Eu conhecia sua fama, ainda quando eu era apenas uma adolescente Oliver Jonas Queen já galgava seu caminho por entre os corredores deste tribunal e fazia seu nome. Naquela época, ele era considerado por muitos um jovem de futuro promissor, e hoje, depois de tanto empenho e trabalho duro era visto como um advogado imbatível. Thea não mentira quando dissera que ele era o melhor advogado de Starling. Olhando para ele, eu via o que todos viam. A ferocidade em seus olhos, sua postura inabalável, os traços bem marcados de seu rosto que adquiriam uma forma mais crua e determinada. Para qualquer outro aquela era a imagem de um homem com o qual não se devia travar batalhas, mas para aqueles que conheciam seu coração, como eu conhecia, a verdade fluía tão naturalmente quanto o ar fluíam para meus pulmões.
Eu via além da sua casca.
Eu via o homem.
O medo em seu coração.
Nós não tínhamos tempo.
Puxei o ar, tentando sincronizar meus passos rápidos com as lufadas constantes de oxigênio, e com o que eu descobrira. Eu precisava me acalmar, por mais difícil que fosse, precisava de foco para repassar porque a pequena mentira de Oliver parecia tão errada para mim. Eu não estava chateada com sua mentira branca, seria estupidez me focar em algo tão bobo quando havia coisas mais importantes para lidarmos, coisas como um maldito julgamento que decidiria o resto da minha vida. Eu estava acostumada a me apoiar em Oliver, dividir meus medos, que muitas vezes eram seus próprios.
Num estalo compreendi o que estava errado.
Oliver não estava dividindo seus medos comigo. Ele apenas colocara aquela máscara, fingindo que estava tudo bem, enquanto lidava com tudo. Sozinho.
— Precisamos parar. – firmei os pés no chão e me recusei a segui-lo cegamente. Oliver sempre teria minha confiança, mas não assim, não quando ele parecia tão perdido. Meu coração deu uma pequena fisgada ao notar que Oliver continuou seguindo, apenas percebendo que eu não estava ao seu lado quando nossas mãos se soltaram. Ele parou, virando-se para mim. — Você está bem? – adiantei minha pergunta antes que Oliver tomasse a frente como sempre tendia a fazer, e começasse a ser prático. — O que está acontecendo, Oliver? Converse comigo. – Pedi, ansiosa por qualquer coisa que ele pudesse me dar, qualquer indicativo de por onde eu poderia começar. E tão logo eu o tive, desejei não tê-lo. Vê-lo tão perdido e se esforçando tanto para fingir que tudo estava bem e sob controle, doía em mim. – Você não precisa aparentar ser forte para mim, amor. – coloquei a mão sobre seu ombro, nivelando os nossos olhos, e o vi quebrar.
— Nada disso faz sentido. – Vi o homem, desnudo de sua armadura. Oliver já não parecia o onipotente advogado, mas um homem normal, com suas falhas e inseguranças.
— Fale comigo. – desci meu toque por seu braço e busquei por sua mão — Vamos dar um jeito. Juntos. – ressaltei — Me explique, como Slade conseguiu isso. – Oliver pressionou os olhos juntos e balançou a cabeça, os dentes rangendo forte num escape de ódio. Eu via em seu rosto que ele estava em uma luta interna, tentando ordenar seus pensamentos ao mesmo tempo em que refletia sobre qual decisão tomar.
Seu corpo tombou contra a parede, seus ombros se curvaram para frente, como se o peso que carregava sobre eles fosse físico. Quando ele finalmente abriu os olhos, quando ambas as suas mãos se enrolaram sobre a minha, num toque necessitado, senti mais do que o aperto firme, senti aquela odiosa folha de papel que ele havia amassado.
Ele a dava para mim.
Corri os olhos pelos jargões jurídicos e palavras complexas demais, organizadas em vários parágrafos para dizer algo simples.
— Eles estão suspendendo meu direito de advogar por subornar uma testemunha para cometer perjúrio. – Ele explicou. Eu havia lido o mesmo no odioso papel, e ainda que suas palavras reforçassem o que estava escrito, elas não faziam sentido.
— Você não fez isso. – Não era uma pergunta. Eu conhecia a índole de Oliver, ele não agiria assim, e ainda que esta fosse uma remota e absurda opção, ele teria falado comigo antes. Estávamos nisso juntos.
— Eu não o fiz.
— Então diga que estão todos errados! – perdi a paciência, tardiamente me lembrando que estávamos no corredor. Abaixei meu tom, e isso pareceu concentrar um pouco mais minha raiva. — Slade não pode ter tanto poder assim, suas palavras não podem ser tomadas arbitrariamente como verdades. Eu posso não ter um diploma em direito, mas eles precisam de provas para te acusar desta besteira!
— Gostaria que fosse assim tão simples... – Seu olhar se afastou, encarando o chão. Por que encaravam o chão? – Eles têm provas, Felicity.
— É impossível. – Dei um passo à frente, colocando ambas as mãos em seu rosto. Me recusando a aceitar não ver em seus olhos o que Oliver sentia — Você disse que não subornou ninguém...
— Felicity, eu... – antes que Oliver pudesse completar a frase, dei um passo para trás, tonta e desorientada, quando a luz de um flash quase me cegou.
— Essa foto ficará perfeita na capa do jornal de amanhã. – pisquei várias vezes até que o rosto da voz feminina entrou em foco. — Já imagino até a manchete “Amor bandido. Advogado se apaixona por cliente e transforma suas visitas em conjugais.” – elucidou com um sorriso grande demais e que vazia meu estômago embrulhar — Todos amam uma trágica história de amor, não amam? Não é sempre o amor a ruína de um grande homem? – Oliver desferiu um olhar de puro ódio à mulher.
— Cuidado, Susan. – avisou, interpelando seu avanço para cima de mim, seu corpo colocando-se protetoramente a minha frente, ao mesmo tempo em que a desafiava. Eu não precisava ver seu rosto para saber que era mais do que feroz – Não é sempre a ganância a ruína de um jornalista medíocre? – escutei um riso baixo, quase cruel vindo de Oliver – Eu quase tenho pena, porque quando eu acabar com você, terá sorte se conseguir permissão de usar um lápis para escrever seu nome no guardanapo.
— Você não tem tanto poder quanto pensa, Queen.
— E você acha que ajudar Slade está te dando algum poder? Eu posso ser aquele que vai colocar o pé para que você tropece, mas Slade é quem irá te empurrar e depois sorrir enquanto você está no chão. Ele não tem aliados. Ele tem pessoas estúpidas demais fazendo o que ele manda, e quando elas não servem mais, ele apenas se livra delas. – entoou o aviso — Pensando bem, talvez eu apenas sente enquanto assisto ele destruir você, vai ser muito mais divertido.
Não sei dizer se Susan sentiu medo ou se tinha alguma resposta ácida para Oliver. Assim que ele acabou com ela, seus braços fortes me puxaram na direção oposta. Eu já não sabia para onde íamos ou como as coisas ficaram malucas daquele jeito.
— O que foi isso?
— Não podemos fazer isso aqui. – Oliver olhava de um lado para o outro do corredor, uma das mãos esfregava fortemente a testa. – Ouvidos demais.
Eu estava cansada e queria respostas, mas olhando para o nervosismo de Oliver eu decidi que minhas perguntas podiam esperar. Dessa vez eu me permiti ser levada pelos corredores e salas que davam em outras salas, até que finalmente paramos em uma espécie de sala de descanso. A pergunta sobre como Oliver conhecia a pequena saleta, e sabia que ela estaria vazia ficou presa em minha garganta, algo mais urgente piscava na minha mente.
— Era aquela jornalista? A que você chamou de ratazana esfomeada e sem escrúpulos? – Perguntei assim que Oliver fechou a porta. Eu me lembrava vagamente de seu rosto, meses atrás, na porta do prédio de Oliver quando alguns jornalistas me encurralaram, ela parecia a mais desesperada de todos. — Por que ela parece uma ratazana que conseguiu pegar o queijo desarmando a ratoeira?
— Porque ela o fez. — Frustração e um ódio frio saiu de sua voz, mas havia muito mais disso em Oliver. Eu notei na forma que ambas as mãos se apertavam sobre o couro do sofá, quase o rasgando. — Eu pensei que eu era a ratoeira, mas acontece que eu sou a porra do queijo!
— Toda essa analogia com comida está revirando meu estômago. – Não que houvesse alguma coisa ali dentro, meu nervosismo já cuidara disso.
Oliver suspirou, controlando seu temperamento.
— Sente-se um pouco, eu pegarei água. – não temos tempo para isso. Meu cérebro me dizia enquanto um irritante relógio com contagem regressiva fazia questão de apitar na minha mente. Oliver sentou-se ao meu lado entregando-me o copo com água fresca. Alguém deveria estudar as propriedades calmantes da água, ou talvez fosse Oliver ao meu lado. De todo modo eu já me sentia melhor. — Susan Williams é a testemunha que está me acusando de tê-la subornado. – assenti, mesmo ainda sem entender como aquilo era possível — De acordo com o testemunho dela, eu a paguei para que não contasse que ela viu você atirando em Joe Wilson.
— Como? – quase cuspi a água em Oliver — Isso sequer faz sentido, ela nem faz o tipo de quem estaria naquela festa. – diminui meu tom, podíamos estar aparentemente sozinhos em uma sala fechada, mas Oliver havia me deixado paranoica o suficiente para desconfiar até das paredes. — E nós dois sabemos que ela não poderia ver algo que eu não fiz. Como ela ousa mentir tão descaradamente?
— Na verdade faz todo o sentido, ela provavelmente está com Slade desde o começo. Ele está jogando com ela, e eu sequer percebi que ela era uma peça... – coloquei o copo com metade da água na mesinha ao lado. Oliver mantinha a cabeça abaixada, seus olhos escondidos de mim, ombros caídos. A fachada do advogado imbatível havia desaparecido. — Eu fui um idiota precipitado e ferrei com tudo. – Seus olhos vieram para os meus, um pedido de desculpa neles. Não resisti, eu precisava tocá-lo, tirar seja lá qual fosse a culpa que ele carregava.
— Não estou acompanhando, Oliver. – coloquei minhas mãos sobre a dele, deixando meus dedos se encaixarem nos espaços entre os dele.
— Se lembra da primeira vez que te levei no Gambit? – dessa vez meu estômago reagiu, não com o enjoo, mas com as estúpidas borboletas que o assolavam sempre que eu visitava alguma memória bonita com Oliver.
— Nos beijamos. – o canto de seus lábios se ergueu em um sorriso que não tocou seus olhos. – Mesmo depois de cinco anos e montes de ressentimento guardados, para meu desespero você ainda fez meu coração acelerar como da primeira vez.
— Você está me distraindo, amor. – Eu queria mandar a realidade para o inferno e continuar a distraí-lo.
— Desculpe. – pedi, sabendo que não era disso que precisávamos agora — É apenas mais forte do que eu, sempre que penso em nós, em como eu voltei para sua vida tão pronta para te odiar e você nem sabia o porquê, e como chegamos até aqui, juntos, mesmo depois de... de Jonas.
— Você fez meu coração voltar a bater depois de ficar inerte por tanto tempo após sua partida e.... — — Merda. Não temos tempo para isso, me prometa que irá me distrair depois, quando tudo isso acabar. – Depois. Ignorei toda a incerteza que permeava nosso futuro, e apenas prometi.
— Prometo. – Seus olhos opacos ganharam um novo brilho, também ignorando que aquela era uma promessa vazia — O que vai acontecer até eu poder te distrair? – compartilhamos um sorriso, e fiquei contente por isso. Apesar de estarmos no meio do olho do furacão, ainda éramos capazes de pequenos momentos como este, momentos que nos mantinham sãos — Como essa coisa com Susan chegou a este ponto e como nos afeta?
— Aquela vez no Gambit, ela tirou fotos nossas. – franzi o cenho sem compreender o que ela pretendia com isto. — Ela veio até meu escritório, seu caso estava ganhando visibilidade na mídia, e eu apenas paguei para que ela não publicasse as fotos. Eu assinei um cheque.
— E agora ela está usando o cheque como prova de que você a pagou para ficar calada sobre o suposto crime que ela me viu cometer. – deduzi — Por que não diz a verdade? Ela o subornou, e você cedeu ao suborno.
— Eu não posso dizer que a paguei para não revelar ao mundo sobre nós, não quando eu entrei nesse tribunal de mãos dadas com você dizendo foda-se para todos os jornalistas lá fora nos fotografando.
— Oh, merda. – percebi o beco sem saída em que nos encontrávamos.
— Estou temporariamente fora do seu caso até provar que ela está mentindo. – não havia emoção na voz de Oliver.
— O que está dizendo? Como eu posso entrar num julgamento em poucos minutos sem o meu advogado? Slade vai acabar comigo! – a pressão em meu peito ameaçava me sufocar, qualquer mero avanço que eu tinha feito em me acalmar, caía por terra e meus pensamentos convergiam à apenas um resultado: eu seria condenada.
— Eu preciso que fique calma, eu já mandei uma mensagem para Tommy. — Oliver pediu.
— E como diabos seu amigo vai ajudar?
— Ele já está no prédio, e a partir de agora ele será seu advogado. – Me ergui de uma só vez, meu ato derrubando o copo de água que eu nem me lembrava que estava comigo.
— Ele faz divórcios! Como ele me defenderá de um assassinato? Isso não me parece certo. Deve existir alguma lei que me dê algum tempo para me preparar. – me agarrei aquilo.
— Tecnicamente a audiência deveria ser adiada até você ter um novo advogado com tempo hábil para preparar sua defesa. – Olhei para Oliver, também de pé a minha frente.
— Ótimo. – Por que ele não começara com a solução fácil? — Faremos isso e você terá tempo para provar sua inocência e então me defender. – decidi — Eu não vou entrar lá sem você, Oliver. – Bati o pé firmemente ao notar que Oliver não parecia inclinado a concordar comigo. Não era apenas o fato de que Oliver já estava preparado, e que com isso ganharíamos algum tempo, mas ele era minha rocha, eu não poderia fazer isso sem ele.
— Eu também odeio essa ideia, amor. — Dei um passo para trás, indignada de perceber que Oliver ainda insistiria naquela loucura. Suas mãos em meus braços me detiveram — Mas pare e apenas me escute, eu não sei qual é a jogada de Slade, mas eu tenho certeza de que ele acredita que eu irei usar isso para adiar seu julgamento. Ele espera que eu faça isso. Talvez até mesmo esteja contando com isso. Eu não sei porque ele quer ganhar esse tempo, mas eu não acho que vale a pena esperar para descobrir. – Eu sabia que Oliver estava certo, mas estar sem ele no julgamento não me parecia uma boa ideia. — Precisamos desse julgamento, precisamos acabar com isto hoje. Eu não quero dar mais tempo a Slade para pensar ou planejar um novo modo de nos destruir. Essa é nossa jogada surpresa.
— Nossa jogada surpresa é uma merda. – Oliver riu sem humor, suas mãos que antes seguravam meus braços desceram por eles até chegarem as minhas mãos.
— Eu sei, e eu sinto muito por tudo o que terei que fazer. — Por que ele se desculpava com antecedência? — Confia em mim? – Eu já tinha respondido essa questão antes, Oliver então modificou a pergunta. — Confia em nós?
Olhei para nossas mãos unidas.
Para o amor naquele toque singelo que parecia nos tornar mais fortes.
— Sim.
***
Olhei para trás mais uma vez buscando calma em seus olhos e suspirei assim que os encontrei sentindo a tensão fluir para fora do meu corpo, balancei minha cabeça e me forcei a olhar para frente, me sentindo quase pronta. Respirei fundo puxando em minha memória a lembrança de um lugar calmo.
Azul.
Céu azul.
Mar azul.
Olhos perturbadoramente azuis.
Me imaginei no Gambit com Oliver e sorri.
Mas o irritante e ritmado tec, tec não combinava com a nossa versão da suíça.
— Dá para ficar parado? – Lancei um olhar enviesado para o culpado que acabara de estragar meu ponto de paz. Tommy Merlyn estava sentado ao meu lado, seus espessos cabelos escuros bagunçados contrastavam com a barba perfeitamente aparada, seus olhos normalmente risonhos hoje pareciam circunspectos, tensos e cinzentos.
— Sim. – esticou ambos os braços sobre a mesa, apertando a caneta entre seus dedos com força suficiente para estilhaça-la. Ergueu os ombros deixando a postura ereta, e manteve o olhar no pequeno púlpito a nossa frente. — Não. — A postura caiu, a maldita caneta voltou a batucar. Eu desejei toma-la dele e quebra-la ao meio, o porquê de tanto ódio à um objeto inofensivo eu não fazia ideia, mas quanto mais Tommy batucava, mais o ódio crescia. Seus olhos viraram-se para mim, um brilho diferente reluzindo neles. – Diga a Sara que ela foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. – falou com seriedade.
— Diga você mesmo. – Revidei com um bufo.
— Oh, não vou viver por muito tempo se eu ferrar tudo. – soltou — Ollie vai me matar com as próprias mãos, se alguma coisa acontecer a você. — Começou a bater a caneta ainda mais rápido. Estávamos indo bem, por que diabos você tinha que voltar a batucar a caneta? – E eu sou muito bonito para morrer tão jovem...
— Dica número um, não diga a pessoa cuja a liberdade está em suas mãos que você vai ferrar tudo, minutos antes do julgamento dela. – Elevei um dedo bem na cara dele. — Dica número dois, fale com Sara e diga que a ama, depois case-se com ela e seja feliz. – Seus olhos se arregalaram quando elevei o segundo dedo — Dica número três, pare de bater essa maldita caneta. – Não lhe dei tempo de reagir, em um momento ele tinha a caneta em sua mão, e no outro, o objeto de satã estava devidamente preso entre meus dedos, refém do meu ódio.
A sensação de controle era maravilhosa.
Eu poderia destruí-la com minhas próprias mãos.
— Você precisa se acalmar, antes de cometer um crime na frente de tantas testemunhas, Felicity. – Tommy me alertou — A pobre caneta não tem culpa de nada.
— Tem razão, o culpado é a alma irritante que não parou de batuca-la. – Voltei meus olhos para Tommy, erguendo a caneta com a ponta fina em direção ao seu pescoço. Ele ergueu as mãos, inofensivo.
Mas Tommy não tinha nada de inofensivo.
— Abaixe isso, Felicity. – pediu, a voz em um sussurro de aviso.
— Com medo, Merlyn? – Não escondi o sorriso.
— Sim. Você tem no rosto a expressão muito impiedosa para alguém que parece tão doce, é perturbador. Eu deveria chamar Ollie para você, acho que ele é o único capaz de te domar. – Eu ri.
— Não conte com isso.
— Onde está Ollie, afinal? – perguntou, obviamente tentando me distrair, e obviamente usando a palavra mágica para conseguir.
— Está logo ali... – Virei meu corpo na cadeira, mas percebi que Oliver já não estava ali, há duas fileiras de nós. — ... Atrás.
— Ahá. – Tommy comemorou vitorioso ao tirar minha arma — Peguei! Vou deixar isso... – Não escutei o que Tommy dizia, estava ocupada demais procurando Oliver pelo tribunal, e depois disso ocupada demais por vê-lo tão longe conversando com Caitlin e Ronnie. Por que ele estava tão longe? Por que pareciam tão preocupados? — Vai cair da cadeira desse jeito, Felicity. – Quase realmente caí da cadeira quando Tommy sussurrou ao meu ouvido. — O que estamos fazendo? Você é boa em leitura labial? Eu acho que Ollie está dizendo para Caitlin que ela está uma gata. – Fuzilei o bastardo com os olhos, era clara sua tentativa de me irritar, ah... Como eu gostaria de ainda estar com aquela caneta...
— Eu gostava de você. – Resmunguei, voltando a me sentar corretamente na cadeira e olhar para frente, me forçando a não me preocupar com Oliver conspirando com os outros dois, ele logo voltaria para seu lugar, não perto o suficiente, mas ainda ao alcance dos meus olhos.
— Todos gostam de mim, até que me conhecem.
— E então eles te odeiam? – perguntei num tom falsamente inocente, mas isso não atingiu Tommy.
— Oh, eles odeiam. – Seu rosto se iluminou com aquele ar convencido — Odeiam o quanto eu sou inodiável.
— Isso nem mesmo é uma palavra. – resmunguei.
— Mas ainda assim é verdade, não é? – Lançou-me um sorriso de canto de menino, isso aliado aos doces olhos cinzentos e os cabelos bagunçados, o faziam parecer com um pobre filhote abandonado. Eu queria adotá-lo e afagá-lo. É. O bastardo era mesmo inodiável. E antes que eu pudesse pensar em uma maneira de remover seu sorriso, o meu próprio foi removido.
— Todos de pé para recebermos a juíza Nyssa Al Guh. – Olhei para Tommy que se ergueu, a expressão de cachorrinho sendo substituída pela séria e nervosa, que não combinava nenhum pouco com ele.
Todos se ergueram, e eu os imitei tardiamente.
Me concentrei em apertar minhas mãos enquanto os avisos eram feitos. Eu já os conhecia de cor, mesmo nunca tendo pisado em um tribunal. Mas já tinha passado por eles em minhas extensas reuniões com Oliver, a esta altura eu conhecia tão perfeitamente cada etapa de um julgamento que eu já poderia atuar em um episódio de Suits.
Primeiro a acusação faz sua sustentação oral. Então vem a defesa. As testemunhas são ouvidas e ambas as partes tem direito à interroga-las. E por fim, o acusado. Também conhecida como euzinha, Felicity Muito Encrencada Smoak. Em breve Felicity muito condenada Smoak.
Nos foi permitido sentar, e a Juíza deu a palavra a acusação, e Laurel Lance tomou o tribunal como seu, com desenvoltura.
Minhas mãos suavam por cima da mesa e mantive meu olhar na promotora.
A cada palavra dela.
A cada olhar lançado para o júri e como ela os enfeitiçava, os convencia de que eu era uma assassina fria, eu me via perdendo um pouco do controle da minha vida. Aquele futuro tenebroso e sem esperança dançava ao meu redor, como uma nuvem escura que bloqueia o sol no último dia livre de verão.
Laurel Lance era minha nuvem escura.
Eu sempre tive uma certa antipatia por Laurel quando mais jovem, eu a vi poucas vezes na casa dos Queens, em um ou outro jantar. Ela estava sempre elegante, conversando com Moira e Robert de igual para igual, ou adornando os braços de Oliver como a namorada perfeita. Ela nunca foi rude comigo, embora tão pouco percebesse minha presença ao lado de Thea, afinal éramos apenas crianças perto dela, que já era uma mulher feita. Havia nela uma leve arrogância, próprios de uma pessoa mais velha, acredito. Hoje eu percebo que qualquer desgosto meu era mais por ciúmes infantis motivados por uma paixão platônica, do que propriamente por algo que ela pudesse ter feito para mim. Ela nunca me atacou. Nunca me destratou. Ela apenas era a bela mulher mais velha que tinha o coração do homem que eu amava. Eu não entendia o sentimento naquela época, mas eu a odiava por ter algo que eu queria.
Existe um abismo gigantesco entre não gostar de alguém por causa de suas atitudes e escolhas, que revelam muito sobre seu caráter (e muitas vezes a falta dele), e simplesmente não gostar por ela ter algo que você quer. No primeiro caso é desculpável, ninguém é obrigado a gostar de alguém mau-caráter. No segundo caso a culpa é tão somente sua. Culpa das suas inseguranças e alguma falta de maturidade, mas nunca do outro.
Laurel nunca teve culpa por ter o coração de Oliver.
Mas eu tinha culpa por tê-lo roubado dela.
Eu sentia a diferença ao ouvi-la me acusar.
Mesmo depois que Laurel descobriu que Oliver, a traiu comigo, quando ela ainda era sua noiva ela não me olhou dessa forma. Não com esse olhar vazio, frio que atingia minha espinha e me fazia esconder meus tremores. Neste momento ela não era apenas a noiva traída, ela era a promotora de justiça, mas ainda assim, eu não conseguia diferenciar as duas. Ela queria me punir?
— ... A verdade inexorável é que Felicity Smoak atirou em Joe Wilson. E em virtude deste ato, ele morreu. E isso faz dela uma assassina. – segurei a respiração — A lei é clara neste ponto.
— Você ouviu o que Laurel disse? – virei-me para Tommy que estudava algumas folhas soltas sobre a mesa, meu tom era baixo o suficiente apenas para seus ouvidos, mas meu coração que martelava no peito ao escutar a palavra feia, esse poderia ser ouvido do outro lado da sala.
— Felicity, ela está fazendo apenas seu trabalho. – Tommy se remexeu inquieto na cadeira ao meu lado, mas seu rosto permanecia inalterado. Como era possível que ele não percebesse que seu ataque era algo mais? Pessoal até? Eu não poderia estar errada, poderia?
— Está a defendendo? Ela disse que eu sou uma assassina! – parte de mim sabia que eu insistia nessa discussão apenas para me desviar das palavras de Laurel — Você tem que fazer algo. É seu trabalho fazer algo!
— E é o trabalho dela te acusar, e honestamente Oliver teria sido muito pior. — pausou — Se ele tivesse seguido Laurel para a promotoria, como ela queria, ele teria sido destruidor. – Aquela nova informação me distraiu.
— Oliver nunca me disse que considerou a promotoria. – Olhei novamente para Laurel, eu bloqueei suas palavras, mas observei seu domínio, sua postura. Eu poderia facilmente ver Oliver ali, com ela.
— Ela esteve por anos sobre Oliver, alimentando a ideia. Esse não é um trabalho fácil, a pessoa precisa ter sangue frio, e você precisa não levar para o pessoal. – foi enfático na advertência.
— Laurel está levando para o pessoal. – cruzei os braços, e falei entredentes.
— Não. Não está.
— Está sim! – Olhei para Laurel mais uma vez, para a forma que ela andava pelo tribunal com seus saltos finos batucando em sincronia com suas palavras, sem nenhuma vez fazer contato visual comigo. Sua voz mantinha um tom calmo, estranho para alguém que estava acusando. Eu esperava dedos sendo apontados na minha cara, um tom mordaz em sua voz.
— Mulher teimosa. – Tommy revirou os olhos.
— Não sou. – refutei. Tardiamente percebendo que minha negação provava seu ponto.
— Sim, é. – sorriu — Ollie me avisou, que mesmo depois de anos você ainda teria algum resquício de ciúmes de Laurel.
— Como ele se atreve? Eu não tenho ciúmes dela! – Ok, talvez eu tivesse apenas um pouco, mas jamais admitiria. Que namorada não teria ciúmes da ex-noiva? Olhei por sobre os ombros, para Oliver encostado a porta, ele me viu, me lançou um pequeno sorriso que acalmou meu coração tolo.
— Oh, estou ansioso para as festas depois que você e Ollie se casarem... Você me deu mil novas maneiras de atormentar meu melhor amigo. – Tommy comentou — O que: nenhuma resposta esperta? Se eu soubesse que para deixa-la calada eu só precisava falar de casamento... Você vai fazer meu amigo suar para colocar um anel no seu dedo, não vai?
Fiquei muda.
Não deveria estar pensando em casamento numa hora como essa, mas graças ao Tommy eu ouvia sinos de igreja ao invés do martelo da juíza.
— Agora é a vez da defesa. – Nyssa anunciou.
— Salva pelo gongo. – Sorriu – Mas em breve voltaremos a este assunto, e só para saber, eu fico ótimo em bege e gravata azul Tiffany, prefiro flores brancas na lapela – piscou para mim — Agora é hora do show.
Tommy se ergueu abotoando o paletó.
Tommy era bom, mas claramente não era Oliver e não estava tão bem preparado, apesar de seguir todas as suas anotações. Mas ele merecia crédito por ter todo aquele charme, vi todas as mulheres do júri e boa parte dos homens suspirarem quando ele lhes deu um nada inocente sorriso de menino. A única a não cair na sua lábia era Nyssa, que parecia um pouco entediada. Mas bem, até onde eu sabia, Tommy não fazia o seu tipo.
Essa primeira parte do julgamento era a parte fácil. Assistir a acusação e após, a defesa fazerem as considerações preliminares. Não havia nada de novo nas palavras de Tommy, eu reconheci as palavras de Oliver ali, a alegação de legitima defesa, a forma como ele se apoiava na narrativa de que eu era uma pessoa boa, que foi vítima de uma situação ruim e que agiu como qualquer outra pessoa agiria para se proteger.
Eu me sentia um pouco mal por saber que eu estava mentindo. Eu não havia sofrido uma tentativa de estupro e agressão, eu tentava me consolar dizendo que eu estava dando voz a narrativa de Thea, e talvez até mesmo de tantas outras mulheres que jamais teriam a coragem de chegar aos tribunais.
Mas ainda assim, eu estava mentindo.
Minha culpa por mentir foi logo amenizada quando a oitiva das testemunhas começou. Pela regra a acusação viria primeiro, e logo de cara eu tive que segurar o asco enquanto Slade Wilson fazia seu teatro de pai desolado pela perda do filho, enumerava qualidades que o faziam parecer quase um santo. Tommy tentou faze-lo escorregar uma e outra vez, antes de aceitar a realidade de que seria quase impossível desacreditar um juiz com tantos anos de prática em manipulação. Com Susan a história foi um pouco diferente, ela obviamente estava bem treinada por Slade, mas não era esperta o suficiente para não cair em algumas armadilhas. Como quando Tommy a questionou sobre que roupa eu vestia naquele dia, e ela respondeu que não se apegara a estes detalhes. Tommy apenas debochou “uma jornalista que não se apega aos detalhes da história... Isso não me parece certo. Mas se bem que estamos vivendo na era da Fake News, não me surpreende...”
E a coisa continuou nesse nível.
Quando chegou a hora das testemunhas de defesa, eu já estava um pouco mais tranquila. De alguma forma, Tommy conseguira aliviar um pouco da tensão e me deixar mais confiante. Ray, meu chefe estava lá, e atestou sobre minha boa índole e responsabilidade, não que eu merecesse muito seus elogios, afinal eu praticamente tive que abandonar meu emprego por causa do processo. Ele era um anjo por não ter me demitido ainda.
A coisa começou a ficar séria quando Roy foi inquerido, e voltamos ao assunto central. A história de Roy era exatamente a minha, e ele foi bem consistente em seu testemunho, mas Laurel não deixou passar em branco o fato de que Roy não era exatamente um menino de ouro, com suas passagens pela polícia e aquele leve ar de insolência próprios, eu vi o júri hesitar quanto a confiabilidade de Roy.
Mas quando chegou a vez de Tommy, ele conduziu com maestria o testemunho de Roy para fora daquela zona cinza, fazendo o júri se concentrar em outras coisas mais importantes.
— Diga-me, Senhor Harper, o senhor foi um dos primeiros a chegar na festa e ainda circulou bastante por ela, estou correto? — Tommy o questionou, riscando algo na caderneta que trazia em suas mãos.
— Sim. – confirmou – Muitos amigos meus estavam lá.
— E o senhor viu a nossa outra testemunha na festa onde aconteceu o crime? A senhorita Susan? – O olhar de Roy chegou até a jornalista, e ele franziu o cenho analisando-a dos pés a cabeça.
— Eu não a vi. – Roy afirmou com convicção — E ela não faz o tipo de quem estaria naquela festa. – acrescentou.
— Não fazia? – era difícil não rir do deboche nas palavras de Tommy. — Por que não? – Perguntou inocentemente, e o vi riscar novamente a caderneta.
— Protesto Meritíssima, isso é irrelevante para o caso. – Laurel levantou a voz, num tom de quem já estava enfarada.
— Negado. – a juíza disse, sem hesitar – Responda a pergunta do Sr. Harper.
— Porque ela é do tipo vadia presunçosa. – Todos seguraram o riso com suas palavras, algumas pessoas no júri tossiram para disfarçar — E aquele era o tipo de festa para vadias regulares. — Explicou- Do tipo que não é fresca e que não anda com o nariz em pé, como se sentisse cheiro de cocô de cachorro. Além disso ela é velha, se veste como a minha mãe.
— Eu não sou velha! – Susan protestou, erguendo-se da cadeira ao lado de Slade. – Nem tenho idade para ser mãe de um garoto já adulto! – Opa, isso aí era uma mentira deslavada.
Desviei meu olhar para trás, e percebi que a expressão de Oliver era de pura satisfação. Toda a cena de Roy com Susan tinha sido premeditada? Seu pequeno sorriso me dizia que sim.
— Você se olha no espelho? Eu sei que existem cremes e plásticas, mas nenhum deles faz milagre. – elucidou, dessa vez as pessoas não disfarçaram as risadas — Esses pés de galinha não são fáceis de esconder.
— Esse é meu namorado! – Escutei Thea aplaudir ao fundo, ganhando um meio sorriso de Roy, que até inflou o peito.
— Ordem! – Nyssa bateu o martelo três vezes. Agora sim, eu oficialmente me sentia num episódio de Law and ordem. — Senhor Harper, não é necessário este tipo de comentário depreciativo sobre a aparência de outras testemunhas. – advertiu.
— Eu não estava depreciando, senhora juíza. – falou candidamente — Eu apenas estava dizendo que a dona Susan não tem a mesma faixa etária do pessoal que estava na festa. Mas isso a vossa excelência já sabe, é só olhar os documentos dela e vamos ver uma distância de umas duas décadas. – Susan, bufou, mas não deixei de notar a forma como a mão de Slade segurava seu braço, obrigando-a a se sentar e seu olhar assassino a dizia para se calar.
Roy terminou seu testemunho, e pelo olhar do júri, eles estavam bem confusos. Neste ponto eu diria que não tinham certeza sobre a minha culpabilidade. De certa forma isso era bom, Slade não havia os contaminado, mas ao mesmo tempo isso significava que estava tudo em minhas mãos.
— Senhorita Felicity Megan Smoak. Sua vez. — Nyssa chamou meu nome indicando a cadeira que Roy havia deixado vazia.
Engoli em seco e aceitei a mão de Tommy que me ajudou a levantar, uma vez que meu corpo não parecia concordar com a ideia. Não posso culpá-lo, eu me sentia como um porco sendo guiado para o abate.
Antes de me sentar, procurei por aquele ponto de paz.
Eu sabia que seria quase impossível me acalmar com tantos olhos em mim, eu precisava de Oliver. Eu tinha treinado tantas e tantas vezes esse momento com ele. Oliver disse que durante a audiência seria diferente, mas tudo o que eu precisava fazer era me concentrar nele, fazer dele meu porto seguro.
Mas meu porto seguro não estava ali para que eu ancorasse.
— Onde está Oliver? – perguntei num sussurro para Tommy, que apenas olhou para trás e pareceu surpreso ao não encontrar o amigo.
— Ele deve ter ido ao banheiro. – Disse as palavras vazias apenas para me acalmar, porque ambos sabíamos que Oliver jamais sairia do julgamento por algo tão bobo. Ele estava com problemas? Tentei me lembrar da última vez que o vi, estava perto da porta com Caitlin e Ronnie, ele sorriu para mim. Reparei que nenhum deles estava ali também, e um sinal de aviso se acendeu na minha mente. Que diabos Oliver estava aprontando?
— Pronta para fazer o juramento, senhorita Smoak? – A juíza interrompeu meus pensamentos.
Estiquei a mão sobre a bíblia e prometi dizer a verdade, nada mais que a verdade. O que na minha opinião era bem tolo e preconceituoso, e se eu fosse agnóstica? Budista? Muçulmana? Além disso, não era suposto que o Estado fosse laico?
Sentei-me na cadeira e calei meus pensamentos, não era hora para divagações socioculturais a respeito do nosso sistema judiciário.
Respirei fundo. Eu pensei que estava preparada, mas estava enganada. Uma coisa era contar aquela história, olhando para os olhos de Oliver, onde havia segurança e bondade. Outra coisa bem diferente era repetir aquela história tão bem ensaiada, sentada naquela desconfortável cadeira de madeira, tendo os olhos de dezenas de estranhos me encarando e me julgando. Estranhos que teriam uma parte crucial no que seria do meu futuro.
Tommy fez bem seu papel, me fazendo perguntas simples e diretas. Relaxei um pouco quando percebi que a caderneta que Tommy consultava era de Oliver, ele a usava em nossos treinamentos, então não houveram surpresas.
Responder Tommy foi a parte fácil.
Entretanto quando ele se afastou e Laurel avançou em minha direção, apenas o som de seus saltos já me fizeram estremecer. Me tornei uma bagunça total. Eu me senti novamente aquela garota, intimidada pela bela mulher mais velha. E a parte irracional em mim só conseguia pensar que Laurel iria se vingar.
— Responda a pergunta, senhorita Smoak. – Escutei a ordem de Nyssa, e só então notei que estava bem longe do tribunal, preocupada com minhas suposições e sofrendo por antecipação.
— Desculpe, o que disse? – mordi a parte interna da bochecha, numa tentativa de impedir que a ansiedade me controlasse ao mesmo tempo em que me punia pelo meu lapso.
— Como você se declara, senhorita Smoak? – Laurel repetiu. Senti a força de um olhar em mim, cravando-se como uma adaga afiada. Slade Wilson sequer piscava. Seus olhos escuros eram como dementadores, sugando a alma das pessoas, quanto mais tempo eu ficasse presa neles, mais rápido eu morreria.
Procurei novamente por Oliver no tribunal, encarei a porta, esperando que ele entrasse por ela a qualquer instante. Mas não aconteceu.
Foquei em Laurel e sua pergunta.
Eu poderia me declarar culpada e ceder ao jogo de Slade, acreditar na promessa que ele me fez quando me encurralou no banheiro. Eu poderia acabar com tudo agora, neste instante e garantir que sua sede de vingança estaria suprida e ele deixaria as pessoas que amo em paz.
Ao pensar nas pessoas que eu amava, instantaneamente o rosto de Oliver apareceu a minha frente. Seu pedido ainda fresco na minha memória.
Confie em nós.
E fácil assim, eu soube o que deveria fazer.
— Inocente. – me vi falando – Eu sou inocente de todas as acusações.
— Não somos todos? — Laurel repetiu, me fazendo engolir em seco. Ela estava bem perto, olhos de águias na sua presa. No caso, eu. — Me responda uma coisa, Felicity, — o uso do meu primeiro nome me deixou alerta — Você matou ou não matou Joe Wilson?
— Foi um acidente, eu estava me defendendo e... – comecei a explicação.
— Estava mesmo? Eu conheço vítimas de agressões, senhorita Smoak, elas sempre odeiam o agressor, desejam que ele sofra, e as vezes num lapso de ódio, elas apenas... – Laurel soltou um murro sobre a bancada de madeira a minha frente, fazendo com que eu, e muitos outros saltássemos em nossas cadeiras com o pequeno estrondo inesperado.
— Protesto. – Tommy se ergueu atropelando Laurel no meio da frase — Indução. E um pouco de dramatização também por parte da Senhorita Lance.
— Concedido. — a juíza acatou — A testemunha já se declarou inocente e narrou todos os eventos, não há porque fantasiar e colocar outra história na boca dela e confundir o júri, promotora. – Laurel torceu os lábios.
— Tudo bem. – ergueu as mãos cedendo. — Vamos nos manter simples, então — sorriu- Você atirou em Joe Wilson, sim ou não?
— Sim, mas...
— E depois de atirar você fugiu? – jogou a nova pergunta antes que eu pudesse esclarecer a anterior.
— Eu fugi, porém antes eu...
— E a primeira pessoa que procurou foi um advogado? Correto?
— Sim, Oliver e...
— Um pouco calculista para quem estava tão atordoada quanto você diz, não acha? Atirar e fugir. Isso me soa como um atestado de culpa.
— Não, mas é que...
— Sem mais perguntas, Meritíssima. – E simples assim, acabou. Laurel me deu as costas depois de arrancar de mim respostas diretas, e sem nenhum contexto.
— O tribunal vai entrar em um pequeno recesso enquanto o júri delibera sua decisão. Vocês serão chamados tão logo eles entrem em consenso, o que pode demorar um bom tempo. – Nyssa anunciou, e de repente todos estava movendo-se. Eu permaneci sentada naquela cadeira dura, observando todos partirem e remoendo os últimos minutos, me perguntando se teria sido diferente se Oliver estivesse aqui.
Não me lembro de me levantar.
Não me lembro de ser guiada até uma saleta reservada para a defesa na lateral esquerda do tribunal, mas me lembro de procurar pelo rosto de Oliver em todas as partes.
— Onde no inferno, está Ollie? – A pergunta nada graciosa veio de Thea, instintivamente ignorei seu “Ollie”, o apelido me lembrava Laurel, que me lembrava como ela havia me massacrado na audiência.
— Eu não faço ideia. – respondi entredentes — Mas quando encontra-lo eu vou me assegurar... – Minha ameaça ficou na presa na garganta. Eu sabia bem que a primeira coisa que eu faria ao encontrá-lo, seria ir para os seus braços.
— Oliver não te abandonaria em um momento assim. – Tommy falou, eu nem havia notado que ele estava ao meu lado.
— Mas abandonou! – deixei minha frustração correr naquelas palavras.
— Eu estou aqui, e Diggle, e Thea. Sua mãe. Oliver se certificou de que cada pessoa importante em sua vida estaria aqui, para esse momento. Para que você não se sentisse sozinha. Estamos aqui com você, por você.— Suspirei e olhei a minha volta. Curtis também estava lá, até mesmo Ray viera para depor ao meu favor. Como Oliver conseguiu entrar em contato com eles, era um mistério para mim.
— Eu acho que você está me superestimando. – envolvi meus braços ao redor de mim mesma. Eu estava feliz por ter minha família comigo, mas parte de mim odiava a ideia de que tantas pessoas que importavam pra mim estivessem aqui, me vendo desabar.
— Todo mundo aqui te ama, loirinha. – Tommy afagou meus cabelos — Isso é um fato.
— Mas porque ele não está aqui? – minha insegurança tola transpareceu.
— Ele te ama, desesperadamente, todo mundo sabe disso. – meu nariz começou a coçar, e senti os olhos úmidos. Apertei a mandíbula e enrijeci, usando cada parte de mim para lutar contra a ameaça das lágrimas. — Se ele não está aqui, é porque estava fazendo algo por você. – Thea disse, encostando a cabeça no meu ombro e ambas suspiramos.
Eu sabia que ela tinha razão, mas ainda assim, eu gostaria de ser egoísta e tê-lo apenas para mim.
Meu estômago doeu quando algumas horas depois fomos chamados de volta ao tribunal para aguardarmos. Mesmo sabendo que não o encontraria ali, meus olhos percorreram a tribuna em busca daquele azul cor de oceano capaz de me acalmar.
Eles não estavam lá.
Mas outros estavam.
Olhos verdes, negros, castanhos e até mesmo azuis... Mas nenhum deles tinha o tom correto.
Todos diziam para eu ser forte e me davam palavras de consolo, diziam que tudo daria certo.
Eu me afastei deles.
Das suas vozes e suas suposições.
Dos olhares de pena, e dos sorrisos forçados que tentavam preencher o ambiente austero com o mínimo de esperança. Fugi dos abraços de compaixão, por mais sinceros que fossem, eu não os queria. Foi difícil no começo. Eu era o assunto em cada rodinha. O centro de todas as preocupações.
Mas aquela parte do meu cérebro a que gostava de alfinetar meu coração, não deixara de notar que havia algo de constante em Oliver mais uma vez não estar presente em um dos meus piores momentos.
Balancei a cabeça me livrando daquele pensamento tolo.
Eu sequer teria uma chance se não fosse por Oliver. Eu me meti nessa confusão, foi minha escolha assumir um crime por outra pessoa. Quando eu estava a meio metro da porta, prestes a inventar uma ida ao banheiro apenas para fugir, a porta se abriu.
E aquilo que tanto procurei, finalmente estava aqui.
— Oliver! – Eu queria abraça-lo e perguntar por onde esteve. Queria empurrá-lo por se atrever a voltar agora, tão perto do fim. E enquanto meu orgulho e minha necessidade guerreavam, Oliver tomou a decisão por mim.
Ele me abraçou forte, e me manteve assim, presa em seus braços. Eu amava o cheiro da sua pele, amava seu calor acolhedor e a familiaridade do som das batidas de seu coração ressoando contra o meu. Eu estava bem. Me agarrei ainda mais firme aquele instante de normalidade, sabendo que em breve ele acabaria.
Eu apenas não esperava que ele fosse arrancado de mim tão brutalmente.
— Me perdoe por não ter ficado. – pediu com sinceridade, e eu imediatamente assenti. Isso já não tinha mais importância, o júri retornava a sala e nós fomos chamados para ocupar nossos lugares.
Ignorando a regra, Oliver sentou-se ao meu lado. Minhas mãos tremulas procuraram abrigo nas dele, igualmente nervosas.
— Não fique nervosa, amor, eu estou aqui com você, e sempre estarei. – As palavras ditas em meu ouvido, deveriam ter me acalmado, mas tiveram o efeito contrário, me senti ainda mais nervosa.
Impelida pelo meu nervosismo, me virei na cadeira ficando de frente para ele. Eu precisava soltar aquilo que estava preso dentro de mim, e precisava faze-lo olhando em seus olhos.
— Eu sei que fizemos planos. Mas... – enrolei um pouco tentando ignorar a garganta que se fechava, eu precisava dizer isto agora, antes que fosse tarde demais — E se eu não puder estar neles? E se eu passar os próximos dez, quinze, trinta anos presa? – nunca tínhamos ido tão longe. Ambos sabíamos que minha prisão era uma possibilidade, o qual estávamos sempre dando voltas para não ter que confrontar.
— Então nós mudamos os planos. – a resposta simples e brutalmente honesta me desarmou — Eu estarei com você, amor, mesmo que nos próximos dez, quinze, trinta anos haja uma parede física entre nós. Eu ainda estarei com você. Eu prometo.
Não havia nada mais inquebrável do que uma promessa de Oliver.
Eu poderia fazer isso com ele?
Prender sua vida a minha? Uma semivida? Força-lo a viver assim? Colocar sua vida, seus sonhos em pausa enquanto espera eternamente por mim? Depois de tudo o que passamos, era isso o que eu teria a oferecê-lo?
— Vale a pena. – apertou minha mão e respondeu como se tivesse escutado minhas dúvidas – Eu esperaria por você por toda a vida, amor. – sorri, apesar da tristeza que havia naquele possível futuro — Pode esperar por mim também?
— Sim. – a palavra fluiu da minha boca sem que eu sequer pensasse antes de falar, e então compreendi porque era tão fácil para Oliver abdicar de tanto e se conformar com tão pouco. Porque ele me amava e não iria desistir outra vez.
E era o mesmo para mim.
— Todos de pé. – Tanto Oliver quanto eu enrijecemos o corpo, suas mãos me apertaram ainda mais forte enquanto ele prendeu o ar — O júri chegou à um veredito. – Nyssa anunciou, ajeitando os óculos para ler o papel que um dos jurados lhe entregava — Felicity Megan Smoak, pelo crime de assassinato em primeiro grau de Joe Wilson o júri deste tribunal a considera... – houve uma pausa, e pelo olhar de Nyssa até mesmo ela parecia surpresa. — ...Culpada de todas as acusações.
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